A Demon's Fate
5 Parte V
Notas iniciais
PARTE V
“I’ll taste the devil’s tears, drink from his soul, but I’ll never give up you.”
(The Devil’s Tears, Angus & Julia Stone)
2012: Nanda Parbat
O som repetitivo das adagas que se tocavam e se repeliam ecoava no imenso galpão, juntamente a ele, estavam os sons abafados de pés que se moviam rápidos e do ofegar de duas respirações ansiosas
A visão era a de dois corpos que dançavam uma estranha valsa de violência e de precisão. Um passo era dado ao mesmo tempo em que a outra silhueta recuava. As adagas passavam a milímetros das frágeis peles expostas. Os olhos, azuis e negros, estudavam cada movimento ao mesmo tempo em que estavam atentos a qualquer reflexo.
Era tudo estudado, frio e demarcado. Porém, não havia frieza e muito menos, racionalidade, nos sorrisos que brincavam nos lábios das duas figuras que se digladiavam. Neles havia felicidade, divertimento e um sentimento desconhecido, perfeitamente escondido na profundidade de ambas as almas que os vestiam.
Nyssa, por mais que já soubesse a natureza de seus sentimentos por Sara, jamais declarara abertamente o que sentia. Sabia que, no instante que proclamasse que amava Sara, ela se tornaria a sua maior fraqueza. Por isso, procurava deixar claro que a amava em pequenos gestos e em olhares intensos.
Ambas sabiam o mundo em que viviam e tinham consciência dos perigos que cercavam aquela relação de proximidade que possuíam. Já estavam sendo os objetos de observação de muitos dos membros da Liga e não se importavam com isso, apenas se protegiam... E por mais que Nyssa já tivera sido, diversas vezes, retribuída... Ainda existia dentro de si aquela probabilidade latente de perder Sara a qualquer momento.
Falar e viver de amor eram coisas que não se encaixam na personalidade de Nyssa Al Ghul, ou pelo menos, o que ela fora antes de Sara chegar a sua vida. Caminhava aos tropeços, caía e se levantava muitas vezes e ainda aprendia o que aquele sentimento podia fazer com ela. Era tudo desconhecido e, pelo menos daquela vez, o desconhecido estava guiando os seus instintos.
Mais importante do que se proteger, era proteger a própria Sara. Nyssa a embalava em todas as noites que os pesadelos do naufrágio de Sara (e que ela ficara tomando conhecimento bem depois do relacionamento começar) a atormentavam, era a própria Nyssa quem desaparecia com os olhares desejosos que alguns homens da Liga lançavam a Sara e isso incluía ameaças e, até mesmo, ferimentos... Nyssa sabia que estava deixando cada vez mais claro o quanto Sara importava para ela, mas não conseguia conter.
Chegara ao ponto em que tanto temia: não conseguia imaginar a sua vida sem Sara. Era uma realidade totalmente alternativa a que vivia agora e, conforme Nyssa permitia que seu amor crescesse e transbordasse pelo seu corpo, suprimindo a agressividade e a frieza que inebriavam sua alma até então, a própria Sara se tornava mais forte e temida pelos demais.
Nyssa observava aquele crescimento com orgulho. Toda vez que Sara se impunha em uma reunião ou derrubava alguém no galpão, Nyssa sentia seu coração aumentar proporcionalmente ao sorriso que dava. Sara era uma guerreira por sua causa, a loira só conseguira enfrentar os fantasmas do passado por causa de sua intervenção.
Nyssa, imperceptivelmente, criara a Sara que, naquele momento, atacava seu estômago, fazendo-a recuar. De certa forma, possuía certo direito por ela. Nyssa não era dona daquela alma, como era de tantas outras na Liga, mais importante que isso, acreditava que aquele coração lhe pertencia. E o coração, morada dos sentimentos mais intensos e incontroláveis, parecia ser mais importante do que as almas que possuía. Ou talvez fosse apenas a ideia de possuir Sara que a agradava.
– Tudo bem, eu me rendo. Alguns golpes a mais e eu acabarei perdendo, de qualquer forma. — Sara murmurou cansada, jogando a adaga aos seus pés e apoiando-se em seus joelhos para respirar, com dificuldade. Nyssa sorriu de lado e caminhou até ela, afagou as costas que tremulavam e estavam molhadas de suor. A morena abaixou a cabeça e beijou os cabelos loiros, dizendo brincalhona:
– Não deveria se render tão fácil, Ta-er al-Asfer... Sabe que seu inimigo não se cansará enquanto não lhe derrubar.
– Entretanto, meus inimigos não me deixarão acordados até tarde, não é? — Sara contra atacou com uma resposta repleta de malícia e segundos significados. Nyssa não pode deixar de retribuí-la com o cerrar de seus olhos, nem mesmo escondeu o escurecimento deles diante do desejo.
Sara ainda a deixaria maluca. Com todo aquele ar inocente, as bochechas coradas e os olhos azuis que brilhavam felizes, satisfeitos, leves... Mal conseguia acreditar que aquela Sara que, naquele instante, brincava com as palavras e as deixava cheias de significados no ar, era a mesma que chegara quebrada e desacreditada à Liga.
