A Cura

3 Viagem para Rússia



Namjoon ajeitou Jimin cuidadosamente no assento do avião, prendendo o cinto de segurança ao redor de seu pequeno corpo. Mas o menino mal prestava atenção nisso, seus olhos brilhavam de empolgação enquanto observava pela janela, mesmo com o avião ainda parado na pista.

— Papai, eu adoro aviões! — exclamou animado, segurando seu aviãozinho de brinquedo. Ele o fazia "voar" no ar, imitando o som dos motores com a boca.

Namjoon sorriu, admirando a alegria genuína do filho.

— Eles voam bem alto, né, filho? — comentou, enquanto ajustava com cuidado a touquinha na cabeça de Jimin.

Sabia que o pequeno ficava constrangido quando outras crianças o olhavam e comentavam sobre sua falta de cabelo. E, mesmo que Jimin tentasse fingir que não se importava, Namjoon conhecia seu filho o suficiente para saber que aquilo o entristecia.

Então, sem dizer nada, apenas ajeitou a touca com carinho, garantindo que seu pequeno se sentisse confortável e seguro.

Assim que o avião decolou, Jimin era a criança mais feliz do mundo.

Seus olhinhos brilhavam enquanto observava tudo pela janela, fascinado com a forma como o mundo lá embaixo ficava cada vez menor. Ele acompanhava atento os prédios encolhendo à medida que o avião ganhava altitude, soltando pequenas exclamações de encanto a cada nova descoberta.

— Papai, as nuvens parecem algodão-doce! — dizia sempre, animado. — Será que têm gosto doce também?

Namjoon ria suavemente, admirando a inocência do filho.

Depois de toda a euforia de ver as nuvens e brincar com seu aviãozinho de brinquedo, o cansaço finalmente venceu Jimin. Com um suspiro tranquilo, ele se aconchegou no assento e logo caiu em um sono profundo.

Namjoon, aproveitando o momento de calmaria, abriu seu notebook e começou a revisar alguns documentos importantes.

Após algumas horas de voo, uma voz soou pelo sistema de áudio da aeronave.

"Senhoras e senhores, estamos nos aproximando do Aeroporto Internacional de Domodedovo, Moscou. Em breve, iniciaremos o procedimento de pouso.”

Namjoon respirou fundo, fechando o notebook. Eles finalmente estavam em solo europeu. E, com isso, mais perto da única chance que Jimin poderia ter.

Após o desembarque, Namjoon caminhava pelo aeroporto segurando Jimin adormecido em seu colo. O pequeno se agarrava a ele como um macaquinho, seus bracinhos envoltos no pescoço do pai, o rostinho enterrado contra seu ombro.

Carregar o filho enquanto manobrava as malas não era tarefa fácil, mas Namjoon sempre dava um jeito. Nada no mundo o faria soltar Jimin.

Ao se aproximar da saída do desembarque, seus olhos encontraram um homem que já os aguardava.

Era um rapaz loiro, alto e de olhos azuis, traços comuns naquela parte do mundo. Sua postura era firme, e seu olhar analítico escaneou Namjoon e Jimin assim que os avistou.

— Bom dia! — disse Namjoon em inglês.

O rapaz sorriu gentilmente.

— Bom dia, Senhor Park — O rapaz respondeu em Coreano, fazendo uma reverência.

Namjoon sorriu ao ver que o rapaz parecia falar seu idioma.

— Fala coreano?

— Sim, Senhor Ministro. Primeiramente, seja bem-vindo a Rússia. Fui designado para ajudá-lo durante sua estadia conosco. Venha comigo, os levarei para o hotel que reservamos. Precisam descansar, a viagem foi longa.

— Preciso ver o Sr. Ivanov o quanto antes!

— O Sr. Ivanov também aguarda ansiosamente para vê-lo, mas sugiro que o senhor descanse por hoje — O rapaz olhou para Jimin adormecido em seu colo — Amanhã bem cedo irei buscá-los para levá-lo à clínica do Doutor.

— Tem razão — Namjoon acariciou as costas de Jimin — Preciso cuidar do meu filho, a viagem foi cansativa pra ele.

O rapaz os conduziu até um carro preto elegante, que os levou diretamente ao hotel onde ficariam hospedados. Assim que chegaram, ele os deixou na entrada e seguiu para seus afazeres, sem muitas palavras.

Namjoon entrou no quarto e olhou ao redor. O lugar era luxuoso, com móveis sofisticados e janelas amplas que revelavam uma vista incrível da cidade de Moscou. Ele não estava ali para turismo, mas, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se feliz e esperançoso.

