A Cura
18 A Pulseira

Yoongi acordou de mau humor, nada fora do comum. Mas, naquele dia, sua irritação tinha nome e sobrenome: Kim Taehyung.
Desde que viu Minjae dando comida na boca dele no hospital, uma cena que ainda queimava na memória, Yoongi não conseguia pensar em outra coisa. Xingava Taehyung mentalmente mais do que o normal, mesmo sem ele ter culpa de nada, e o coitado, claro, nem imaginava.
O dia estava nublado, o tipo de tempo perfeito para se trancar no quarto e dormir até esquecer do mundo. Com o corpo dolorido por causa dos treinos da semana, Yoongi se limitava a ficar em pé, encarando o céu cinzento pela janela, afundado em pensamentos que se misturavam entre raiva e saudade.
Estava tão perdido em sua própria cabeça que não percebeu quando Taehyung entrou no quarto.
De repente, sentiu braços fortes o envolverem por trás.
— Acorda, preguiçoso! — Taehyung sussurrou perto do seu ouvido, com um sorriso travesso.
— T-TAE?! — Yoongi quase caiu, mas Taehyung foi rápido e o segurou, envolvendo-o pelos ombros e puxando-o de volta contra o peito.
— O que você está fazendo?! Me solta! — Yoongi se contorcia nos braços dele, mas, no fundo, não queria se soltar.
Taehyung riu baixinho, o rosto colado ao pescoço de Yoongi.
— Sentiu minha falta, Yoon? — perguntou em tom provocante, apoiando o queixo no ombro dele.
— Por que eu sentiria sua falta? Você é um idiota! Não sinto falta das suas idiotices! — Yoongi tentou se virar, mas o abraço de Taehyung era firme, quente, sufocante de tão próximo.
— Engraçado… — murmurou Taehyung, com a voz rouca, os lábios quase tocando a orelha dele — porque eu senti a sua.
Yoongi estremeceu. Um arrepio percorreu sua espinha quando o ar quente da respiração de Taehyung roçou sua pele.
Aquilo não era uma das brincadeiras bobas de sempre. Não era o mesmo Taehyung que o abraçava só pra irritar. Aquele era outro Taehyung. Seu tom, seu toque, até o jeito de o segurar, tudo estava diferente. Yoongi prendeu a respiração e o coração acelerou.
— T-Taehyung… o que deu em você? — perguntou em um sussurro quase inaudível, sem coragem de se mover.
Taehyung apenas sorriu contra o pescoço dele.
— Nada demais. Só percebi que... — ele o virou devagar, mantendo as mãos firmes em sua cintura — ...você fica ainda mais bonito quando está bravo comigo.
Yoongi engoliu em seco, o rosto em chamas. Não sabia se queria fugir ou se aproximar mais.
— E… e como você está? — perguntou Yoongi, tentando parecer desinteressado, mas com o coração acelerado.
— Estou ótimo — respondeu Taehyung com um sorriso travesso. — Novinho em folha… e feliz por algo muito bom que aconteceu.
— Algo bom? O que seria? — Yoongi arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
Taehyung soltou uma risadinha e, sem aviso, segurou Yoongi pelos ombros, virando-o de frente para si.
Yoongi ficou paralisado, surpreso com a aproximação repentina. Seus olhares se cruzaram, intensos, e por um segundo ele achou que seu coração fosse saltar do peito.
Taehyung manteve o olhar firme.
— Obrigado pelo presente, Yoon. Eu adorei.
— Presente? — Yoongi perguntou, tenso.
Taehyung levantou o braço e mostrou a pulseira verde e preta no pulso.
Yoongi arregalou os olhos, reconhecendo de imediato a pulseira que ele mesmo havia feito e jogado fora.
— N-não sei do que está falando — murmurou, desviando o olhar, o rosto corando. — Deve estar confundindo, Taehyung.
Taehyung riu baixinho e tirou algo do bolso, uma pequena caixinha amassada. Abriu-a diante dele, e dentro tinha um cartãozinho dobrado.
— Ah, eu gosto de ler mensagens carinhosas logo pela manhã — provocou, abrindo o cartão.
— Taehyung, não…! — Yoongi avançou para pegar o papel, mas ele ergueu o braço alto demais.
— “Para Taehyung — começou a ler em voz alta — … espero que melhore logo, quero que volte porque estou sentindo a sua falta e…”
— CALA A BOCA, SEU IDIOTA! — gritou Yoongi, pulando para tentar pegar o cartão, mas Taehyung apenas se afastava, rindo.
Yoongi parou, ofegante, as bochechas coradas, encarando o chão.
Taehyung se aproximou lentamente, encurtando a distância entre eles até ficarem a poucos centímetros de distância.
Yoongi sentiu o ar lhe faltar.
Taehyung o puxou pela cintura, aproximando seus corpos até que seus olhares se encontrassem.
— No fim do cartão… você escreveu que está apaixonado por mim. — disse Taehyung, com um meio sorriso — Consegue repetir isso olhando nos meus olhos?
— Tae… me solta. — Yoongi tentava escapar, o rosto corando — Eu não sei o que estava dizendo, não devia ter escrito aquilo. Esquece, tá?
— Eu não consigo esquecer, Yoon. — murmurou Taehyung, mantendo o olhar fixo — Fiquei tão feliz em saber que meus sentimentos são correspondidos…
Yoongi congelou.
— S-seus sentimentos?
