A Cura
19 O grande mal entendido

Dia após dia, Yoongi e Taehyung se encontravam às escondidas naquele mesmo bosque onde haviam trocado o primeiro beijo. O lugar havia se tornado um refúgio silencioso, um segredo só deles. Beijavam-se com urgência como se cada encontro fosse precioso demais para ser desperdiçado. Aos poucos, tornaram-se viciados um no outro, no toque, no cheiro, na presença que acalmava e incendiava ao mesmo tempo.
Já havia se passado um ano desde que ingressaram no exército. Nesse período, Taehyung se destacou de forma impressionante. Nos treinamentos com armas, sua mira era impecável. Observá-lo atirar era quase hipnótico, cada disparo certeiro, cada alvo neutralizado com precisão cirúrgica, quase sempre com um único tiro na cabeça. Seu raciocínio rápido o fazia identificar instantaneamente ameaças e diferenciar inimigos de civis nos exercícios de simulação.
Os superiores se impressionavam não apenas com sua habilidade técnica, mas também com sua frieza estratégica. Taehyung tomava decisões sob pressão com uma clareza assustadora, sabia agir em situações de alto risco e demonstrava um instinto natural para proteger reféns, mesmo que fossem apenas encenações. Não demorou para que seu nome começasse a circular entre oficiais de patentes mais altas.
Algumas propostas já haviam surgido, convites para seguir carreira e trabalhar diretamente para o governo após o término do serviço obrigatório. Taehyung parecia destinado a algo maior. E, ainda assim, entre treinamentos exaustivos e expectativas grandiosas, era nos braços de Yoongi, naquele bosque escondido, que ele se sentia verdadeiramente em casa.
Yoongi o admirava profundamente. Admirava Taehyung por ser tão bom no que fazia, pela forma intensa e corajosa com que pensava, pelo jeito quase ingênuo de enxergar o mundo, às vezes iludido demais, é verdade, mas sempre guiado por um coração genuinamente bom. Taehyung era um exemplo para ele, alguém que inspirava sem esforço, alguém de quem Yoongi queria estar perto, mesmo quando não sabia explicar o porquê.
Apesar de chamá-lo de bobo e idiota o tempo todo, Yoongi o amava. E Taehyung sabia disso. Por isso, aprendeu a traduzir cada palavra atravessada: os “vai se foder” soavam como “eu te amo”, os “vai à merda” carregavam um “sou completamente louco por você”, e até os “você é idiota” escondiam um silencioso “você é incrível”.
Yoongi era péssimo com palavras. Sempre dizia o oposto do que sentia, como se fosse mais fácil empurrar o afeto para longe do que admiti-lo. Elogios, delicadezas e confissões não faziam parte do seu vocabulário. Mas seus gestos denunciavam tudo aquilo que ele não conseguia dizer. Nos beijos que dava em Taehyung, havia cuidado, desejo e entrega. Neles, Yoongi dizia tudo o que sua boca teimava em negar: o quanto o amava, o quanto admirava e o quanto precisava dele.
Taehyung era excepcional com armas, isso ninguém no quartel ousava contestar. Ainda assim, havia um ponto que precisava ser lapidado: o combate corpo a corpo. Não que fosse ruim, longe disso, mas o general queria vê-lo no mesmo nível de excelência que demonstrava no campo de tiro.
Para isso, a decisão foi óbvia. Taehyung treinaria com Yoongi.
Apesar da estatura baixa e do corpo magro, Yoongi era um verdadeiro pesadelo no tatame. Derrubava qualquer brutamontes do quartel com uma facilidade quase humilhante. Era especialista em Jiu-jítsu, Karatê, Kung Fu e TAEkwondo, além de se destacar no arqueirismo, sendo o melhor atirador de arco e flecha da base. Contra o “baixinho”, ninguém tinha chance.
Taehyung já o aguardava no dojô, vestindo o kimono de treino, a faixa branca bem amarrada à cintura. Quando Yoongi entrou, usando a mesma vestimenta, mas com a faixa preta marcando sua posição, Taehyung imediatamente fez uma reverência respeitosa.
