A Cura

22 Os pais de Jungkook



Jungkook encarava, completamente perplexo, a mulher que supostamente seria sua mãe. Ela usava um casaco de pele exagerado sobre uma saia de couro curtíssima; os cabelos descoloridos, de um loiro amarelado, caíam de qualquer jeito, enquanto um cigarro pendia entre os dedos e um chiclete era mascado com tédio. A expressão de puro desdém não era nada acolhedora e, para piorar, Jungkook a reconhecia muito bem.

— Você quer que uma atriz pornô seja a minha mãe? — perguntou a Namjoon, horrorizado, sem o menor cuidado em poupar a mulher.

— Em primeiro lugar, fico feliz que você assista aos meus filmes, docinho — respondeu ela com um sorrisinho provocador, circulando Jungkook como quem avalia uma mercadoria. Passou as mãos pelo tórax dele sem cerimônia. — Em segundo lugar, sou uma ótima atriz. Posso fazer o papel de mamãe boazinha, recatada e exemplar. Não se preocupe.

— Confie neles, Jungkook — completou Namjoon, tentando soar tranquilo. — São bons atores, eu os conheço há muitos anos.

— Já fiz muitos favores para o Ministro Park — disse o homem que seria o “pai” de Jungkook, exibindo um sorriso confiante. Usava um terno escuro perfeitamente ajustado ao corpo, tinha um cavanhaque bem aparado e óculos escuros que só reforçavam a impressão de alguém perigoso e carismático; para Jungkook, ele parecia uma versão coreana do Tony Stark. — Ele aprecia meus serviços — acrescentou, retirando os óculos e piscando para Namjoon.

— Apreciava — corrigiu Namjoon, seco. — Sou um homem comprometido agora, por assim dizer… Enfim, vamos nos preparar para esse jantar.

Jungkook soltou um suspiro longo e irritado. Observando aquela dupla improvável, teve a nítida sensação de que aquele plano tinha tudo para dar errado.

Jungkook suava frio. O estômago revirava, as mãos estavam úmidas, e a sensação de estar prestes a cometer um erro irreversível pesava em seus ombros. Em poucos minutos buscaria Jimin e daria início àquela farsa cuidadosamente montada, e só de pensar nisso o ar parecia faltar.

A casa estava impecável, pensada nos mínimos detalhes. Namjoon havia previsto tudo: a decoração elegante, os tons acolhedores, os móveis escolhidos para transmitir conforto e felicidade. Cada canto parecia gritar “lar”. Porta-retratos estrategicamente espalhados exibiam fotos em “família”, sorrisos ensaiados como se aquela história sempre tivesse existido.

Até o quarto de Jungkook havia sido estrategicamente pensado. Parecia o quarto de um jovem comum, quase mimado. Tinha videogames, pôsteres e objetos geek cuidadosamente posicionados. Nada ali lembrava o verdadeiro espaço onde ele dormia, em um pequeno e simples apartamento no centro da cidade, que mais parecia uma academia improvisada. Lá havia halteres espalhados, uma esteira encostada na parede, um saco de pancadas pendurado e luvas de boxe gastas pelo uso constante. Era um ambiente honesto, o lugar que dizia quem ele realmente era, o completo oposto do personagem de “playboyzinho filhinho de papai” que agora ele precisava sustentar.

Saiu para buscar Jimin em seu carro, ao menos aquela era uma das poucas coisas reais em meio a tantas mentiras. Não queria se atrasar. Enquanto dirigia, pensava que deveria estar nervoso pelo motivo certo: apresentar o homem que amava à própria família. Mas não tinha pais. Nunca teve. Aquela ansiedade não vinha do medo de julgamento, e sim do peso de enganar Jimin, alguém tão puro e gentil, alguém que não merecia ser envolvido naquele teatro cruel.

O volante parecia escorregar entre seus dedos enquanto tentava se convencer, de forma quase desesperada, de que tudo aquilo era para o bem de Jimin. Repetia isso mentalmente como um mantra, mesmo sabendo que soava cada vez mais vazio.

Ao chegar à mansão dos Park, viu Jimin esperando por ele. O sorriso largo iluminava seu rosto, e Jungkook sentiu o peito apertar. Os cabelos loiros estavam penteados para trás com cuidado, e ele vestia um casaco de veludo azul-escuro sobre uma camisa social preta, cuja gola tinha delicados detalhes rendados. Parecia um príncipe saído de um conto, bonito demais e bom demais para ser enganado daquela forma.

