A Cura
26 O Término

Jimin continuou olhando para a chuva do lado de fora, como se cada gota que escorria pelo vidro fosse mais fácil de encarar do que qualquer palavra dentro daquele quarto. Jungkook podia estar ali, a poucos passos, mas, para ele, era como se não estivesse.
— Jimin… — a voz de Jungkook saiu baixa, hesitante. Ele se aproximou da cama e se sentou com cuidado, como quem pisa em terreno frágil. — Eu só queria… me explicar…
Nenhuma resposta, só o som da chuva preenchendo o espaço entre eles.
— Eu sei que você tá com raiva… — continuou, engolindo seco — e tem razão. Eu menti pra você. Mas… tem uma coisa que eu nunca menti.
Por alguns segundos, nada mudou. Então, devagar, Jimin virou o rosto. Os olhos estavam inchados, vermelhos, cansados de tanto chorar. Jungkook sentiu o peito apertar ao vê-lo assim. Tudo o que queria era puxá-lo para um abraço e dizer que ficaria tudo bem, mesmo sabendo que não ficaria.
— E o que seria, Jungkook? — Jimin perguntou, a voz rouca, sem calor algum. — O que você não mentiu pra mim?
Jungkook sustentou o olhar dele, mesmo com o próprio coração tremendo.
— Que eu te amo.
As palavras ficaram no ar, pesadas e dolorosas.
Jimin desviou o olhar de imediato, como se aquilo tivesse doído mais do que qualquer outra coisa. Enterrou o rosto nas cobertas e começou a chorar de novo, um choro abafado, mas profundo, que parecia vir de um lugar que nem ele sabia que existia.
Jungkook, instintivamente, levou a mão até os cabelos dele, acariciando com cuidado, mas Jimin afastou sua mão com um movimento brusco.
— Não… — murmurou, a voz quebrada. — Não torna isso mais difícil, Jungkook. Já pode parar de atuar.
Jungkook fechou os olhos por um instante, sentindo o golpe.
— Eu sei que você não pode acreditar em mim agora… — disse, com dificuldade. — Eu não tenho esse direito. Mas… eu espero… que um dia você consiga me perdoar. E… talvez… me amar de novo.
Jimin levantou o rosto devagar, enxugando as lágrimas com as mãos trêmulas.
— Te amar de novo? — repetiu, com uma mistura de dor e incredulidade. — Eu te amo. Isso não muda de um dia pro outro… não é tão simples assim. Mas eu vou te esquecer.
Aquelas palavras atingiram Jungkook como um soco.
— Jimin… por favor, não… — ele se inclinou um pouco à frente, desesperado — não me deixa. Não apaga a gente assim. O que eu sinto por você é real… me dá uma chance. A gente pode começar de novo, do jeito certo, sem mentira, sem nada escondido… por favor…
A voz dele falhou, presa no nó que crescia na garganta.
Jimin respirou fundo, como se estivesse reunindo forças para algo que não queria fazer.
— Desculpa… — disse, baixo. — Um relacionamento precisa de confiança. E você… você destruiu a que eu tinha em você. — Fechou os olhos por um segundo. — Por isso… eu estou terminando com você.
O mundo pareceu parar.
— Jimin… — Jungkook sussurrou, já sem conseguir conter as lágrimas. — Me perdoa…
Mas não havia mais espaço para aquele pedido.
Jungkook abaixou a cabeça, chorando em silêncio, enquanto o coração parecia se despedaçar dentro do peito. Ainda assim, respirou fundo, tentando se recompor o suficiente para falar.
— Eu não vou desistir de você… — disse, firme apesar da dor. — Eu te amo. E eu vou te reconquistar… sendo eu de verdade dessa vez. Sem mentiras. Sem esconder nada.
Jimin não respondeu. Apenas voltou o olhar para a janela, para a chuva que caía. Como se estivesse tentando se convencer de que tudo aquilo precisava acabar ali. E, mesmo em silêncio, seu coração continuava sangrando.
…
Jimin passou uma semana no hospital. Foram dias longos e silenciosos, atravessados por pensamentos que ele não conseguia desligar. Quando finalmente recebeu alta, nada parecia realmente mais leve, só mais real.
Agora, Jungkook não era mais o namorado. Era, oficialmente, apenas o guarda-costas.
