A Cura

4 Testes e Exames



Foram longas horas de conversa entre Namjoon e Dimitri. O doutor explicava tudo com paciência e clareza, detalhando como os testes funcionariam, como seria o tratamento e qual era a base científica por trás daquilo tudo.

Enquanto isso, Jimin já dormia no sofá do escritório, o pequeno corpo aninhado sob o casaco grande e quente de Namjoon. Para ele, aquela peça de roupa era como a melhor coberta do mundo — segura, protetora e com o cheiro reconfortante de seu pai.

Quando perceberam que Jimin estava profundamente adormecido, Dimitri convidou Namjoon para um tour pela clínica e pelos laboratórios. Caminharam pelos corredores impecáveis e bem iluminados, e Namjoon ficou impressionado com o nível de tecnologia de ponta do local. Cada setor parecia pertencer a um futuro distante, repleto de equipamentos modernos e instalações impecáveis.

Mas nada o impactou tanto quanto o último lugar que Dimitri o levou.

Ao cruzar uma porta, Namjoon se deparou com a ala infantil da clínica, uma área dedicada exclusivamente a crianças com câncer. Mas o que mais chamou sua atenção não foi a estrutura do lugar, nem os equipamentos médicos avançados. Foi a felicidade estampada no rosto daquelas crianças.

Elas corriam pelos corredores, brincavam com energia e sorriam como se a doença nunca tivesse feito parte de suas vidas. Namjoon segurou a respiração, sentindo um nó se formar em sua garganta. Ele podia ver Jimin ali, no meio delas, rindo, correndo e vivendo. A emoção foi avassaladora. Ele lutou contra as lágrimas, mas foi difícil. Aquela visão era tudo o que ele mais queria para seu filho.

Depois de esclarecer todos os pontos mais importantes do tratamento, eles voltaram para o escritório.

Jimin ainda dormia tranquilamente, respirando de maneira suave e serena. Namjoon se aproximou do filho e, ao olhar para aquele rostinho inocente e frágil, fez uma promessa silenciosa a si mesmo. Ele faria qualquer coisa para que Jimin tivesse a chance de estar entre aquelas crianças, saudável e feliz.

— Vou pegar um café para o Senhor — disse Dimitri de forma gentil e educada se retirando do local.

Namjoon pegou Jimin no colo, acariciando seu rosto e se lembrando das crianças que viu em outra ala da clínica.

— Eu vou te salvar — Ele sussurrou no ouvido de Jimin o que o fez despertar aos poucos.

— Papai?

— Desculpa, te acordei?

— Não, papai. Tudo bem. Já tinha dormido muito. Quanto mais eu puder ficar acordado pra ficar com você, melhor. Não quero perder tempo dormindo.

— Você vai ter todo tempo do mundo, meu amor. Por hora, precisa descansar e dormir bem, sim senhor!

— Hump! — Jimin fez bico.

— Sem fazer bico, mocinho!

— Está bem, papai — Jimin sorriu e lhe deu um beijo na bochecha.

— Jimin… — Namjoon suspirou, buscando coragem para dizer o que precisava. Odiava ver o filho passar por exames e internações, odiava cada agulha, cada procedimento invasivo, cada momento de dor e cansaço que aquilo trazia. Mas essa era sua última esperança.

— Jimin… eu sei que é difícil… — Ele começou, tentando manter a voz suave — Mas estou confiante a respeito de um tratamento. Para isso, precisarão fazer alguns exames em você…

Explicou tudo da maneira mais simples possível, para que Jimin pudesse entender. O menino ficou em silêncio por alguns instantes. Depois, soltou um suspiro triste.

— Entendi, papai… — murmurou, sabendo exatamente o que o aguardava.

Namjoon sentiu o coração apertar ao ver aquela expressão de resignação no rosto do filho. Ele se ajoelhou ao lado de Jimin e segurou suas mãozinhas pequenas.

— Ei, garotão. Vai dar tudo certo, está bem? — disse, tentando animá-lo. — E depois que acabar os exames, vou comprar um milkshake gigante pra você. Combinado?

