A Cura

15 O que eu sou?


Notas iniciais
Olá meus amores :3 AVISO! O Capitulo contém violência e cenas sensíveis.


Jimin encarava, atônito, a pele lisa e intacta de sua mão. O local onde, segundos antes, havia um corte profundo agora estava perfeitamente regenerado, como se nada tivesse acontecido.

— O que eu sou? O que está acontecendo comigo? — murmurou, com a respiração acelerada.

Seus olhos desceram até a faca ainda úmida em sua mão. Um pensamento perigoso e impulsivo tomou conta de sua mente.

— Preciso ter certeza… Isso não pode ser real. Talvez eu esteja sonhando.

Inspirou fundo, hesitante, e com um movimento lento e calculado, pressionou a lâmina contra o próprio braço. O metal frio rasgou sua pele em um corte profundo. Um gemido de dor escapou por entre seus lábios. O sangue escorreu quente e num tom de vermelho vivo.

Levou o ferimento até a torneira e, em poucos segundos, viu a pele se fechar sozinha, como se estivesse assistindo a um vídeo em retrocesso. Nenhuma cicatriz. Nenhuma mancha. Como se o corte nunca tivesse existido.

Jimin recuou, ofegante. O coração batia descompassado. O que era aquilo?

A lembrança de sua infância doente veio como um relâmpago. Os médicos dizendo que ele não viveria até os dez anos. Os remédios, as dores, as internações constantes. E agora, ali estava ele, saudável e com uma cura inumana.

— Isso é impossível… — sussurrou, com os olhos marejados. — Não faz sentido...

Como num impulso, fez mais um corte, só para ter certeza. Mais uma vez, o corpo reagiu do mesmo jeito: regenerando-se em segundos, como se zombasse das leis da medicina e da lógica.

A única coisa que Jimin sabia era que isso não era normal. E ele definitivamente não era mais apenas um garoto curado. Ele era algo além.

Em meio ao turbilhão de pensamentos, Jimin se pegou imerso em uma lembrança distante. Seus olhos fixaram o nada, enquanto a mente o levava de volta a um dia marcante, há cerca de um ano.

Era uma manhã fria e silenciosa. A neve caía sem pressa, cobrindo ruas, árvores e telhados como um cobertor branco e macio. O colorido habitual da vizinhança havia desaparecido sob a monotonia gélida do inverno. Mas, para Jimin, aquela paisagem era mágica.

Lembrou-se do quanto se divertiu com Jungkook naqueles dias gelados. Juntos fizeram bonecos de neve, travaram batalhas com bolas geladas, e terminaram as tardes enrolados em cobertas diante da lareira, rindo e tomando chocolate quente. Tinha boas lembranças daquele inverno, com exceção de uma.

A excursão da escola.

Era a primeira vez que Jimin faria uma viagem escolar. O destino era um parque de diversões nas montanhas e a ideia de ir de ônibus, com todos os colegas, o deixava animado. Namjoon, no entanto, não compartilhava da empolgação. Era um pai protetor, quase paranoico quando o assunto era a saúde de Jimin. Ainda carregava o medo de perdê-lo, como quase aconteceu anos antes.

— Não acho seguro… — ele disse naquela manhã, observando o filho se agasalhar.

— Por favor, papai... eu tô bem agora. Quero ir! Todo mundo vai! — Jimin havia insistido, com um olhar tão esperançoso que era impossível dizer não.

Namjoon só cedeu quando soube que Jungkook iria junto. De alguma forma, confiava no garoto de cabelos escuros e olhar firme, talvez porque Jungkook, mesmo tão novo, era maduro demais para a idade e cuidava de Jimin com uma devoção impecável.

Naquele dia, após incontáveis orientações, Namjoon os levou até o portão da escola. Viu os dois descerem do carro e caminharem animados até os outros alunos.

Suspirou fundo. Sabia que não poderia proteger Jimin para sempre.

Jimin entrou no ônibus escolar amarelo com um sorriso radiante, saltitando ao lado de Jungkook. Estava empolgado com sua primeira viagem com os colegas, não que não gostasse de viajar com Namjoon, mas havia algo especial em estar ali, com os amigos, longe da supervisão dos adultos, sentindo-se finalmente um pouco mais independente.

Escolheu seu lugar favorito: o banco da janela. Adorava observar a paisagem passar como um filme. Jungkook sentou-se ao seu lado, no banco do corredor, sempre atento como um verdadeiro escudeiro.

Aos poucos, os outros alunos foram entrando, enchendo o ônibus com risadas, mochilas e vozes agitadas. O professor entrou por último, caminhou até a frente do veículo e pediu silêncio.

