A Cura
5 O Menino Niko

Jimin e Nikolai se davam surpreendentemente bem. Em pouco tempo, já estavam imersos em conversas animadas, compartilhando seus gostos e descobrindo tudo o que tinham em comum. Livros e desenhos animados eram os principais assuntos, e cada um falava com entusiasmo sobre seus favoritos.
Enquanto Nikolai rabiscava um desenho, Jimin desviou o olhar para o braço do novo amigo. Foi então que percebeu as marcas familiares em sua pele — manchas arroxeadas, inchaços e inúmeras picadas de agulha, tão semelhantes às suas próprias cicatrizes.
Seus olhos brilharam com uma mistura de surpresa e compreensão.
— Você é como eu! — exclamou, estendendo os braços e mostrando suas próprias marcas.
Nikolai pausou o desenho, observando os braços de Jimin por alguns instantes antes de erguer o olhar.
— Dói, né? — murmurou, com um tom que não precisava de explicação.
Jimin assentiu lentamente. Ambos sabiam exatamente como era aquela dor.
— Sim, mas eu não choro e não reclamo.
— Por que não? Isso é doloroso. Às vezes me dá raiva e fico de mau humor.
— Eu seguro o choro por causa do meu pai — Jimin desenhava enquanto falava — Não quero que ele sofra. Eu sempre vejo ele chorando à noite por minha causa e não quero isso. Quero que meus últimos meses com ele sejam bons e felizes. Não quero que ele se lembre de mim apenas internado e chorando no hospital.
— Você tem razão — Nikolai refletiu sobre o que ele disse e então suspirou entristecido — Eu tenho orgulho do meu pai. Ele é um bom pai, está fazendo de tudo para descobrir uma cura pra minha doença e assim me salvar e salvar outras pessoas, mas…
— Mas?
— Mas… eu queria passar mais tempo com ele. E se essa cura não der certo? Então todo esse tempo que ele passou aqui no laboratório será em vão e eu vou morrer e não vou ter aproveitado o tempo com ele.
Os olhos de Nikolai começaram a lacrimejar, e logo algumas lágrimas deslizaram por seu rosto pálido.
Ele tentou segurá-las, mas a verdade é que o peso da realidade às vezes era demais para carregar sozinho.
Jimin o observou em silêncio, sentindo sua dor como se fosse sua própria. Ele sabia exatamente como era aquilo.
A diferença era que, apesar de Namjoon ser um ministro extremamente ocupado, ele sempre largava tudo para estar ao seu lado. Mas mesmo assim, Jimin compreendia o que era querer mais tempo com o pai e não poder ter. Ele entendia o quanto cada segundo juntos era valioso.
Sem pensar duas vezes, ele se aproximou e envolveu Nikolai em um abraço aconchegante.
— Niko, vamos aproveitar cada segundo de nossas vidas e viver cada dia como se fosse o último. — sussurrou, com uma maturidade que não combinava com sua pouca idade.
Nikolai soluçou baixinho, apertando ainda mais o abraço.
— Vai dar tudo certo, Niko. — Jimin continuou, tentando confortá-lo. — Mas se não der… eu vou estar lá no céu com você. E você não vai ficar sozinho, tá bom?
As palavras atingiram Nikolai como um golpe no peito. Ele queria acreditar que daria certo, queria acreditar que eles teriam tempo suficiente para viver como crianças normais.
Mas, naquele momento, ele não conseguiu segurar mais as lágrimas.
— Jimin… eu tô com medo de morrer. — confessou baixinho, sua voz embargada.
Jimin fechou os olhos e apertou ainda mais o abraço, como se pudesse segurá-lo ali, preso à vida, por mais tempo.
— Eu também estou, Niko — Jimin se afastou minimamente para olhá-lo e pegou em sua mão — Temos que ser corajosos pelos nossos pais.
— Sim, temos que ser corajosos — Nikolai limpou as lágrimas — E eu espero não te ver no céu quando eu chegar lá!
— Não depende de mim — Jimin sorriu — Será que os anjos comem algodão doce no céu?
— Não sei — Nikolai riu — Talvez eles comam as nuvens e tenha gosto de algodão doce.
— Eu vou comer todas as nuvens quando eu chegar lá. Mas seria um problema pras pessoas aqui da terra porque não iria mais chover — Jimin riu das próprias idiotices que falava, fazendo Nikolai rir descontroladamente junto com ele.
Eles passaram horas conversando, trocando histórias sobre suas vidas, como era a escola e como as outras crianças os tratavam.
Para Jimin, foi um misto de conforto e tristeza perceber que Nikolai passava pelas mesmas coisas que ele — os olhares estranhos, os cochichos, as risadas disfarçadas. A exclusão silenciosa. Mas, de certa forma, isso os uniu ainda mais. Eles se entendiam. Não precisavam explicar o que sentiam, porque já sabiam.
Conforme a noite avançava, o sono começou a pesar sobre eles. Os medicamentos dos testes os deixavam sonolentos, e suas pálpebras caiam a cada piscada.
Cada um se deitou em sua cama, que ficava lado a lado, separada apenas por um pequeno móvel, onde um abajur iluminava fracamente o quarto.
Nikolai apagou a luz, e a penumbra tomou conta do ambiente.
— Boa noite, Jimin. — murmurou, sua voz já arrastada pelo cansaço.
— Boa noite, Niko… — Jimin respondeu baixinho, já quase dormindo.
E, naquele instante, pela primeira vez em muito tempo, ambos se sentiram em paz.
…
No dia seguinte, depois de todos os exames de Jimin, Dimitri estava sentado à mesa de seu escritório, segurando os resultados nas mãos. Seu olhar corria atentamente pelas páginas, analisando cada detalhe com precisão cirúrgica.
