A Cura

21 Mentiras



Já haviam se passado alguns anos desde que Hoseok passara a morar na casa de Mingi, e, apesar de tudo o que vivera até chegar ali, já estava completamente adaptado àquela rotina peculiar. A mansão deixou de parecer um lugar estranho e, aos poucos, tinha se tornado um lar. Hoseok acordava todas as manhãs com a mesma disposição de sempre, fiel ao seu hábito de ser o primeiro a levantar. Yoongi, por outro lado, parecia travar uma batalha diária contra o despertador e contra o próprio ato de acordar, como se dormir fosse sua missão mais importante na vida.

Naquela manhã não foi diferente. Hoseok levantou animado, foi direto ao banheiro e tomou um banho longo e relaxante, deixando a água quente cair sobre os ombros enquanto organizava mentalmente o dia que tinha pela frente. Quando terminou, voltou para o quarto ainda de toalha, já sabendo exatamente o que o aguardava. Yoongi permanecia estirado na cama, completamente entregue ao sono, coberto até o queixo, alheio ao mundo.

Com um sorriso travesso, Hoseok se aproximou e cutucou o outro algumas vezes, tentando acordá-lo. Yoongi apenas resmungou algo incompreensível e, sem nem abrir os olhos, pegou um travesseiro e o arremessou na direção dele, numa tentativa preguiçosa de garantir mais alguns minutos de sono.

— Acorda, arrombado! — Hoseok reclamou, puxando a coberta com força.

Mesmo assim, Yoongi não deu o menor sinal de que pretendia acordar. Já acostumado com aquela resistência absurda, Hoseok decidiu apelar. Segurou Yoongi pelas pernas e o puxou, fazendo com que ele despencasse da cama e batesse a cabeça no chão, finalmente despertando no susto e na raiva.

— PORRA! — Yoongi gritou, sentando-se no chão, completamente desnorteado e furioso.

— Só assim pra você acordar, viado — Hoseok respondeu com naturalidade, como se aquilo fosse o método mais lógico do mundo. — Vai tomar um banho.

Yoongi se levantou bufando, xingando baixo e lançando um olhar mortal na direção dele, ainda irritado por ter sido arrancado do sono daquela forma. Sem dizer mais nada, entrou no banheiro e bateu a porta com força, deixando claro o quanto queria continuar dormindo e o quanto odiava ser acordado daquele jeito. Hoseok apenas riu, certo de que, apesar das reclamações, aquela já era uma cena comum.

Ele deu de ombros, ainda sorrindo, e foi até o guarda-roupa escolher uma roupa. Quando levou a mão à toalha para finalmente se trocar, foi surpreendido pela presença de Mingi, que surgira silenciosamente à porta e agora se apoiava no batente, observando-o com um sorriso lento e provocador.

— Você fica bem melhor sem roupas, ruivinho.

— Mingi! — Hoseok exclamou, rindo, genuinamente animado ao vê-lo. — Droga… eu queria ter acordado antes de você pra preparar o café.

Mingi não respondeu de imediato. Aproximou-se com passos calmos, envolveu a cintura de Hoseok com firmeza e o puxou para perto.

— Mas eu quero um café da manhã especial.

— Café da manhã especial? — Hoseok ergueu o olhar, mordendo o lábio inferior quase sem perceber.

— Sim — Mingi murmurou, inclinando-se um pouco mais. — Você. Você é o meu café da manhã especial… você e o Yoon.

Hoseok revirou os olhos, lançando um olhar irritado para a porta do banheiro, de onde vinha o som da água do chuveiro.

— Aquele idiota demora uma eternidade pra acordar — reclamou, suspirando. — Se dependesse dele pra aliviar minhas… necessidades da manhã, eu teria que me virar sozinho.

Mingi soltou uma risada baixa ao ver o biquinho contrariado de Hoseok, claramente se divertindo com a cena.

— Eu adoro quando você fica bravinho assim.

Aproximou-se ainda mais e deu uma mordidinha leve nos lábios de Hoseok, provocando um arrepio imediato.

— Mingi… — Hoseok murmurou, a voz manhosa sem esforço algum, antes de envolver os braços em torno do pescoço dele e puxá-lo para um beijo lento.

Yoongi saiu do banheiro ainda secando os cabelos, apenas com a toalha na cintura, e parou no meio do quarto ao dar de cara com Hoseok e Mingi se beijando nus sobre a cama. Em vez de se chocar, seus olhos brilharam.

— Hm… café da manhã — comentou, animado.

Sem cerimônia, subiu na cama, encaixando-se entre os dois, puxou o rosto de Hoseok para si e o beijou com intensidade, como se quisesse compensar cada segundo perdido. O clima já quente se incendiou de vez, e os três se entregaram um ao outro sem pressa, perdendo completamente a noção do tempo.

