A Devoradora de Ecos e o Sol de Espelhos

1 PRÓLOGO — “A Devoradora de Ecos e o Sol de Espelhos”




Diz a lenda que em uma dobra esquecida do universo, há muito, muito tempo atrás, onde o mundo ainda era tecido por sentimentos que nunca foram ditos, nasceram dois seres destinados a se encontrar, se desejar e se destruir.


A primeira era a Mnemófila, também chamada de Devoradora de Ecos. Surgiu do suspiro de uma deusa que amou demais e nunca foi ouvida. Seu corpo era feito de neblina costurada com memórias, e seus olhos guardavam cenas que nunca aconteceram, mas que doíam como se fossem reais. Caminhava pelo jardim que herdou da deusa mãe, onde árvores murmuravam nomes apagados, e colhia sussurros como quem colhe flores murchas.


Diziam que, dentro dela, vivia uma larva dourada, o amor que ela criou sozinha, alimentado por cada gesto gentil, cada ausência doída, cada silêncio que ela interpretava como promessa.


O segundo era o Narcisóforo, o Sol de Espelhos. Filho bastardo do deus da honra e da vaidade, forjado nas fornalhas do reconhecimento e lapidado com coragem. Sua pele era feita de milhares de espelhos curvos, que refletiam os outros, mas sempre distorcidos. Era belo e quente, mas seu calor não aquecia, apenas atraía.


Dentro de si carregava uma ampulheta ao contrário: o tempo só lhe importava enquanto lhe era útil. Tudo o que via, desejava. Tudo o que tinha, esquecia. E tudo o que esquecia, evaporava.


Quando os caminhos desses dois seres se cruzaram, o mundo silenciou. A Mnemófila, pela primeira vez, acreditou ter encontrado o reflexo certo. E o Narcisóforo… ele gostou do modo como ela o via: como se ele fosse mais do que era.


Durante eras, eles caminharam juntos, ela à sombra dele, ele sob o brilho dela. Ela oferecia pedaços da própria névoa para que ele brilhasse mais. Ele aceitava sem saber o preço.


Mas o tempo é cruel com aqueles que sentem muito.


O Narcisóforo cresceu. Tornou-se mais radiante, mais admirado, mais inalcançável. E quando se viu cercado por olhos que o viam como ele queria ser visto, esqueceu a Devoradora.


Já ela, consumida por memórias e suposições, adoeceu. Sua neblina escureceu. O amor que abrigava dentro de si começou a apodrecer, ainda vivo, mas pútrido.


Ela gritava sem som. Ele desfilava sorrindo sem culpa.


Dizem que recentemente a viram vagueando entre os mundos, falando com fantasmas que só ela pode ver. Dizem que ele ascendeu aos céus de vidro, onde estabeleceu seu reino e que, às vezes, nas noites mais silenciosas, encara seu reflexo e por um segundo… hesita.


Mas só por um segundo.

Porque o Sol de Espelhos nunca para. E a Devoradora de Ecos… não sabe mais como ser outra coisa.