O que muitos não sabem é que nem sempre a Devoradora de Ecos foi Mnemófila, assim como o Sol de Espelhos não nasceu como Narcisóforo. Esses dois seres se tornaram lenda apenas após um longo e turbulento processo de metamorfoses.


A Mnemófila teve um nome, um nome que há muito não é dito, esquecido até pelos ventos. A deusa que a gerou, era Floris, a deusa guardiã do Jardim das Memórias, do Reino das Lembranças. Não por vontade própria, mas por castigo e responsabilização divina. Como o Reino das Lembranças estava abandonado, pois seu antigo responsável havia partido, precisavam de alguém para ocupar o lugar. Floris havia se apaixonado por um humano, e esse amor fora considerado um erro pelos deuses.


Floris era conhecida por sua delicadeza e seu apreço pelo belo. Era a patrona das artes, da poesia e da inspiração. Artistas de todos os mundos vinham a ela em busca de auxilio. Quando a criatividade lhes faltava, quando se viam diante de um bloqueio, era Floris quem devolvia a centelha perdida. Quando careciam de recursos financeiros, era Floris quem inspirava mecenas e os destinava aqueles artistas.


Certa vez, um humano após percorrer o longo trajeto cheio de desafios, chegou ao salão nobre do palácio dos deuses. Era um compositor desesperado, incapaz de criar, exausto da própria genialidade. Ele já havia composto as melodias mais sublimes que o universo conhecera, mas agora via sua inspiração morta. Acreditava que já havia esgotado sua fonte de conhecimento, de inspiração, de arte. Pensou que não poderia criar mais nada, que já havia criado todas as mais belas músicas do universo. Mas isso não era possível, já que a criatividade deveria ser um recurso infinito. Então, o problema claramente era ele. Tinha que ser. E ele tentara de tudo na terra para resolver seu problema, tentou meditação, pausa prolongada, foi a médicos da mente, do corpo, tentou medicamentos, terapias alternativas, absolutamente nada resolvia. Ao conversar com outros colegas do meio artistico, ouviu falar sobre Floris e sobre seu auxílio. Como seu último recurso, saiu em busca de encontrar-la, não se importando com o quão dificil era chegar ao palácio dos deuses.


Ele não tinha mais esperanças, após passar por tantas provações no caminho, ao chegar a porta dourada do salão festivo dos deuses, pensou que havia perdido seu tempo e que seria mais uma tentativa frustada e falha, como fora todas as outras na terra. Ao encontrar Floris, contudo, algo se reacendeu.


Ela, feita de luz suave e voz de névoa, fascinou o músico. E ele, com olhos famintos por beleza e alma dedicada à arte, encantou a deusa. Floris escutou o humano com atenção, com seus olhos fixos nele, viu toda sua vida. Suas incontáveis horas dedicadas a composição, seus dedos asperos do violão, a tendinite desenvolvida em seus punhos, devido horas à fio no piano, a postura inclinada, de quem passou a vida tocando violoncelo até encontrar a nota perfeita. Floris se viu em extase com toda a paixão que havia naquele homem em relação à sua arte, não havia uma hora do seu dia que não fosse em prol da arte, seja em atos ou pensamentos. Ele era um devoto.


E executava sua arte com tanta desenvoltura, com tanta beleza, que Floris viu-se apaixonada. Ele voltou a compor, usando-a como musa e motor de cada nota. Fazia o longo e penoso trajeto até o palácio dos deuses só para vê-la. As novas músicas que surgiam eram ainda mais perfeitas, quase divinas. Ele havia alcançado um grau de excelência que nunca havia imaginado ser possível. E os dias ao lado da bela deusa, acolhedora, suave, mesmo quando não lhe rendiam uma melodia, quando apenas conversavam sobre aleatoridades, esses dias, eram como ter acesso a uma parte do paraíso.


Os deuses, inicialmente satisfeitos com o retorno das melodias sublimes, começaram a se incomodar. A inveja, irmã silenciosa da admiração, floresceu em seus corações. Desejavam que o compositor cantasse louvores a eles, não apenas à deusa que o inspirava. E assim, começaram a conspirar.


