A Demon's Fate
1 Parte I
Notas iniciais
PARTE I
“My heart was born out the fire, I lost love a thousand years ago and still I can’t find her. Now, I don’t love like I used to...”
(Dark Star, Jaymes Young)
2008: Norte da China, Lian Yu.
– Algum de vocês pode informar onde atracamos?
A voz feminina, enérgica e mandante dialogava um inglês carregado, repleto de sotaque que fez os demais tripulantes da embarcação olhar uns para os outros. Mais do que o medo, havia a vergonha em seus olhos. Nenhum ousou responder, apenas abaixaram a cabeça, esperando que o próximo corpo que caísse fosse ao seu lado e não o seu próprio. Nenhum corpo caiu, pelo menos, não naquele momento. Foram ouvidos passos, por outro lado.
A figura feminina, dona da voz, caminhou entre os homens. A postura ereta, os ombros tensionados e o andar sem qualquer hesitação. A mão direita apertava o arco com firmeza, enquanto o punho esquerdo fechava-se em torno do cabo da adaga preso à perna. Os olhos eram negros e pareciam trazer o demônio dentro deles. No mais, seu corpo e seu rosto eram um mistério, o manto e capuz negros mantinham sua aparência em segredo.
O mistério pairava naquela mulher. Mais do que isso, a frieza e a crueldade embriagavam toda a aura ao redor dela. E aqueles marinheiros sabiam disso. Eles podiam sentir.
– Eu não fiz uma pergunta retórica. Onde atracamos?
A voz ecoou na escuridão bruxelante que envolvia a sala. Mais uma vez, não houve qualquer resposta, apenas o trabalhar incessante das máquinas do navio. A mulher não demonstrou emoção alguma, permanecia intocável enquanto caminhava. Um homem trajando as mesmas vestes que ela aproximou-se e murmurou algo em seu ouvido, apontando para um homem trêmulo e encolhido, sentado às sombras da sala de máquinas.
A mulher apenas acenou com a cabeça e respirou fundo. Em uma fração de segundo, os membros do corpo da mulher se mexeram e, no instante seguinte, nas sombras da sala de máquinas, um corpo caía ao chão com uma flecha no olho direito.
Apenas um murmúrio de surpresa foi escutado na sala, depois, nada mais foi ouvido além de resmungos chorosos ou respirações entrecortadas.
Aquela mulher adorava essa sensação de calar o mais corajoso dos homens através do medo. Pois o medo falava através do silêncio e ela podia senti-lo tão fisicamente quando o arco que segurava. Todos a temiam naquela sala, nenhum deles seria capaz de negar algo a ela. Ela os dominava. O poder lhe encheu por completo.
Esperou até que o silêncio se transformasse mais em covardia do que em medo.
– Poupem meu fôlego ou eu lhes darei um incentivo a mais.
A voz soou como um trovão naquele momento, não pelo tom e sim pela ameaça silenciosa que havia naquelas palavras. Os homens voltaram a se encolher uns sobre os outros e ela, silenciosamente, revirou os olhos diante da covardia daqueles homens. Nenhum deles era digno de viver naquele momento. Deu ás costas ao grupo e estava prestes a desaparecer nas sombras quando, enfim, uma voz finalmente falou:
– Nós realmente não sabemos ao certo, minha senhora. Mas, creio eu que estamos próximos a uma ilha chamada Lian Yu, espero que não por que...
– Porque ela significa “Purgatório” em chinês. — A mulher completou com a voz baixa, rouca e que, através do véu que lhe cobria a boca, tinha um sorriso nos lábios. Com a sua resposta, estava satisfeita. Ela conhecia os rumores a respeito daquela ilha e estava preocupada, não com os perigos que podia supostamente enfrentar, mas sim, pelo desvio em sua volta para casa.
A tempestade que ela julgava ser algo normal em sua travessia pelo mar revelou-se um golpe do destino.
Seu corpo tornou a se virar em direção dos homens. Dessa vez, seus olhos flamejavam, o brilho que havia neles era quente, quase louco... Ela baixou o manto e revelou longos cabelos negros e ondulados. Também removeu o véu e o suspiro coletivo e surpreso dos homens condenados lhe fez abrir um sorriso de lado.
