A Cura
20 Pesadelo

Já fazia mais de dois anos que Hoseok trabalhava ao lado de Dimitri, atuando como seu assistente e cientista aprendiz. Admirava-o profundamente como profissional. Para Hoseok, Dimitri era a personificação da genialidade: brilhante, preciso, quase inalcançável. Sonhava, um dia, alcançar aquele nível de inteligência e fazer descobertas que realmente mudassem o mundo. Mais do que reconhecimento, Hoseok queria ajudar pessoas, especialmente aquelas que já não tinham esperança diante de doenças terminais.
Sua vida em Union seguia uma rotina rígida, quase reconfortante de tão previsível.
Todos os dias, antes das sete da manhã, ele saía para caminhar pelas ruas impecavelmente limpas da cidade perfeita. O ar era sempre fresco, o silêncio agradável. No caminho de volta, fazia uma parada obrigatória em uma pequena mercearia que, segundo ele, servia o melhor café de Union. Talvez não fosse apenas o café. Talvez fosse o que aquele lugar representava.
A mercearia era administrada pela família Lee, que havia chegado à cidade como voluntária, assim como Hoseok. Com o tempo, eles se tornaram mais do que conhecidos. Era parte da sua rotina, do seu cotidiano, da sua sensação de pertencimento.
Hoseok tinha um carinho especial pelo Senhor Lee, o patriarca da família. Passavam longos minutos conversando, às vezes jogando xadrez, outras apenas falando sobre coisas simples da vida. Apesar da diferença de idade, criaram um laço profundo. Para Hoseok, o velho Lee era mais do que um amigo. Era uma figura paterna. E assim, fiel à sua rotina, após a caminhada matinal, Hoseok entrou na mercearia para seu café diário e, claro, para sua indispensável conversa com o Senhor Lee, sem imaginar que nem todas as rotinas são feitas para durar.
— Bom dia, Anny — cumprimentou Hoseok ao entrar na mercearia, erguendo a mão em um aceno automático quando o sininho da porta tilintou.
— Bom dia, Hobi. O de sempre? — ela perguntou, já se virando em direção à cafeteira.
— O de sempre — respondeu ele, olhando ao redor em busca de um rosto familiar — E o Senhor Lee? Ontem também não o vi por aqui.
Anny franziu levemente a testa, como se a resposta fosse óbvia.
— O vovô? Ah, ele foi aos laboratórios tomar algumas vacinas. Achei que você soubesse, já que trabalha lá.
— Vacinas? — Hoseok arqueou as sobrancelhas sem conseguir esconder a surpresa.
Ele conhecia aquela campanha melhor do que ninguém. Era ele quem organizava as listas, os horários, os grupos. E o nome do Senhor Lee definitivamente não estava entre eles.
— Sim, vacinas — Anny confirmou, lançando-lhe um olhar curioso — Você não sabia, Hobi? Pensei que fizesse parte da equipe que estuda isso.
Hoseok forçou um sorriso rápido.
— Ah… sim, claro que faço — disse, tentando soar casual — Deve ser só falta de café.
Anny riu, aceitando a resposta sem questionar. Hoseok, porém, sentiu um incômodo se instalar no peito.
Se o Senhor Lee não estava na lista, quantas outras pessoas também não estavam?
…
Naquela manhã, assim que chegou ao laboratório, Hoseok foi direto ao que mais o inquietava. A primeira coisa que fez foi acessar as fichas dos pacientes vacinados. Conferiu uma por uma, com atenção redobrada.
E, como temia, o nome do Senhor Lee não estava ali. Um peso se acomodou em seu estômago.
Aquilo não fazia sentido algum. Hoseok conhecia cada nome daquela lista, cada voluntário, cada agendamento. O Senhor Lee jamais teria passado despercebido. Mesmo assim, decidiu não comentar nada com Dimitri. Sua intuição gritava que perguntar seria um erro.
Passou então a circular pelo gigantesco laboratório de maneira aparentemente despretensiosa. Cumprimentava colegas, analisava telas, entrava e saía de salas como em qualquer outro dia comum. Por dentro, porém, estava em alerta máximo. Seus olhos buscavam qualquer detalhe fora do lugar, qualquer sinal de algo escondido sob aquela fachada impecável.