Ali, naquele espaço, Yoongi não era apenas seu parceiro ou amante escondido entre os corredores do quartel. Era seu mestre.
E Yoongi, claro, adorava exercer aquele pequeno e silencioso poder sobre aquele homem muito maior do que ele.
— Olá, Sensei — Taehyung cumprimentou com um sorriso lento e insinuante, o olhar demorando um pouco mais do que deveria no quimono folgado de Yoongi, que deixava à mostra parte do peito.
— Sensei? — Yoongi ergueu uma sobrancelha, tentando disfarçar o sorriso satisfeito que ameaçava surgir. O jeito como Taehyung disse aquilo tinha sido perigosamente bonito.
— Sim. Você é meu mestre. Meu Sensei. Meu Yoongi — Taehyung aproximou-se um passo, a voz baixa, carregada de intenção.
— Seu Yoongi? — Yoongi repetiu, fingindo indignação.
— Meu Yoongi — confirmou Taehyung, mordendo o lábio inferior antes de perder qualquer traço de autocontrole.
Num impulso, correu até ele e o envolveu em um abraço apertado, erguendo-o do chão sem esforço.
— Tae, me solta! Viemos aqui pra treinar! — Yoongi reclamou, tentando soar firme, mas a voz saiu manhosa.
— Se você continuar falando desse jeito… aí é que eu não solto mesmo — Taehyung murmurou, antes de dar um beijinho rápido na ponta do nariz dele.
— Tae… — Yoongi fechou os olhos por um instante, frustrado consigo mesmo. O corpo todo amolecia sempre que Taehyung fazia aquilo. Era inevitável. — É sério… me põe no chão. Sou seu Sensei e estou te dando uma ordem.
— Sim, Sensei — respondeu Taehyung com um sorriso obediente. Deu um selinho rápido em seus lábios e, só então, o colocou de volta no chão. — Então… o que vamos aprender hoje?
Yoongi ajeitou o quimono amassado, consequência direta dos abraços excessivos de Taehyung minutos antes. Respirou fundo antes de encará-lo.
— Vamos aprender técnicas de luta — disse com firmeza. — Coisas básicas pra você saber se defender. Não dá pra contar só com armas, Tae. Corpo a corpo também é importante.
— Corpo a corpo? — Taehyung arqueou a sobrancelha, o sorriso lento e sugestivo.
— Idiota — Yoongi rebateu, dando um soquinho no peito dele. — Técnicas de defesa e imobilização. Foco.
Taehyung riu, mas assentiu.
Yoongi caminhou até o centro do dojô e ficou de frente para ele. Antes de qualquer coisa, fez uma reverência respeitosa. Taehyung, atento, imitou o gesto.
— Presta atenção — continuou Yoongi. — Vou ficar de costas. Você me ataca por trás e eu te mostro como sair da situação.
— Gostei do exercício — Taehyung comentou, já animado.
— Taehyung.
— Brincadeira, Sensei.
Yoongi virou-se de costas com a postura firme e pés bem posicionados.
— Pronto. Pode vir.
Taehyung se aproximou em silêncio e, em vez de um ataque técnico, envolveu Yoongi pela cintura num abraço forte e repentino, puxando-o contra o próprio corpo. A cabeça se encaixou naturalmente na curva do pescoço dele, a respiração quente.
— E agora… — Taehyung murmurou, a voz baixa, perigosamente próxima do ouvido de Yoongi — como você sairia do meu ataque?
Yoongi fechou os olhos por um segundo, o corpo traindo a mente. Preso nos braços de Taehyung, sentiu as pernas vacilarem, o raciocínio falhar. Por um instante, esqueceu completamente que aquilo era um treino.
— Tae… para… — Yoongi pediu, a voz tão manhosa que escapava quase como um gemido.
— O que foi, Yoonie? — Taehyung provocou, a respiração quente, perto demais. — Já vi você derrubar caras bem maiores que eu. Por que comigo você trava?
A língua de Taehyung roçou de leve o pescoço dele, arrancando um arrepio involuntário.
— Tae… — Yoongi arfou, os dedos se fechando no quimono do outro. — Você tira todas as minhas defesas… meu corpo reage a você sem pedir permissão… — a voz falhou — você tá me deixando louco.