Horas depois, exaustos, com os corpos ainda quentes e a respiração irregular, Mingi se levantou e saiu do quarto para buscar algo para beber. Quando voltou, encontrou exatamente a cena que mais gostava de ver: Yoongi e Hoseok novamente enroscados, beijando-se com fome, os corpos nus colados, provocando-se sem pudor.

Mingi sorriu satisfeito. Sentou-se na poltrona próxima à cama com um martíni na mão, apoiou a taça na mesinha ao lado, acendeu um charuto com calma e ficou ali, observando em silêncio, saboreando a fumaça e o espetáculo diante de si enquanto os dois voltavam a se perder um no outro.

No dia seguinte, a tarde brilhava do lado de fora, ensolarada e quase irônica, enquanto dentro da casa o clima era pesado, carregado, como se nuvens se acumulassem sob o teto. Mingi andava de um lado para o outro em seu laboratório, passos longos e inquietos, o som das botas ecoando no piso branco. As luzes frias refletiam nos vidros e nos equipamentos, deixando tudo ainda mais impessoal.

— Eu não consigo… já tentei de tudo! — Hoseok disse, a voz embargada, os olhos marejados enquanto apertava os punhos ao lado do corpo.

Mingi parou diante dele e segurou seu rosto com cuidado, obrigando-o a erguer o olhar.

— Calma, amor. Você é bom no que faz, é inteligente. Vai conseguir. Não tenha pressa — falou em tom firme, mas suave, tentando ancorá-lo.

— Não… eu não sou bom — Hoseok balançou a cabeça, as lágrimas finalmente escorrendo. — Bom é o doutor Ivanov. Eu nunca vou conseguir criar um antivírus para algo que ele desenvolveu. Isso é impossível.

Seu olhar deslizou até as gaiolas de contenção. Os ratinhos estavam imóveis, pequenos corpos sem vida espalhados como provas silenciosas de seu fracasso. Hoseok sentiu o peito apertar.

— Olha isso, Mingi… — murmurou, a voz quebrada. — Eu não consegui salvar nenhum deles. Não tem jeito. Eu preciso de uma amostra do vírus. Sem isso, eu não consigo fazer nada.

— Uma amostra? — Mingi repetiu, pensativo.

Ele se virou lentamente, o olhar afiado pousando em Yoongi, que estava encostado na bancada, cutucando distraidamente um dos ratos mortos com a ponta de uma seringa, como se já estivesse entediado com aquela cena.

— Yoongi… — chamou.

— Fala — respondeu ele, erguendo o olhar com interesse.

Mingi suspirou fundo, o canto da boca se curvando em um sorriso.

— Tenho uma nova missão pra você.

Yoongi endireitou a postura, os olhos brilhando de expectativa, mas permaneceu em silêncio. Mingi cruzou os braços, a decisão já tomada.

— Prepare-se para ir à Rússia. — Fez uma breve pausa, deixando o peso da frase cair no ar. — Preciso que você me traga uma amostra do vírus de Dimitri.

… Alguns anos depois ...

Jimin dançava animado diante de Jungkook, que batia palmas no ritmo e sorria largo, completamente encantado enquanto ele arriscava alguns passos de hip hop.

— Agora vou dançar essa aqui — Jimin avisou, ainda ofegante, passando a mão pela testa. — Treinei muito essa coreografia… espero que fique boa.

Respirou fundo, deu play na música e, no instante em que o som começou, algo nele mudou. Jimin jogou os cabelos para trás com naturalidade e ergueu o olhar, fixando-o em Jungkook com uma intensidade que fez o outro quase se engasgar só com aquele contato silencioso.

Os movimentos vieram mais lentos, mais fluidos, acompanhando o ritmo da música. Jimin se deixava levar, dançando com confiança, deslizando pelo espaço, consciente de cada gesto, de cada olhar lançado na direção de Jungkook. Não era só a coreografia, era a presença, a forma como ele ocupava o ambiente.

— Ji-Jimin… — Jungkook murmurou, a voz saindo falha, incapaz de esconder o impacto.

Jimin continuou, passando as mãos pelo próprio corpo como parte da dança, sem tirar os olhos dele. Jungkook estava completamente hipnotizado, parado no lugar, o sorriso bobo sumindo aos poucos, substituído por um olhar atento e maravilhado, esquecendo até de respirar enquanto assistia.

Além de Jimin ser naturalmente belo e cativante aos seus dezesseis anos, Jungkook tinha dezenove e carregava consigo uma mistura intensa de responsabilidade, curiosidade e sentimentos que ele mesmo ainda aprendia a nomear. Desde os treze anos, havia dedicado grande parte da própria vida a Jimin. No começo, era apenas um trabalho, uma função a cumprir. Com o tempo, porém, o cuidado virou afeto, o afeto virou apego e, quando percebeu, Jungkook já estava irremediavelmente apaixonado.

