A Destinada
2 O Jantar
Notas iniciais
Eu observei a caixa com cuidado, parecia que nada estaria quebrado –parecia – quando meus olhos passaram pelo trinco eu percebi que havia entortado, acabando com a minha esperança de um dia descobrir o que há na caixa. Ele puxava meu braço e quase gritava para irmos logo, antes que recebêssemos um sermão, eu soltei meu braço com brutalidade. Estava decepcionada demais para pensar naquele sermão, mesmo assim levantei-me e caminhei com ele até a sala de jantar. Meu pai já havia chegado de sua longa viagem, e diferente de outras vezes eles haviam começado o jantar sem nós, a conversa era importante, conseguia perceber. Sentamo-nos junto á eles, minha mãe silenciou a conversa esperando nós fazermos uma prece, mas não fizemos. Aquele tom diferente estava gerando em mim a curiosidade de saber qual era o assunto antes de chegarmos á mesa.
— Então assim será – ela completou a frase que havia guardado nos últimos segundos – Kristen?
Eu levantei o olhar colocando um punhado de milho na boca, quando meu olhar se encontrou ao dela já sabia que não seria algo que me agrade, mas permaneci quieta.
— Teremos um jantar amanhã –ela engoliu seco – seu pai finalmente conseguiu aquela he...
— Não é dele! – eu a interrompi, porque não era mesmo e todos sabiam disso.
Ela apertou os olhos e franziu os lábios furiosa com o meu comentário, ela não costuma ficar furiosa comigo, então ela prosseguiu:
— Chamaremos as famílias, teremos um jantar agradável – ela ajeitou na cadeira enquanto fatiava o pequeno pedaço de carne no prato. – É muito importante isso...
Então ela começou a explicação que durou toda a continuidade do século, por mais que já soubéssemos de tudo que aconteceria dali para frente. Discussões e desentendimentos. Isso é o que acontece quando a família se reúne, mas ela sempre perdoa – e nós fingimos que perdoamos — , a parte da família do meu pai é tão fria e cruel quanto parece, eles são descendentes de nazistas, e, a família da minha é judaica e ainda não se recuperaram do que aconteceu. Eles ainda brigam e discutem nos jantares, mas desde que Benjamin nasceu eles diminuíram as brigas, por qual motivo? Só Deus sabe, mas eu não me importo desde que não veja purê com ervilhas voarem novamente. Conseguia perceber meu pai engolindo o sorriso sarcástico, enquanto colocava seu milho no prato de Ben. Quando ela finalmente terminou sua pronunciação, ele não resistiu e soltou o riso, todos os olhares se direcionaram á ele rapidamente.
— Desculpa – ele riu ainda mais – desculpa, mas não sei se eles conseguirão ficar no mesmo ambiente. – ele tomou um tom sério repentino – não quero expor Benjamin e Kristen á esse tipo de coisas.
— Eu concordo com o papai – Benjamin diz batendo a mão com a dele.
Minha mãe jogou a opinião decisiva á mim. Suspiro e digo entredentes:
— Não me importo, até acho engraçado a voz de Dolores gritando, parece uma ratinha – eu disse por fim, parecia mesmo uma ratinha, depois dos argumentos do meu pai, ficamos em silêncio por alguns segundo. Eu empurrei o prato vazio para o centro da mesa e então me levantei – Boa noite.
— Boa noite – eles responderam em uníssono.
Eu peguei a caixa e caminhei até meu quarto, ela era tão pesada e mesmo assim não fazia barulho algum se agitada. A coloquei em minha estante e sentei-me na cama pegando o livro de filosofia que deveria ter lido antes, passo o olhar somente na sinopse e já sei qual será meu resumo para a Sra. Banks, ela é minha professora desde que Benjamin nasceu, mas atua nessa profissão desde que foi criada. Na verdade foi ela que criou. Jogo os sapatos no ar e entro debaixo do edredom, apago a luz e me viro em direção á janela. Aquela lua minguante que sempre me seguia, e aquelas estrelas que as pessoas me diziam que era minha mãe, não acreditava que poderia ser minha mãe, minha mãe era um anjo. Pelo menos era o que eu costumava pensar, mas depois de alguns tempos cheguei a conclusão de que ela talvez não fosse boa demais. Uma luz surgiu no corredor e caminhava em direção ao quarto, me aproximei da parede gelada e levantei o edredom, um caminhar lento de ranger o assoalho. Era Benjamin. Ele pulou na cama, deslizou a mão na cama até encontrar minha mão então se espremeu em mim até sentir-se confortável.