Visitou todos os quartos, corredores e alas às quais tinha acesso. Nenhum sinal do Senhor Lee. Nenhuma pista.
Foi então que a lembrança veio como um estalo. O elevador. O único lugar do laboratório ao qual ele jamais teve permissão para ir. O acesso ao subterrâneo. Um espaço que oficialmente “não existia” para a maioria da equipe.
Mas para descer até lá, precisava do cartão de acesso. E apenas uma pessoa o possuía: Dimitri.
Hoseok conhecia bem os hábitos do chefe. Dimitri era metódico, quase obsessivo com horários. Todos os dias, sem exceção, no meio da tarde, se retirava para seu banho relaxante.
Com a decisão tomada, Hoseok voltou ao próprio consultório e aguardou, tentando parecer calmo enquanto observava o relógio. Quando o ponteiro finalmente alcançou o horário exato, ele se levantou.
Seguiu pelos corredores até o consultório de Dimitri. A secretária mal ergueu os olhos quando ele passou; já estava acostumada com suas idas e vindas, não viu nada de estranho naquela visita.
Hoseok, porém, sentia o coração bater mais rápido. Algo estava muito errado. E ele estava prestes a descobrir o quê.
Hoseok entrou no consultório em absoluto silêncio, os passos leves. Seus olhos varriam cada canto do ambiente à procura de Dimitri. Ao atravessar uma porta lateral, encontrou o pequeno cômodo que funcionava como um quarto dentro do escritório. O som constante da água correndo no banheiro confirmou suas suspeitas. Dimitri estava mesmo no banho. O coração de Hoseok acelerou. Aquela era a chance que ele não teria duas vezes.
Aproximou-se da mesinha onde as roupas do médico estavam jogadas de forma descuidada. Com mãos ágeis, começou a procurar entre os bolsos, tentando controlar a ansiedade. Cada segundo parecia uma luta contra o tempo, cada movimento, arriscado. Até que seus dedos tocaram no objeto rígido. O cartão de acesso.
Hoseok o segurou com força, sentindo um frio percorrer sua espinha. Sem perder mais tempo, saiu do consultório tentando manter a postura natural, como se nada estivesse fora do comum. Não podia correr, não podia parecer nervoso. Sabia que, no instante em que Dimitri percebesse a ausência do cartão, tudo poderia desmoronar.
Seguiu diretamente até o elevador subterrâneo. Ao chegar, respirou fundo e passou o cartão pelo leitor. Um bip baixo ecoou, seguido pelo som metálico das portas se abrindo. Entrou e apertou o único botão disponível, indicando o nível subterrâneo. Não havia escolha. Só existia um destino possível.
O elevador começou a descer, e o mal pressentimento crescia a cada segundo. Hoseok sentia o estômago revirar, o coração batendo pesado no peito.
Quando as portas finalmente se abriram, ele não sentiu alívio algum. À sua frente havia apenas escuridão. A única luz vinha do interior do elevador, iluminando parcialmente um corredor longo e estreito, que parecia se estender até onde a vista não alcançava. As sombras se acumulavam nas paredes, tornando o ambiente ainda mais opressor.
Hoseok engoliu em seco. O instinto gritava para que voltasse, para que subisse imediatamente. Mas já tinha ido longe demais. Não podia sair dali sem respostas. Reuniu coragem, deu um passo à frente e entrou no corredor.
Hoseok pegou o celular e ligou a lanterna, apontando o feixe de luz para o corredor à frente. O clarão fraco iluminava pouco mais de um metro adiante, engolido rapidamente pela escuridão ao redor. Avançou devagar, cada passo cuidadoso, sentindo o próprio corpo estremecer. Um calafrio profundo se espalhou por sua espinha, daqueles que não vinham apenas do frio, mas do medo cru e instintivo.
Ali embaixo, a temperatura era ainda mais baixa. A Rússia já era conhecida por seu clima severo, mas aquele lugar parecia uma câmara frigorífica. O ar era pesado, gelado, quase cortante ao entrar em seus pulmões. Hoseok conseguia ouvir apenas a própria respiração e o som abafado dos passos ecoando no corredor silencioso.