Depois de muita insistência de Namjoon, Jimin aceitou que ele continuasse no cargo. Não porque queria. Mas porque parecia mais fácil lidar com a presença dele sob uma regra fria do que encarar o vazio da ausência.
Jungkook passou a andar sempre alguns passos atrás, impecável em seu terno escuro, gravata alinhada, fone no ouvido, atento a cada detalhe ao redor. Profissional, distante e quase irreconhecível. E, ainda assim, o mesmo. Ele o tratava com respeito, com cuidado, sempre educado, exatamente como Jimin havia exigido. Como um estranho, sem intimidade e sem aproximação. Era a única forma que Jimin tinha encontrado de se proteger. Porque sabia que se deixasse, cederia. E ele não podia, não depois de tudo.
Dentro do carro, o silêncio era quase palpável. Jungkook dirigia com os olhos fixos na estrada, enquanto Jimin estava no banco de trás, tentando parecer indiferente. Mas, vez ou outra, seu olhar escapava para o retrovisor e encontrava o de Jungkook por um segundo, antes de desviar rapidamente, como se tivesse tocado algo proibido.
Jungkook também tinha mil coisas entaladas na garganta, principalmente explicações, mas não dizia nada. Respeitou o espaço que Jimin havia imposto, mesmo que aquilo doesse.
A viagem seguiu com dois corações barulhentos presos dentro de um silêncio pesado.
Quando chegaram, Jungkook estacionou o carro e desceu primeiro. Deu a volta e abriu a porta para Jimin, como faria com qualquer pessoa sob sua proteção. Mas, quando Jimin saiu, seus olhos se encontraram. E, por um instante, tudo voltou. Era pra existir só raiva ali, mas não era só isso, tinha saudade. E aquilo tornava tudo muito pior.
— Está em casa, Senhor Jimin. Deseja algo mais? — Jungkook perguntou, formal, contido, exatamente como havia sido instruído.
Jimin engoliu em seco.
— Não, Jeon. Obrigado pelo seu serviço.
“Jeon.”
Aquilo doeu mais do que deveria.
Jimin se virou, caminhando em direção à porta. Deu alguns passos e parou. Por um segundo, quase voltou, quase correu até ele, quase esqueceu tudo. Mas a lembrança de todas aquelas mentiras veio rápida, como uma freada brusca. Respirou fundo e seguiu.
Entrou em casa e fechou a porta atrás de si, apoiando as costas nela por um instante, sentindo o coração bater forte e rápido, como se quisesse fugir do próprio peito.
A atração que sentia por Jungkook ainda estava intacta e incontrolável. Mas, toda vez que lembrava da verdade, a saudade virava raiva outra vez.
…
Aquela semana parecia não ter fim para Jimin.
Havia um peso constante no peito, uma sensação estranha de vazio, como se algo essencial tivesse sido arrancado dele. E, mesmo com Jungkook sempre por perto, atento a cada passo, a cada movimento, a cada detalhe, Jimin se sentia mais sozinho do que nunca.
Era quase irônico ter alguém tão perto e, ainda assim, tão distante.
Jungkook tentava puxar conversa, perguntar como ele estava, oferecer cuidado nas pequenas coisas, um gesto aqui, uma atenção ali. Mas Jimin sempre desviava, sempre encontrava uma forma de escapar.
Na faculdade, a situação só piorava. Jungkook estava sempre presente nas aulas, no refeitório, nos corredores, na biblioteca. Uma sombra silenciosa e constante.
E aquele sorriso… aquele maldito sorriso doce, gentil, que Jungkook nunca abandonava, mesmo depois de tudo, aquilo desarmava Jimin. E ele odiava isso.
Tudo o que queria era terminar o curso em paz, desaparecer dali e começar do zero. Imaginava uma vida simples, longe daquela cidade, longe de tudo que machucava. Talvez abrir uma clínica veterinária, ter dias tranquilos, uma rotina que não tivesse o nome “Jungkook” ecoando em cada canto. Mas com ele ali, seguir em frente parecia impossível.
Naquela noite, assim que chegou em casa, Jimin não pensou duas vezes. Subiu direto até o escritório do pai. Precisava resolver aquilo. Bateu de leve antes de abrir a porta.
— Pai?
— Jimin? Filho, entra — Namjoon levantou os olhos do notebook, uma taça de vinho ainda na mão.
Jimin entrou devagar, mas decidido.
— Preciso falar com você.