— Kristen? – eu virei-me em direção a voz – desculpa por ter quebrado sua caixa hoje, eu só queria saber se você não tem medo?
— Medo de quê? – arqueei a sobrancelha intrigada com a pergunta.
— Eu ouvi a mamãe dizendo que tem medo, de você não encontrar o que procura... Ela disse que não confia em Darcy.
Eu bufei e virei-me, coloquei a mão em seu rosto tão macio quanto a neve. Encostei minha cabeça com a dele, segurando o ar choroso.
— Eu tenho medo de magoar vocês – fechei os olhos – eu não conheci Darcy, mas vocês são tudo para mim, Ben. – ele bocejou, beijei-o a bochecha – durma.
Após alguns minutos ele já havia adormecido, mas o sono ainda não havia chegado em mim. Aquela caixa fechada na estante me intrigava tanto quanto a pergunta, eu precisava abri-la. Precisava saber o que havia tão especial dentro dela. Levantei-me e a peguei, parecia tão frágil mas era forte. Era a minha chance, ergui-me e caminhei até a sala onde tínhamos aula. Entrei e encostei a porta com o máximo de cuidado possível para não ranger, não poderia estar acordada aquela hora – não hoje – coloquei na mesa. Com a unha encaixei no espaço entre a caixa e a tampa levantei com força. Por um segundo só sentia a dor de quase ter a unha arrancada, mas no outro eu percebi que havia se aberto. Coloquei a mão no fundo da caixa, o forte vento da noite bateu contra a janela abrindo-a, corri em direção á ela e tranquei-a. Quando finalmente poderia saber o que havia dentro, sentei-me e estiquei a mão até o fundo da caixa, um papel, estava dobrado em inúmeras vezes, o abri com cuidado. Meu Deus, é agora pensei.
Minha Kristen,
Estou no oitavo mês de gestação e minha barriga ainda não para de crescer, eu sei que você será uma menina agora. Não sabe o quanto eu te amo querida, pois agora é a única que pode estar perto de mim sem me ferir, é isso que as pessoas fazem comigo, dizem que eu preciso de tratamento e que não posso cuidar de você. Eu sei que é verdade, peço desculpas por você nunca sentir meu cheiro, nunca me ver, entendo se não me ama. Os dias estão chegando ao fim a cada dia de gestação, eu sei que vou morrer mas se for preciso para você viver é isso que vou fazer. Quero que seja forte e não derrame uma lágrima pois ela te fará sofrer.
Parabéns, eu sei que agora você tem dezessete anos e é uma mulher! Deve estar tão linda, tão esperta... ainda te amo. Eu sei que poderia esperar muitas coisas de mim, mas é somente isso que tenho a lhe oferecer. Acredito que você é a promessa e está destinada a ser um mar de surpresas e emoções, com seu coração puro e bom. Lamento não ser assim, mas acredite que isso pode acontecer, porque não importa o que aconteça uma mãe sempre conhece seu filho. Porquê o amor nunca falha quem amar, mas a dor não sabe quem machucar. Kristen Hallen, eu sempre vivi esperando que esse dia chegue, mas agora não quero que ele passe. É a primeira vez que te vejo (você é tão linda) eu vou morrer, mas não é a última vez, minha querida. Saiba que eu vou voltar, por você. Te amo.
De sua mãe,
Darcy Watson Hallen.
As lágrimas já haviam escorrido pelo meu rosto, e agora eu tenho mais certeza que nunca que a culpa é minha. E mesmo assim, Darcy não me deixou morrer. Por quê? Suspiro profundamente, quando ouço o ranger do assoalho com finos saltos quebrando o silêncio. Guardo a carta na caixa e a fecho, limpo as lágrimas com o braço e me ergo. Judith entreabre a porta, colocando a cabeça entre ela.
— Kristen? – ela pergunta. – Achei que tivessem mandado você ir dormir, está é minha responsabilidade e não quero ter reclamações.
— Calma Judy, não precisa se irritar – eu digo num tom irônico – eu já estou indo dormir, só queria ter certeza que não havia nenhum trabalho para a Sra. Banks se estressar. É uma adorável senhora não acha?