Caminhou assim por alguns metros, até que a luz da lanterna encontrou uma porta. Parou diante dela e respirou fundo, tentando acalmar o coração que batia rápido. Com a mão trêmula, pegou o cartão de acesso e o passou pelo leitor. Um bip curto quebrou o silêncio absoluto. A porta destravou com um estalo seco.
Antes de entrar, tentou iluminar o interior com o celular, mas o alcance da luz era insuficiente. Havia apenas sombras indefinidas. Engoliu em seco, então tateou a parede até encontrar um interruptor. Quando o acionou, todas as luzes se acenderam de uma vez.
Hoseok piscou, levando alguns segundos para se acostumar com a claridade repentina. Quando finalmente conseguiu focar, sentiu o estômago revirar.
O local era uma cópia perfeita do laboratório onde trabalhava todos os dias. Mesma disposição, mesmas bancadas, mesmos equipamentos. A diferença era perturbadora: aquele lugar estava completamente vazio. Não havia vozes, não havia passos, não havia vida.
Ele parecia estar em uma espécie de recepção. À sua frente, diversas entradas levavam a outros salões e corredores, formando um emaranhado que lembrava um labirinto gigantesco.
Tudo ali era branco. O piso de mármore, as paredes, os móveis, as portas. Um branco clínico e estéril. Não havia quadros, não havia plantas, não havia qualquer elemento que quebrasse aquela monotonia fria. Era um lugar sem identidade, sem humanidade.
Hoseok teve a nítida sensação de que estava em um espaço que não deveria existir. Olhou para a direita e decidiu começar por ali. Passou o cartão de acesso mais uma vez e a porta se abriu com um leve estalo, revelando outro corredor. Esse era mais estreito, e ao fundo havia uma bifurcação que se dividia para a direita. Ele caminhou até lá com cautela, espiou antes de virar e, ao perceber que tudo parecia vazio, seguiu em frente.
O corredor era ladeado por várias portas idênticas, alinhadas de forma quase milimetricamente perfeita. O silêncio era absoluto. Não havia zumbido de máquinas, nem vozes, nem passos. Apenas o som abafado de seus próprios pés tocando o chão de mármore. Hoseok andava devagar, tentando ser o mais silencioso possível, controlando até mesmo a própria respiração, como se qualquer ruído pudesse denunciá-lo.
Então, ele parou. Seus olhos se fixaram no chão, mais à frente. Algo escuro escorria por baixo de uma das portas. O coração de Hoseok disparou.
Era sangue.
Não havia dúvida. O vermelho intenso se espalhava lentamente sobre o piso branco, formando um contraste brutal, quase violento aos olhos. Uma poça grossa começava a se formar.
Suas pernas fraquejaram por um instante.
Ele estava acostumado a ver sangue. Tinha formação em biomedicina, já havia lidado com ferimentos, cirurgias, acidentes. Mas aquilo era diferente. Aquilo não estava em uma maca, nem em um ambiente controlado. Estava ali, escondido, vazando por baixo de uma porta trancada em um laboratório secreto que não deveria existir.
O medo apertou seu peito. A primeira vontade foi virar as costas e correr. Subir naquele elevador e fingir que nunca tinha descido ali. Mas um pensamento o paralisou.
E se alguém estivesse vivo ali dentro?
E se alguém estivesse precisando de ajuda?
Ele não conseguiria conviver consigo mesmo se simplesmente fugisse.
Reuniu a pouca coragem que ainda tinha, sentindo as mãos tremerem. Aproximou-se da porta com passos lentos, quase arrastados. O cheiro metálico do sangue já era perceptível no ar frio.
Hoseok levou a mão à maçaneta. Respirou fundo, o coração martelando nos ouvidos. E então, com um movimento decidido girou a maçaneta e empurrou a porta.
Ao abrir a porta, Hoseok foi atingido por uma visão que fez seu estômago se revirar. Um rastro espesso de sangue cortava o piso branco do cômodo, como se alguém tivesse sido arrastado dali à força. A sala estava completamente vazia, sem móveis, sem equipamentos, apenas paredes nuas manchadas de vermelho.
Ele deu alguns passos hesitantes para dentro, o coração disparado. Havia respingos de sangue por toda parte, espalhados de forma caótica pelas paredes e pelo chão. Algumas manchas já estavam secas, outras ainda brilhavam úmidas sob a luz artificial. O cheiro era insuportável. Um odor forte, metálico, misturado a algo pútrido, carne em decomposição. Hoseok levou a mão ao nariz por reflexo, sentindo a ânsia subir pela garganta.
