Era possível ouvir apenas o som das gotas de agua chocarem-se no chão, seguidas pelos ecos das mesmas e de nossos passos, que, embora tentassem ser silenciosos, não era muito eficaz no local que estávamos.

–Ainda não entendo porque concordei em vir... – Resmunguei, enquanto pisava em uma poça de água.

Sim, era uma poça de água, mas não estava chovendo, ao menos, não onde estávamos. Havíamos encontrado uma passagem atrás da estante que estava no porão da antiga casa de Aghata, e no momento, encontrávamo-nos caminhando em uma espécie de túnel subterrâneo, que era o local para onde dava a passagem. As paredes eram todas feitas de tijolos, algo que provavelmente levara tempo para ser construído, devido à extensão daquele lugar, afinal, nós estava caminhando ali a tempo de mais... Já deveria ter amanhecido lá fora. O chão era rochoso, e era um local extremamente úmido e isso me fazia ponderar sobre a ideia de que estava chovendo, não havia uma explicação melhor. Era um local sufocante além de tudo, com muitas teias de aranha, era abandonado.

Não reclame Sora, você veio por que quis.

Não, eu vim por que Denzel insistiu e, eu não poderia deixar ele sozinho andando por aí.

Você não é obrigada, o Conselho pode até ter considerado ele uma ameaça, mas isso não significa que vocês tem que estar acorrentados o tempo inteiro.

Denzel também não me parece uma ameaça... Está bem longe de ser algo assim...

Olhei para frente, Denzel caminhava a alguns passos de distancia de mim, segurando o lampião que havíamos achado antes — e que por sorte, ainda estava prestando -, ele também estava com a mochila na qual havíamos guardado o baú de Aghata.

–Você ao menos tem ideia onde isso termina? – Falei apontando para a nossa frente, que, aliás, era uma completa penumbra. Não era possível ver o fim exato daquele local sufocante.

–Não, mas acho que está próximo...

–Como pode ter certeza?

–Não tenho. Apenas acho.

Anelei e continuei seguindo-o, enquanto sentia um pingo de agua cair em meu rosto e, por sorte, não enroscar-me em uma teia de aranha. Caminhamos em silencio por um tempo, apenas com o som de nossos passos ecoando naquele local, já estava começando a arrepender-me mais um pouco por ter aceitado seguir Denzel até aqui. Até por que, de fato, não era preciso e, ao mesmo tempo, sentia-me ridícula.

Contudo, minha atenção foi tomada ao ver o lampião que Denzel levava começar piscar, deixando-nos no escuro, fiquei ligeiramente abismada. Embora, logo ouvi o barulho de que, Denzel para aos poucos de caminhar, enquanto ele tossia ouvi sua respiração pesada, podia ver apenas a sombra de sua silhueta que largara o lampião no chão e escorara-se na parede úmida.

Acelerei meu passo e fui até ele, enquanto ainda podia ouvir o mesmo tossir seco. E aquilo preocupou-me, procurei com meus olhos a sombra do lampião que Denzel largara no chão, achei-o e quando o levantei na altura e meu rosto, o mesmo acendeu novamente, no exato momento em que eu dera de cara com Denzel. E, devido o brilho da luz refletida em seus olhos dourados, fizera com que eles brilhassem como se fossem o de um animal – como quando os gatos e cachorros fazem as vezes, só que de cor dourada – e, por um momento, aquilo me fez hesitar em aproximar-me mais.

–O que está acontecendo? – Perguntei ligeiramente ambígua enquanto locava o lampião no chão, vendo que Denzel não estava em uma boa condição.

Denzel tossiu seco, virando-se para outro lado de maneira brusca.

–Está tudo bem, não se preocupe. – Ele disse enquanto, por certo impulso, parecia querer não mostrar as mãos que levara a boca antes ao tossir. E aquilo me deixou intrigada, pois, imediatamente olhei para as mesmas, e, quase me afastei dele em um pulo. Mas me mantive parada a sua frente.