— Sim. — Taehyung assentiu, a voz baixa e firme — Eu também estou apaixonado por você. Muito mais do que imaginei ser possível. Quando encontrei aquela caixinha… eu quase não acreditei. Ainda bem que a lixeira estava cheia de papel e sua carta ficou por cima. Peguei por curiosidade… e quando vi seu nome, Yoon, juro que meu coração quase saiu pela boca. — Ele riu baixinho. — Só não entendo por que jogou fora. Por que não me deu?
Yoongi desviou o olhar, o rosto quente, os lábios tremendo.
— Achei que você fosse achar bobo… ou infantil. E… você já tem o Minjae.
— O Minjae? — Taehyung arqueou a sobrancelha e soltou uma risada incrédula. — Ah não, Yoon. Você entendeu tudo errado. Ele é só meu amigo, nada além disso. Nunca senti nada por ele.
Yoongi cruzou os braços e olhou pro chão, a expressão emburrada e o rosto corado.
Taehyung o observava com um sorriso de canto, achando aquele jeitinho bravo a coisa mais adorável do mundo.
— É que ele é tão legal, divertido e simpático… — Yoongi murmurou, desviando o olhar. — Ele é o oposto de mim.
Taehyung segurou seus ombros e se inclinou para frente, fazendo Yoongi encará-lo.
— E é justamente por você que eu me apaixonei. — disse com firmeza — É você quem eu quero beijar. Gosto do seu jeitinho marrento, bravo, sério… é isso que te faz ser você. Não mudaria nada. — Ele sorriu, com o polegar roçando de leve no queixo de Yoongi. — Mas você ainda não respondeu.
— N-não respondi o quê? — Yoongi perguntou, tentando disfarçar o nervosismo.
— O que você escreveu no cartão.
Yoongi bufou, tentando manter a pose de durão, mas as mãos tremiam.
— Tá bom… — murmurou entre os dentes — Eu gosto de você, seu idiota! Pronto. Feliz agora?
Taehyung deu uma risada calorosa, encantado.
— Ainda não tô satisfeito. Quero que me dê o meu presente do jeito certo, agora.
— Eu já dei! Tá no seu braço. — Yoongi cruzou os braços, tentando parecer desdenhoso.
— Tecnicamente, não. — Taehyung arqueou a sobrancelha. — Você jogou no lixo e eu que achei. Quero que me entregue direito, Yoon.
Yoongi revirou os olhos.
— Ai, tá bom, Tae… o que você quer que eu faça?
— Nossa, que frieza. É assim que você trata o homem por quem está tão apaixonado? — provocou com um sorriso travesso.
— Vai se ferrar, Tae! — Yoongi sentia o rosto queimar.
Taehyung riu alto e beijou a testa dele com carinho.
— Vem, Yoon. Quero te mostrar uma coisa. — disse, pegando sua mão e o puxando porta afora.
— Pra onde a gente vai? — Yoongi perguntou, tentando esconder o sorriso que ameaçava escapar.
— Você vai ver… — respondeu Taehyung, entrelaçando seus dedos aos dele.
Yoongi apenas o seguiu. Saíram do quartel e caminharam até o bosque que ficava logo em frente, um lugar usado às vezes para treinamentos de sobrevivência, mas que agora estava completamente deserto. O som distante dos pássaros e o farfalhar das folhas davam ao local uma sensação de isolamento total.
— Prontinho… enfim, sós. — disse Taehyung, abrindo um sorriso travesso. Tirou a pulseira do pulso e a estendeu para Yoongi. — Agora quero meu presente direito, humpf.
— Sério isso? — Yoongi arqueou a sobrancelha, incrédulo.
— Sério. Muito sério. — respondeu Taehyung, cruzando os braços e fingindo impaciência.
Yoongi suspirou alto e revirou os olhos.
— Tá bom. Toma o seu presente. — Estendeu a mão, evitando encará-lo. Seu rosto estava tão vermelho que até as orelhas queimavam.
O jeito rabugento de Yoongi não combinava com o brilho nos olhos, e Taehyung achou aquilo a coisa mais fofa que já tinha visto.
— Oh, meu deus! Que surpresa! É pra mim? — fingiu espanto.
— Cala a boca e coloca logo. — Yoongi tentou esconder o sorriso.
— Coloca pra mim, Yoon. Eu… não consigo. — disse Taehyung, fazendo beicinho.
Yoongi suspirou outra vez, mas acabou cedendo. Puxou o braço de Taehyung e colocou a pulseira cuidadosamente em seu pulso. Seus dedos roçaram a pele morena dele, e um arrepio percorreu o corpo dos dois.
— Pronto. Agora podemos voltar? — murmurou Yoongi, tentando parecer indiferente.
— Ainda não. — Taehyung respondeu com um sorrisinho malicioso. — Falta o meu agradecimento.
— Que agradecimento? — Yoongi perguntou desconfiado.
— Esse aqui. — disse Taehyung, antes que Yoongi tivesse tempo de reagir.
Num movimento rápido, o ergueu no colo, fazendo as pernas de Yoongi envolverem instintivamente sua cintura. Encostou-o com cuidado contra o tronco de uma árvore e, mantendo o olhar cravado nos dele, deixou a voz cair para um tom rouco e suave:
— Obrigado, Yoongi.
E então o beijou. Lento. Profundo. Um beijo que começou tímido, mas logo se transformou em algo que os dois vinham reprimindo há muito tempo. O mundo pareceu desaparecer por um instante, só existiam os batimentos descompassados, o calor, e o gosto doce de finalmente se pertencerem.
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