Como uma figura tão bela podia trazer tantos demônios no olhar?
A mulher olhou de lado para seus companheiros, quatro no total. Em menor quantidade, é claro. Mas superiormente melhores em todos os aspectos quando comparados àqueles pobres homens que se encolhiam diante de seus olhares. Ela respirou fundo e desembaiou a adaga e arremessou em direção a um dos homens, esse caiu por terra quando a mesma acertou sua aorta. Ela olhou para seus homens e ordenou:
– Matem todos, deixem somente o necessário para nos guiar de volta para casa!
A gritaria começou e, por entre as vozes desesperadas, ela escutou uma frágil ameaça:
– Sua alma vai ser despedaçada naquela ilha!
– Eu sou Nyssa al Ghul, filha de Ra’s al Ghul e herdeira do demônio. Não me resta alma alguma para ser despedaçada no purgatório! — Foi o que ela respondeu de volta, com um sorriso maníaco nos lábios bem desenhados.
A chama fugaz e feroz em seus olhos escuros foi a última imagem que aquele homem viu em vida.
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A verdade era que tudo que escutara a respeito daquela ilha só lhe deixou ainda mais curiosa para ver o que de fato existia naquele local. Se, de fato, Nyssa al Ghul possuísse uma alma, esta era gananciosa, sempre em constante estado de busca, jamais contentando-se com o que lhe era facilmente entregue.
Estava cansada e queria logo chegar a sua casa, mas a imagem daquela ilha, visível através da janela da cabine do antigo capitão só inflamou sua curiosidade. E, a partir dessa ânsia pelo desconhecido, Nyssa e dois de seus homens atracaram na praia quando já era noite.
O céu estava estrelado, mesmo diante da presença das pesadas nuvens ao redor do pequeno pedaço de terra no meio do mar oriental. A umidade no ar estava pesada, tornando a caminhada pela areia molhada desafiadora. À frente do trio, apenas as árvores que contornavam a praia, iluminadas pela luz dourada do lampião que carregavam.
Nyssa caminhava mais atrás da dupla que seguia à frente, sua posição na hierarquia da Liga permitia que outros morressem por ela, não que ela achasse que isso fosse de, alguma forma, honrável. Seu caminhar não mudara desde que estivera no navio, seus ouvidos já treinados estavam atentos a qualquer som que fosse feito no silêncio daquela noite no meio do nada enquanto a pupila de seus olhos estava dilatada, procurando enxergar em meio à escuridão.
O primeiro ruído de passos a amassarem folhas pelo caminho fez com que o trio parasse. Os três rapidamente tomaram seus postos e a formação tomada cobria todos os lados, evitando um ataque surpresa. Nyssa apanhou o arco e a flecha em sua aljava, mirava em direção à floresta, sem pestanejar ou sequer tremer.
Tão mortal quando o próprio demônio.
A primeira visão que Nyssa teve fez com que, lenta e instintivamente, ela baixasse o arco e a flecha. Por entre a escuridão das árvores, que inclinavam pelo vento, uma figura humana, pequena e pálida caminhou através das folhas. Mal os pés da debilitada figura tocaram a areia, ela desabara. Antes que o corpo caísse, Nyssa conseguiu ler, nos lábios brancos e rachados, o pedido sôfrego de socorro.
E diferente dos pedidos de misericórdia que escutara no navio durante o massacre, aquela manifestação sem som era intensa demais para ser ignorada.
Nyssa largou o arco, mas desembaiou a adaga e andou na direção da pequena figura que, naquele momento, nada mais era do que um corpo desabado sobre a areia. A mulher aproximou-se lentamente e, diante da imobilidade da sua provável ameaça, agachou-se junto ao corpo. O corpo remexeu-se e o rosto virou em sua direção, Nyssa até ergueu a adaga para empunhá-la, porém, seu movimento perdeu-se na metade do caminho.
Olhos azuis, claros e amedrontados, encontraram os seus. Nyssa afastou-se lentamente enquanto observava o pequeno e frágil corpo erguer-se, revelando a figura de uma jovem loira, machucada e pálida. Seus movimentos tornarem-se erráticos, ela não conseguia determinar se atacaria ou se ameaçaria, suas mãos e pernas pareciam atadas. Nyssa observou a pequena tentar tirar os cabelos loiros dos olhos, as mãos estavam trêmulas até que, inconscientemente, Nyssa realizou essa tarefa por ela.