Floris, atenta como sempre fora, percebeu os olhos gananciosos ao seu redor. Sabia que os deuses planejavam aprisionar o humano para tê-lo eternamente compondo para eles. Os deuses não o viam como um ser, que merecia respeito e tinha dignidade. Os deuses constantemente viam os humanos como coisas a serem usadas para seu bel-prazer. Temia por ele, frágil em comparação aquele universo que ele conhecia tão pouco. Sabia que, para protegê-lo, teria que partir seu próprio coração em algum momento.


Numa manhã enevoada, seu amado humano veio vê-la novamente. Sentaram-se em um balanço de hera dourada, na varanda celestial. Com olhos marejados, ele lhe confessou seu amor. Disse que desejava casar-se com ela, viver ao seu lado. Que seu amor não era apenas por conta dela ter salvado sua arte, mas sim, porque estar ao lado dela era como o paraíso. Ele não era de todo ignorante, disse saber que haveriam alguns desafios, mas que se ele era capaz de fazer o tortuoso caminho da terra até o palácio dos deuses, apenas para vê-la, era capaz de enfrentar o que fosse para estar ao seu lado.


O coração de Floris estilhaçou-se em silêncio. Sabia que os deuses jamais permitiriam tal união. Seria rebaixar a ordem divina, quebrar a hierarquia sagrada. Com um sorriso disfarçado e um riso suave, rejeitou-o, sangrando por dentro.


Aquela foi a última vez que o viu.


O humano partiu, ferido, e compôs as mais tristes canções que o universo já ouviu. Pouco tempo depois, encontrou o amor entre os seus, casou-se com uma mulher humana e abandonou a carreira musical. Passou a se dedicar à construção de sua família, ao amor terreno. Não fazia mais sentido dedicar-se excessivamente para instrumentos, notas e letras, quando sua família precisava de sua presença e ele os amava com todo o coração.


Os deuses ficaram furiosos. Floris havia desperdiçado a chance perfeita de prender o “passarinho cantor” em sua gaiola dourada. Eles não podiam puni-la por ter rejeitado o humano, afinal, uma deusa jamais poderia rebaixar-se a uma união estável com um humano. No entanto, quando o humano deixou de fazer sua arte, o universo todo sofreu essa perda. E os deuses acreditavam que Floris deveria ter interferido, ter procurado o humano e o lubridiado com promessas e flerte, ter destruído sua felicidade terrena e impedido a construção de sua família, para que ele pudesse dedicar-se apenas a sua arte, com a ilusão de que algum dia a teria. Floris jamais faria tanto mal para alguém que amava profundamente e que estava feliz em sua própria vida.


Como punição, ordenaram que ela assumisse o Reino das Lembranças, a exilaram no Jardim das Memórias, onde viveria enclausurada como guardiã, sem nunca mais poder se ausentar por muito tempo. Aquele era agora seu novo lar.


Foi ali, entre as pétalas do que foi, com o coração partido, que Floris gerou a Mnemófila. Com o suspiro do amor não dito, nasceu Memsis, para as criaturas mais íntimas, do Jardim.


A criança era feita de névoa entrelaçada com lembranças. Era sensível demais para o mundo dos vivos, e forte demais para dissolver-se como um sonho. Floris sabia que seu tempo estava se esgotando, a tristeza já sugava sua essência. Tudo lhe parecia sem cor. Os artistas que a buscavam já não eram salvos por ela. Sua luz havia se apagado.


Nos braços de Floris, a pequena criatura, de olhos escuros e alma antiga, recebeu um nome secreto: Julie.


Durante anos, Floris ensinou tudo o que sabia à filha, sobre o Reino das Lembranças, os caminhos da memória, os perigos do tempo e as fraquezas do coração. Passou-lhe sua magia como quem rega uma flor rara. E, quando tudo que havia para ser ensinado foi entregue, Floris dissolveu-se em pólen dourado, transformando-se na essência das flores que brotavam no jardim.


Foi assim que Julie se tornou Mnemófila, guardiã do Reino das Lembranças, filha do amor que nunca pôde ser.


Julie ainda não era a Devoradora de Ecos.


Era apenas a Mnemófila, guardiã de memórias alheias, filha de um amor sufocado, nascida do último suspiro de uma deusa.


Ainda cantava com o coração inteiro, ainda caminhava sem carregar os estilhaços dos outros.


Mas o tempo, como sempre, tinha fome.


E em breve, começaria a devorá-la também.