Foi então que notou os buracos na parede. Marcas de tiros irregulares, como se alguém tivesse disparado repetidamente em pânico ou fúria. Aquilo não tinha sido um acidente. Não era um experimento que dera errado. Tinha havido uma chacina ali.
O medo finalmente o alcançou em cheio. Seu corpo inteiro tremia, cada instinto gritava para que ele corresse, subisse naquele elevador e nunca mais voltasse. Algo muito errado estava acontecendo naquele subterrâneo. Algo monstruoso. Mas, ainda assim, a curiosidade cruel se impunha ao terror, prendendo seus pés ao chão.
Hoseok seguiu o rastro de sangue com o olhar até perceber uma segunda porta, torta, com a fechadura visivelmente danificada, como se tivesse sido arrombada. O sangue era mais denso ali, formando marcas longas e arrastadas, denunciando que um corpo havia sido levado para dentro daquele outro cômodo.
Engoliu em seco. Aproximou-se da porta com passos vacilantes e, com a mão trêmula, empurrou-a lentamente.
No instante em que conseguiu enxergar o interior do cômodo, Hoseok perdeu completamente o equilíbrio. Um grito abafado escapou de sua garganta enquanto ele caía para trás, escorregando e se sujando inteiro no sangue espalhado pelo chão.
Aquilo não era algo que sua mente estava preparada para ver.
No centro do cômodo, havia uma pilha de corpos em avançado estado de decomposição.
Hoseok parou de respirar por alguns segundos, como se o próprio ar tivesse sido arrancado de seus pulmões. Quando voltou a inspirar, o fez de forma errática, curta, desesperada. Seu peito subia e descia rápido demais, o coração martelando tão forte que parecia querer rasgar sua caixa torácica. Estava tendo uma crise. Sabia disso. Tentava puxar o ar, se obrigar a inspirar fundo, mas o cheiro tornava tudo impossível.
Eram pessoas de Union. Pessoas reais. Alguns rostos, mesmo desfigurados pela morte, ainda lhe eram reconhecíveis. Moradores que o cumprimentavam nas manhãs, que conversavam com ele na mercearia, que sorriam ao vê-lo passar.
A ficha demorou a cair, mas quando caiu, veio como um golpe violento. Aquilo não era um acidente. Não era um experimento que falhara. Era assassinato.
Todos os corpos apresentavam o mesmo detalhe grotesco: um buraco perfeitamente definido no crânio. Tiros à queima-roupa. Execuções frias, calculadas, sem qualquer vestígio de piedade. Alguém havia decidido que aquelas vidas não importavam.
O pânico tomou conta de Hoseok por inteiro.
— Eu preciso sair daqui… — murmurou para si mesmo, a voz trêmula, quase inaudível.
Só então percebeu suas mãos.
Ainda sentado no chão, sentiu algo úmido e viscoso escorrer por entre seus dedos. Olhou para baixo e viu as palmas completamente manchadas de sangue. Um vermelho espesso e quente. Na queda, havia se apoiado no chão sem perceber, mergulhando as mãos naquele horror.
O corpo de Hoseok estremeceu violentamente. Um soluço escapou de seus lábios enquanto ele tentava limpar as mãos na própria roupa, apenas espalhando ainda mais aquela cor nauseante pelo tecido claro. Seus olhos ardiam, a visão turva pelas lágrimas que insistiam em cair.
Aquilo não podia ser real, parecia um pesadelo. Um daqueles sonhos horríveis dos quais se acorda gritando. Mas ele não acordava. Estava ali, sentia o frio, o cheiro, o sangue em sua pele.
Hoseok estava tão paralisado, encarando as próprias mãos ensanguentadas e a pilha grotesca de corpos à sua frente, que não percebeu quando deixou de estar sozinho.
O som veio tarde demais. Um arrastar irregular, um tropeço, um grunhido baixo.
Quando se virou, o susto foi tão violento que o ar lhe escapou dos pulmões. Não houve tempo para gritar.