Proteger Jimin, cuidar dele, garantir que estivesse seguro e feliz era o que Jungkook mais gostava de fazer, mesmo que isso tomasse todo o seu tempo. Havia algo profundamente gratificante em estar ao lado dele, em ser o apoio silencioso, o porto seguro. O problema era que Jimin, muitas vezes sem perceber, o provocava com sorrisos, olhares e brincadeiras que bagunçavam completamente seus pensamentos. Se dependesse apenas do coração de Jungkook, ele já teria feito planos para alguém tão jovem, mas a razão sempre o puxava de volta à realidade. Eles ainda tinham muito a viver, muito a amadurecer e, acima de tudo, havia Namjoon.

Jungkook chegou a conversar com Namjoon sobre a possibilidade de assumir um namoro com Jimin, usando como argumento o quanto isso poderia afastar pessoas mal intencionadas. Namjoon, surpreendentemente, gostou da ideia. Pensar no filho nas mãos de alguém irresponsável lhe causava arrepios, e Jungkook era alguém em quem confiava plenamente. Ele sabia que, ao lado dele, Jimin estaria protegido, seria respeitado e cuidado como merecia.

Para Namjoon, Jungkook era apenas um jovem extremamente dedicado ao trabalho, alguém que levava suas responsabilidades a sério demais para a própria idade. Mas a verdade era bem diferente. Jungkook estava profundamente apaixonado por Jimin, e não se tratava de um sentimento passageiro ou confuso. Era algo enraizado, forte, silencioso e constante, crescendo ano após ano. Justamente por isso, ele se martirizava em silêncio, dividido entre o desejo de contar toda a verdade e o medo das consequências.

Ele odiava mentir para Jimin. Odiava olhar nos olhos dele sabendo que escondia algo tão importante. Ainda assim, o medo falava mais alto. Não seria fácil para Jimin aceitar que seu melhor amigo, a pessoa em quem mais confiava, aquele que esteve ao seu lado desde sempre, fora contratado desde criança para protegê-lo e lhe fazer companhia. Jungkook temia que Jimin se sentisse traído, usado e enganado. Tinha medo de perdê-lo, de ser odiado. E, por isso, escolheu o silêncio. Preferiu carregar o peso da mentira a arriscar a distância. Se fosse para continuar ao lado de Jimin, ele suportaria qualquer culpa.

Quando Jimin completou dezessete anos, Jungkook decidiu transformar todo aquele sentimento contido em algo bonito, concreto e inesquecível. Preparou tudo com cuidado. Comprou um buquê de flores impecável e fez um pedido de namoro digno de filme romântico. Levou Jimin a um restaurante requintado no centro da cidade, escolheu a mesa perfeita, respirou fundo e, com o coração quase saindo pela boca, ajoelhou-se diante dele.

O pedido foi simples, sincero, carregado de emoção. Jimin, tomado pela surpresa e pela felicidade, aceitou sem hesitar. Jungkook se levantou e o beijou ali mesmo, sem se importar com os olhares ao redor. Os clientes que assistiam à cena se comoveram, alguns sorriram, outros aplaudiram, celebrando aquele casal que parecia tão puro e apaixonado. Para o mundo, era apenas uma história bonita. Para Jungkook, era a realização de um amor que ele guardava havia anos, ainda que sustentado por um segredo que insistia em bater à porta.

Jimin estava mais do que feliz com o namorado. Sempre amou Jungkook, sempre o quis por perto, e agora tudo parecia irreal, como se estivesse vivendo dentro de um sonho do qual não queria acordar. Havia uma leveza nova em seus dias, um sorriso constante nos lábios, como se o mundo inteiro tivesse ficado mais bonito desde que passaram a se chamar de namorados.

Naquela semana, estava ainda mais meloso e grudento que o normal. Fazia manha sem o menor pudor, inventava qualquer desculpa só para se aninhar no colo de Jungkook, entrelaçar as pernas nas dele ou esconder o rosto em seu peito. Adorava observá-lo em silêncio, decorar cada traço do seu rosto, o jeito concentrado dos olhos, a curva da boca, apenas para depois beijá-lo de novo, como se nunca fosse suficiente. Era um hábito do qual não se cansava, e Jungkook também não reclamava.

A casa na árvore que haviam construído anos atrás se transformou em algo sagrado para os dois. Já não era apenas uma brincadeira de infância, mas o ninho deles, um refúgio secreto onde o mundo parecia não existir. Ali passavam horas namorando, trocando beijos preguiçosos, risadas baixas e promessas sussurradas, como dois pombinhos escondidos entre galhos e folhas.