— Cintos afivelados e todos nos seus lugares. Sem bagunça, entendido?

Jungkook olhou para Jimin e, sem dizer nada, conferiu o cinto dele, ajustando com cuidado.

Depois das instruções, o professor e a diretora se sentaram nos bancos da frente. O motorista girou a chave e o ônibus começou a se mover.

Jimin colocava e tirava os fones com pressa, em dúvida entre prestar atenção na estrada e curtir suas músicas favoritas. Por fim, tirou o do ouvido esquerdo e virou-se para Jungkook com um sorriso animado.

— Kookie, escuta essa música! É muito legal! — Disse, já colocando o fone no ouvido dele.

Jungkook ouviu por alguns segundos e sorriu de lado.

— É boa... Qual o nome?

Na verdade, aquele não era seu estilo. Preferia guitarras pesadas, baterias barulhentas, nada daquela vibe pop melosa. Mas quando se tratava de Jimin, tudo parecia diferente. Qualquer coisa que ele gostasse se tornava, de alguma forma, especial. Jimin sorriu satisfeito, sem saber que o coração do amigo já estava dançando no ritmo da música, não pelo som, mas por ele.

Jimin falava animado sobre a letra da música, explicava cada verso com brilho nos olhos, gesticulando como se estivesse contando a história mais importante do mundo. A música, claro, falava de amor, e Jungkook não se importava nem um pouco. Na verdade, achava a coisa mais adorável do universo ver Jimin empolgado daquele jeito.

— Tá vendo, Kookie? Essa parte aqui significa “mesmo que o mundo acabe, eu ainda te escolheria”... não é lindo?

Jungkook sorriu. Lindo mesmo era ele.

Ficaram ali, dividindo os fones, ouvindo mais e mais músicas românticas, Jimin de vez em quando cantarolando baixinho. Até que, vencido pelo balanço do ônibus e o calor do casaco de Jungkook, adormeceu com a cabeça em seu ombro.

Jungkook o olhava com carinho. Não sabia dizer exatamente o que sentia, mas era intenso e cheio de vida. Aquela pele pálida como porcelana, os cílios longos, a expressão tranquila, parecia uma pintura.

Então tudo mudou em segundos.

Um solavanco violento acordou Jimin com um sobressalto. Jungkook, por reflexo, segurou sua testa com a mão, impedindo que batesse no banco da frente.

O ônibus freou bruscamente. Todos os alunos começaram a gritar e se agarrar nos bancos. Pela janela, dava para ver o motivo do pânico: pedras enormes de gelo haviam caído na pista, resultado de um deslizamento nas encostas nevadas da estrada. O motorista tentou desviar, mas as rodas patinaram no asfalto escorregadio coberto de neve e lama.

Os gritos se intensificaram.

O ônibus balançou de um lado pro outro, derrapando em câmera lenta diante dos olhos de Jungkook. O motorista lutava desesperadamente para retomar o controle, mas era tarde demais.

O ônibus foi lançado violentamente contra as barras de ferro na beira da rodovia. O som metálico do impacto ecoou como um grito de aviso antes que tudo se rompesse. Em segundos — que pareceram uma eternidade — o ônibus despencou pelo desfiladeiro, girando descontrolado em queda livre.

Jungkook sentia tudo girar, o estômago revirando, o coração disparado. Seu único pensamento era Jimin. Tentava alcançá-lo, gritar, protegê-lo... mas o próprio corpo já não obedecia.

As janelas se estilhaçaram com violência, os estalos ecoando como trovões dentro do veículo. Alguns alunos, sem cinto, foram arremessados para fora, seus corpos desaparecendo no abismo nevado. Outros não tiveram tanta “sorte”, ficaram ali, presos em meio a ferragens, gritos, sangue e ossos quebrados.

Quando o ônibus enfim atingiu o fundo do desfiladeiro, tombou de cabeça para baixo, rangendo num som assustador. Um silêncio pesado se seguiu, quebrado apenas por estalos metálicos e respirações ofegantes.

Jungkook estava preso, pendurado pelo cinto. Tudo doía. Sua cabeça latejava, o sangue escorria quente pela testa. Moveu a mão com esforço e viu os dedos manchados de vermelho. O mundo girava devagar e sua visão estava turva, mas conseguiu virar o rosto.

Preso ao seu lado estava Jimin, com os olhos fechados.

— Jimin… — murmurou, com dificuldade. A boca cheia de sangue e o ar escapando em gemidos fracos.