Sara era algo do qual Nyssa conseguia se orgulhar. Talvez, a única coisa da qual ela se orgulhava. Aliás, Sara era a única em muitas coisas na vida de Nyssa. A única pela qual se importara. A única que ela deixara entrar em sua vida. A única que ela amara.
Nyssa foi surpreendida por lábios úmidos tocando os seus. Sara aproximou seus corpos e segurou a sua cintura, enquanto a própria Nyssa afagava-lhe a sua nuca e deixava-se levar para a irracionalidade que Sara sempre trazia para a sua alma... Mordeu o lábio inferior da loira, para que ela não se afastasse e recebeu um sorriso brilhante em troca. Estava prestes a aprofundar o beijo quando um pigarro alto e repleto de superioridade as interrompeu.
Nyssa abriu os olhos e engoliu em seco, Sara fez o mesmo que ela, exceto que olhou para a plataforma logo acima delas e sibilou:
– Olá, mestre.
Ra’s Al Ghul observava as duas com a expressão impassível. Nyssa virou-se lentamente para o pai e ela, mais acostumada com a inexpressividade do homem, conseguiu ler nos olhos dele todo o desgosto que ele passava. As mãos dele estavam fechadas no punho de seu sabre e pareciam tão duras e tão fortes... Ele sim era o demônio.
Dentro da alma dele existia a obscuridade e a escuridão que, um dia, quase dominaram Nyssa. E ele, um dia, orgulhara-se da herdeira que possuía. Mas, naquele momento, o olhar de Ra’s Al Ghul não era nada benéfico para as duas.
Nyssa afastou-se abruptamente de Sara que franziu a expressão para ela. Em seguida, Ra’s agitou a capa em volta de si e desceu a plataforma, caminhando para a saída do galpão. Em silêncio, a herdeira caminhou atrás dele com Sara em seu encalce. Porém, Al Owal parou entre elas e murmurou:
– Apenas a herdeira, Ta-er al-Asfer.
Sara não fez menção de desacatar a ordem. Parou abruptamente e apanhou a adaga que Nyssa a estendia, agitando-a habilmente entre os dedos, provocando risos em Al Owal. Nyssa os deixou para trás e, pela primeira vez, caminhou trêmula em direção ao seu pai.
Quando saiu do galpão, os ventos das montanhas do Tibet castigaram seus ombros desnudos. Nyssa sabia que o tremer de seus membros nada estava relacionado com o relevo e clima do local. A visão das costas de seu pai a fizeram engolir em seco, Ra’s chutou algumas pedras, à beira de um dos muitos abismos de Nanda Parbat, e murmurou neutro:
– Você sabe por que está aqui, Nyssa.
Nyssa não respondeu, caminhou até a beira do abismo e postou-se ao lado do pai. Enquanto Ra’s representava toda a superioridade de um líder insatisfeito, Nyssa encontrava-se acanhada e temerosa, com os braços juntos ao corpo e a cabeça baixa, denotando a sua culpa sem que fosse necessário referir-se a ela.
Imperceptivelmente, Ra’s movimentou-se e apanhou o braço da herdeira, jogando-a no abismo. Nyssa assustou-se, pensou que fosse cair, mas ele segurava seu braço firmemente. Os olhos dele, escuros e frios, a encaravam com a expressão finalmente desgostosa e mostrando o lado maléfico do pai, aquele que Nyssa jamais vira. Ele chacoalhou o corpo de Nyssa perigosamente no abismo e esbravejou:
– Em outras ocasiões, você não receberia esse avanço sem revidar. Você não é mais a mesma, Nyssa! Essa mulher vai lhe destruir, de dentro para fora, arrancando qualquer coisa que você possa se segurar para sobreviver!
Sem dizer mais nada, Ra’s a abandonou a beira do abismo. Nyssa segurou-se perigosamente aos cascalhos e pedras que escorregavam em seus dedos.
Quando finalmente conseguiu voltar ao chão firme e desabar no chão, ela socou a terra em suas mãos e, encarou as costas de seu pai. Ra’s parou abruptamente ao lado de Al Owal, que observava a cena surpreso, e esbravejou por cima dos ombros:
– O que me preocupou não foi lhe jogar do abismo, Nyssa... Você jamais cairia sem lutar. O que me preocupa é que você está caindo e caindo, mas não quer segurar em nada que lhe afaste dela.
Nyssa olhou para as duas silhuetas masculinas que desapareceram entre as montanhas, no exato instante que outra figura, menor e feminina, correu em sua direção. Sara a levantou e a apoiou, olhou em seus olhos e sôfrega, resmungou:
– Se quiser, eu desapareço de sua vida e nunca mais volto. Não quero ficar entre você e seu pai.
Nyssa não a respondeu, apenas avançou em direção aos lábios de Sara e beijou-os vorazmente.
Seu pai dera um aviso inútil. Ela mesma sabia que já caíra há muito tempo, Nyssa já desbravara metade de seu inferno e não seria agora que voltaria atrás.
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