À noite, subiam para o telhadinho da casa e se deitavam lado a lado, os ombros se tocando, os dedos entrelaçados, olhando as estrelas brilharem no céu escuro. Jimin gostava de ouvir a respiração calma de Jungkook, de sentir seu calor, de imaginar um futuro que, pela primeira vez, parecia possível e bonito.

Naqueles momentos, Jimin não conseguia conceber que existisse alegria maior do que aquela. Para ele, a felicidade tinha o nome de Jungkook, o cheiro da madeira da casa na árvore e o brilho distante das estrelas acima deles.

— Kookie?

— Oi, Chim? — Jungkook ainda olhava para o céu antes de se virar para ele.

— É que… já faz tantos anos que a gente se conhece, e agora estamos namorando. Eu só queria… — Jimin respirou fundo, reunindo coragem — …poder conhecer seus pais. Isso é importante pra mim.

Mesmo esperando que esse momento chegasse um dia, Jungkook sentiu o coração apertar. Uma inquietação silenciosa se espalhou pelo peito. Teria que sustentar mais uma mentira justamente para a pessoa que mais amava.

— Ah… meus pais… — começou, escolhendo as palavras com cuidado — Eles vivem viajando a trabalho, estão sempre fora. Mas eu vou falar com eles, sim. Vou pedir pra separarem um tempo pra nós. Você é muito importante pra mim, e eu quero que eles te conheçam.

Os olhos de Jimin brilharam.

— Sério? Eu sou tão especial assim pra você?

Jungkook sorriu, um sorriso cheio de carinho e um pouco de melancolia.

— Claro que é. Você é meu namorado, a pessoa que mora no meu coração. É o homem mais lindo que eu conheço… e eu te amo.

— Eu também te amo, Kookie — Jimin respondeu baixinho. — Você foi a melhor coisa que já me aconteceu. Agradeço todos os dias por Deus ter te colocado na minha vida.

Ele se deitou sobre o peito de Jungkook, acomodando a cabeça entre o pescoço e a clavícula dele, buscando aquele lugar que sempre lhe trouxe segurança. Jungkook o envolveu em um abraço apertado, aproveitando cada segundo daquele momento simples e precioso, como se temesse que o tempo pudesse, de alguma forma, roubá-lo.

No dia seguinte, Jungkook conversou longamente com Namjoon e explicou toda a situação, sem poupar detalhes. O clima era pesado, carregado de preocupação.

— Não sei como o Jimin vai reagir se contarmos a verdade — disse Namjoon, sério, cruzando os braços à frente do corpo. — Precisamos arrumar uma família pra você.

— Senhor Park, isso não vai dar certo… — Jungkook balançou a cabeça, aflito. — Não é simples assim arrumar uma família do nada.

— Deixe isso comigo — Namjoon respondeu com firmeza. — Tenho amigos atores. Sei que fariam isso se fossem bem pagos.

Jungkook sentiu o estômago revirar.

— Mas eu não sei… enganar o Chim dessa forma… — Ele abaixou o olhar, a voz mais baixa. — Eu estou desconfortável com isso. Talvez fosse melhor contar a verdade.

Namjoon o encarou por alguns segundos, avaliando cada palavra antes de responder.

— Ele é meu filho, e eu sei o que é melhor pra ele. Tenho medo de que Jimin não aguente essa revelação. Não quero vê-lo sofrer outra vez. — Sua voz suavizou, mas continuava firme. — Apenas continue fazendo o seu trabalho, como sempre fez tão bem.

Jungkook suspirou, sentindo um peso esmagador no peito. A culpa queimava por dentro, mas o medo de perder Jimin falava mais alto. E se ele o odiasse ao descobrir tudo? E se nunca mais confiasse nele?

— Tudo bem, Senhor Park — disse por fim, forçando firmeza na voz. — Confio no senhor… e sei que vai saber como resolver isso.

— Obrigado por confiar em mim — respondeu Namjoon, levantando-se. — Espere só um minuto, menino Kook.

Ele pegou o celular e se afastou, fazendo algumas ligações rápidas, falando baixo. Jungkook permaneceu parado, o coração acelerado, imaginando até onde aquela mentira poderia levá-lo. Alguns minutos depois, Namjoon voltou e se sentou novamente, com uma expressão decidida.

— Pronto. Problema resolvido — disse, como se fosse algo simples. — Amanhã você vai conhecer seus novos “pais”.

Jungkook sentiu um arrepio percorrer a espinha. Aquilo não parecia uma solução. Parecia o início de algo que poderia sair completamente do controle.

Notas finais
NAM, SÉRIO. PQ TA FAZENDO ISSO? Kook, vc é cumplice! A mentira só cresce e fica pior... ai ai...