Denzel estava com as mãos sujas de sangue, e, ao que me pareceu ser, aquilo era o resultado de quanto tossira. Era preocupante, pois eu já o vira em situações como aquela antes nos últimos tempos, embora, me mantive calada até então.

Mas eu me mantive calada até agora.

Isso não significa que irei ficar em silencio novamente.

–Não... Denzel, não está tudo bem. — Disse séria e, pude ver que ele ficara ligeiramente inquieto, como se falar algo assim o deixasse irritado. – Suas mãos estão sujas de sangue, não adianta tentar esconder. – Olhei novamente para suas mãos, que ele ainda tentava manter longe de minha visão. Seu coração era o de um dragão, seu sangue bombeado era negro como se fosse o do animal.

–Isso, não é importante... Sora. – Ele disse sem esperar que eu falasse mais algo, virando o rosto para mim e olhando para outra direção.

Suspirei... Pousei minhas mãos sobre seus ombros. Denzel às vezes conseguia ser mais birrento do que eu.

–Você já morreu uma vez. Por sorte, Aghata conseguiu trazer você de volta. Denzel, você enganou a morte somente uma vez, não é algo que acontece todos os dias. E não quero que você morra novamente. – Fiz uma pausa, ele tentava não olhar nos meus olhos, e, agradecia mentalmente por não precisar encarar os seus. –Somente, irei lhe dizer que sei que essa não é primeira vez que algo assim acontece. Mas, se você acha que isso não é importante, não posso fazer nada. Contudo, estarei aqui se você precisar – falei, enquanto pegava o lampião que estava no chão seguia caminhando a sua frente. – Ande, não estou a fim de ficar mais tempo aqui, já estou começando a ficar com saudades da luz do sol...

Não esperei que Denzel me respondesse, apenas coloquei o capuz de minha capa e caminhei em linha reta, logo pude o ouvir começar a seguir-me em passos lentos e afastados.

E de fato, ainda que eu tentasse não parecer tão preocupada ao falar com ele, eu estava em demasia. Denzel havia morrido uma vez, e de certa forma, eu sentira culpa, embora, o fato de Aghata ter o trazido de volta, já aliviava o peso que tinha nas costas. Mas, se ele morresse por um motivo estupido e eu não pudesse fazer nada, iria sentir-me definitivamente culpada e ainda pior.

Pelos deuses, por que será, ainda me pergunto se deveria ou não ter aceitado o bendito trabalho de procurar os elementos? Se eu tivesse recusado, não estaria com esses pensamentos em minha cabeça agora... Sim, de certa forma, sou uma pessoa ligeiramente arrogante. O que ao mesmo tempo, é bom e ruim.

Continuei caminhando, em silencio enquanto Denzel me seguia, e, logo pude ver que finalmente chegara ao tão esperado final. Bem, talvez não fosse necessariamente isso, apenas que, a minha frente, havia uma parede. O que indicava o fim do túnel, porém, nela havia uma escada de metal, que, mostrava que, nossa possível saída estava em uma abertura no teto feita de pedra.

Aliás, ainda havia começado a ouvir o barulho de chuva na rua, o que indicava, que estávamos realmente próximos da saída.

Larguei o lampião no chão e o analisei por um momento a abertura no teto. Era de forma quadrada e, bastaria apenas empurra-la para abrir. E foi o que fiz, apenas forcei-a para cima, por sorte não estava tão mais alto do que eu, então, fora fácil. Empurrei-a e, no momento que fiz isso, senti pingos de agua caírem com força em meu rosto, enquanto, sentia meus olhos arderem devido a súbita entrada de luz. Coloquei meus braços sobre meus olhos instintivamente, em uma tentativa de bloquear a luz que embora fraca, eu não estava a esperando.

E estava definitivamente chovendo, eu não errara ao pensar aquilo.

–Droga! – Afastei-me, quase derrubando a pedra que servia para manter a nossa saída fechada.

–O que foi? – Denzel perguntou, eu ver-me reclamando.