— É mesmo? — Taehyung murmurou, mordendo de leve o mesmo lugar, deixando marcas sutis.
— Taehy… — Yoongi gemeu, sensível, o autocontrole por um fio. — Para… é sério…
Num esforço final, Yoongi o empurrou e se afastou, respirando fundo, tentando reorganizar o próprio corpo e a própria mente.
— Tá bom, Sensei — Taehyung disse, erguendo as mãos em falsa rendição. — Parei. Prometo ser um aluno comportado.
Yoongi passou a mão pelo rosto, ainda quente, e respirou fundo.
— Certo… — disse, tentando recuperar a autoridade. — Vamos pra outra técnica. Claramente… isso de ataque por trás não tá funcionando.
— Uma pena — Taehyung comentou, rindo baixo.
— Foco, Taehyung!
— Ok, ok.
Yoongi então se deitou no chão, de barriga pra cima, apoiando os cotovelos. Mesmo tentando soar profissional, a voz saiu mais manhosa do que pretendia.
— Imagina que você me jogou no chão. Agora estamos disputando quem domina primeiro.
— Yoon… — Taehyung inclinou a cabeça, sorrindo torto. — Você percebe como isso soa perigosamente provocante?
— Taehyung.
— Certo. Treino. Treino.
Yoongi respirou fundo.
— Vem.
Taehyung não perdeu tempo. Se abaixou e se posicionou sobre ele, apoiando o peso com cuidado. Ficaram perto demais, as respirações se misturando.
— E agora? — Taehyung sussurrou, os lábios a poucos centímetros dos de Yoongi.
O coração de Yoongi disparou outra vez.
— Agora… — respondeu, engolindo em seco — agora eu te domino. Força não é tudo, Tae. Técnica é.
Com um movimento rápido e preciso, Yoongi inverteu a posição, prendendo Taehyung contra o tatame. Sentou-se sobre o abdômen dele e segurou seus braços acima da cabeça, firme o suficiente para imobilizá-lo. A proximidade era perigosa, os rostos separados por poucos centímetros, as respirações quentes se misturando.
— Admito… — Taehyung murmurou, a voz grave quase um sussurro — você conseguiu me render. Mas não acho que isso faça parte de nenhuma técnica de luta.
Um sorriso lento surgiu em seus lábios.
— Espero que você não se arrependa do que está fazendo, Min Yoongi.
Yoongi sustentou o olhar, o coração acelerado, mas sem recuar.
— Não vou — respondeu baixo — Porque eu te quero, Taehy.
O sorriso de Taehyung se abriu, carregado de malícia.
— Aqui? — provocou.
Yoongi inclinou-se um pouco mais.
— Por que não?
…
Dimitri acabara de chegar a um dos restaurantes mais luxuosos de Moscou. O ambiente exalava riqueza devido a iluminação baixa, mesas afastadas e silêncio mesmo com pessoas conversando. Aquele não era um simples jantar, mas uma reunião de negócios com um dos homens mais influentes da Coreia do Sul, o CEO da maior indústria de tecnologia do mundo, responsável pelos smartphones mais desejados do planeta.
A recepcionista o conduziu até a área reservada. Dimitri identificou o homem antes mesmo de ouvir seu nome.
Alto, de pernas cruzadas e postura impecável, ele ocupava a poltrona com naturalidade, como se o espaço lhe pertencesse. Lia algo em seu tablet com concentração absoluta. À primeira vista, parecia ter pouco mais de trinta anos. Usava roupas formais e escuras, perfeitamente ajustadas ao corpo, revelando um físico definido, quase esculpido. Havia algo nele que impunha respeito imediato.
Mingi tinha uma beleza difícil de ignorar. Os cabelos ruivos em um tom alaranjado contrastavam com a pele clara, enquanto os lábios vermelhos acentuavam ainda mais seu ar sedutor e enigmático. Sua presença era silenciosa, mas dominava o ambiente.
— Senhor Song Mingi — cumprimentou Dimitri, inclinando-se levemente em uma reverência respeitosa.