— Vamos? — Jimin chamou, animado, aproximando-se do carro. — Estou ansioso para conhecer sua casa e sua família.

— Sim, Chim… vamos — respondeu Jungkook, forçando um sorriso que não alcançou os olhos, enquanto sentia o peso da mentira crescer ainda mais dentro do peito.

Ao chegarem à suposta casa de Jungkook, Jimin ajeitou os cabelos com cuidado e deu um último retoque na maquiagem, observando o próprio reflexo no espelho do carro. Estava claramente ansioso, os dedos inquietos denunciando o nervosismo que tentava esconder.

— Como estou, Kookie? — perguntou, a voz baixa, carregada de expectativa.

— Lindo como sempre, meu amor — respondeu Jungkook, tocando de leve a bochecha dele em um carinho que tentou transmitir segurança, embora seu peito estivesse apertado.

— Tomara que eles gostem de mim… estou nervoso — Jimin respirou fundo, fechando os olhos por um instante, como se reunisse coragem.

— É impossível não gostar de você, Chim. Não fique com medo, eles vão te adorar — Jungkook estendeu a mão, firme, oferecendo apoio.

— Tá bom… obrigado, Kookie — Jimin respirou fundo mais uma vez e entrelaçou os dedos aos dele, buscando conforto naquele gesto simples.

Jungkook abriu a porta e os conduziu para dentro. Logo na entrada, a “mãe” de Jungkook surgiu para recebê-los com um sorriso enorme e acolhedor, tão convincente que quase parecia real. Ela não lembrava em nada a mulher que Jungkook conhecia, os cabelos agora estavam pintados de castanho escuro, com uma franja delicada emoldurando o rosto; as unhas longas e pontudas haviam desaparecido, substituídas por unhas discretas; a maquiagem era leve, quase natural, e o vestido longo, florido e de tom claro completava a imagem de uma mãe doce.

— Olá! Você deve ser o Jimin, não é? — perguntou ela, em um tom animado e caloroso.

— Ah, sim… — Jungkook deu um pequeno passo à frente, visivelmente tenso. — É… mãe… esse é o meu namorado, Park Jimin. E Jimin, essa é a minha mãe… a senhora Jeon Shin Hye.

— Prazer em conhecê-la, senhora Jeon — Jimin fez uma reverência educada, o coração batendo acelerado.

— O prazer é todo meu — ela respondeu, sorrindo de forma gentil. — Você é muito lindo, Jimin. Meu filho tem um ótimo gosto. Venham, entrem… o jantar já está servido.

Jungkook observava tudo em silêncio, com um nó apertado no estômago, torcendo para que aquele teatro cuidadosamente ensaiado não desmoronasse diante dos olhos confiantes de Jimin. Cada passo dentro daquela casa parecia uma encenação perigosa.

Quando chegaram à sala de jantar, um homem de boa aparência já os aguardava. Ele estava sentado à cabeceira da mesa, concentrado na leitura de algo em seu tablet, com uma postura impecável e distante. Ao ouvir a voz de Jungkook, ergueu lentamente o olhar.

— Pai… — Jungkook o chamou, a voz um pouco mais baixa do que gostaria. — Bom… é… chegamos. Esse é o meu namorado, Park Jimin.

— Olá, Jimin. Seja bem-vindo ao lar dos Jeon — disse o homem, levantando-se para cumprimentá-lo com um sorriso educado, calculado na medida certa.

— Muito obrigado, senhor Jeon. Sua casa é muito bonita — respondeu Jimin, fazendo uma reverência respeitosa, genuinamente encantado.

— Obrigado. Fique à vontade. Vamos nos sentar, o jantar já está pronto.

Jungkook puxou a cadeira para Jimin com um gesto cuidadoso e, em seguida, sentou-se ao seu lado. A “mãe” apareceu logo depois, trazendo os últimos pratos e finalizando a decoração da mesa, que estava farta e impecavelmente arrumada, digna de uma revista de luxo. Tudo parecia perfeito. O “pai” de Jungkook fez um breve discurso, dizendo algumas palavras genéricas sobre união, felicidade e sucesso, e então propôs um brinde ao novo casal. Taças se ergueram, sorrisos foram trocados, e o jantar finalmente começou.

Jimin comia em silêncio, atento a cada detalhe. Pelo pouco que observava, sentia algo estranho nos pais de Jungkook. Eles eram educados, mas excessivamente frios e distantes, quase formais demais para uma família. Não pareciam se envolver emocionalmente nem com o próprio filho, e tampouco havia qualquer traço físico que os ligasse a Jungkook. Até a maneira como se tratavam parecia mecânica, ensaiada, como se cada gesto tivesse sido previamente combinado.