–Acho que você viu que encontramos a saída, e que, também está chovendo lá fora. – Falei enquanto dava meia volta, já preparando-me para voltar, afinal, não estava a fim de, provavelmente, ir para um lugar no qual nem mesmo fazia ideia onde localizava-se. Acho que, estávamos perdidos, de certa forma.

–Onde está indo?

–Estou voltando.

–Mas nem mesmo quer saber qual o fim desse local? – Perguntou-me enquanto olhava para a agua da chuva que entrava pela pequena abertura no teto e que aos poucos cessava. Denzel havia mudado completamente de humor, comparado a alguns segundos antes onde ele ficara ligeiramente irritado por eu ter o questionado.

Mas ponderei antes de dizer algo.

–Não. – Disse simplesmente. – Sabe... Desde que conheci você, eu duvidei sobre o seu estado mental. – Caçoei.

–Por que? – Falou, enquanto podia ver a chuva cessar – finalmente -, quase que instantaneamente.

Quase bati em minha própria testa por aquilo, se tivesse mais perto dele, com toda a certeza bateria na dele. Não, as vezes eu tinha era vontade de soca-lo.

–Faça o que quiser Denzel... – Resmunguei com a voz arrastada e rouca, mas não respondi sua pergunta.

E ele não disse nada. Apenas, empurrou o parte da pedra que tampava a passagem e, começou a subir as escadas de ferro, por sorte a chuva deveria ter sido apenas uma pancada rápida. E não demorou muito para que ele sumisse de meu campo de visão, enquanto subia as espadas de ferro.

–Ei! Você tem que ver isso! – Ouvi Denzel gritar e o barulho de seus passos caminhando sobre a grama, já fora do túnel subterrâneo que estava antes.

Você não precisa ir atrás dele. Pode voltar se quiser.

Eu sei disso, Arcano.

Suspirei desistente e comecei a subir a escada de ferro, estava amaldiçoando-me mentalmente por ter cedido o que ele queria. Logo, já pude ver o céu nublado tomar conta de minha visão, enquanto colocava a mão sobre a grama úmida, para poder sair por completo de dentro do túnel. Apoiei meus braços sobre parte da terra e fiquei de pé, já correndo meus olhos ao redor a procura de Denzel.

Mas o maldito não estava ali...

Não poderia ter evaporado.

Ah, ele iria ver quando eu o encontrasse...

–Denzel! – Gritei em meio a clareira, mas não obtive respostas.

Bufei e sai caminhando. Podia escurar o barulho de agua corrente, o que significa, que deveríamos estar próximos de algum riacho. Pus o capuz que havia caído de minha capa e, em passos cautelosos adentrei as arvores, deixando a clareira para trás. Sim, eu iria encontrar Denzel, e ele devia-me explicações por ter sumido de meu campo de visão.

Mas o fato é que, Aghata por algum motivo tinha uma passagem secreta no porão de sua casa, que, ainda deveria ser um parte escondida. Sem contar, que ela ainda criara um ser humano artificial, que, a ideia por si só parecia-me loucura. Entretanto, após ver aquele ser em Moon, deixara-me com certas duvidas que iria ter de esclarecer com ela. Sem contar, que ainda havia aquele baú que ela fizera questão de pedir para que encontrássemos, mas não dissera o motivo. Céus, tinha como alguém ser mais complicado do que ela? Bem, talvez eu também fosse, todas as pessoas são.

Atolei minhas botas até a caneca na terra úmida, imediatamente puxei-as enquanto arrancava algumas raízes que haviam se agarrado em meus pés.

–Merda. – Xinguei enquanto escurava o barulho de agua corrente ficar mais próximo.

Respirei fundo, sentindo o cheiro de relva e terra úmida entrar em minhas narinas, era até uma sensação boa. Se não fosse, pelo fato de que Denzel havia sumido.

Ele não deve estar tão longe.

Espero que sim Arcano, espero que sim.

Continuei caminhando, enquanto ouvia o som de agua ficar mais próximo e alto, entrei em uma trilha de terra, ela não estendia-se muito, mas o som estava próximo e algo me dizia que eu deveria ver o que era. Afastei alguns galhos de árvore que tampavam minha visão e os quebrei, jogando-os no chão e podendo ter a vista do fim da trilha.