Mingi ergueu os olhos do tablet e pousou o olhar sobre ele. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— Doutor Ivanov… — disse com calma — Sente-se, por favor.
Ele indicou a poltrona à sua frente. Dimitri obedeceu, sentindo que aquela noite definiria muito mais do que um simples acordo comercial.
— A que devo a honra de sua presença em meu país? — perguntou Dimitri, mantendo o tom educado, embora seus olhos analisassem cada mínimo gesto do outro.
— Negócios, meu amigo. Apenas negócios.
— Negócios? — Dimitri arqueou levemente a sobrancelha, desconfiado.
— Você tem algo que eu quero, Doutor Ivanov.
— E o que exatamente seria isso?
Mingi ergueu a mão com calma e tocou a própria têmpora.
— Meu interesse em você está aqui dentro.
— Minha cabeça? — Dimitri franziu o cenho, agora claramente em alerta.
— Seu cérebro.
Dimitri soltou uma breve risada seca.
— E por que ele seria do seu interesse?
— Porque eu sei das suas pesquisas — respondeu Mingi, sem rodeios. — Sei do vírus. Sei dos experimentos. Sei o que acontece no subsolo daquela cidade perfeita que você vende ao mundo como um paraíso.
O ar entre os dois ficou pesado.
— Não faço ideia do que você está falando — Dimitri desviou o olhar, tentando sustentar a mentira.
Mingi inclinou levemente a cabeça, observando-o como um predador paciente.
— Ah, você sabe sim. Não precisa usar máscara comigo, nem fingir inocência. Não sou do FBI, nem da polícia, muito menos um moralista qualquer.
Ele apoiou os cotovelos na mesa, aproximando-se um pouco.
— Meu objetivo é simples, Doutor. Quero que trabalhe pra mim. Quero uma amostra do vírus. Posso financiar sua pesquisa, abrir portas, lhe dar recursos ilimitados. Tudo o que quiser. Só preciso da sua grande descoberta.
Dimitri baixou o olhar para a mesa e soltou uma risada curta, quase debochada.
Mingi permaneceu sério, inabalável.
— Senhor Mingi… — Dimitri ergueu novamente o rosto, agora com um sorriso difícil de interpretar — você está enganado se acha que isso é sobre dinheiro.
O sorriso de Dimitri se tornou mais frio.
— Não estou fazendo essa pesquisa por fama, poder ou riquezas. Estou fazendo isso por amor.
…
Yoongi estava animado como não se lembrava de ter estado em muito tempo. Ele e Taehyung haviam completado um mês de namoro e, finalmente, teriam o primeiro encontro longe daquele quartel, longe de ordens, apitos e horários rígidos. Um jantar romântico na cidade vizinha. Só os dois.
Tinha se arrumado com um cuidado quase exagerado, algo raro para alguém que fingia não ligar para essas coisas. Ainda assim, se olhava no espelho a cada cinco minutos, ajeitando a roupa e o cabelo, respirando fundo. Sorria sozinho feito um bobo apaixonado, ao mesmo tempo em que o nervosismo apertava o peito. E se Taehyung não o achasse bonito? E se estivesse criando expectativas demais?
Taehyung havia avisado que o esperaria em uma das salas sociais. O local estava quase deserto, já que a maioria dos recrutas aproveitaram a folga para sair, enquanto outros tinham preferido dormir até mais tarde e descansar.
Yoongi caminhava pelos corredores com passinhos apressados e leves, quase saltitantes. Cantarolava uma música baixinho, sem perceber, o coração acelerado demais para manter qualquer pose de durão. O sorriso aberto não deixava espaço para dúvidas de que estava genuinamente feliz, ansioso e completamente entregue àquele sentimento novo e assustador.
Quando chegou ao local combinado com Taehyung, Yoongi parou no batente da porta como se tivesse sido congelado no tempo. Seu corpo simplesmente não respondia. Lá dentro, a cena se desenhava de forma cruel.
Taehyung estava beijando Minjae.
Não era um beijo qualquer. Minjae o beijava com urgência, com fome, as mãos apertando seu corpo como se tivesse total direito sobre ele. Yoongi sentiu o ar fugir dos pulmões. O coração falhou uma batida, depois outra, até a dor se espalhar pelo peito como se alguém tivesse cravado uma lâmina sem piedade. Suas pernas fraquejaram, e por um segundo ele achou que iria cair.
