A Demon's Fate
7 Parte VII - Ato 1
Notas iniciais
PARTE VII — ATO 1
“Nothing goes as planed, everything will break, people say goodbye in their own special way (...) You’re in my veins and I cannot get you out. You’re all I taste at night inside in my mouth. You run away cause I am not what you found.”
(In My Veins,Andrew Belle feat. Erin McCarley)
2013: Starling City, USA.
Aeroportos cheios sempre incomodaram Nyssa. Devido ao seu isolamento em Nanda Parbat, o contingente de pessoas que passava por ela estava começando a tirá-la do sério. Por mais que soubesse fingir e interpretar qualquer papel que fosse dentro de qualquer ambiente, aeroportos cheios sempre levariam seu controle ao limite. O que piorava seu humor já degradado pelo real motivo que a trouxera àquela cidade.
Do lado de fora das portas de vidro do aeroporto, Sara estaria em algum esconderijo da Liga, pronta para defender-se caso alguém requisitasse e exigisse a sua lealdade de volta. Sara sempre soube muito bem onde queria chegar, sempre fora intempestiva e decidida em todos os seus movimentos, a ousadia dela fascinou Nyssa desde o primeiro encontro quando ela se atreveu a se aproximar para pedir ajuda...
A vontade que Sara possuía de sobreviver só não era maior que a força que ela transformava em fúria quando sua família era ameaçada. Essa característica tão latente na personalidade de Sara tornava tudo muito mais difícil para Nyssa, além de toda a relação e dos sentimentos que uma aparentava sentir pela outra, Sara lutaria até o fim para proteger sua família.
Nyssa sentia-se traída e enganada, acreditara por muito tempo que o passado de Sara finalmente parara de chamá-la de volta. Se esforçara, todos os dias, para que a loira se tornasse independente de seus medos e suas fraquezas... Nyssa tentou, por muito tempo, tirar a humanidade de Sara e fazer crescer, dentro dela, a escuridão necessária para que ela nunca mais voltasse para a luz. Entretanto, aquela luz, vinda do amor que Sara ainda sentia pelos seus familiares ofuscara qualquer oferta de uma escuridão acolhedora que Nyssa oferecera.
Não só ofuscara esse companheirismo e caminhar sereno entre as trevas, como também, tudo que Nyssa sentia e demonstrara a ela.
Os pensamentos de Nyssa foram bloqueados conforme ela se aproximava do guichê para averiguação de seu passaporte. A morena continuou seguindo a fila, puxando a mala lentamente. Notou que seus homens já haviam passado pela segurança e já desapareciam no meio da multidão, Nyssa respirou fundo e, prontamente, retirou o passaporte de dentro da bolsa.
Quando o homem a sua frente terminou a verificação, Nyssa caminhou ao guarda do guichê com a melhor de suas expressões neutras. Em seguida, sorriu discretamente para ele e entregou-lhe o passaporte, retirando o chapéu em seguida. Seus olhos encontraram um pequeno garoto que a observava... Crianças eram sábias em sua ingenuidade, afinal. Nyssa piscou e sorriu para ele que, após alguns segundos, lhe retribuiu.
– Veio a trabalho ou a passeio, Miss Raatko?
Esta pergunta, por mais simples que fosse, provocara uma pequena crise sentimental em Nyssa. Afinal, o que Sara representava para ela naquele momento? O quanto seus sentimentos em relação a essa mulher poderiam influenciar o que ela era? Nyssa ainda era uma assassina e ainda deveria cumprir o seu dever, sendo leal àquilo em que acreditava e que jamais a abandonara... Entretanto, os sentimentos que possuía em relação a Sara a faziam pensar antes de agir, ação esta que ela nunca fazia quando recebia uma ordem para matar. Impulsivamente, respondeu:
– Passeio.
Desde o princípio, Sara a fizera questionar tudo que era o seu universo. E mesmo diante da partida dela... As dúvidas permaneciam. Nyssa via-se perdida, ela não se reconhecia mais. E ela se via agarrada a Sara como se essa fosse a sua única verdade e sua única certeza... Nyssa esperava que tudo fizesse mais sentido quando a tivesse novamente.
Por mais que as profundezas de sua mente e de seu coração ocupassem sua sanidade, Nyssa conseguiu enxergar as mudanças na expressão do segurança do aeroporto logo após a verificação de seu passaporte. Também percebeu o nervosismo dele ao tentar permanecer sério em dizer:
– Meu computador travou, pode esperar um segundo? Eu já volto.
Nyssa deu um sorriso compreensivo, mas assim que o funcionário desapareceu de sua visão, olhou por cima dos seus ombros e notou, instantaneamente, um guarda armado responder a um chamado pelo rádio. Como se fosse em câmera lenta, motivado pela adrenalina que era lentamente injetada em sua corrente sanguínea, Nyssa observou que o guarda empunhou a arma e vociferou:
– No chão! Ponha as mãos na cabeça!