Um senhor de idade avançada surgiu cambaleando da escuridão e, num movimento brusco e desajeitado, lançou-se sobre ele. O impacto fez Hoseok cair de costas no chão, o corpo pesado do homem esmagando seu peito.
— NÃO! — Hoseok gritou, os olhos apertados com força, tomado pelo pânico.
Ele tentou empurrá-lo, debatendo-se desesperadamente, as mãos escorregando no sangue que cobria o chão. O homem não dizia palavra alguma. Apenas emitia sons guturais, animalescos, enquanto tentava agarrá-lo com uma força absurda para alguém daquela idade.
O cheiro de carne pobre era insuportável. O coração de Hoseok batia tão rápido que parecia prestes a explodir. Em um impulso desesperado, ele abriu os olhos. E então o mundo desabou.
— S-senhor Lee…? — a voz saiu fraca.
Era ele, o velho amigo da mercearia. O homem que ria alto enquanto jogavam xadrez. Que lhe servia café todas as manhãs como se fosse um ritual sagrado. O senhor Lee.
Mas aquele ser sobre ele já não era humano. O branco dos olhos estava tomado por um tom esverdeado doentio. As pupilas não reagiam. O olhar antes gentil estava vazio, morto. A pele pálida demais, os movimentos erráticos, violentos, guiados apenas por um instinto bruto.
— Senhor Lee, sou eu… — Hoseok tentou falar, a voz embargada — Por favor… o que tá acontecendo?
Não houve resposta. A criatura apenas grunhia, os dedos se fechando em sua roupa, tentando mordê-lo, arranhá-lo, atacá-lo como um animal selvagem faminto.
As lágrimas escorriam pelo rosto de Hoseok enquanto ele lutava. Cada segundo era um golpe no coração. Aquilo não fazia sentido. Não podia ser real.
Num último surto de adrenalina, Hoseok reuniu toda a força que lhe restava e empurrou o homem com violência. O corpo caiu de lado, batendo no chão com um baque seco.
Hoseok não pensou, apenas agiu. Levantou-se tropeçando, o coração em desespero absoluto, e correu o mais rápido que conseguiu em direção à porta por onde havia entrado, sem olhar para trás.
Ao alcançar o corredor, Hoseok virou o rosto para a direção oposta daquela por onde havia fugido e congelou. Três cães estavam parados ali, olhando para ele.
O tempo pareceu se dilatar por alguns segundos intermináveis. Hoseok ficou imóvel, o corpo rígido, o coração martelando no peito enquanto encarava aquelas criaturas. Os cães também não se moviam. Apenas rosnavam baixo, os dentes expostos em um ranger ameaçador, a baba escorrendo pelos cantos da boca em pura fúria.
Aquilo não eram cães comuns. Eram grandes e fortes demais. Os olhos, esbranquiçados e sem vida, tinham o mesmo tom doentio que ele havia visto nos olhos do Senhor Lee. O pelo havia praticamente desaparecido, deixando a pele exposta, repuxada sobre músculos inchados e deformados. Seus corpos pareciam alterados. Modificados. Criados para matar.
O ar ficou pesado. Hoseok mal conseguia respirar. Seus pulmões queimavam enquanto o pânico tomava conta de cada célula de seu corpo. Qualquer movimento brusco seria o gatilho. Ele sabia que eles estavam apenas esperando.
O elevador estava atrás dele, só precisava chegar até lá.
Hoseok puxou o máximo de ar que conseguiu, sentindo o peito doer, e então correu. Correu como nunca havia corrido na vida.
No instante em que se moveu, os cães explodiram em ação. O som de patas batendo contra o chão ecoou pelo corredor, acompanhado de rosnados enlouquecidos. Hoseok sentia o chão vibrar sob seus pés enquanto o medo o empurrava para frente.
O elevador surgiu à sua frente como uma miragem. Ele forçou o corpo além do limite, as pernas queimando, o coração prestes a sair pela boca. Saltou para dentro do elevador e, com mãos trêmulas, socou o botão repetidas vezes.
— Fecha… fecha… fecha… — murmurava em desespero.
Os cães já estavam perto demais.
As portas começaram a se fechar lentamente. Hoseok recuou até o fundo do elevador, encurralado, o corpo em choque, os olhos arregalados vendo as criaturas avançarem, prontas para alcançá-lo.