A pessoa a quem ele havia entregue o coração da forma mais pura, estava ali, diante de seus olhos, nos braços de outro.
Yoongi quis gritar. Quis avançar. Quis quebrar tudo. Quis acertar Taehyung com toda a raiva e toda a dor que explodiam dentro dele. Mas nada saiu. Nenhuma palavra. Nenhum som. Apenas o silêncio pesado de quem foi despedaçado por dentro.
Virou-se e foi embora.
Caminhou de volta para o alojamento como um fantasma, sem sentir o chão sob os pés. Ao chegar, percebeu que o quarto estava vazio. Os outros rapazes tinham saído. Naquele momento, agradeceu por isso. Assim que a porta se fechou atrás de si, suas forças finalmente o abandonaram.
Yoongi caiu no chão e chorou.
Chorou como nunca tinha chorado antes. O peito doía tanto que parecia que iria se romper. As lágrimas caíam sem controle enquanto ele tentava, inutilmente, entender o que havia feito de errado. Onde tinha falhado. Quando tinha sido insuficiente. Ele realmente acreditava que Taehyung o amava.
Depois de longos minutos, quando o choro virou soluço e o corpo começou a tremer de cansaço, Yoongi se levantou e foi até o banheiro. Lavou o rosto devagar, respirando fundo, e encarou o próprio reflexo no espelho. Os olhos vermelhos, inchados e vazios.
— Tudo isso porque você se entregou, seu idiota… — murmurou para si mesmo, a voz amarga. — Você foi um grande idiota. Acreditou no amor… isso não existe. Amor não existe. Nada disso existe.
Num acesso de fúria, socou a parede com força. A dor explodiu na mão, os ossos reclamaram, a pele se rompeu. Mas ele mal sentiu. A raiva era maior que qualquer dor física.
Secou o rosto com as costas da mão, ajeitou o cabelo e continuou se encarando, agora com os olhos frios.
— A partir de hoje, isso vai mudar.
E, naquele instante, algo dentro de Yoongi se fechou.
…
(Taehyung)
Taehyung andava de um lado para o outro no dormitório, incapaz de ficar parado. O coração batia rápido, a ansiedade misturada com uma euforia quase infantil. Ainda parecia irreal que Yoongi tivesse aceitado namorar com ele. Às vezes chegava a pensar que ia morrer de felicidade. Tudo o que queria era vê-lo logo, puxá-lo para um beijo demorado e envolvê-lo em um abraço apertado, daqueles que dizem tudo sem precisar de palavras.
Passou a mão pelos cabelos pela milésima vez diante do espelho, ajeitando cada fio com cuidado. Queria estar perfeito para o namorado.
— Tá lindo, Tae! — a voz de Minjae soou atrás dele, quebrando o silêncio.
Taehyung virou-se com um sorriso animado.
— Na verdade, eu tô é muito nervoso — confessou, soltando uma risada baixa.
Minjae se aproximou sem pedir permissão e ajeitou a gravata torta de Taehyung, os dedos demorando um pouco mais do que o necessário.
— Yoongi é um rapaz de sorte… — comentou com a voz baixa e o olhar fixo.
— Na verdade, eu que sou o homem de sorte — Taehyung respondeu com sinceridade, ainda sorrindo. — O Yoongi é incrível. Eu nem acredito que ele aceitou namorar comigo.
Apesar das palavras animadas, algo naquela proximidade o deixava desconfortável. Tentou ignorar. Minjae sempre fora um bom amigo. Talvez estivesse imaginando coisas.
— Ele seria louco se não aceitasse — Minjae murmurou, o sorriso ganhando um tom diferente. — Você é incrível, Tae. Bonito, habilidoso, inteligente…
Enquanto falava, continuava ajeitando a gravata, aproximando-se ainda mais. Minjae ergueu levemente os pés para ficar quase da mesma altura, o rosto perto demais. Taehyung engoliu em seco.
— E-então… é… olha só a hora… — disse, forçando um sorriso e dando um passo para trás.
