A Cura

16 Anpanman



Kim Taehyung tinha 22 anos e um diploma recém-conquistado em Direito. Os pais sonhavam vê-lo juiz ou delegado, com terno alinhado e ar de autoridade. Mas ele queria algo diferente. Seu coração batia mais forte mesmo era nas ruas, protegendo as pessoas de verdade, cara a cara com o perigo.

Desde criança, Taehyung sonhava em ser um herói. Não do tipo metafórico, ele queria mesmo era usar capa e salvar o mundo. Passava os dias fantasiado de Superman ou Homem-Aranha e fez escândalo quando quiseram impedi-lo de ir a um casamento vestido de Batman. A mãe quase enlouqueceu.

Mas nada superou o dia em que ele pulou da laje de três metros acreditando que podia voar. O resultado foi um braço e uma perna quebrados e um ano atrasado na escola. O pequeno Taehyung entendeu que realmente não podia voar, então começou a estudar outras formas de ser um super herói.

Enquanto outras crianças assistiam desenhos animados, Taehyung devorava vídeos de policiais e bombeiros salvando vidas. Seus olhos brilhavam como se estivesse assistindo à maior aventura do mundo, e de certa forma, estava.

Aos quinze anos, trocou as fantasias por pesos e barras. Treinava pesado na academia, não para ficar bombado, mas para desenvolver resistência, velocidade e foco. Queria ser o tipo de herói que aguenta até o último segundo, porque sabia que na vida real, heróis não têm superpoderes. Eles têm preparo.

Assim que completou dezoito anos, Taehyung não perdeu tempo e tirou sua habilitação para dirigir, logo em seguida ingressou na tão sonhada faculdade de Direito. Mas, como sempre, seu espírito inquieto queria mais do que apenas teoria. Durante os anos de curso, fez treinamentos como brigadista, cursos de tiro e conquistou legalmente o porte de armas. Com isso, passou a trabalhar como segurança em alguns bicos, e não demorou para se destacar.

Uma das experiências mais marcantes foi quando trabalhou em uma agência bancária. Lá, Taehyung chamava atenção não apenas pela competência, mas também pela aparência impecável. Com sua postura firme, o porte atlético e o olhar gentil, mais parecia um modelo uniformizado do que um simples segurança. Não havia cliente — principalmente do público feminino — que não reparasse nele. A fama do “guardinha gato do banco” corria rápido, e não por acaso aquela agência se tornou a que mais atraía clientela.

Mas agora, os tempos eram outros.

De frente para a cama, Taehyung fechava cuidadosamente sua mala, empolgado com a nova etapa da vida. Sempre gostou dos cabelos longos e rebeldes, mas decidiu cortá-los bem curtos por uma razão especial: servir seu país.

Vestiu a farda camuflada, calçou os coturnos pretos, ajustou o quepe e se encarou no espelho. Um leve sorriso de orgulho escapou. Estava ali, pronto para o que sempre sonhou desde menino, entrar para as Forças Armadas da Coreia do Sul. O alistamento de dois anos no exército não era um fardo, mas uma conquista. Para Taehyung, aquilo era mais um passo em direção ao seu verdadeiro propósito, que era proteger pessoas como um herói.

…

Assim que chegou a Gyeryong, na província de Chungcheong do Sul, Taehyung inspirou fundo o ar puro do interior. Um sorriso se abriu em seu rosto, finalmente estava ali. Sentia-se realizado, como se cada passo dado até aquele momento tivesse valido a pena.

Logo, um rapaz de aparência amigável e cabelos castanhos veio ao seu encontro com um sorriso aberto no rosto.

— Olá! Eu sou o Minjae. Você é o Kim Taehyung, certo?

— Sou eu, sim! — respondeu, estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Pode me chamar só de Taehyung, senhor Minjae.

— “Senhor”? Que isso! — riu Minjae — Temos praticamente a mesma idade, e eu nem tenho patente alta. Sou só mais um recruta, igual a você. Vamos, vou te levar até o alojamento.

Enquanto caminhavam pela base militar, Taehyung observava tudo com olhos atentos e cheios de entusiasmo. De um lado, um grupo de recrutas corria pela lama, entoando gritos de guerra com fôlego e determinação. Do outro, um campo de tiros com alvos, onde alguns soldados treinavam com pistolas sob a supervisão de instrutores.

— Cheguei aqui faz um mês — comentou Minjae, ao notar o encanto de Taehyung com o lugar. — Você vai curtir. Quer dizer... se for disciplinado. Nosso general não é exatamente conhecido pela paciência.

Ele soltou uma risada curta antes de completar:

— Aliás, falando nele... Daqui a meia hora tem uma palestra de boas-vindas com todos os novos recrutas. Dá tempo de te levar ao alojamento, deixar suas coisas e irmos direto pro auditório. Não pode pra se atrasar — piscou. — Ele repara em tudo.