No último segundo, as portas se encontraram com um estalo metálico.
Hoseok deslizou até o chão, sentando-se com as costas contra a parede do elevador, ofegante, sentindo as pernas falharem. O ar entrou em seus pulmões de forma desesperada enquanto o terror ainda pulsava em suas veias.
Com dificuldade, se levantou e apertou o botão que o levaria de volta aos andares superiores.
Antes que as portas se abrissem novamente, arrancou o avental branco do corpo. O tecido estava pesado, encharcado de sangue. Amassou-o com pressa, escondendo as manchas, como se pudesse esconder também tudo o que havia visto.
Saiu do elevador com as pernas ainda trêmulas e seguiu pelos corredores do laboratório tentando parecer normal, embora por dentro estivesse em completo colapso. O coração batia rápido demais, a respiração insistia em falhar, e a sensação de estar sendo observado não o abandonava. Não podia contar a ninguém o que tinha visto lá embaixo. Não confiava em ninguém. Agora tinha certeza de que tudo aquilo era obra de Dimitri, e a suspeita crescia de forma sufocante: aqueles corpos, aquelas criaturas, tudo fazia parte de algum experimento monstruoso. A ficha finalmente havia caído. Permanecer em Union significava morrer. Ele precisava sair dali. Precisava fugir daquela cidade “perfeita” antes que fosse tarde demais.
Sem levantar suspeitas, deixou o laboratório e seguiu direto para os dormitórios dos cientistas. Cada passo parecia mais pesado que o anterior, como se o chão tentasse segurá-lo ali. Ao chegar, entrou rapidamente em seu quarto e reuniu apenas o essencial: documentos, alguns pertences pessoais, tudo o que pudesse carregar sem chamar atenção. As mãos tremiam enquanto trocava de roupa e vestia um casaco mais pesado. O medo não o abandonava nem por um segundo. Assim que terminou, respirou fundo e saiu do dormitório sem olhar para trás.
Fugir de Union não era simples. A cidade havia sido projetada para não deixar ninguém sair sem autorização. Mas Hoseok tinha algo valioso: o cartão de acesso de Dimitri. Ele sabia que aquele cartão abria praticamente qualquer porta da cidade, bastava atravessar o controle de segurança. Naquele dia, a sorte parecia finalmente estar ao seu lado. Apenas dois guardas faziam a vigilância do portão principal. Hoseok escondeu a mochila rapidamente e correu até eles, assumindo uma postura desesperada, como se estivesse à beira de um colapso, o que de certa forma era verdade.
— O… o Doutor Ivanov… — disse, ofegante, fingindo recuperar o fôlego — Ele precisa de ajuda. Houve um acidente nos laboratórios…
Os seguranças o encararam com desconfiança. Antes que fizessem mais perguntas, Hoseok mostrou o crachá.
— Sou o assistente dele. Deu um problema com um dos experimentos do subsolo — completou, escolhendo as palavras com cuidado.
Ao mencionar os experimentos, os dois homens trocaram olhares tensos. Algo naquela frase era familiar para eles. Sem hesitar, um dos guardas assentiu.
— Vamos verificar. Aguarde aqui em segurança, Senhor Jung.
Eles se afastaram apressados em direção aos laboratórios. Hoseok manteve o semblante neutro até vê-los desaparecer, então permitiu-se um sorriso breve e nervoso. Voltou rapidamente, pegou a mochila e seguiu até um portão menor. Passou o cartão de acesso e, quando a porta se abriu, lançou um último olhar para trás. Para a cidade impecável, silenciosa, artificial. Union continuava linda e agora ele sabia o quanto era podre por dentro. Sem hesitar, atravessou o portão.
O corredor o levou até uma ampla garagem subterrânea. Havia vários carros estacionados ali. Hoseok olhou em volta até encontrar um painel com uma porta de vidro, atrás da qual pendiam diversas chaves.
— Perfeito… — murmurou para si mesmo.
Pegou uma delas e acionou o alarme até identificar o veículo correspondente. Entrou no carro e ficou alguns segundos parado, com as mãos firmes no volante, tentando controlar a respiração. Estava realmente prestes a sair. Abriu a porta da garagem, ligou o motor e acelerou.
