A Cura
17 Companheiro de Beliche

Taehyung e Yoongi haviam sido designados para treinarem juntos, o que, na prática, significava que Taehyung também era responsável por acordar Yoongi todos os dias. E entre todos os desafios da rotina militar, os treinos puxados, os gritos do general, as corridas na lama, acordar Yoongi era, sem dúvida, o mais difícil.
O problema não era só o sono profundo, mas o humor. Yoongi acordava rabugento, resmungava por qualquer coisa e continuava de cara fechada o resto do dia. Taehyung já havia se acostumado. Quase.
Naquela manhã, como de costume, Taehyung espiou da parte de cima da beliche. Lá embaixo, Yoongi dormia como uma pedra, a boca entreaberta, um leve ronco escapando de vez em quando. A cena fez Taehyung rir baixinho.
Desceu com cuidado da cama e se sentou na beira da de Yoongi. Inclinou-se um pouco, balançando a mão na frente do rosto dele, só pra ver se o recruta mal humorado estava mesmo dormindo.
— Yoon...? — chamou baixinho, mas Yoongi nem se mexeu.
Taehyung apertou os lábios, segurando o riso, e já tramando alguma maneira divertida, e provavelmente perigosa, de tirá-lo do sono.
De forma travessa, Taehyung enfiou o dedo na boca entreaberta de Yoongi, segurando o riso para não acordá-lo. Yoongi, ainda dormindo, cuspiu o dedo com um resmungo incompreensível. Taehyung se contorcia por dentro tentando não rir alto. Ele adorava provocar Yoongi enquanto ele dormia, era o único momento em que ele não parecia tão carrancudo e sério.
Com um brilho travesso nos olhos, passou os dedos de leve pelos lábios de Yoongi, fazendo-lhe cócegas. Yoongi bateu na mão dele instintivamente, ainda imerso no sono. Taehyung levou a mão à boca para conter a risada, e dessa vez, resolveu provocar ainda mais, passou a cutucar suavemente os cílios dele.
Foi então que Yoongi, sem nem abrir os olhos, o agarrou pela camisa e o puxou com força para mais perto, fazendo Taehyung cair ao seu lado na cama. Em um gesto completamente inconsciente, Yoongi se aconchegou no peito de Taehyung, se enroscando como um gatinho.
Taehyung ficou completamente imóvel, com o coração disparado e o rosto queimando. Queria rir, queria se soltar, mas não queria acordar Yoongi, que se agarrava a ele com tanta força que escapar era impossível.
Yoongi ronronava baixinho contra seu peito, e Taehyung teve certeza de que dormindo, ele era absurdamente fofo. Nem parecia o mesmo dragãozinho mal-humorado que vivia soltando fogo durante o dia.
…
Yoongi abriu os olhos ainda sonolento. A primeira coisa que viu foi o rosto de Taehyung perigosamente próximo ao seu. O susto foi tão grande que, sem pensar duas vezes, acertou um soco direto no rosto do outro e se jogou para fora da cama, caindo no chão feito um gato assustado.
— Y-Yoon?! — Taehyung levou a mão ao rosto, completamente atordoado. Nunca na vida tinha sido acordado com um soco. Sentiu um gosto metálico na boca, e ao tocar os lábios, viu sangue nos dedos. O impacto do soco fizera seu dente cortar o lábio. — Mas por que você fez isso?!
Yoongi, ainda com os olhos arregalados e sentado no chão, o encarava como se tivesse visto um fantasma.
— Você tava na minha cama, seu pervertido!
— Quê?! Não! Você que me puxou, Yoongi! Eu juro! — Taehyung falava com dificuldade por causa do lábio inchado.
— Eu te puxei? — Yoongi arqueou uma sobrancelha, claramente duvidando, tentando entender como teria feito algo assim.
— Sim! Eu só tava tentando te acordar, aí você me agarrou e deitou a cabeça no meu peito. Depois me abraçou e… eu acabei dormindo também.
Yoongi piscou algumas vezes, ainda processando.
— Eu jamais faria isso. Ainda mais com um idiota como você. E… como exatamente eu te puxei de cima da beliche, hein? Explica essa mágica.
— Eu já tinha descido, estava sentado na sua cama. Você me puxou dali mesmo.
