Notas iniciais
Boa noite, pessoal! Como vocês estão? Muito obrigada pelos comentários no capítulo anterior. Devido à faculdade e a ausência de tempo, não consegui respondê-los... Mas eles me encheram de felicidade! Continuem com o feedback

PARTE III

“No matter where you are, I’ll always thinking of you... Because, only you can set me free! So, hold me close just like the first time, show me how it used to be...”

(Only You, Hurts)

2010: Nanda Parbat

Nyssa observava a luz do sol desaparecer por entre às imensas montanhas que circundavam a cidade de Nanda Parbat. A noite logo chegaria e, pelo visto, seria mais uma noite sem a presença dela junto à Liga.

Sabia muito bem que não deveria estar tão preocupada, muito menos deveria estar tão ansiosa para a volta dela... Mas quando se tratava de Sara, ou melhor, de Ta-er al-Asfer... Não havia muita coisa que fizesse sentido para Nyssa.

Depois de mais um ano convivendo juntas e, principalmente, viajando juntas, Nyssa já estava cedendo à tentação e quase acreditava que o que sentia por Sara ia muito além de qualquer amizade... Não fora tradicional quando começara e não era agora. Pelo contrário, era muito mais intenso e muito mais forte do que antes.

A proximidade não acabara com a necessidade que Nyssa tinha em relação a Sara. Já não escondia mais a preocupação, nem os sorrisos e, muito menos, o desejo. Nyssa perdera essa batalha há muito tempo, só não sabia se, em algum ponto do caminho, desistira de lutar ou simplesmente fora derrotada por seus sentimentos.

Nyssa vivia tudo ao limite, sua existência sempre estivera ameaçada, desde que crescera e se entregara de vez aos ensinamentos do pai... Era irônico o fato de que sua maior fraqueza residia em outra pessoa e não nela mesma. Nyssa ficava estranhamente frágil quando estava próxima a Sara, e ela sabia disso, tinha plena consciência de que seus sentimentos por Sara quase chegaram a destruir o planejamento de alguns dos alvos que as duas haviam assassinado juntas.

E mesmo assim, naquele momento, sozinha na escuridão de seu quarto em Nanda Parbat, Nyssa chegava a mais uma conclusão assustadora: era ainda mais frágil quando Sara estava distante dela. A solidão a assustava porque já não era mais acostumada à presença de Sara, mas necessitava que ela estivesse próxima.

Era a primeira vez que Sara saía sozinha. Nyssa não duvidava das habilidades dela, Sara era uma das mais mortais dentro da Liga, até mesmo acreditava que podia perder em combate para ela... Ela temia que o passado de Sara falasse mais alto do que o presente. Nyssa, de forma egoísta e até mesmo cruel, temia que não tivesse distorcido o bastante da alma da outra e que, dessa forma, Sara ainda estivesse apta para voltar a sua antiga vida.

Nyssa queria que realmente tivesse roubado a alma de Sara a ponto de ela não mais se encontrar longe da Liga. Porque era realmente dessa forma que se sentia, era doentio, frágil e irracional... Mas aquilo parecia o mais próximo do amor que Nyssa experimentara.

Antes, o simples pensar naquele sentimento a assustava e ela o repelia, procurando disfarçá-lo com uma amizade sincera e leal... Mas as coisas nunca começaram dessa forma para elas. Só que nunca fora destinado a ser daquela forma. No momento em que olhou pela primeira vez para Sara, Nyssa selou a sua maldição.

Ela, que deveria procurar e carregar almas para um inferno negro e sombrio, selara seu próprio destino e desencadeara a sua própria maldição. Um caminho sem volta, uma travessia tão difícil disfarçada de um sentimento que, para qualquer outra pessoa no mundo, seria simples e benfeitor. E que, no caso dela, era confuso e doentio e junto com ele trazia somados o ciúme, a solidão, a dependência e, em muitos casos, a fúria.

Os papéis se inverteram. Nyssa estava frágil enquanto Sara detinha o poder. Sara era a dona de sua alma e seu demônio particular, a sua tentação, a qual ela não mais queria negar... Nyssa não era tão forte. Todo demônio, afinal, possuía seu inferno particular.

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Nyssa adormecera em sua poltrona em frente à janela. Porém, seus sentidos aguçados já estavam acostumados a continuarem ativos, mesmo quando ela adormecia. Já era madrugada quando ela acordou com discretos e solitários passos no corredor. Apressada, enrolou-se em seu robe vermelho e levantou-se.