Jimin ergueu o olhar para o pai, com um brilho esperançoso nos olhos.

— De morango? — perguntou em um tom manhoso.

Namjoon riu baixinho e assentiu.

— Sim, de morango. E de qualquer outro sabor que você quiser… Mas precisa ser um menino corajoso para acabar logo com esses exames, tá bom?

Jimin respirou fundo, reunindo toda a coragem que podia. Então, forçou um sorriso determinado.

— Tá bom, papai. Vou ser corajoso.

Namjoon sorriu, sentindo um misto de orgulho e tristeza. Ele segurou Jimin em um abraço apertado, desejando, mais do que nunca, que aquele tratamento realmente funcionasse.

Dimitri entrou no cômodo segurando uma xícara de café, acompanhado de mais alguém. Namjoon reconheceu a situação imediatamente e sentiu o coração apertar. Ele se abaixou para ficar na altura de Jimin e segurou suas mãos com delicadeza.

— Jimin, meu amor. Você precisa ir com ele, está bem? Lembra o que combinamos?

Jimin assentiu lentamente, tentando parecer animado, mas Namjoon conhecia bem seu filho. Havia receio em seus olhos.

Mesmo assim, o pequeno forçou um sorriso e respirou fundo, reunindo coragem.

Namjoon o abraçou apertado, segurando-se para não demonstrar o quanto aquele momento o machucava. Ele queria protegê-lo de tudo, mas sabia que essa era a única chance que tinham.

Com um último olhar cheio de ternura, ele soltou Jimin e o deixou com o enfermeiro.

Jimin olhou impressionado para o homem à sua frente. O enfermeiro vestia um equipamento especial que cobria todo o seu corpo — roupas esterilizadas, luvas grossas, um óculos transparente e uma máscara que cobria completamente sua cabeça, deixando apenas os olhos visíveis. Aquilo era assustador.

Foi então que o homem falou, sua voz soando gentil e reconfortante.

— Olá, Jimin. Sou o Hoseok. Vou te acompanhar nos exames.

O tom acolhedor do enfermeiro fez Jimin relaxar um pouco. Mesmo com medo, ele assentiu.

A julgar pelo formato dos olhos e o sotaque familiar, Jimin deduziu que o rapaz à sua frente também fosse coreano. E, para ele, alguém com uma profissão incrível.

Ele olhou para o uniforme protetor de Hoseok, os olhos brilhando de empolgação, e perguntou animado:

— Você é um astronauta?

Hoseok piscou surpreso antes de soltar uma risada abafada dentro da máscara.

— Não, não. — respondeu, divertido. — Sou apenas um cientista aprendiz e ajudo o Doutor Ivanov. Esse é basicamente meu uniforme…

Fez uma pausa e levou a mão ao queixo, fingindo estar pensativo.

— Se bem que seria divertido ser um astronauta… — acrescentou, como se estivesse reconsiderando sua escolha de carreira.

A expressão exagerada e o tom brincalhão fizeram Jimin sorrir de forma fofa, seu medo momentaneamente esquecido. Por um instante, ele se sentiu mais seguro na presença de Hoseok.

Namjoon acompanhava tudo pela janela de vidro, observando cada procedimento com atenção. Alguns dos testes envolviam radiação, o que o impedia de estar ao lado de Jimin, e isso partia seu coração.

Lá dentro, Jimin estava assustado. Ele precisava ficar deitado por horas dentro de máquinas enormes e barulhentas, o som mecânico ecoando de forma opressora ao seu redor. As agulhas também não ajudavam. Várias coletas de sangue foram feitas, e seu bracinho já doía com tantas picadas.

Além disso, precisou ficar em jejum. Não que sentisse fome, mas a única coisa em sua cabeça era o milkshake prometido. Queria terminar logo os exames, só para poder voltar para o colo do pai. Cada minuto ao lado de Namjoon era valioso demais para ser desperdiçado ali, dentro daquele hospital frio.