— Pois é, Tae — Minjae respondeu, a voz carregada de intenção. — Já passou da hora de você me notar.
Taehyung franziu o cenho, confuso.
— O quê? Como assim?
Minjae se ergueu ainda mais na ponta dos pés e, sem dar tempo para qualquer reação, puxou Taehyung pela gravata e selou seus lábios em um beijo brusco.
O mundo pareceu parar.
Taehyung ficou completamente imóvel, o corpo rígido, a mente em branco. Nunca, em hipótese alguma, havia imaginado aquilo. Minjae sempre fora apenas um amigo. Não houve resposta ao beijo, não houve entrega. Apenas tensão, surpresa e um nó sufocante no peito.
O choque durou poucos segundos, até que a incredulidade se transformou em raiva.
Taehyung o empurrou com força, dando um passo para trás, limpando a boca com a mão como se quisesse apagar aquele toque.
— O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?! — a voz saiu alta, cortante. — VOCÊ FICOU LOUCO?!
— Louco? — Minjae respondeu, ofegante, os olhos brilhando — Por você, sim, Tae. Eu te amo! Eu cuido melhor de você do que o Yoongi. Sou mais carinhoso, mais presente, mais amoroso. Sinceramente, eu não entendo o que você vê nele.
As palavras atingiram Taehyung como um soco.
— Eu te considerava um irmão — disse, a voz agora baixa, carregada de decepção. — Achei que você fosse meu amigo de verdade.
Minjae tentou se aproximar, mas Taehyung ergueu a mão, impedindo.
— Se você realmente me amasse como diz — continuou —, saberia respeitar quem eu amo. Eu nunca te dei falsas esperanças. Sempre deixei claro o que sinto pelo meu namorado.
Os olhos de Taehyung ardiam, mas ele se manteve firme.
— Eu sinto muito por não corresponder aos seus sentimentos — concluiu —, mas meu coração já tem dono. Só existe espaço para o meu Yoon. E espero, de verdade, que isso nunca mais se repita.
— Mas, Tae… — Minjae tentou argumentar.
— Sem “mas” — Taehyung cortou, seco. — Eu tenho um encontro. Vou atrás do meu namorado.
Ele deu meia-volta, a postura rígida, a respiração pesada.
— Passar bem, Minjae.
Taehyung saiu dali tomado por uma fúria quase sufocante. A audácia de Minjae martelava em sua cabeça como um erro impossível de ignorar. Ele sabia do namoro. Sabia do quanto Taehyung estava apaixonado. Ainda assim, ultrapassou todos os limites. Aquilo não era amor, era egoísmo e desrespeito.
Respirou fundo, tentando expulsar aquela sensação amarga do peito.
Havia algo muito mais importante esperando por ele, o encontro com Yoongi. Os beijos que ele vinha ensaiando na cabeça o dia inteiro. Era nisso que queria pensar.
Taehyung seguiu apressado até o dormitório, o coração ainda acelerado, já imaginando a bronca que levaria por chegar atrasado. Mas, ao abrir a porta, o quarto estava vazio.
— Yoon? — chamou, mesmo sabendo que não havia resposta.
Procurou no banheiro, no corredor, nas áreas comuns. Tentou o celular. Uma vez, duas, três. Sempre a mesma coisa: caixa postal.
A ansiedade começou a se infiltrar devagar, fria, apertando-lhe o estômago. Yoongi nunca se atrasava. Nunca sumia sem avisar. Se algo tivesse acontecido, ele teria mandado uma mensagem. Qualquer coisa.
Meia hora passou, depois mais alguns minutos eternos. Com o peito pesado e um pressentimento ruim se formando, Taehyung decidiu procurar seu supervisor.
— Yoongi? — o general repetiu, erguendo as sobrancelhas, claramente surpreso. — Achei que você já soubesse.
O mundo pareceu inclinar.
— Soubesse do quê? — Taehyung perguntou, sentindo a voz falhar.
O general suspirou, sério.
— Que o recruta Min Yoongi partiu. Não informou o destino. Apenas foi embora.
As palavras ecoaram secas e Taehyung sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
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