O pânico tomou conta do aeroporto, todos que estavam na fila se jogaram ao chão. Nyssa escutou os passos pesados e corridos as suas costas, sentiu o cano da arma, frio e trêmulo, tocar sua têmpora.
– Eu disse mãos na cabeça, senhorita... Ou eu vou atirar.
A assassina dentro de Nyssa ronronou alto, como um animal faminto. O sorriso arrogante chegou aos seus lábios, ao mesmo tempo em que a adrenalina chegava às extremidades de seu corpo. Mal ela fizera o que o guarda mandara e seu movimento, imediatamente, se alterou.
Nyssa atacou, furiosamente. Em questão de segundos, cinco guardas estavam aos seus pés, agonizando em dores imensuráveis. Nyssa jogou o cacetete ao chão, apanhou o chapéu e sua mala, saindo do aeroporto tão rápido quanto chegara.
O sorriso já não estava mais em seus lábios quando saiu do prédio e seu rosto recebeu os primeiros raios de sol. Nyssa olhou por cima dos ombros e respirou fundo, a adrenalina se dissipava de seu sangue ao mesmo tempo em que suas incertezas em relação a Sara lhe tomavam.
Seu coração estava acelerado, e não era por causa da adrenalina. Nyssa colocou a mão sobre o seu seio e respirou fundo, procurando acalmar outro animal. Muito mais forte, visceral e selvagem que, naquele momento, derrotara a assassina dentro de si.
Ela ainda não sabia o que fazer. Estava amordaçada e amarrada aos seus próprios sentimentos.
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Já era noite quando Nyssa finalmente conseguiu algum avanço em sua vigilância sobre Sara, tinha que admitir que até estava um pouco orgulhosa do cuidado e da discrição da jovem Ta-er al-Asfer em seus movimentos. Sara era quase impossível de ser rastreada e Nyssa só conseguiu alcançá-la depois de focar-se em seus relacionamentos, especificamente, com Oliver Queen.
Relacionamentos... Sempre os pontos mais fracos de um assassino frio e intocável.
Não se surpreendeu ao vê-la caminhar sozinha, por uma rua escura paralela à casa noturna que pertencia aos Queen. Também não se surpreendeu ao notar que não era a única que a vigiava. O vulto verde que se movia nas sombras não era muito sutil em seus movimentos. Porém, nada podia afastá-la daquele momento.
Enxergar Sara novamente fez com que Nyssa enxergasse o interior de sua própria alma... A escuridão deu uma trégua e ela se deixou iluminar pelos fachos de luz que vinham da figura de sua antiga companheira. A assassina sentiu seu interior se inflamar, suas mãos não alcançaram o arco e a flecha, muito menos houve qualquer movimento prévio que indicasse seu empunho.
Nyssa sabia que deveria matá-la. Mas sabia, dentro de um canto obscuro de sua mente, junto ao seu coração, que ela seria incapaz de qualquer coisa sem se aproximar.
Ela não merecia algo frio, à distância. Não ela, muito menos, Sara.
Quando Sara aproximou-se, Nyssa deixou que seu corpo e seus instintos lhe guiassem. Seu corpo escorregou pelas dobras do tecido, trêmulo da cabeça aos pés, suas mãos correram pelas linhas avermelhadas e sua respiração acelerou quando seu corpo girou em torno do próprio eixo para, enfim, aterrissar.
Seus pés tocaram o chão, mas seus olhos jamais se ergueram dela. Nyssa respirou profundamente e o cheiro esquecido de Sara lhe chegou ao olfato, enlouquecendo-a e entorpecendo-a. Lentamente, ergueu os olhos escuros do chão e encontrou o rosto de Sara, assustado, a observá-la.
Mais uma vez, os olhos azuis lhe fizeram pestanejar. A mão que segurava o cabo da adaga tremeu enquanto Nyssa se colocava em pé. A assassina retirou o véu e o capuz, sem tirar os olhos de Sara em momento algum. A pequena estava receosa, em posição de ataque. Os olhos azuis a aterrorizando com a expressão assustada.
O coração de Nyssa explodiu, como uma bomba. A explosão de seus sentimentos refletiu em seus movimentos, Nyssa perdeu completamente a noção do que fazia ao se aproximar. Um movimento de ataque era desconhecido para ela, naquele momento. Tudo que pode fazer foi se aproximar, tomar Sara pela cintura para, enfim, saciar seus lábios.
A racionalidade e a frieza foram jogadas em algum ponto, vários palmos abaixo de todos os sentimentos. Nyssa soubera, desde o primeiro instante, que era incapaz de cometer qualquer atentado à vida de Sara. E aquele beijo, com todas as trepidações elétricas sendo enviadas às extremidades de seu corpo... Nyssa sentia como se, finalmente, vivesse de novo.
O nervosismo de Sara a impedira de corresponder, mas Nyssa sentiu quando ela correspondeu. O beijo foi curto e não saciou a sede que a assassina possuía dentro de si, muito menos o desejo que, naquele momento, escurecia ainda mais os olhos negros.