Após horas de exames e procedimentos desgastantes, Dimitri finalmente autorizou Namjoon a levar Jimin para lanchar antes de sua internação para aguardar os resultados.

Do outro lado da rua, na lanchonete, Jimin segurava seu copo de milkshake de morango, bebendo com animação. Sua energia parecia renovada, e seus olhos brilhavam novamente enquanto conversava com Namjoon.

— Quando eu crescer… — Jimin fez uma pausa, por um momento tinha esquecido que teria apenas mais um ano de vida.

— Continue filho, você vai crescer e vai virar um lindo homem. O que você quer fazer quando crescer?

— Quero trabalhar!

— Trabalhar?

— Uhum… e ter muito dinheiro. Não o seu dinheiro, quero conseguir dinheiro sozinho!

— Isso é bom. E você quer trabalhar com o que?

— Com bichinhos bem fofos!

— Quer ser veterinário?

— Isso! E cuidar dos bichinhos.

— E você vai cuidar, meu amor — Namjoon deu um beijinho em sua testa.

Depois de terminarem o milkshake, Namjoon e Jimin voltaram para a clínica. Dimitri já os aguardava, e sua expressão séria fez o coração de Namjoon acelerar.

— Senhor Namjoon, — começou Dimitri com um tom formal — preciso que Jimin fique na clínica hoje. Vamos realizar mais alguns testes.

Namjoon franziu o cenho.

— Ainda não é o tratamento?

— Não. — Dimitri balançou a cabeça. — Ainda são apenas exames, mas alguns deles envolvem substâncias que podem ser perigosas para o senhor.

O doutor fez uma pausa antes de continuar.

— Já preparamos um quarto para o senhor, mas, durante esses testes, Jimin precisará ficar isolado.

Namjoon abaixou-se para ficar na altura do filho e segurou seus pequenos ombros com firmeza e carinho.

— Acha que consegue, meu amor?

Jimin desviou o olhar para Dimitri, sentindo um leve receio, mas logo voltou a olhar para o pai. Ele sabia o quanto aquilo era importante.

Respirou fundo e forçou um sorriso determinado.

— Sim, papai. Eu sou forte e corajoso. Vou conseguir!

Namjoon sabia que Jimin estava nervoso, mas seu coração encheu de orgulho ao ver sua determinação. Mesmo assim, não foi fácil deixá-lo sozinho.

Dimitri garantiu que o quarto teria câmeras, permitindo que Namjoon o acompanhasse a qualquer momento. Mas isso não tornava a separação menos difícil. Ele nunca havia dormido longe do filho. E sabia que, naquela noite, o sono não viria.

Hoseok se aproximou e estendeu sua mão para Jimin.

— Vamos lá, campeão. — disse com seu tom gentil e acolhedor.

Jimin hesitou por um instante, então segurou a mão do enfermeiro. Algo em Hoseok o deixava mais confortável — talvez seu jeito leve, talvez o fato de ter um sorriso sincero, mesmo atrás da máscara.

Namjoon ficou parado, observando Jimin desaparecer pelo corredor ao lado de Hoseok.

Hoseok levou Jimin para o quarto em que passaria a noite. Mesmo com a decoração infantil, era assustador.

— Jimin, estaremos na sala ao lado, qualquer coisa que precisar é só usar aquele telefone ali — Hoseok apontou —, que viremos rapidinho, está bem?

Jimin balançou a cabeça várias vezes e de forma animada, afirmando tudo que Hoseok falava.

— Ok, tio Hobi.

— Jimin… eu sei que é ruim ficar sozinho, não podemos deixar seu pai com você, mas… tenho uma surpresa.

— Uma surpresa? — Jimin perguntou curioso.

— Sim, o Dr. Dimitri permitiu que o filho dele viesse visitá-lo, pois ele fará os mesmo exames que você, então não tem problemas ele entrar aqui.

— O filho dele? Uma criança? — Jimin ficou animado, sempre quis conhecer o filho do Doutor Dimitri.