Era uma cachoeira.

Estávamos perto de uma cachoeira. Pelo menos ,eu estava.

Por algum motivo, tinha a ligeira impressão de que conhecia aquele local, pois se não me engano, havia uma não muito longe de Temesia. Mas o fato é que, esses tipos de lugar dão uma sensação de nostalgia, como se você já conhecesse a muito tempo. Aproximei-me do barranco que havia a minha frente, com cuidado para não resvalar, enquanto ainda podia sentir agua respingar em mim, devido a força que ela choca-se vinda da cachoeira. Era um lugar bonito até, ainda mais, por ter chovido a pouco tempo, o cheiro de plantas e terra úmida era ainda mais forte.

Silenciei-me por um instante, poderia esperar Denzel aqui.

Ajeitei minha capa e sentei na grama úmida com os joelhos dobrados, sim eu iria definitivamente espera-lo aqui. Depois voltaríamos novamente para onde havíamos começado essa ideia louca.

Não acho que seja uma boa ideia, Sora.

O que? Ficar aqui?

Sim...

Mas por que?

Existem feras.

Se aparecer alguma, darei um jeito.

Suspirei e olhei para o céu, estava ligeiramente nublado, era um sinal de que iria chover mais. E não era por mais e nem menos, afinal, na região de Temesia, tínhamos um ano de inverno com neve e o outro, muita chuva. Ano passado havia neve, esse, teria chuva.

Preparei-me novamente para chamar Denzel, enquanto colocava minhas mãos ao redor de minha boca para gritar:

–Denzel! – Minha voz ecoou ao redor, mas não obtive nenhuma resposta dele, novamente.

Mas não ouve nenhuma reposta dele.

O que significa que eu recebera sim uma.

Fiquei em silencio e tentei concentrar-me ao redor, ou eu estaca enlouquecendo de vez ou estava ouvindo coisas. Mas eu não estava louca – ainda não — , novamente tentei concentrar-me mais, e o que ouvi, de certa forma, deixara ligeiramente abismada.

Era o choro de uma criança, e não parecia muito distante.

Instintivamente levantei, ignorando totalmente o fato de que eu deveria esperar Denzel, e segui caminhando em direção de onde vinha o choro incessável. Caminhei em silencio, aos poucos aproximando-me das árvores e deixando a cachoeira para trás, por algum motivo, aquilo havia despertando-me curiosidade. Era como se eu precisasse saber o que realmente acontecia.

Caminhei por um tempo, ainda com o mesmo barulho fino ecoando ao redor, novamente atolei minhas botas na terra e enganchei-me em alguns galhos. Deveria seguir reto, em frente, pois, conforme eu avançava, podia ouvir melhor. E nem estava não distante assim, logo encontrei o fim da trilha. Era um parte, na qual, as arvores cresciam um pouco mais afastadas umas das outras. No entanto, aquilo pouco chamara a minha atenção, o que realmente despertara isso, fora a silhueta encolhida em frente a uma arvore, de costas para mim.

Era um criança, sem dúvidas, abraçava os joelhos e o rosto estava afundado nos mesmos, suas roupas eram simples e largas. Deveria ser uma criança perdida, era a única explicação mais plausível. Aproximei-me cautelosamente, enquanto o mesmo parava de chorar, deveria ser um garoto, ao julgar pelos cabelos curtos e negros. Sua pele era bastante pálida, podia ver isso de longe.

E ele parou instantaneamente de chorar, no momento em que eu me aproximei. Logo, também parei instintivamente de caminhar, enquanto aquele silencio perturbador se fazia presente.

Naquele momento, pareceu que até as árvores haviam se silenciado.

E, após muito tempo sem sentir aquilo, eu estava assustada. Embora, não sabia o motivo.

Mas não durou muito, pois ele começou a cantarolar ao que me parecei, uma canção de ninar.