Ela assentiu com os braços já cruzados e o semblante se fechando. Eu saio da sala, e me despeço dela já quase correndo para o quarto, até sentir bem para chorar um pouco só.
Quando o dia amanheceu, minha mãe estava do meu lado me balançando e chamando pelo meu nome incansavelmente. Assim que abri os olhos ela sorriu e bateu no meu ombro, sentando do meu lado.
— O sonho estava bom não estava? – ela sorriu gentilmente – Vamos, acho que a Sra. Banks já deve ter chegado.
Eu me espreguicei e apertei os olhos para vê-la diante da luz, o tom ressaltado de sua pele um pouco envelhecida e mesmo assim sua aparência adorável.
— Que horas são? – pergunto – as pernas da Sra. Banks são pequenas e andam devagar, aposto que ainda consigo dormir um pouco antes dela chegar.
— Kristen! Não faça comentários ofensivos– ela me repreende – vamos, já são sete horas.
Deslizo as pernas da cama e me ergo, rapidamente me visto, e vou para a sala de aula. Era o meu primeiro horário, mas Benjamin estava lá. Um homem alto e calvo também, estava sentado á mesa que costumávamos ter aula. Sentei-me em silêncio somente esperando que eles percebam minha presença, não demorou muito para o homem perceber.
— Você deve ser a irmã que ele fala – ele estende a mão e eu o cumprimento – Sr. Banks.
— Kristen. O que aconteceu com a Sra. Banks?
Benjamin me olha aproveitador da situação, não, nós não odiamos a Sra. Banks, mas isso não significa que gostamos dela.
— Ela sofreu uns incidentes, mas não se preocupe, eu ficarei no lugar dela. – ele parou por um segundo para analisar meu rosto, mas quando seu olhar bateu com o meu, ele disfarçou — Vocês teriam aula do que hoje? — Eu aponto para o violoncelo – Música! Pode mostrar o que sabe?
Concordo com a cabeça e pego o violoncelo, passo a mão no arco e debruço-me sobre ele e enfim toco. É como se todo o problema que poderia existir fosse embora, aquela adorável música em meus ouvidos me fazem lembrar de tempos esquecidos de que ainda não conheço. É fascinante. É apaixonante. E quando a música acaba, as palmas batem e eu abro os olhos com um ar orgulhoso. Os comentários de sempre de Benjamin: ela toca muito bem, não é? ou não conheço ninguém que toque melhor que Kristen. Eu viro o olhar para eles, que permanecem quietos depois dos comentários.
— Você é realmente boa – ele suspira – mas têm coisas que precisam ser melhoradas. – ele vira para Ben – E você?
— Eu toco flauta. Mas eu não sei soprar muito bem.
Ele pegou a flauta e levou até a boca, e começa a tocar a música que Sra. Banks costumava cantarolar ás vezes, sinceramente, Benjamin não toca muito bem. Diferente de mim, ele têm outros talentos: É um ótimo jogador de dama e xadrez. Um ótimo escritor e também uma pessoa adorável. Costumo pensar que ele deve ter nascido porquê eu talvez eu não preenchesse o espeço que o tempo deixou em meus pais, e então ele veio. Ele terminou de tocar, abaixando a cabeça decepcionado com a performance.
— Você pode ser um bom flautista, Benjamin, só precisa praticar! – ele diz com um sorriso cativante no rosto.
Depois de algumas horas falando de pessoas como Mozart e Beethoven, a aula acabou. Devo admitir que o Sr. Banks, ou melhor, Adam, era uma pessoa excepcional. Após a aula, a roupa que eu iria vestir já estava pronta junto com os sapatos, banhei-me e vesti-me. Esperei Judith trançar meu cabelo e então, os convidados começaram a chegar, confesso que fingi passar mal para ganhar tempo. Mas não durou muito e logo tive que descer e recepciona-los.
