A Dama Branca
13 Noite Inquieta
Notas iniciais

A chuva ainda persistia lá fora, ouvir o som da mesma era realmente bom, me deixava relativamente calma. O trajeto da cidade até a mansão parecia que não ia ter fim. Não sei se essa sensação era causada pelo meu desconforto por estar perto de Ayato após o acontecido, mas até que poderia ser por isso.
Depois de uma eternidade, segundo a minha percepção, chegamos até nosso destino. Subaru parou o carro em frente à entrada principal da mansão, abriu a porta do motorista e saltou rapidamente do carro. Ele começou a caminhar quando de repente desapareceu diante dos meus olhos. Aquilo me deixou um pouco surpresa, eles realmente tinham muitos truques na manga. Porém a sensação de ser surpreendida logo foi substituída por uma pontada de desespero e vergonha. Eu estava sozinha com o Ayato, e isso não era bom. O que realmente me incomodava era o fato de estarmos sozinhos depois de ele ter notado, com tanta rapidez, o que eu estava cheirando o blazer dele, e relembrar aquela situação me deixava com mais vergonha.
Ayato abriu a porta do carro, em seguida, abriu o guarda-chuva que carregava consigo, e por fim parou diante da porta. Provavelmente ele estava esperando eu sair. Por um lado eu não queria encará-lo, mas por outro eu não queria deixa-lo esperando, já que ele se portou como um cavalheiro ao abrir o guarda-chuva e esperar por mim. Sei que no fundo esse cavalheirismo deveria ter algum tipo de interesse, mas resolvi não pensar muito sobre isso. Inspirei na tentativa de tomar um pouco de coragem, e comecei a ajeitar o blazer que ele me emprestara.
— Ande logo, Marshmallow! Não podemos ficar a noite toda aqui, até porque temos coisas mais interessantes para fazermos com o restante da noite. – disse ele com seu tom travesso de sempre.
Aquelas palavras me fizeram estremecer um pouco e meu coração deu uma leve acelerada. Sei bem o que ele quis dizer com “coisas interessantes”, e não era algo agradável, não para mim.
De repente Ayato esticou sua mão, acredito que com a intenção de me ajudar a sair do carro. Sem pensar muito no que ele pretendia com aquela atitude, terminei de ajeitar o blazer, peguei sua mão e sai do carro.
Estar diante dele me deixava desconcertada, minha respiração e meu coração estavam levemente acelerados, meu rosto estava começando a ficar quente. Prendi o blazer com minhas duas mãos para me certificar de que nada ficaria a mostra. Sei que Ayato gostava de me deixar sem jeito e eu não daria esse gostinho pra ele, não mais uma vez. Decidida, respirei fundo e resolvi me focar na chuva, pois ela me deixava um pouco calma. Então estiquei a mão esquerda, de forma que ela fugisse da proteção do guarda-chuva, então pude sentir o toque suave, gélido e úmido da chuva. Naqueles instantes em que meu corpo podia sentir o toque dela eu realmente me sentia mais calma, eu só não entendi muito bem o porquê.
Assim, caminhamos um ao lado do outro em silencio até porta. Ayato então abriu um dos lados da porta dupla, cedeu passagem para que eu entrasse, em seguida ele fechou o guarda-chuva, entrou e por fim fechou a porta.
O hall de entrada estava totalmente emerso na escuridão, era realmente difícil de enxergar ali. Cerrei meus olhos na esperança de conseguir enxergar melhor, mas de nada adiantou. Eu só conseguia ver as sombras dos móveis, do lustre acima de nós e da grande escadaria.
— Posso seguir sozinha daqui em diante. – disse na tentativa de fazer com que ele não me acompanhasse até o quarto.
— Faço questão de leva-la até o quarto... – disse ele insistindo – E quem sabe eu não fico por lá também!
Nem pensar, eu não quero isso! Se bem que meus desejos não importavam pra nenhum deles, eles só me viam como um alimento ambulante. Ao me lembrar deles me dei conta de que não parecia ter ninguém em casa. Será que eles teriam ido para o colégio?
— O-onde estão os outros? – indaguei um pouco receosa com o que ele responderia.
—Acho que devem ter ido ao colégio. – respondeu ele olhando para o alto como se estivesse pensando, mas imediatamente pude ouvir ele sorrindo – Ou seja estamos sozinhos... podemos aproveitar, não acha?! – disse ele por fim.
Aquele maldito sorriso, eu não precisava ver pra saber qual era a característica daquele riso, e quais intenções ele indicava. Ayato certamente tentaria de todas as maneiras possíveis entrar no meu quarto, se é que posso chamar de meu. Como se não bastasse eu estar semi-nua perto dele, ainda tinha que ter mais essa. Tudo realmente conspirava contra mim, e a favor dele, maldito destino. Infelizmente, meu descontentamento com os eventos que estavam acontecendo não conseguiu substituir meu nervosismo e inquietação por estar naquela situação. Aquela situação e o depois o que ele disse, fez meus batimentos cardíacos e respiração acelerarem ainda mais, de leve a moderado.
— Vamos logo, quanto mais rápido chegarmos ao quarto melhor! – disse ele agarrando meu braço esquerdo me obrigando a subir as escadas.
Por mais que eu não quisesse ele estava me obrigando, infelizmente ele era mais forte do que eu, e se eu me negasse a fazer o que ele falava, com certeza ele me pegaria no colo, e me levaria até o quarto, por mais que eu me debatesse. E isso seria muito pior do que eu simplesmente caminhar até lá. Pois, se eu chegasse até o quarto andando eu poderia arrumar um jeito de acabar com os planos dele. Mas nenhuma ideia de como interceptar os planos dele vinha a minha mente.