–Pássaro, pássaro negro, para onde irá voar? ...Nesse lugar vou poder estar? ...Monstro, grande monstro azul... Seus olhos negros me dão medo... Por favor, não deixe ele me ferir... Eu almejava apenas fugir.... – Aquelas palavras infantis me fizeram gelar, era uma legitima canção de ninar fúnebre e ao mesmo tempo, inocente. Contudo, ele parou de cantar quando aproximei-me novamente.

Hesitei por um instante, iria tocar em seu ombro, chama-lo, talvez estivesse realmente precisando de ajuda. Mas ao mesmo tempo, tinha uma estranha sensação de que eu deveria correr, deixa-lo para trás. Embora, acho que meu lado severo não iria querer deixar uma criança a mingua de um local desconhecido.

–Você está-

Não pude terminar a frase, pois com uma estranha velocidade o garoto virou-se e segurou com força meu pulso direito e com uma estranha força que ele colocara, senti meu braço doer como se estivesse sendo quebrado. Mas aquilo não era nada, pois o garoto levantou o olhar para encarar-me, o que me fizera sentir uma sensação pior ainda.

Ele tinha olhos completamente negros.

Tomados por algo vazio e ao mesmo tempo, demoníaco.

Tentei puxar meu braço de volta, mas tinha a sensação de que algo sugava completamente minhas forças, como se minhas forças vitais fossem absorvidas, eu não conseguia sair dali e mantinha-me obrigada a olhar os no fundo daqueles olhos demoníacos. Gritei em minha mente por Arcano, mas não obtive resposta, parecia que algo desprendia-se de minha alma. Tentei falar em voz alta, mas nada saiu de minha boa, nem ao menos isso eu conseguira fazer.

Ainda com aquela sensação terrível, pude perceber que a pele pálida do garoto aos poucos começara a mudar de cor, ficando de um tom azulado e era possível ver as veias sob a pele. Suas mãos começaram a tornarem-se garras, com as unhas encardidas de um tom de preto, cada vez, segurando com mais força meu braço e impedindo-me de tentar me mexer.

E aquilo apavorou-me ainda mais. Nunca, em toda a minha vida sentira algo assim, nunca fui uma pessoa que sentiria medo por qualquer coisa, na maioria das vezes, nem ao menos me importava. E agora, estava em uma situação assustadora em que uma criança-demônio segurava meu braço com garras quase que atravessando o tecido de meu casaco.

Mas eu precisava fazer algo.

Não poderia gritar, pois parecia que algo havia engolido minha língua, mas tinha de tentar. Com certa dificuldade, minha primeira tentativa foi de puxar meu braço, mas não fora eficaz e ele permaneceu sendo preso entre as garras daquele ser. Fechei meus olhos por um instante, o que era aquilo afinal? Não passava de uma criança, com no máximo uns oito anos de idade, era a metade de meu tamanho. Abri meus olhos e puxei com mais força meu braço, logo, instintivamente afastei-me e comecei a correr.

Tentei materializar minha espada, mas apenas uma aura fraca exalou de minhas mãos e não aconteceu nada. Aquela coisa ainda havia impedindo-me de usar os poderes de Arcano. Olhei para trás por um instante, enquanto ainda continuava correndo entre as arvores, e, era seguida. Sim, era seguida por o que até pouco tempo ainda aparentava ser um ser humano, mas, que agora, corria como se fosse um animal usando as quatro patas e com os olhos de demônio. A pele azulada e as garras que agora estavam em seus pés.

Então, continuei correndo, com toda a certeza já deveria estar perdida. Mas depois daria um jeito. Acelerei meu passo, enquanto sentia aos poucos, começar a ficar ofegante e ainda, tinha de atolar meus pés na maldita terra úmida. Tentei materializar uma lâmina de gelo, mas não consegui. Não tinha nem ao menos contado com Arcano.

Havia algo errado.

Muito errado.

Permaneci correndo, entre os galhos das arvores batendo em meus pés e com cuidado para não tropicar em alguma raiz. Apertei meus olhos, ao que me parecia, estava perto do fim da floresta, podia ver um campo aberto depois das arvores. Ponderei, se continuasse correndo em linha reta, aquele seria meu destino e, talvez, facilitasse minha vida.