Meu tio paterno Ryan e sua mulher, Savannah, haviam acabado de chegar. Um terno alinhado e sapatos brilhantes de tão engraxados, o cigarro preso na parte da boca que não tinha um sorriso pilantra e o olhar exterminador. Savannah não era diferente, um vestido preto até os joelhos, com saltos de meio metro e um sorriso falsamente feliz no semblante. E não poderia esquecer da minha avó Grace, uma mulher que não aceitava o tempo passar e mesmo depois de setenta anos ainda usava um ridículo e exagerado batom vermelho, mas é uma adorável troglodita. Os parentes da minha mãe são diferentes, minha tia Ruthie é consideravelmente a pessoa mais incrível que poderia existir, um coração justo e amável e somente preciso dessas palavras para descrevê-la. Minha outra tia Anna também é uma boa pessoa, mas têm suas falhas que estragam essa boa imagem, ela é atraída pelas brigas tanto quanto Savannah. Seu filho Mohammed (sabe Deus porque o nome dele é árabe e não judeu), é a pessoa mais ridícula que existem, as piadas dele não têm graça além de serem ofensivas, juro que um dia estrangulo ele. Minha adorável avó Martha, eu não sei quem ela é, quase nunca fala ou se move. Dolores é uma mulher que me irrita e como já disse; tem voz de rata.
Eu descia a escada com cautela, tentando não chamar a atenção para que depois a discussão a culpa não fosse minha, mas foi em vão. O primeiro olhar a acompanhar meus passos foi o da Ruthie, com um sorriso gracioso em seu semblante, assim que pisei no último degrau ela veio ao meu encontro e me abraçou como se não me visse há séculos. Como você cresceu ela disse, ainda me lembro da primeira vez que te vi aquelas palavras clichês parecias verdadeiras na voz dela. Depois de vários cumprimentos e comentários sobre o meu comprimento, nós nos sentamos á mesa. A servir o jantar, Ryan não poupou piadas sobre porcos, cujo somente sua mulher riu. Aquela mesa retangular nunca esteve tão cheia desde muito tempo, quase nunca via aqueles rostos juntos, por mais que odiasse alguns deles, era tão bom vê-los.
Minha mãe suspirava a cada dez segundos aliviada de não haver brigas, a aflição dela estava á flor-da-pele e não precisa morar com ela por toda vida para saber disso. O assunto foi se encaixando aos poucos, coisas sobre empresa e família, ás vezes perguntavam a minha opinião e eu sempre respondia parece muito interessante, mas não era. Era insuportável. As garfadas em meu prato ficavam cada vez mais fortes e com sequencias, Ruthie me deu uma cotovelada no ombro, e quando me virei ela sorriu docemente como se soubesse que eu não aguentava mais.
— Eu também não gosto dessas coisas – ela sussurrou – não entendo desses assuntos, e para ser sincera também não me interesso.
Eu assenti enquanto mantinha a força a expressão surpresa, minha mãe se levantou no exato momento com a taça nas mãos e um sorriso tão forçado quanto o meu. Todos se colocaram em pé com suas taças quase transbordando de vinho (exceto a de Ben e Mohammed), peitos estufados e ares orgulhosos. Me coloquei em pé, com minha taça.
— Á uma vida afortunada – minha mãe gritou – que comece logo!
— Á uma vida afortunada – todos disseram em uníssono.
Voltamos á nos sentar, enquanto a maioria virava o copo em abundancia na boca. Minha avó, Grace, não se contentou em nos ver se levantar uma vez e se colocou em pé novamente. Ajeitou o suéter preto e limpou a garganta, enquanto a de todos engoliam seco apreensivos com as palavras que viriam á seguir:
— Á uma vida afortunada? Mas, como meu filho? – minha mãe rapidamente fez um movimento brusco para tampar os ouvidos de Benjamin – Tiraste a herança que seu pai deixou para dividir entre nós, e agora vai deixar tudo para a sua família, esses judeus, seus filhos...
Meu pai bateu com força a taça na mesa e se pôs em pé, mas antes de dizer a primeira palavra Savannah se levantou e tomou posse de sua palavra:
— Tem razão Sra. Grace, toda razão. Você nem sequer pensou em dividir com seu irmão, que tem família como você. Há ainda pessoas que falam que os judeus são santos.
Os olhos de todos se arregalaram, mas o meu quase caia. Ruthie por sua vez se levantou, mas ao desviar o olhar á minha vó, pensou o que ela teria feito e voltou a se sentar. Meu pai por essa vez não se segurou, eu vira a fúria queimar seus olhos que focavam em Grace.
— Que família Savannah? Você? Não se dirija á minha mulher nem ao meus filhos.