Era a primeira vez em anos que deixava Union. Assim que cruzou os limites da cidade, sentiu algo que quase havia esquecido: liberdade. Baixou o vidro e deixou o vento frio bater em seu rosto, enchendo os pulmões de ar puro. Pelo retrovisor, observou a cidade desaparecer aos poucos, substituída por campos extensos, árvores e montanhas recortando o horizonte. Hoseok seguiu dirigindo, sem olhar para trás, determinado a chegar a Moscou.
…
Ao chegar à cidade, Hoseok seguiu direto para o aeroporto, o coração martelando no peito a cada passo. Comprou uma passagem para Seul com mãos trêmulas, rezando em silêncio para conseguir sair dali sem qualquer problema. Fez o check-in o mais rápido que pôde, atento a cada movimento ao redor. Dimitri ainda não parecia ter notado sua ausência nem o sumiço do cartão de acesso, pois, se tivesse, a polícia russa já estaria atrás dele e sua fuga teria acabado antes mesmo de começar. Quando o aviso de embarque finalmente ecoou pelo saguão, Hoseok caminhou até o portão tentando parecer calmo. Só quando se sentou na poltrona do avião, com o cinto afivelado, foi que a realidade o atingiu de verdade: ele estava indo embora. Estava escapando.
A viagem de volta à Coreia transcorreu sem incidentes, mas Hoseok mal conseguiu relaxar. O corpo permanecia tenso, a mente refazendo cada cena do subterrâneo de Union como um pesadelo que insistia em se repetir. Ao desembarcar em solo coreano, no aeroporto de Incheon, respirou fundo, sentindo um alívio quase doloroso invadir o peito. Ainda assim, a sensação de segurança não durou muito. Não sabia dizer se era apenas paranoia, mas teve a impressão incômoda de que alguns homens o observavam de forma estranha. Qualquer olhar mais demorado parecia uma ameaça. Tudo o que tinha visto no dia anterior havia deixado sua mente em estado de alerta constante.
Sem querer dar chance ao azar, chamou um táxi e entrou rapidamente no carro, passando ao motorista o endereço de um hotel qualquer, um lugar aleatório onde pudesse se esconder por algumas horas. Assim que chegou, correu até a recepção, alugou um quarto sem fazer perguntas e subiu o mais rápido possível. Trancou a porta atrás de si e soltou o ar que parecia preso nos pulmões. Largou a mochila sobre a cama e foi direto para o banheiro, decidido a tomar um banho e tentar, ao menos por alguns minutos, se sentir humano outra vez.
Quando voltou ao quarto, apenas com a toalha enrolada na cintura, algo fez seu corpo congelar. A porta estava aberta. Ele tinha certeza absoluta de que a havia trancado antes de entrar no banheiro. O coração disparou, e, no instante em que começou a virar o rosto para conferir, foi agarrado por trás. Um homem o imobilizou com força, os movimentos rápidos e precisos. Hoseok lutou como pôde, se debatendo, mas o outro era mais forte, mais ágil, e o lançou violentamente ao chão. Suas costas bateram contra o piso frio e úmido, arrancando-lhe o ar dos pulmões. Em segundos, estava completamente dominado, preso sob o peso do agressor, que o encarava com um sorriso perturbador.
— A ordem é te matar… — disse o homem, com a voz baixa e cruel — mas seria um desperdício, não acha?
Antes que Hoseok pudesse reagir, a toalha foi arrancada de seu corpo. O toque repulsivo fez o pânico explodir de vez. Ele gritava, se debatia, tentando se livrar, sentindo o terror subir pela garganta. Então, o som seco de um disparo cortou o ar. Hoseok arregalou os olhos ao ver a expressão do homem mudar em um segundo, antes de um buraco se abrir em sua cabeça. O corpo perdeu a força e caiu sobre ele, pesado, inerte. O sangue quente escorreu, manchando sua pele. Com esforço, Hoseok empurrou o cadáver para o lado e ergueu o olhar, ainda em choque.
No batente da porta, havia outro homem. Ele segurava uma arma, observava a cena com uma tranquilidade perturbadora. Um sorriso lento se formou em seus lábios enquanto encarava Hoseok.