Olhei para trás, o “demoniozinho” continuava atrás de mim, e, estava ainda mais próximo. Bufei, e continuei correndo. Olhei para frente, estava próxima do fim da trilha, contudo, antes que eu finalmente pudesse me ver livre daquelas arvores sufocantes, que me pareciam não ter fim. Mas o fato é que, no momento, eu queria poder gritar, respirar direito, mas parecia que era impossível, era uma sensação muito ruim, não sabia explicar direito, apenas, não era nada reconfortante. Não havia nenhum ponto menos negativo.

Senti um baque forte, vindo de outra direção, de um vulto que não pude identificar o que era. Apenas, que nos chocamos e caímos, rolamos e pude ter a impressão de que havíamos saído de dentre as arvores. Mas o estranho, é que não tinha a sensação de que fora para me atacar, e, muito menos, não era ser que estava correndo atrás de mim. Paramos de rolar provavelmente a uma boa distancia das arvores, senti que meu corpo finalmente parar, com minha capa enrolada em mim e quem havia esbarrado.

Estava de olhos fechados, minha respiração era pesada devido o quanto havia corrido, junto, de um ligeiro desespero por causa daquela criança – se é que posso chamar de criança. Mas também, sentia meu corpo soando frio, sob o de alguém que estava quente. Hesitei por um instante, era um sensação boa até, mas mesmo assim, abri meus olhos. E só assim fui voltar a mim... Praticamente pulei, porém, meu corpo estava dolorido então apenas sentei na terra empurrando Denzel. Sim, fora ele que esbarrara em mim. E eu ainda teria de saber o motivo.

E o ar faltou.

Não estava conseguindo respirar direito, meus pulmões doíam, e parecia que não sabia mais como respirar. Não poderia responder o exato porque, talvez por ter corrido de mais... Mas eu já correta bem mais do que aquilo e não havia passado por lago assim antes. Tentei puxar com força o ar, mas não consegui, continuava sendo sufocada por algo invisível. Olhei para frente por um instante, ainda podendo ver o demoniozinho nos olhando dentre as arvores, porém, permanecia imóvel.

–O que está acontecendo? – Denzel aproximou-se, nossos papeis estavam invertidos, agora era ele quem segurava meus ombros e tentava me fazer encara-lo.

Tentei ignorar o fato de que estávamos sendo observados, e olhei para Denzel, mas minha palavras pareciam não querer sair. Entreabri minha boca para falar algo, mas não consegui. Era horrível. Completamente horrível, enquanto eu sentia-me uma estupida por não conseguir fazer nada. Continuei olhando para Denzel, no momento, seus olhos de dragão que tanto me perturbavam, pareciam à coisa mais aconchegante que poderia existir.

E então, o ar finalmente voltou.

E meus pulmões doeram mais ainda, comecei a respirar descompassadamente e com certo desespero, ainda era de certa força sufocante.

–Sora? – Ele falou, enquanto levava suas mãos ao redor de meu rosto, obrigando-me novamente a olha-lo, pois ainda mantinha meu olhar fixo no do garoto-demônio que nos observava. – Fale algo! Sora? – Chamou-me preocupado novamente, mas, no momento, parecia que ainda havia perdido minha fala.

Tentei levantar e, Denzel, entendendo o que eu iria fazer, ajudou-me a ficar de pé, passando meu braço esquerdo sobre seu ombro. Estava em choque, mas não conseguia entender o motivo daquilo, não era nada de mais, afinal, não era? Tentando retirar tais pensamentos de minha mente, olhei ao redor, estávamos em um campo aberto, a mochila que Denzel levava antes estava caída perto de nós, provavelmente por causa do baque que havíamos levado. Mas aquilo, pouco chamou minha atenção.

Ao menos, não havia nenhum sinal do demoniozinho.

Apenas, era possível ver muralhas ao longe, que me pareciam muito conhecidas...

Era Temesia?

Notas finais
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