Carregando Jimin ainda adormecido, caminhou até o quarto e deitou o pequeno na cama, ajeitando as cobertas ao seu redor. O dia seguinte seria longo e cansativo para ele, e Jimin precisava estar bem descansado.

Namjoon sentou-se na beira da cama por um instante, observando a respiração tranquila do filho. Se tudo desse certo, aquela viagem mudaria suas vidas para sempre.

…

Na manhã seguinte, Namjoon vestia Jimin com todo o cuidado, ajeitando sua touquinha de lã para protegê-lo do frio.

— Está lindo, filho! — disse ele, ajoelhando-se no chão para ficar na altura do pequeno.

Jimin sorriu de forma doce, seus olhinhos brilhando. Então, com suas mãozinhas delicadas, tocou os cabelos de Namjoon, deslizando os dedos suavemente por eles.

— Papai, seu cabelo é tão lindo… — murmurou, baixando o olhar antes de levar a mão até sua própria touca. — Será que eu ficaria mais bonito se tivesse cabelo?

Namjoon sentiu seu coração se despedaçar naquele instante. Ele engoliu seco, lutando contra a emoção que subia à garganta. Mas não deixaria Jimin ver sua tristeza.

Sorrindo com ternura, segurou as pequenas bochechas do filho entre as mãos e acariciou seu rosto com todo o carinho do mundo.

— Você é lindo de qualquer jeito, meu amor. — garantiu, sua voz carregada de afeto.

Então, forçando um tom mais animado, acrescentou:

— E em breve, seu cabelo vai crescer e vai ficar beeeeeeem grande!

Antes que Jimin pudesse responder, Namjoon começou a fazer cócegas nele, arrancando risadas gostosas do pequeno, que se contorcia entre gargalhadas.

Era nesses momentos que Namjoon percebia o quanto cada segundo ao lado de Jimin era precioso.

— Papai! — Jimin tentava se livrar das cócegas. Ele ria sem parar.

— É o meu poderoso ataque das cócegas, eu ataco sem piedade!

— Papai, você é um bobo! — Jimin ria, tentando se recompor — Mas… papai?

— Oi, meu amor?

— Demora quanto tempo pro cabelo crescer?

— Alguns anos. Uns dois anos talvez, depende do tamanho…

— Eu quero deixar meu cabelo beeeeeem grandão, igual ao da rapunzel do desenho — Jimin deu uma risada suave — Mas eu… tenho só mais um ano de vida, então não vai dar tempo de crescer muito o meu cabelo.

Namjoon apenas o abraçou bem forte.

— Eu não vou deixar você morrer. Vou fazer de tudo pra te salvar, meu amor.

— Papai… — Jimin interrompeu, sua voz doce, mas carregada de um peso que não pertencia a uma criança. Ele olhou para Namjoon com um sorriso pequeno e triste — Está tudo bem… Eu vivi feliz e estou bem com isso. Quero que o senhor seja feliz sem mim e que descanse também. Eu dei muito trabalho para o senhor…

Enquanto falava, levou sua pequena mão até o rosto do pai, acariciando-o com carinho, como se quisesse confortá-lo.

Namjoon sentiu o peito apertar, uma dor sufocante que ele não podia permitir que transparecesse. Ele não aceitaria isso.

Segurou Jimin com firmeza e o puxou para um abraço apertado, sentindo o corpinho frágil contra o seu.

— Ainda vamos viver muitos anos juntos. Você que vai me enterrar quando eu estiver bem velhinho, ouviu bem? — disse, tentando manter a voz firme, mas seu coração estava em pedaços.

Jimin não respondeu de imediato. Apenas se aconchegou nos braços do pai, sentindo seu calor.

— Tudo bem, papai. — murmurou, sem convicção.

Ele já não tinha mais esperanças. Estava cansado.

Desde sempre, sua vida havia sido uma batalha constante. Nunca teve uma infância normal, passava mais tempo em hospitais do que em casa. O gosto amargo dos remédios, os exames dolorosos, as sessões de quimioterapia que o deixavam fraco e enjoado… tudo isso se tornou sua rotina.

E nos raros momentos em que pôde ir para a escola, o mundo lá fora também não foi gentil. As outras crianças o evitavam, olhavam para ele com medo ou pena. Algumas riam dele por ser careca, arrancando sua touquinha apenas para zombar de sua aparência. Jimin sofria com isso, mas preferia não contar ao pai. Namjoon já tinha preocupações demais.

No fundo, ele queria continuar com seu pai. Mas a vida… a vida estava doendo demais.

E tudo o que ele queria era descansar.

O telefone tocou, e Namjoon atendeu rapidamente. Do outro lado da linha, o recepcionista informou que o motorista já os aguardava lá embaixo. Sem perder tempo, ele e Jimin desceram e entraram no carro.