Hoseok se encolheu imediatamente, tomado ao mesmo tempo pelo medo e pela vergonha ao perceber que ainda estava nu. O corpo tremia, não sabia dizer se pelo frio, pela adrenalina ou pelo choque de tudo o que havia acabado de acontecer. O homem que surgira na porta se aproximou com passos calmos, quase elegantes, tirou o próprio casaco e se agachou diante dele, cobrindo-o com cuidado, num gesto que contrastava demais com a violência que acabara de acontecer.
— Doutor Jung… — disse ele, com um sorriso enigmático, atraente e difícil de decifrar.
— Quem é você? — perguntou Hoseok, a voz falhando enquanto apertava o casaco contra o próprio corpo, ainda sentindo o coração disparado.
— Meu nome é Mingi. Sou o CEO da maior empresa de smartphones do mundo.
Hoseok o encarava em silêncio, completamente atônito. Aquilo parecia irreal demais para ser verdade, como se tivesse caído em outra armadilha ainda maior.
— Obrigado por ter me salvado, senhor Mingi… — começou, engolindo em seco — mas como sabe quem eu sou? Como sabe meu nome? E… o que exatamente você quer comigo?
Mingi manteve o sorriso tranquilo, mas havia algo afiado em seu olhar, algo que deixava claro que ele estava sempre alguns passos à frente.
— Eu sei tudo sobre você, Doutor Jung. Sei que fugiu de Union, sei que trabalhou diretamente com Ivanov e sei, principalmente, que você viu coisas demais. Ivanov também sabe disso, e por isso mandou alguém atrás de você. Aquilo que acabou de acontecer não foi um acaso. — Ele fez uma breve pausa antes de continuar. — Posso te oferecer proteção, segurança e um lugar onde ninguém poderá te alcançar. Em troca, quero que trabalhe para mim. Preciso dos seus conhecimentos. O que me diz?
— Trabalhar pra você? — Hoseok perguntou, ainda confuso, já vestindo melhor o casaco e abotoando-o — O senhor sabe que eu não sou programador nem trabalho com tecnologia. Sou cientista e médico.
— Eu sei exatamente quem você é — respondeu Mingi com naturalidade. — E tenho interesses que vão muito além de tecnologia. Preciso de você na minha equipe.
Hoseok suspirou profundamente. No fundo, sabia que não tinha escolha. Estava exausto, assustado e ciente de que, se ficasse sozinho, poderia acabar encontrando outro assassino enviado por Dimitri. A ideia de proteção, naquele momento, era a única coisa que o mantinha de pé.
— Tudo bem… — disse por fim — eu aceito. Mas antes, preciso saber exatamente no que estou me metendo. Não vou trabalhar às cegas novamente.
— Claro — Mingi respondeu com serenidade. — Mas antes, vamos para um lugar seguro. — Ele estendeu a mão. — Pode confiar em mim.
Hoseok hesitou por um segundo, então assentiu e segurou a mão dele. Caminharam até o carro em silêncio. Havia tantas perguntas fervilhando em sua mente que ele nem sabia por onde começar, e o cansaço físico e emocional acabou vencendo qualquer impulso de falar.
O trajeto terminou diante de uma mansão imponente, isolada, afastada da cidade. O lugar parecia silencioso, quase fora do mundo. Hoseok seguiu Mingi para dentro, observando tudo com atenção.
— A partir de agora, este será o seu lar — explicou Mingi enquanto caminhavam pelos corredores amplos. — Te levarei ao seu quarto. Tome outro banho, vista roupas confortáveis. Depois conversaremos com calma sobre o seu novo trabalho.
Eles chegaram a uma sala enorme e elegantemente iluminada. O som suave de um piano preenchia o ambiente. Hoseok parou ao ver um rapaz sentado diante do instrumento. Sua pele muito branca contrastava intensamente com o robe preto de seda que vestia, largo demais para seu corpo pequeno, escorregando pelos ombros e deixando-os à mostra. Ficava claro que não usava mais nada por baixo daquela peça.
— Yoongi, este é o Hoseok — anunciou Mingi.
O rapaz parou de tocar, pegou calmamente a taça de vinho apoiada sobre o piano e deu um gole antes de levantar o olhar para Hoseok, analisando-o de cima a baixo com um sorriso lento e provocador.
— Trouxe um brinquedinho novo para nós, Mingi? — perguntou, a voz carregada de ironia e malícia.
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