Sara se afastou, Nyssa amaldiçoou silenciosamente. Olhou confusa para a pequena que lhe observava afoita, Nyssa mordeu os lábios, procurando aplacar o formigamento instalado sobre eles e comentou amarga:
– Já tive melhores cumprimentos.
– Desculpe... Eu não sabia o que você ia fazer. — Sara gaguejou insegura, mas sem desviar os olhos de Nyssa. Nem nos piores cenários que imaginara, a assassina poderia prever o tamanho da distância que pairava entre elas. Alguma coisa não se encaixava entre as duas, algo que elas tinham se perdera... O olhar vago com o qual Sara observava Nyssa deixava isso claro.
Nyssa perdeu a sua Ta-er al-Asfer... Aquela mulher a sua frente não lhe era familiar. Aquela alma não lhe pertencia...
– Para ser honesta, eu também não sabia. — Nyssa confessou rapidamente, sem que pudesse tentar calar seus sentimentos que, como era familiar à relação das duas, sempre vinham à tona quando Sara os questionava. Também não conseguiu repreender o sorriso que chegou aos seus lábios e sua mão, inconscientemente, voltou a adaga à bainha. Sara lhe olhava desconfiada, aquele olhar machucou Nyssa de uma forma irreparável, Sara realmente acreditava que seria capaz de machucá-la...
– Nós precisamos conversar.
– Claro. — Nyssa estava machucada, a dor se alastrando pela sua corrente sanguínea, pior do que qualquer tortura a qual fora submetida naqueles anos todos. Seu olhar brilhava e ela lutava contra as lágrimas que queriam molhar a escuridão dentro de seus orbes, a filha do demônio parecia indefesa... Humana. — Vamos precisar da permissão de seu namorado?
As palavras saíram amargas, Nyssa se virou e encontrou a figura do Capuz a observando. Os olhos dele traziam ódio, repulsa e curiosidade. A morena não se amedrontou diante de tão ínfima manifestação de masculinidade, pelo contrário, achou graça do ar patético daquele homem diante daquilo que lhe pertencia e que ela viera buscar. Aproximou-se a passos seguros e tranqüilos, ele não desviou os olhos dos seus, Nyssa deixou um leve sorriso brotar em seus lábios.
A sua postura exalava magnitude e imortalidade, naquele caminhar, ela deixava claro que não era uma mulher qualquer... Era diferente de tudo que aquele homem já enfrentara. O aspecto real e respeitoso de seu pai estava em sua postura. Nyssa olhou superior para o Capuz e apresentou-se orgulhosa:
– Sou Nyssa, filha de Ra’s Al Ghul, herdeira do demônio.
– O que faz aqui? — A voz dele veio disfarçada pelo transmissor, Nyssa não conseguia respeitar um homem que escondia quem era. Essa pequena particularidade lhe fez detestar aquela figura e minimizar ainda mais o seu respeito em relação a ela. Irritada, mas ainda no controle, Nyssa respondeu:
– Sara jurou fidelidade à Liga dos Assassinos. É hora de ela voltar para casa.
– Isso não vai acontecer. — O Capuz respondeu incisivo, o peso de seu corpo foi balanceado em seu jogo de pés e Nyssa apenas relaxou sua postura, prevendo um ataque frontal. Era realmente patético o quanto ele se deixava levar pelos sentimentos daquela pequena troca de palavras. Nyssa sorriu abertamente para ele, mas Sara lhe tomou a frente e disse afobada:
– Nyssa... Por favor, nos dê um momento.
O coração obscuro da assassina apertou-se, diminuto, em seu peito. A dor veio mais forte, ao mesmo tempo em que Sara deixava claro toda a mudança em seu interior. Nyssa finalmente compreendeu o quão perdida estava quando não mais enxergou familiaridade alguma nos olhos azuis... Eles não estavam mais límpidos e claros. A escuridão que eles traziam remetia ao oceano no qual, um dia, Sara se afogava.
Aquela Sara não era mais a mesma que deixara Nanda Parbat.
– O tempo que quiser... Despedidas nunca são fáceis. — Nyssa respondeu com amargura, sentindo as palavras arderem na ponta de sua língua e marcarem a fogo a decepção dentro de seu peito. Sara abrandou a expressão, Nyssa sentiu-se enojada de si mesma quando enxergou a pena nos olhos azuis. — Foi por isso que eu nunca tive uma?
Nyssa afastou-se, o mais completa que seu orgulho permitiu. Observou a troca de palavras entre Sara e o Capuz, aquela cumplicidade que, agora, ela compreendia que jamais teria de volta.
Dentro de Nyssa, a escuridão voltava ainda mais espessa e assustadora... E, junto com ela, Nyssa sentiu as chamas do inferno a queimarem sua pele, pela primeira vez. Sara estava jogando-a no fogo do que, um dia, ela chamara de sua morada...
Sara lhe fizera humana para destroçá-la. Sara lhe tomara o coração para quebrá-lo.
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