Os corredores eram mais iluminados pois haviam janelas, e uma vez ou outra os trovões iluminavam o caminho. A medida que íamos andando mais nervosa eu ficava. Bem que aquele corredor podia ser infinito, tal qual foi a nossa volta pra mansão. Ou pelo menos podia acabar somente quanto eu tivesse alguma ideia em mente. Mas infelizmente, nada me favorecia, não importando a situação, eu sempre acabo me dando mal.
Então, quando eu menos esperava lá estávamos nós em frente a porta do quarto.
Eu não ia abri-la, não enquanto ele estivesse ali.
— Não vai abrir a porta? – indagou ele apontando para a porta com a mão.
Fiquei sem resposta, eu estava nervosa demais pra responder, e se eu respondesse com certeza eu gaguejaria, o que seria pior. Então eu simplesmente fiquei fitando a maçaneta, na esperança de que ela nunca se abrisse.
De repente ouço um estalo da porta se abrindo, e em seguida ouço uma voz feminina.
— Você veio me ver, Ayato? – indagou a voz.
Não consegui reconhecer a voz, mas acho que já tinha a ouvido antes. E após a voz, a porta se abre e me vejo na frente de Yui. Ela estava o quarto em que eu deveria estar. Não entendi muito bem a situação, mas até que era algo positivo, pelo menos eu poderia ficar ali com ela ao invés de estar com Ayato. Tenho certeza de que ela não tentaria sugar meu sangue, e além disso eu realmente queria ser amiga dela, ela me parecia ser uma excelente pessoa, assim como a número 05.
— O que significa isso, Yui? – disse Ayato enfurecido.
Yui olhou pra mim parecendo estar tão confusa quanto eu. E enquanto olhava para mim ela fitava o blazer, e isso me deixava ainda mais desconfortável. Então em uma manobra defensiva, fechei o máximo que pude o blazer e me encolhi.
— Achei que ela não voltaria mais, então troquei de quarto. – disse ela virando de maneira que pudesse olhar o quarto, e depois se voltou para nós – Eu realmente gosto desse quarto, me traz boas lembranças. – disse por fim olhando para Ayato e esboçando um sorriso sincero.
Não entendi bem o porquê da fúria de Ayato. Sua raiva parecia a de um Leão ferido, quando está de frente com o que lhe feriu.
O que teria acontecido entre eles? Essa dúvida me dava um aperto estranho no peito, chegava a doer, e devido a dor tentei afastar tais pensamento de mim.
Eu parecia estar bem por fora daquela situação, mas por um lado eu parecia ser o pivô de tudo aquilo, porque provavelmente Ayato estava nervoso pela forma que ela se apossou do quarto.
Mas eu não ligava pra aquilo, não era motivo pra tanta raiva, e isso só reforçou ainda mais minha teoria do Leão. Eu tinha que fazer algo pra amenizar aquela situação, ou quem sabe revolvê-la.
— S-s-sem problema... – disse tentando ignorar um pouco a tensão da situação. – eu fico no quarto com você, pode ser? – terminei olhando para Yui a espera de uma resposta positiva.
Acho que eu estava sendo inconveniente, mas foi o único jeito que eu vi de tentar amenizar a situação.
— Nada disso! – exclamou Ayato ainda furioso. – Você vem comigo! – concluiu ele me agarrando pela cintura e me colocando em seu ombro esquerdo.
— Nããão, Ayato! – gritei batendo meus punhos em suas costas. – Para, por favor! Me solta!
Olhei pra Yui na esperança de que ela me ajudasse, ela abriu a boca para dizer algo mas depois ela olhou para baixo e voltou pra dentro do quarto.
Comecei me debater, bati meus punhos em suas costas e minhas pernas em seu tórax. Aquilo era uma situação absurda, eu não podia permitir que isso acontecesse. Eu estava completamente constrangida pois meu traseiro estava do lado da cara dele. Pra muitos pode parecer engraçado, mas não é, não quando quem está com o traseiro pro ar é você. E pra piorar o blazer não cobria aquela parte.
— M-me põe no chão! – exclamei mais uma vez, continuando a me debater.
— Lhe garanto que se continuar com isso você vai se arrepender... – disse ele em um tom sério, e batendo levemente no meu traseiro.
Ayato estava sério, parece que o encontro com o Yui o deixou realmente abalado, mas isso não mudava o fato de que ele estava abusando da situação. Aquilo estava me deixando furiosa, meu corpo estava realmente quente, não só pela vergonha, mas pela raiva. A posição e a situação em que eu me encontrava era humilhante. E eu odeio que me humilhem, Ayato ia pagar por isso. Mas a vingança é um prato que se come frio, então por hora decidi fazer o que ele disse, e parei de tentar sair do ombro dele. Até porque não pagaria pra ver o que ele iria fazer.
Passei por lugares onde eu nunca tinha ido, definitivamente aquela mansão era enorme. Durante esse trajeto fui me acalmando. Depois de alguns minutos paramos. Me apoiei nas costas dele para ver onde estávamos, e pude notar que havíamos parado em frente a uma porta marrom escuro, e a porta parecia conter alguns detalhes talhados nela, detalhes aos quais não consegui ver claramente devido à pouca iluminação.
—Onde estamos? – perguntei curiosa.
Eu nunca tinha andado por esses lados da casa, então poderia ser um outro quarto no qual eu iria ficar.
— Esse é o meu quarto... – disse ele abrindo a porta.
— O queee?! – exclamei com um misto de nervosismo e indignação.
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