Namjoon sentia o coração acelerado. Aquele era o momento que poderia mudar tudo. Ele tinha fé de que Dimitri Ivanov poderia ter a cura, mas, se não tivesse… pelo menos queria dar a Jimin mais tempo. Tempo para viver de forma confortável, sem dor. Tempo para ser feliz.

O trajeto até a clínica pareceu durar uma eternidade, mas, assim que chegaram, foram prontamente recebidos e conduzidos até o escritório de Dimitri.

O ambiente era elegante e bem organizado, repleto de livros e prêmios expostos em prateleiras impecáveis. No entanto, o dono daquele espaço ainda não estava presente.

— O doutor está finalizando um atendimento de emergência. Mas logo estará aqui. — explicou o assistente, dirigindo-se a Namjoon com um tom profissional e educado.

Para tornar a espera mais confortável, ele serviu café para Namjoon e um copo de leite com chocolate para Jimin, deixando-os à vontade antes de sair da sala.

Namjoon respirou fundo, olhando ao redor. Cada segundo que passava só aumentava sua ansiedade.

Jimin, por outro lado, segurava o copo quente entre as mãos pequenas, balançando os pezinhos no sofá enquanto observava o lugar com curiosidade.

Agora, só restava esperar. Esperar por Dimitri. E pela resposta que ele poderia oferecer.

Alguns minutos depois, Namjoon brincava com Jimin quando Dimitri entrou no cômodo.

— Senhor Park! — disse Dimitri, entrando no escritório, falando em coreano pois dominava o idioma — É um prazer conhecê-lo.

— O prazer é meu, Doutor Ivanov — Namjoon se levantou e fez uma reverência.

— Não precisa dessas formalidades, meu amigo. Me chame apenas de Dimitri. Sou seu grande admirador — disse Dimitri colocando a mão em seu ombro e olhando para Jimin — E esse é o Jimin?

— Sim, Doutor Dimitri. Esse é meu filho, Jimin — Namjoon se virou para Jimin e se inclinou — Filho, esse é o Doutor Dimitri, diga oi pra ele…

— Olá, Doutor Dimitri — Jimin falou timidamente.

— Olá, Jimin. — Ele disse com naturalidade, sua voz carregando um tom acolhedor. — Você fica muito bonito com essa touca. Vou comprar uma igual para o meu filho.

Jimin ergueu os olhos para ele, curioso.

— O seu filho também não tem cabelo? — perguntou inocentemente.

Dimitri sorriu, um sorriso suave.

— Ele ainda tem… mas já está ficando bem ralinho.

Jimin piscou algumas vezes, assimilando aquela informação.

— Quantos anos ele tem?

Dimitri se acomodou no sofá, ao lado de Jimin. Já havia lido toda a ficha de Jimin, sabia muito sobre sua condição e os inúmeros tratamentos pelos quais havia passado.

— Ele tem um pouco mais de idade que você. — respondeu, observando a reação do pequeno. — completou dez anos.

Os olhos de Jimin se arregalaram de surpresa.

— Um ano mais velho que eu? — Ele abriu um sorriso empolgado.

Nunca havia conhecido outra criança como ele.

— Em breve você vai conhecê-lo, Jimin.

— Vou mostrar meus desenhos pra ele!

— Ele gosta muito de desenhar também.

Jimin sorriu abertamente e bateu palmas, animado, ansioso para conhecer o filho do Doutor. Dimitri sorriu ao ver a empolgação dele.

— Venha Namjoon, sente-se aqui — Ele caminhou até sua mesa, Namjoon se sentou à sua frente junto com Jimin — Como foi a viagem?

— Foi tudo muito bem. Apesar do fuso horário, conseguimos descansar bem a noite.

— Sejam muito bem-vindos e aproveitem bem a estadia. Caso precisem de algo, é só me ligarem, quero que fiquem bem confortáveis.

-— Agradeço sua hospitalidade. Assim que possível, vamos visitar alguns locais. Moscou é uma cidade muito bonita — disse Namjoon.

— Senhor Doutor? — Jimin o chamou.

— Sim, Jimin.

— Eu vou ter que tomar injeção?

— Jimin, prometo que se precisar de injeção, não vai doer. Vai ser bem pequenininha e você não vai nem sentir.

— Promete?

— Palavra de escoteiro! — Dimitri colocou a mão no peito em sinal de juramento e sorriu para Jimin. Então, dirigiu seu olhar para Namjoon e sua expressão ficou mais séria — Senhor Namjoon, vamos falar sobre o tratamento…

Notas finais
Sei não heim, Nam. Desconfie desse médico...