Jimin tentou racionalizar aquilo em sua mente. Talvez Jungkook tivesse puxado os avós. Talvez os pais fossem assim mesmo por viverem sempre viajando a negócios, distantes da rotina do filho. Ainda assim, havia algo ali que não encaixava perfeitamente, uma sensação sutil, incômoda, que ele não conseguia explicar, mas preferiu ignorar naquele momento.

— Então, Jimin — chamou o homem, pousando o olhar atento sobre ele — o que você está estudando? Jungkook comentou que vocês fazem faculdade juntos.

— Ah, sim… estou cursando medicina veterinária — respondeu Jimin, com um sorriso educado.

— Não pretende seguir a política como seu pai?

— Não, política não é pra mim — disse com leveza. — Nunca levei jeito. Gosto mesmo é de cuidar dos animais.

— É uma boa profissão, Jimin — concluiu o homem, assentindo de forma contida.

Depois disso, o jantar seguiu em um silêncio confortável apenas na superfície. De vez em quando, um ou outro comentário surgia, perguntas pontuais lançadas mais por educação do que por real interesse. Jimin percebeu aquilo. Achou os pais de Jungkook um pouco estranhos, quase robóticos em seus gestos e reações, mas eram seus futuros sogros. Então se esforçou ainda mais para ser gentil, sorrir na medida certa e responder tudo com educação.

Quando terminaram o jantar, serviram a sobremesa. Logo depois, a mulher começou a retirar a mesa. Jimin insistiu em ajudar, oferecendo-se para lavar a louça, mas ela recusou prontamente, com um sorriso firme, e pediu que Jungkook mostrasse o quarto a ele.

Enquanto subiam, Jimin observava tudo com atenção: os corredores amplos, a decoração sofisticada, os porta-retratos com fotos de “família” espalhados pelas estantes e paredes. Era, sem dúvida, uma casa bonita e elegante, quase impecável.

Ao entrarem no quarto, Jungkook fechou a porta atrás deles. O clique da fechadura soou como um alívio.

— Enfim… sós — disse Jungkook, abraçando Jimin por trás e apoiando o queixo em seu ombro.

— Seu quarto é tão… — Jimin começou, olhando em volta, curioso.

— Tão? — Jungkook perguntou, distribuindo beijos leves em seu pescoço.

— Não sei… é tão diferente.

— Diferente como?

— É tão… normal — Jimin riu baixinho.

— Isso é ruim?

— Não, não é ruim — respondeu, pensativo. — Mas imaginei que seria diferente.

— Ah, é? — Jungkook continuava beijando seu pescoço, com carinho.

— É… parece que não tem muito a sua essência, sei lá — Jimin deu uma risadinha sem graça. — Esquece, acho que sou meio doido às vezes.

— Meu doidinho — Jungkook o apertou em um abraço forte. — Não vai pra lugar nenhum, tá? Por favor, Chim.

— Eu estou bem aqui, Kookie — Jimin respondeu, acariciando os braços dele. — Não vou pra lugar nenhum.

— Eu sei… — Jungkook murmurou. — É só que… eu quero você pra sempre do meu lado.

Jimin se virou, ficando frente a frente com ele, os braços envolvendo seu pescoço. Seu olhar era firme e sincero.

— Eu sempre vou estar ao seu lado.

— Aconteça o que acontecer?

— Aconteça o que acontecer — confirmou Jimin, sem hesitar, apesar de ter estranhado um pouco aquela pergunta. — Eu sempre estarei com você. Eu te amo, Kookie. Confio em você de todo o meu coração. Não vou te deixar jamais.

Jungkook o abraçou com força, apertando o corpo de Jimin contra o seu, como se tentasse protegê-lo do mundo inteiro. Ouvir aquelas palavras fazia seu coração doer de um jeito quase insuportável.

— Eu também te amo, Chim — sussurrou, enterrando o rosto em seus cabelos. — Te amo tanto que nem consigo colocar em palavras.

Enquanto inspirava o cheiro dele, desejou, com tudo o que tinha, que aquele momento pudesse durar para sempre.

“Espero que um dia você consiga me perdoar, Jimin”, pensou, sentindo o peso da culpa se acomodar ainda mais fundo em seu peito.

Notas finais
Namjoon e Jungkook.... VOU BATER EM VOCES.