— Sim. Ele é um pouco mais velho, mas ainda assim é uma criança… quase um pré-adolescente. Vou lá buscá-lo e já volto.

— Obrigado, tio Hobi.

— Não precisa me agradecer — Hoseok acariciou as bochechas dele e então saiu.

Depois de alguns minutos, Hoseok voltou, mas desta vez não estava sozinho.

Ao seu lado, um menino de aparência frágil entrou no quarto com passos lentos. Sua pele era extremamente pálida, e seus cabelos loiros e ralos caiam em uma franja desordenada, encobrindo parcialmente seus olhos azuis profundos. Seu corpo era tão magro e delicado que Jimin teve a impressão de que ele poderia se partir ao meio com um simples toque.

Jimin estava sentado na cama, balançando os pés distraidamente, mas se levantou imediatamente assim que os dois entraram no quarto.

Hoseok sorriu suavemente e fez as apresentações.

— Jimin, esse é o Nikolai, filho do Dr. Dimitri.

Jimin olhou curioso para o menino, estudando-o com atenção. Percebeu algo diferente nele. Diferente de todos os médicos e enfermeiros que entraram ali, Nikolai não usava aquelas roupas de proteção. Em vez disso, vestia um pijama de hospital idêntico ao dele. Jimin também notou que ele era um pouco mais alto, mas não muito.

O pequeno inclinou a cabeça, intrigado. Então, esse era o filho do grande Dr. Ivanov?

O silêncio pairou entre os dois por alguns segundos. Jimin sentia que tinha muitas perguntas para fazer.

— Olá, prazer em conhecê-lo… você… fala meu idioma? — Temendo que o garoto não o entendesse, arriscou um inglês, apesar de não ser tão bom — Quer falar em inglês?

Nikolai sorriu.

— Olá, Jimin. Não se preocupe, sei falar seu idioma, meu pai me ensinou. Não falo tão fluente, mas creio que possamos nos comunicar. Pode me chamar apenas de Niko — Nikolai estendeu a mão para Jimin para cumprimentá-lo.

— Meninos — Hoseok os interrompeu — Vou deixá-los a sós, estaremos na sala ao lado, ok?

— Ok, tio Hobi!

Hoseok acenou pros dois e se retirou do quarto, fechando a porta.

Jimin ficou parado olhando Nikolai, estava curioso.

— Acho que você quer me perguntar alguma coisa, não é mesmo? — Nikolai disse, com um pequeno sorriso no canto dos lábios.

Jimin hesitou por um instante, depois se aproximou. Levou a mão pequena até uma mecha dos cabelos loiros do menino, tocando-a com delicadeza. Por um momento, se lembrou de seu próprio cabelo, que antes tinha exatamente aquele tom dourado, antes de cair por completo.

— É de verdade? — perguntou baixinho.

Nikolai piscou antes de entender a pergunta.

— Ah, o meu cabelo? — Ele riu suavemente — Sim, é de verdade. Mas eu já perdi meu cabelo diversas vezes por causa da quimioterapia.

Jimin franziu o cenho.

— Você não faz mais?

Nikolai suspirou, cruzando os braços de leve.

— Não. Meu pai resolveu parar com a quimio.

Jimin arregalou os olhos, surpreso.

— Parar?

— Sim. Aquilo não estava resolvendo nada e só me deixava ainda pior. — Nikolai suspirou — Meu pai é um gênio. Ele está criando uma cura e vai ajudar pessoas como nós.

Jimin sentiu seu coração acelerar.

— Ele vai nos curar? — perguntou, seus olhos brilhando com uma emoção nova. Pela primeira vez, ele se permitiu acreditar.

Nikolai sorriu cheio de empolgação.

— Sim, Jimin… poderemos crescer saudáveis.

Jimin baixou os olhos para o chão, seus pensamentos se agitando. Aquela ideia parecia tão distante… mas, de repente, não era mais impossível.

Talvez… só talvez… ele ainda tivesse mais do que um ano de vida.

Notas finais
Hobi deu o ar da graça :)