Seu coração acelerado, sua respiração totalmente fora do compasso e seu corpo palpitava. Estava ansiosa ao abrir a porta e soltou um suspiro aliviado quando viu a silhueta familiar na porta do quarto em frente ao seu. Nyssa, sem saber como começar a conversa, pigarreou e perguntou o mais impassível que pode:

– Como foi?

– Alguns problemas com os seguranças dele, mas nada que não cure com o tempo. — Sara respondeu com um sorriso discreto, Nyssa mal pode enxergá-lo devido à escuridão do corredor, porém, ela conseguiu ver a camisa branca de Sara que estava tingida de vermelho. Antes que pudesse se conter, já estava próxima o bastante para segurar-lhe o braço e observar o ombro, perguntando afoita:

– O que exatamente aconteceu, Sara?

– Não é nada sério, Nyssa. Eu apenas perdi a concentração em determinado momento e acabei recebendo um tiro... Nada de mais. — Sara respondeu evasiva, um pouco envergonhada, até. Porém, Nyssa não a deixou se afastar e manteve-se firme ao segurá-la. — De verdade, eu não estou sentindo dor alguma.

– Mas ainda assim... Você sangrou muito, Sara. Deveria ter parado para reparar isso. — Nyssa bronqueou, sua voz tinha um leve tom de desespero, mas ela estava bastante segura quando empurrou Sara para dentro do quarto e foi ao banheiro atrás dos materiais necessários. — Você ao menos removeu o projétil?

– Claro que sim, consegui remover em meio a uma chuva de balas... — Sara resmungou desgostosa, sentando-se em sua cama, ela fez uma careta de dor diante de um movimento brusco que não passou em branco para Nyssa. — Meu treinamento foi bom o bastante para me fazer entender que uma bala é melhor fora do que dentro do corpo.

Sara deu um sorriso brincalhão que, sem esforço algum, acabou por destruir qualquer que fosse a tentativa de Nyssa em permanecer séria ou preocupada. Acabou sorrindo também, logo após os olhares terem, novamente, se cruzado. Nyssa a observou por alguns segundos antes de se ajoelhar em frente a ela e, lentamente, remover a sua camisa.

As pontas dos dedos de Nyssa queimavam a cada toque na pele pálida de Sara. Podia sentir os olhos azuis a observando enquanto removia a atadura. Quando limpou a ferida, Sara não lamuriou ou reclamou de dor, permaneceu calada, ainda observando-a. Nyssa começou a se sentir desconfortável, mas não reclamou.

Acreditava que era a única que via na outra um objeto de atenção, mas os olhos de Sara diziam o contrário. E, pela primeira vez na vida, Nyssa entendeu o que um olhar podia dizer na ausência das palavras. Entendeu todos os significados que Sara lhe passou, também percebeu as mudanças corporais no corpo da outra, como o pulso mais acelerado e o ofegar da respiração... Mas mesmo assim, não acreditou.

Não acreditou porque parecia irreal demais. Na verdade, bom demais para uma pessoa como ela. Ainda existia dentro de si um alerta silencioso de que aquilo tudo podia ser apenas uma peça pregada pelo destino ou a solidão de Sara falando mais alto... Preferiu ignorar e ficar calada, mais uma vez.

A preocupação latente era mais fácil de lidar do que uma situação como aquela.

Nyssa terminou de suturar Sara sem dizer absolutamente nada. Suas mãos estavam, como em diversas outras vezes, sujas com o sangue dela. Limpou-as e levou o material usado ao banheiro. Quando voltou ao quarto, ainda havia uma névoa quente pesando sobre elas. Nyssa foi covarde e preferiu não falar, caminhou rapidamente até a porta e só não saiu devido ao toque em sua cintura.

Escutou a respiração entrecortada de Sara em suas costas, sentiu a aproximação e, logo em seguida, escutou a voz afoita de Sara pedir:

– Você não precisa voltar ao seu quarto, senão quiser.

Nyssa virou-se abruptamente para ela, em um misto de surpresa e descrédito. Novamente, o sorriso estava na face de Sara, mas muito mais tímido e receoso. Permaneceu a olhá-la por alguns segundos até sentir a respiração de Sara tornar-se a própria e ela invadir seu espaço pessoal...

E Nyssa entregou-se. Ela olhou nos olhos de seu demônio e entregou-se àquele inferno azul e tranqüilo. Sem pestanejar, sem questionar

Notas finais
É por causa de capítulos como esse que essa fanfic é um dos meus projetos mais ambiciosos :X Foi extremamente difícil escrever, espero que eu tenha conseguido passar todo o sentimento entre elas... Comentem, por favor! Até a próxima, FerRedfield