Yoongi cruzou os braços, fazendo bico.
— Isso ainda é invasão de espaço. Mereceu o soco.
Taehyung riu, mesmo sentindo o corte latejar.
— Acordar você é sempre uma missão de guerra.
Yoongi bufou e desviou o olhar, sentindo o rosto corar, embora jamais fosse admitir aquilo. Deu um pequeno impulso e se levantou.
— Espere aqui. — disse seco.
— Onde você vai? — perguntou Taehyung, confuso.
— Falei pra esperar. — respondeu sem virar o rosto.
Yoongi saiu e voltou poucos minutos depois, carregando uma caixinha de primeiros socorros.
— Deixa eu ver isso… — murmurou, se aproximando.
Taehyung ainda estava sentado, de pernas abertas, quando Yoongi se enfiou entre elas para examinar melhor o ferimento. Puxou o queixo dele com firmeza, inclinando o rosto para analisar seus lábios machucados bem de perto. Taehyung mal conseguia respirar com aquela proximidade.
— Você tem um soco bem forte pra alguém tão pequeno. — brincou, tentando disfarçar o nervosismo.
— Se quiser, posso dar outro. No olho, dessa vez — Yoongi ergueu os olhos e respondeu num tom impassível.
Taehyung riu, erguendo as mãos em rendição.
— Não, obrigado. Um soco por dia já tá ótimo.
Yoongi apenas suspirou e balançou a cabeça.
— Idiota… — murmurou, baixo o suficiente para que Taehyung quase não ouvisse.
Mesmo assim, Taehyung sorriu. Por algum motivo, aquela ofensa dita na voz de Yoongi soava quase carinhosa.
— Você não vai morrer, foi só um cortezinho bobo. — disse Yoongi, ainda concentrado.
— Yooooon… tá doendo. — Taehyung fez manha. — Você vai ter que dar um beijo no meu machucado pra sarar.
Yoongi levantou o olhar, incrédulo.
— Beijar porra nenhuma! Foda-se, ninguém mandou me agarrar. Eu só me defendi.
— Mas foi você que me agarrou. — retrucou Taehyung, sorrindo.
Yoongi lançou-lhe um olhar assassino.
— Assunto encerrado! — decretou, ríspido.
Pegou a caixinha de primeiros socorros, tirou uma pomada e, sem dizer mais nada, colocou um pouco nos dedos. Se aproximou, segurou o queixo de Taehyung com firmeza e passou o creme devagar sobre o corte.
O toque era leve, cuidadoso, quase carinhoso.
Taehyung não tirava os olhos dele enquanto Yoongi passava a pomada em seus lábios com toda a delicadeza do mundo. Os dedos frios do loiro tocavam de leve sua boca, espalhando o creme devagar, e cada movimento fazia o coração de Taehyung bater mais rápido.
Yoongi mantinha o olhar concentrado, hipnotizado sem perceber. Taehyung, por sua vez, o observava de perto, sentindo o cheiro suave de seu perfume misturado ao da pomada.
Num impulso, Taehyung o puxou pela cintura, prendendo Yoongi entre suas pernas. O corpo do loiro ficou rígido, o rosto imediatamente corado.
— O-o que você tá fazendo? Me solta, Taehyung! — protestou Yoongi, tentando empurrá-lo com as mãos contra o peito dele.
Mas Taehyung apenas riu, mantendo-o firme contra si, sentindo a respiração de Yoongi falhar.
— Se você realmente quisesse se soltar, já teria conseguido. — provocou, com um sorriso travesso.
Yoongi abriu a boca para retrucar, mas nada saiu. O ar entre os dois estava pesado, parecia carregado de eletricidade. Os olhos de Taehyung se prenderam nos dele, e por um instante o tempo pareceu parar.
O som estridente do sinal ecoou pela base, quebrando o momento. Yoongi se afastou num pulo, tentando disfarçar o rubor que tomava suas bochechas. Pegou a caixinha de primeiros socorros e virou-se de costas.
Taehyung riu baixinho, vendo o outro fugir.
Yoongi, por sua vez, respirou fundo, tentando se recompor. Achava Taehyung um completo idiota, mas odiava admitir que, quando ele chegava tão perto, seu corpo reagia de um jeito que não conseguia controlar. Era irritante. E viciante.