— Se vocês são deles, talvez também sejam podres – Ryan falou.
Não consegui segurar essa, por mais que o combinado fosse não brigar, eu não havia feito nada, a não ser ouvir. Mas se por uma vez na vida tenho essa oportunidade, não irei deixar escapar agora.
— Não percebem que somos partes dos dois? Eu e Benjamin estamos entre isso, e estamos sofrendo! Mais do que todos vocês e...
— Benjamin. Esqueceu Kristen? Você não é de nós, você é Hallen- Grace disse por fim.
Foi então, que eu não consegui ouvir aquelas palavras. Nunca achei que estivesse preparada para ouvir a verdade daquela forma, senti meus olhos começaram a marejar, quando me levantei rapidamente, senti a mão da minha mãe segurando meu braço, mas soltei.
— Kristen? – ela disse com a voz melancólica – volte, querida!
Caminhei pisando forte até a sacada, enquanto pensava na ideia de Grace. Eu amo minha família, e por mais que saiba que meu sangue corre como de um Hallen, meu coração bate como o deles. Passei por debaixo da cerca e pulei até a sacada, colocando minhas pernas para o lado de fora, suspirei aquela brisa da noite enquanto balançava as minhas pernas e enquanto as lágrimas escorriam. Aquelas flores no escuro, eram elas, queria pensar como elas naquele momento. E acho que elas não fariam isso, não deixariam Ben no meio de toda aquela confusão. Jamais. Passei a perna para dentro enquanto sentia meu vestido puxar para baixo, virei-o com força soltando e corri deslizando no não para passar pela cerca. No corredor, escuro e extenso para meu quarto eu vejo ele em pé, estico o braço até ele. Mas não passa de uma maldita sombra, quando eu sinto novamente o puxar no meu vestido, viro e sinto sua pele tocar a minha.
— Ben? – pergunto. – Não me assuste assim!
— A tia... a tia... Ruthie. Você não a viu?
Balanço a cabeça negativamente, e puxo sua mão em direção á luz, aqueles olhos negros arregalados de tão assustados, sua respiração ofegante e pele fria. Benjamin estava apavorado. Ele encara o fundo dos meus olhos enquanto instruo ele a ficar, sempre, perto da mamãe enquanto eu estivesse a procura dela. Enquanto as palavras pareciam chegar ao fim, sua pele ficava roxa e seus olhos escureciam mais e mais.
— Não tenha medo, Kristen.
Eu o abraço e o deixo, me perguntando aonde ela poderia estar. A revirar todos os quartos, mais tinha certeza que não sabia onde Ruthie estava. Voltei á sacada, mas não havia nada. A me virar em direção a outro corredor, sentia algo atrativo naquela luz que jamais ficava acesa. Segui-la até o fim, e quando cheguei ao final, somente achei a porta aberta com uma escada que provavelmente daria no porão.
— Pela Ruthie – disse a mim mesma.
Eu ouvia todos gritando pelo seu nome, ouvia a tensão nas vozes. Não é comum Ruthie sumir, e é mais incomum ainda sumir aqui. Moramos no interior, um lugar cercado por florestas e sem nenhum sinal de vida, a não ser nós, há pelo menos dois quilômetros de distancia. Puxei o ar e desci o primeiro degrau da escada, era uma madeira velha e rangia tanto quando o resto da casa, pisei o resto dos degraus com pressa. Esticava os pés a cada passo, pois a luz já não alcançava onde eu estava, tão escuro quanto parecia. Guie-me até a luz, eu já conhecia aquele porão. Acendi e ao ouvir o barulho de gotas no velho poço, virei-me, não era a chuva ou as goteiras. Presa a uma corda e seu pescoço arranhado, qual fosse o motivo eu não sabia o que havia acontecido, sentia o frio tomar conta de mim e as lágrimas a descerem. Sua pele estava pálida, mas havia roxo em seus olhos tão forte quanto o sangue preto que descia de seu nariz, toquei sua mão, e pude ter certeza que aquele era o mesmo toque de Ruthie. Tentava gritar, mas minha voz não saia, o seu sangue estava começando a formar uma poça no chão, quando ouvi o primeiro passo pisar no degrau.
— Kristen, eu avisei. — ouvi a voz, mas não conseguia identifica-la.
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