O primeiro toque fez sua mão sobre o cabo da adaga fraquejar e apoiar-se na areia da praia. As duas ainda se olhavam, a loira ofegou e tossiu diversas vezes, tentando falar:
– Socorr...!
– Shhh... Não fale. — Nyssa ordenou séria, tentando ignorar a preocupação que crescia dentro de si. Suas mãos tomaram o rumo dos braços da desconhecida, impulsionadas por uma energia que ela não conhecia. Com força e firmeza, ergueu o corpo da jovem que, mal ficara em pé antes de desabar novamente em seus braços. Nyssa sentiu a frieza da pele dela em contato com a sua e nem percebeu quando seus apertos tornaram-se mais fortes, a jovem agarrou-se em sua cintura ao mesmo tempo, aconchegando-se o melhor que pode em seu improvável abraço. — Ela está desnutrida e desidratada...
– Você não pensa em levá-la conosco, não é? — Al Owal, com sua voz grave e respeitável, até mesmo retirou o capuz diante da surpresa que trazia em sua face. Nyssa olhou dele para a figura trêmula em seus braços que, diante do erguer da voz de seu companheiro, encolheu-se mais ainda de encontro ao seu corpo. Instintivamente, Nyssa afagou-lhe os cabelos, procurando respostas para perguntas que nem ela mesma sabia responder.
Ela jamais conhecera algo semelhante ao que estava a sua frente naquele momento. Aquelas mãos envolvendo sua cintura enviavam mensagens tão codificadas para seu interior obscuro que ela mal conseguia interpretá-las. E aquele olhar fora mais intenso que qualquer súplica que ela já escutara em toda a sua vida... Pela primeira vez, algo lhe fizera parar em meio ao ato de matar.
E Nyssa sequer sabia o que a fizera parar.
– A Liga não faz prisioneiros.
Al Owal tornou a falar, dessa vez, muito mais incisivo do que antes. A expressão do homem estava indecifrável, mas Nyssa enxergou a chama nos olhos dele, a mesma que ela já vira diversas vezes em seus próprios. Mas, naquele momento, os olhos de Nyssa estavam muito além da chama, uma estranha calmaria escura instalara-se em seus orbes, por mais que seu aperto ao redor do corpo da desconhecida tornasse ainda mais intenso e forte.
A mão direita de Nyssa apoiou-se sobre o cabo da adaga em sua perna. Os olhos de Al Owal acompanharam seu discreto movimento e ele sorriu de lado diante da audácia da jovem mulher. Os dois olharam-se mais uma vez antes do homem lhe dar as costas e dizer solene:
– Ela é sua responsabilidade, herdeira. As conseqüências futuras pesarão em seus ombros, independente de quais sejam.
Nyssa não respondeu, apenas afastou-se com a desconhecida em seus braços. Quando deu às costas aos homens que lhe acompanhavam, silenciosamente esperou que escutasse o zunido de uma flecha atirada as suas costas. Mas esse som jamais veio.
Por outro lado, o corpo trêmulo em seus braços delimitava uma tênue linha que, naquele momento, lhe separava em metades. As palavras que um dos antigos homens do navio lhe dissera ecoaram em seus ouvidos assim que ela chegou à rampa que levava à embarcação.
“Sua alma será destroçada naquela ilha!”
Nyssa fechou os olhos e procurou abolir qualquer vestígio daquela mensagem em sua mente, porém... Sentiu novamente um frágil aperto em sua cintura e olhou para baixo, os olhos azuis encontraram os seus novamente e estavam muito mais claros com a luminosidade artificial do navio. A moça lhe sorriu, frágil e sibilou rouca:
– Obrigada.
Nyssa abrandou sua expressão e acenou, lentamente, para ela. Em seus braços, a desconhecida dormiu enquanto ela própria ficava presa no meio-termo de sua existência, em algo que ela desconhecia. Não era nem a assassina, muito menos, a filha de Ra’s al Ghul.
Naquele momento, era, ironicamente, uma salvadora de almas e não àquela que carregava as mesmas para o inferno.
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