…
Alguns meses se passaram, e Yoongi continuava o mesmo. Bravinho, antissocial e sempre de cara fechada. O único que não se intimidava com isso era Taehyung, e pra azar (ou sorte) de Yoongi, ele era sempre insistente.
Todos os dias, Taehyung o provocava, puxava conversa, inventava apelidos, mexia em suas coisas, e Yoongi, por mais que fingisse odiar, já tinha se acostumado com aquele tornado barulhento que o seguia por todos os cantos.
Ele tentava manter a pose, franzindo o cenho, bufando e fingindo irritação, mas de vez em quando, sentia vontade de rir das bobagens que o outro dizia. Só não ria de propósito, por orgulho.
Mas então, um dia, Taehyung sofreu um pequeno acidente durante o treinamento e precisou ser internado. Yoongi achou que fosse enlouquecer.
Sem Taehyung por perto, o alojamento parecia vazio e silencioso. Ele se pegava pensando nele o tempo todo. Preocupado, inquieto, com um aperto no peito que crescia mais a cada hora. E foi ali, deitado na cama, encarando o nada, que Yoongi teve uma epifania aterrorizante.
“Eu… estou apaixonado pelo idiota do Taehyung?”
Seu coração disparou só de pensar nisso.
“Nããão! Não pode ser! Ele é um idiota, um… um palhaço!”
Desesperado, bagunçou os próprios cabelos, tentando apagar aquela ideia. Mas, quanto mais tentava negar, mais lembranças vinham à mente.
Pensou no sorriso de Taehyung, tão aberto e sincero.
“O sorriso dele é lindo.”
A forma gentil como ele o acordava todos os dias, só pra evitar que o sinal estridente do quartel o assustasse.
“Ele é atencioso.”
Os momentos em que cortava seu bife em pedacinhos pra facilitar.
“Ele é carinhoso.”
E as vezes em que tomavam banho juntos. Yoongi sentiu o rosto queimar.
“Ok… ele também é gostoso. E tem certas vantagens.”
Soltou uma risadinha, balançando a cabeça.
“Céus, isso era pra ser uma reflexão fofa…”
Suspirou e cobriu o rosto com a mão.
Não adiantava mais negar, estava completamente apaixonado por Taehyung.
“Eu realmente estou fodido… se apaixonar é o mesmo que se foder, e no pior sentido. Mas se é pra estar apaixonado então eu quero viver isso com ele. Será que ele tá interessado em mim também?”
Yoongi sorriu sozinho, abraçando o travesseiro com força. Parecia um adolescente apaixonado, uma cena que Taehyung jamais imaginaria, afinal, aquele mesmo homem que agora sorria feito um bobo era o mesmo que vivia o chamando de idiota.
Quando soube que as visitas ao centro médico estavam liberadas, Yoongi passou o dia inteiro ansioso. Decidido a encantar Taehyung, comprou miçangas e montou uma pulseira com as próprias mãos.
As pedrinhas eram verde-musgo e pretas, presas por uma cordinha de couro. Dois pingentes prateados, um de lua e outro de sol, completavam a peça. Não era o tipo de coisa que Yoongi usaria, mas sabia que Taehyung iria adorar.
Com o presente cuidadosamente guardado em uma caixinha, foi até o quarto indicado pela recepcionista. A porta estava entreaberta. Antes mesmo de entrar, ouviu risadas altas, leves e familiares. Curioso, inclinou-se para olhar pelo vão da porta. E então seu peito afundou.
Minjae estava sentado na cama, dando comida na boca de Taehyung. Os dois riam, conversavam, trocavam olhares cúmplices. Era uma cena simples, mas para Yoongi, parecia uma facada.
“Ele não precisa de mim. Já tem alguém que o faz sorrir… alguém que o trata bem. Eu sempre fui um idiota com ele. Como eu pude achar que o Tae poderia gostar de mim?”
Um peso insuportável tomou conta. Yoongi baixou o olhar, fechou a caixinha de presente e ficou alguns segundos parado em silêncio, ouvindo as risadas ecoarem pelo corredor. Então, sem dizer uma palavra, jogou a caixinha na lata de lixo ao lado da porta e foi embora, com o coração em pedaços.
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