Quis tocá-lo, conferir se respirava, se estava vivo. Mas o braço simplesmente não respondia. A dor era insuportável. Talvez estivesse quebrado.

O pavor crescia como um nó em sua garganta. O corpo já não aguentava. A mente oscilava entre o desespero e o medo de desmaiar.

— Jimin… — repetiu, mais fraco. As pálpebras pesavam. O sangue quente que escorria na pele misturava-se ao gélido inverno. — Fica comigo…

E então, tudo escureceu.

…

Jimin abriu os olhos com dificuldade. Tudo estava turvo, virado. A pressão na cabeça era insuportável. Só então percebeu que ainda estava preso pelo cinto de segurança, pendurado de cabeça para baixo. O sangue escorria até seus cabelos loiros, colando-os à testa, e sua respiração era curta, irregular.

Tentou se situar. Piscou várias vezes, mas as imagens não faziam sentido. Vidros quebrados. Muito sangue. Ferragens. E então viu.

— Kookie… — murmurou, a voz rouca e embargada. Seu olhar encontrou o rosto de Jungkook, também pendurado, desacordado ao seu lado. Os olhos fechados, a pele pálida. Jimin quis se mover, tocar nele, acordá-lo, mas seu corpo se recusava a obedecer.

Virou o rosto, lentamente, e o que viu fez seu estômago revirar. Corpos rasgados, tortos e irreconhecíveis.

O sangue escorria pelas laterais do ônibus destruído como um rio vermelho. Aquele não era um sonho, era um pesadelo real. Foi então que sentiu.

Uma dor lancinante percorreu sua perna. Baixou o olhar e engasgou com o próprio grito. Sua calça estava rasgada, e onde deveria haver um membro intacto, havia um cenário desesperador, o osso da coxa atravessava a carne, branco e nu, exposto no meio do músculo dilacerado, envolto em sangue e tecido vivo.

Jimin congelou. Seu cérebro simplesmente parou. Ficou olhando fixamente para a fratura aberta, como se aquilo não fosse real. Não conseguia gritar, nem chorar, nem pensar. Estava em estado de choque.

Tudo parecia tão distante. Até a dor começou a ficar abafada. Sentiu o mundo escurecer. E antes que pudesse chamar por Jungkook mais uma vez, sua cabeça tombou e a consciência se apagou, levando-o de volta para o vazio.

…

Quando Jimin recobrou a consciência, tudo ainda parecia um borrão. Luzes piscavam, vozes abafadas chamavam por nomes, o cheiro de ferro e fumaça impregnava o ar. Sentia-se leve, como se flutuasse.

— Temos um aqui! Está vivo! — ouviu a voz abafada de um bombeiro.

Foi puxado com cuidado das ferragens. Seus olhos se abriram lentamente, turvos. O mundo girava devagar, como se estivesse debaixo d’água.

O bombeiro o carregava nos braços. Jimin virou o rosto, tentando entender onde estava. Olhou para baixo, para sua perna, e parou de respirar por um instante.

Ela estava intacta.

Sem ossos expostos. Sem sangue. Sem nenhuma marca, além da calça rasgada e suja.

— Isso não é possível… — murmurou para si mesmo.

A cena anterior invadiu sua mente como um raio, o osso branco, rompendo a carne, a dor insuportável, o sangue escorrendo. Não podia ter imaginado aquilo. Tinha sido real. Ele sentiu e viu. E então, agora tudo fazia sentido.

Jimin não saíra ileso do acidente como todos disseram. Ele havia se ferido gravemente. Mas seu corpo havia se curado antes que alguém pudesse ver. Antes mesmo que o resgate chegasse.

Aquilo não era normal. Nem humano.

Lembrou-se de Jungkook. Por sorte, ele teve apenas ferimentos leves, mas ficou com uma pequena cicatriz na bochecha. Jimin, no entanto, não ficou com nem um arranhão.

Baixou os olhos para o braço cuja pele estava limpa e perfeita, onde antes havia um corte aberto. Um arrepio percorreu sua espinha. Algo dentro dele havia mudado. E agora ele sabia.

"Eu sou diferente."

Um pânico silencioso tomou conta de seu peito.

"Não posso contar isso pra ninguém. Nem pro meu pai. Nem pro Kookie. Eles vão achar que eu sou uma aberração… vão se afastar… vão ter medo de mim."

Engoliu em seco, fechando os olhos.

"Preciso guardar isso comigo pra sempre."

Notas finais
Chim, conte isso pra alguém, menino! .·´¯`(>▂<)´¯`·.