A Devoradora de Ecos e o Sol de Espelhos
3 O Filho da Honra e da Vaidade
Poucos ousam recordar que antes de ser chamado Narcisóforo, o Sol de Espelhos teve outro nome, e um semblante mais comum, quase humano. Poucos lembram que ele nasceu do contraste mais perigoso do panteão: Honóris, o deus da Honra, e Vaida, a Filha do Desejo, tecida das vontades mais profundas de quem ansiava ser belo. Não era deusa, era criação do querer, uma criatura nascida do desejo coletivo por perfeição.
Ele foi o fruto não de amor, mas de desejo. Vaida, bela como o reflexo que enfeitiça e esvazia, encantou Honóris numa noite de eclipse, quando os valores dos deuses estavam mais turvos.
Dessa união breve nasceu Jacelion, que os outros chamariam apenas de Jack, nome que evidenciava normalidade.
Apesar do escândalo entre os deuses, Honóris não abandonou o filho. Levou-o para viver no Vale da Honestidade, um lugar de colinas douradas, rios límpidos e ensinamentos sólidos. Lá, tudo era claro, justo, estruturado, brilhante, até mesmo as emoções.
A esposa de Honóris, deusa da Lealdade, acolheu Jack como se fosse seu, sem pesar ou veneno no olhar. Ela o ensinou a falar com clareza, com formalidade, a manter os pés firmes, a distinguir verdade de aparência.
Jack teve tudo o que o mundo poderia oferecer a um jovem semideus: educação divina nas línguas dos antigos e nos segredos do tempo, tesouros de sabedoria e artefatos raros, presenteados por Honóris a cada ciclo estelar, livre acesso ao Salão dos Deuses, onde o destino dos mundos era debatido e onde as melhores festas aconteciam.
Mas nenhuma dessas dádivas era suficiente para calar as vozes zombeteiras.
“Filho do erro”, murmuravam, ao seu redor, quando ia estudar em conjunto com os filhos dos deuses.
“A vaidade espreita no seu sangue”, riam os filhos legítimos de Honóris, seus irmãos.
“Nada em ti brilha como deveria, és tão comum como um humano”
Jack ouvia tudo. Engolia tudo. E sorria, um sorriso treinado, que não mostrava dentes nem raiva.
Mesmo com o peito cheio de honra, ele não conseguia escapar da sombra de sua aparência ordinária. Sua pele era sem brilho, seus olhos sem lume, e seus traços, por mais que buscassem nobreza, diziam “humano” demais.
Pior que a zombaria era o silêncio. O olhar que não o via. O lugar à mesa que sempre sobrava, ainda que estivesse ocupado. Os deuseus o ignoravam na maior parte do tempo, as ninfas nunca lhe dirigiam um olhar e ele se questionava se havia algum jeito de ficar atraente, não se ele era atraente, porque isso ele tinha convicção de não ser.
Ele aprendeu desde cedo que não basta ser bom, é preciso parecer grandioso. E nisso, ele sempre parecia falhar.
Por mais que seu pai dissesse:
“A beleza do mundo é frágil. Mas a honra, essa resiste ao tempo.”
Jack não conseguia acreditar por inteiro. Pois quando caminhava entre os deuses, sua presença nunca era celebrada.
E havia algo mais:
Por mais que renegasse sua origem materna, sentia Vaida em seu espelho interior.
Na ponta dos dedos, o desejo de ser visto.
Nos olhos, a fome de admiração.
Na voz, a sede por reconhecimento.
Um dia, no meio de um banquete celestial, algo quebrou.
Enquanto os semideuses celebravam a ascensão de outro jovem deus, um deus belo, altivo, jovem e brilhante, Jack tentou fazer um brinde. Afinal, ele queria desesperadamente fazer parte daquela classe nobre, que possuiabeleza e riqueza.
Sua taça tremeu.
Sua voz falhou.
E os risos começaram.
Não por maldade declarada, mas por descaso.
Por aquele desprezo tão elegante que fere sem parecer violência.
Quando voltou para o Vale da Honestidade, ele não falou com ninguém.
Passou a noite diante do espelho de prata que Honóris lhe dera quando criança. Pela primeira vez, não viu seu reflexo.
Viu um buraco.
Uma ausência.
Um lugar onde ele deveria existir, mas ainda não era.
Na madrugada seguinte, Jack partiu.
Deixou para trás os campos dourados, os ensinamentos, os sorrisos da madrasta, os presentes do pai.
Partiu sem ódio, mas com uma fome flamejante. Era a ambição, movida pela vaidade.
“Preciso me encontrar longe dos olhos que me conhecem”, disse, para ninguém.
E então vagou.
Pelo cosmos, pelos reinos do universo, pelas bordas do tempo.
À procura de algo que preenchesse o espelho.
À procura de uma imagem que todos quisessem ver.
Ainda não era o Sol de Espelhos.
Ainda não brilhava.
Mas já doía como se estivesse se despedaçando por dentro.
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