A Destinada
1 Prólogo - A Herança
Notas iniciais
“Eu paro por quase todos os momentos e fico imaginando: Como num momento podemos ser algo e em outro pessoas totalmente diferentes? Acontecimentos. Eles nos levam as mais inusitadas situações, talvez se algo não tivesse acontecido no passado você não estaria aqui, ou ao menos eu. E na maioria das vezes, esses acontecimentos são levados a nossas escolhas. É exatamente isso que envolve minha mente no momento, segurando aquele envelope que me tirou tudo.”
— Kristen Hallen
13 de Novembro 2000
Passo a mão sob a saia amarrotada e coloco o envelope em meu bolso, o sorriso cativante toma conta de meu semblante – aquele sorriso que eu escondia há dias. Eu já havia lido aquele envelope milhares de vezes, e por mais que me parecesse errado, eu precisava saber o que haviam de me entregar. Por todo o corredor percorri cabisbaixa sem nenhum sorriso, mas não resisto o olhar de minha mãe que por mais que esteja com um sorriso estonteante no rosto, não consegue me enganar que passou noites em claro preocupada comigo. Quando finalmente chegamos ao cartório, o tempo insistia em não passar. Aquela porta fechada e sem nenhum sinal de alegria no local, não costumamos ter pessoas muito jovens por aqui, a população envelheceu e foi morrendo aos poucos, e por fim, só sobraram as famílias que vinham conferir se haviam heranças. Uma porta finalmente se abre, o homem folheia por papeis e por seguida percorre o olhar em cada rosto procurando alguém que pareça ter aquele nome. Quando finalmente para no meu – por mais que eu ache que não tenha muito aparência de Kristen.
Caminhamos até a sala, provavelmente era o homem que cuidava dessas coisas. Havia uma estante enorme perto da janela com varias caixas de papelão com diferentes nomes. Nos sentamos de frente a ele que leu melhor meus documentos não demonstrando nenhum sentimento – como a maioria das pessoas — , levei em consideração que ele já deve ter visto casos piores que o meu. Ele repentinamente se levanta e caminha ao redor da estante, e finalmente tira uma caixa. Por mais que tivesse várias caixas no local, aquela parecia a mais velha. Com o nome Kristen Hallen. Ele coloca a caixa na mesa e tira com cuidado o que há dentro, ao contrário do que eu me lembre sobre heranças, ele não leu nenhum testamento ou algo do tipo. Somente tirou de dentro da caixa, outra pequena, passou até minhas mãos e por fim, se pronunciou:
- Somente – ele suspirou se aconchegando na cadeira – Kristen Hallen, foi essa caixa que Darcy Watson deixou-lhe.
Eu sentia meus músculos do rosto se retorcerem de ódio descontrolados, uma caixa? Pensei. Joguei o olhar em direção ao da minha mãe que por um segundo se encontrou com o meu, parecia tão surpresa quanto eu. Ela desceu o olhar novamente para a caixa, ela sabia que eu estava decepcionada e eu sabia que esse era o medo dela, que eu esperasse demais de quem não tem o que mais de me oferecer. Ela desliza a mão em meu joelho, eu sinto sua mão trêmula e mesmo assim aquele sorriso está no mesmo lugar.
- O que quer dizer com isso, foi somente isso que Darcy deixou para minha filha?
Ele soltou um ar irônico acompanhado de uma pequena tosse e então se debruçou sob a mesa e começou aquele discurso que eu não aguento mais ouvir das pessoas: Compreenda que Darcy não a deixou porque quis, ela morreu. Não deve mentir para você mesma que Kristen é sua filha, porque é mentira. São insuportáveis, porque por mais que durem somente segundos, para mim é como se acumulasse a dor da eternidade. Eu agarro a caixa e me levanto, como ação de assunto encerrado, aliás ficar nesse lugar discutindo o que devemos fazer não mudará o fato de que foi o que minha mãe deixou, e por mais que pareça desprezível, deveria ser a melhor coisa que ela tinha.
- Cala a boca – eu falo, eles param de falar no mesmo momento e olham para mim ainda incrédulos do que eu havia dito. – Vocês sabem... isso é problema meu.
Minha mãe se levanta e caminha em minha direção em seguida apoiando o braço em meu ombro.
- Obrigada Sr. Roberts – ela diz por fim.
Pois é, obrigada Sr. Roberts. Por não tem guardado sua língua quando deveria, pensei. Por mais que queimando de ódio por dentro, eu assenti e sorri.
Nas próximas horas, eu ficava somente pensando no que haveria naquela caixa. Benjamin, meu irmão menor, tentou abri-la com algumas das ferramentas do meu pai. Mas não deu certo. Tentamos joga-la da escada. Mas também não. Esmurramos a caixa. Mas também não. Pedimos para a Judy tentar cortar. Mas também não. Enfim, por mais que fizéssemos de tudo não conseguíamos abri-la. Após todas as tentativas, estávamos sentados na beira da janela do último andar, aonde os nossos corações aceleram e batem num só ritmo, particularmente é a melhor sensação que existe. Sua cabeça repousava em meu colo enquanto ele falava incansavelmente e por mais que eu tentasse prestar atenção, não conseguia, por culpa da curiosidade de saber o que há na caixa.
- Por que você acha que é importante abrir essa caixa? – ele pergunta bocejando.
- Eu sei que é, é da minha mãe – eu digo por fim.
A janela é em direção a o jardim, onde temos duas rosas brancas. Aquelas flores são os meus motivos de estar aqui, não resisto o olhar para Judith indo regar ela como de costume. Pra mantê-las vivas, por certa vez que eu vi aquelas cinzas eu não queria aceitar que estavam mortos, então ela enterrou no quintal para que eu crescesse vendo suas pétalas caírem e nascerem novamente. Mas não consigo desapegar do peso de que, mesmo que sem merecer, eu estou tomando o lugar deles. Mas para ser sincera, ainda a vejo pensando neles. Ele se levanta bruscamente e me encara.
- E a nossa mãe? Não importa o que ela sente?
Judith vira em direção a janela após ouvir a voz dele, ela cobre o posto com o braço e então aponta em nossa direção. Somos proibidos de ficar aqui por culpa da altura, mas não temos medo e nunca se passou pela nossa cabeça que poderíamos cair.
- Desçam daí logo! – ela abaixa o olhar por um segundo e depois volta a apontar para nós . – Olha aonde eles estão...
Deslizamos para o outro lado e pulamos passando pela cerca desativada, além do risco de cair tínhamos o risco de morrer eletrocutados. Por fim dentro, ele pula rapidamente pela cerca e pega a caixa, por um segundo seu pé se desequilibra e a caixa rapidamente foge de sua mão e do controle caindo no chão, sem nenhuma reação eu me abaixo rapidamente para saber se algo tinha acontecido a voz dele já chorosa pedia desculpas milhares de vezes. Mesmo assim não importava, já havia caído e agora não havia volta.
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