Do outro lado da mesa, Namjoon esperava ansioso, o coração batendo descompassado no peito. Jimin estava na sala de espera, conversando animadamente com Nikolai, alheio à tensão que se desenrolava ali dentro.
Namjoon não suportava mais aquele silêncio.
— E então, doutor? — sua voz soou carregada de expectativa e medo. — O que os exames mostram?
Dimitri fechou os relatórios lentamente e levantou os olhos para Namjoon. Seu olhar era sério, e aquilo foi o suficiente para que o ministro sentisse o estômago afundar.
— O resultado é o mesmo que o senhor, infelizmente, já conhece. — Dimitri disse, com um tom meticuloso, porém firme. — Jimin tem um câncer terminal. A doença já está avançada, e os tumores estão espalhados por todo o corpo.
Namjoon sentiu o ar faltar, mas permaneceu imóvel, apenas ouvindo.
— Posso julgar pelos exames que ele tenha, no máximo, de oito a dez meses de vida.
Cada palavra era como uma lâmina perfurando sua alma.
Namjoon já sabia daqueles resultados. Sempre soube. Corria com Jimin para hospitais desde muito pequeno, buscando respostas, tratamentos, uma esperança. Mas ouvir aquilo nunca ficava mais fácil.
Dimitri colocou os exames de volta no envelope, guardando-os cuidadosamente em sua gaveta antes de voltar a encarar Namjoon. O ministro estava visivelmente arrasado. Seus ombros caídos, o olhar perdido. O peso daquela realidade era esmagador. E, mais uma vez, ele sentiu o medo cruel de perder Jimin se instalar em seu peito.
— Mas… ainda resta uma esperança, senhor Namjoon. — Dimitri disse, sua voz assumindo um tom mais amigável.
Namjoon sentiu um sobressalto no peito. Seus olhos se fixaram no médico, o coração batendo mais forte.
— Jimin ainda pode ser salvo. — Dimitri continuou. — Só depende do senhor.
Namjoon piscou algumas vezes, sentindo-se um pouco tonto.
— Só depende de mim? — repetiu, tentando assimilar aquelas palavras. Ele tinha esperança no tratamento de Dimitri, mas ainda carregava inseguranças e medos.
Dimitri assentiu, mantendo sua expressão confiante e segura.
— Sim. Como já sabe, sou um cientista renomado, conhecido mundialmente. — fez uma pausa, escolhendo bem suas palavras. — Meu tratamento está surtindo efeitos positivos. Minha descoberta já foi testada e é segura.
Namjoon prendeu a respiração, absorvendo cada palavra.
— Criei uma droga revolucionária. Ela é capaz de destruir as células cancerígenas e restaurar o DNA do paciente, tornando-o completamente saudável.
Dimitri sorriu com leveza, sua postura impecável exalava confiança.
— Já testamos inúmeras vezes. Posso garantir que é seguro.
Mas Dimitri estava mentindo.
O que ele queria injetar em Jimin não era uma simples droga, nem um tratamento convencional. Era um vírus, algo que ele próprio havia criado a partir de células cancerígenas. Essa substância nunca havia sido testada em humanos. Jimin seria o primeiro.
Ninguém sabia da existência daquele vírus. Nem mesmo Hoseok, o assistente de Dimitri, tinha qualquer noção do verdadeiro experimento.
Oficialmente, Dimitri trabalhava com uma droga revolucionária no tratamento do câncer — algo realmente promissor, que poderia representar um avanço significativo na medicina.
Mas isso não passava de uma história contada pela metade.
Anos de estudos e experimentos o levaram a criar um vírus capaz de modificar o DNA humano, destruindo células cancerígenas e tornando o organismo completamente saudável. E, nesse ponto, ele não havia mentido para Namjoon. O problema? Ele escondeu um detalhe crucial: esse vírus nunca havia sido testado em humanos.
Dimitri não podia arriscar o próprio filho sem antes ter certeza de que o experimento funcionava. Ele precisava de uma cobaia perfeita.
— Li sua pesquisa diversas vezes — disse Namjoon — Busquei fontes externas, e realmente é uma droga muito promissora. Mas… o Jimin, vai sentir dor?
— Quanto a isso, não se preocupe, senhor Namjoon. — Dimitri disse com um tom tranquilo, um sorriso discreto no rosto. — O tratamento é indolor e seguro. Os resultados são progressivos e rápidos. Jimin não sentirá dor alguma e, antes que o senhor perceba, ele estará curado.
Namjoon baixou o olhar para o chão, sentindo um turbilhão de emoções dentro de si.
— É o que eu mais quero… — murmurou, sua voz carregada de peso.
Dimitri assentiu com um semblante compreensivo e, sem hesitar, abriu sua gaveta. De lá, tirou um maço de documentos e uma caneta, colocando-os cuidadosamente sobre a mesa.
— Se o senhor realmente quer salvar seu filho, então deixe-me prosseguir com o tratamento. — disse, empurrando os papéis na direção de Namjoon. — A vida dele está nas suas mãos. Você só precisa assinar este documento autorizando o procedimento.
Namjoon pegou os documentos com mãos ligeiramente trêmulas. Cada palavra impressa ali parecia gritar em sua mente.
Ele leu atentamente, linha por linha. O texto parecia um documento padrão, sem nada que indicasse algo suspeito.
Mas algo dentro dele o fazia hesitar. Um pressentimento incômodo. Uma voz silenciosa, sussurrando que havia algo errado. Por outro lado, o desejo de ver Jimin curado pesava como uma âncora sobre sua consciência.
Ele não podia perder seu filho.
Namjoon ficou ali, imerso em um silêncio agonizante, segurando a caneta entre os dedos. Deveria assinar ou confiar em seu instinto?
Fale com o autor