Taehyung assentiu, tentando conter o nervosismo crescente, mas ainda empolgado. Mal podia esperar para começar oficialmente sua jornada.

Ao chegarem no alojamento, Minjae levou Taehyung até um quarto espaçoso com três beliches alinhadas e alguns armários metálicos ao fundo. Na parte de cima de uma das camas, um rapaz dormia profundamente, roncando alto. Já na parte de baixo, outro jovem lia um livro, com fones nos ouvidos e total indiferença ao barulho.

— Pode escolher essa aqui — disse Minjae, apontando uma das beliches vazias. — Tem a parte de cima e a de baixo livres, fica à vontade pra escolher. Eu fico nessa cama ao lado.

Taehyung observou o quarto, ainda assimilando que aquele seria seu novo lar.

— Vão chegar mais recrutas? — perguntou, enquanto largava a mochila ao lado da cama.

— Sim, mais um. Min Yoongi. Ele será seu companheiro de cama, quer dizer, companheiro no sentido militar, claro — riu, percebendo a ambiguidade da frase. — Ele vai ficar na parte de cima ou de baixo, depende de onde você quiser ficar.

Taehyung riu, tentando imaginar como seria esse Min Yoongi que iria dormir em cima dele pelos próximos dois anos.

— Acho que vou pegar a parte de baixo. Espero que ele seja alto o suficiente pra subir sem tropeçar em mim — brincou, fazendo Minjae gargalhar.

— Eu li a ficha dele, mas não lembro da altura… Se for muito baixinho, a gente arruma uma escadinha — disse, piscando. — Bom, precisamos ir pra palestra de boas-vindas. Mais tarde eu venho buscar o Min Yoongi quando ele chegar.

Taehyung assentiu, deixou seus pertences sobre a cama e seguiu Minjae para fora do alojamento, sentindo a ansiedade e a empolgação crescerem a cada passo.

…

Naquele dia, após a palestra, Minjae saiu para buscar Yoongi no terminal de ônibus. Taehyung, por sua vez, aproveitou o tempo para se esticar na cama e ler os folhetos informativos sobre a base, inclusive um mapa, já que o lugar era imenso e cheio de áreas específicas para treino, palestras, alojamentos e até refeitório.

Cerca de uma hora depois, Minjae retornou com o novo recruta. Taehyung levantou os olhos da leitura e congelou.

Ele não estava preparado para aquilo.

A figura que entrou pela porta parecia ter saído de um filme. Cabelos tão loiros que beiravam o branco, pele alva, olhos pequenos e puxados como os de um gato, e lábios finos num tom naturalmente rosado. Havia algo de etéreo nele. Taehyung ficou hipnotizado, completamente paralisado, encarando-o como se tivesse visto um anjo descendo na base militar.

— Taehyung, esse é o novo recruta, Min Yoongi — anunciou Minjae, interrompendo a contemplação.

— A-ah... Oi, Yoongi — gaguejou Taehyung, levantando-se e se aproximando. — Sou o Taehyung. Bem-vindo! — completou, com um sorrisinho envergonhado.

— Oi — respondeu Yoongi, seco, sem demonstrar qualquer empolgação, voltando-se imediatamente para Minjae. — Onde eu vou dormir?

— Na beliche de cima da do Taehyung — explicou o outro, apontando com a cabeça.

Yoongi lançou um olhar breve e indiferente para Taehyung, que ainda o encarava com uma expressão abobalhada. Ele suspirou, largou a mala no chão e colocou as mãos na cintura ao encarar a altura da beliche.

— Se quiser, podemos trocar... — ofereceu Taehyung, um tanto intimidado, mas gentil.

Yoongi girou lentamente o pescoço para encará-lo, com um olhar afiado.

— Tá me chamando de baixinho?

— N-não! É só que... talvez fique difícil de subir, e…

Antes que Taehyung conseguisse terminar, Yoongi já tentava escalar a beliche com dignidade. Tentava. Porque após um salto desajeitado, acabou ficando pendurado, prestes a cair de costas. Num reflexo rápido, Taehyung o segurou nos braços.

— Eu insisto. Melhor trocarmos. Não vou estar aqui pra te salvar toda vez que tentar subir — brincou, com um meio sorriso.

Yoongi se desvencilhou imediatamente, emburrado.

— Me solta — murmurou, pegando os pertences de Taehyung e jogando-os sem cerimônia na parte de cima da beliche. Em seguida, jogou-se na cama de baixo, cruzou os braços e fez bico, como uma criança contrariada.

Taehyung olhou a cena e soltou uma risada baixa. Não sabia se era sorte ou castigo dividir a beliche com Yoongi, mas uma coisa era certa: aqueles dois anos prometiam ser interessantes.

Notas finais
AHHHHH TAEGI AMO DEMAIS KKKKKKK Yoon sendo um gatinho chatinho e trevoso... (✿◡‿◡)