Namjoon fechou o notebook imediatamente, percebendo o tom sério na voz dele. Aproximou-se com cuidado.
— Vem cá… senta aqui comigo — disse, guiando Jimin até uma das poltronas.
Jimin se sentou, mas não relaxou. Cruzou os braços, inquieto, claramente incomodado.
— O que foi, filho?
Jimin respirou fundo antes de falar, como se estivesse organizando a própria coragem.
— Pai… eu não estou confortável com o Jungkook do meu lado o tempo todo.
Namjoon franziu levemente a testa, mas permaneceu em silêncio.
— Eu não quero mais ele como meu guarda-costas — continuou Jimin, firme. — Manda ele fazer outra coisa. Qualquer coisa. Só… longe de mim.
O silêncio pesou por um segundo.
— Eu sei que você confia nele, que gosta dele… — Jimin desviou o olhar, incomodado — e que quer manter ele perto pra me proteger. Mas eu já sou adulto. Eu posso cuidar de mim sozinho.
Fez uma pausa, a voz falhando por um instante, mas logo se recompôs.
— E… eu não aguento mais ele perto de mim.
Cruzou os braços com mais força, fazendo um leve bico, como se quisesse esconder o quanto aquela decisão doía mais do que parecia.
— Você ainda ama ele, não é? — Namjoon perguntou, com um sorriso suave e compreensivo.
Jimin desviou o olhar na mesma hora.
— Eu quero ele longe de mim. Não tem por que eu amar ele.
Namjoon soltou um suspiro leve, como quem já sabia a resposta antes mesmo de perguntar.
— Se a presença dele te incomoda tanto… é justamente porque ainda ama. — fez uma pausa, apoiando o cotovelo na poltrona — Eu odeio admitir isso, mas conheço vocês dois. E, filho, um amor assim não desaparece em um mês.
Jimin apertou os lábios, emburrado, como se quisesse discutir mas não tivesse forças.
— Que seja… — murmurou. — Eu só não quero ele perto de mim.
— Você está esquecendo de um detalhe importante — Namjoon ficou mais sério. — Você é filho do presidente. Isso te torna um alvo. Eu não posso simplesmente te deixar sem proteção.
— Não existe só o Jungkook no mundo pra isso.
— Não — concordou — mas não existe ninguém melhor que ele. Ele é o meu melhor agente. — olhou diretamente para Jimin — E, acima de tudo, eu sei que ele te ama de verdade. Ele daria a própria vida pra te proteger.
Jimin abaixou o olhar, o coração apertando de um jeito incômodo.
— É mais fácil eu proteger ele… — sussurrou, quase sem perceber.
— O que você disse?
— Nada — respondeu rápido, se recompondo. — Só… por favor, pai. Coloca outra pessoa. Eu não quero mais o Jungkook.
Namjoon ficou em silêncio por alguns segundos, observando o filho. Então suspirou, cedendo. Aproximou-se e bagunçou de leve os cabelos de Jimin, em um gesto carinhoso.
— Está bem, eu entendo que você esteja desconfortável. Vou designar outro agente pra você.
Jimin soltou um pequeno suspiro, quase imperceptível.
— Obrigado, pai.
Levantou-se, ajeitando a postura.
— Se me dá licença, preciso estudar. Tenho prova na faculdade.
— Vai lá, filho. Qualquer coisa, estou aqui.
Jimin assentiu de leve.
— Boa noite, pai.
— Boa noite, Chim.
Jimin saiu do escritório e fechou a porta atrás de si.
…
Na manhã seguinte, Jimin já estava pronto bem cedo, aguardando na entrada da casa. O ar ainda carregava aquele silêncio típico das primeiras horas do dia, mas dentro dele havia uma inquietação difícil de ignorar.
Quando o carro chegou, seu olhar foi direto para o volante. Não era Jungkook. era outro homem, um estranho. O rapaz desceu rapidamente, caminhou até ele com postura impecável, fez uma reverência e abriu a porta do carro com educação.
Jimin respondeu no mesmo tom, automático, e entrou.
Tinha sido ele quem pediu aquilo. Mas não achou que fosse acontecer tão rápido. E, por mais que não quisesse admitir, sentiu falta de Jungkook.
O dia seguiu puxado. As aulas exigiram mais concentração do que ele tinha, o almoço foi fora, e ele fez questão de chamar o novo guarda para acompanhá-lo, tentando tornar aquilo mais normal. Mas não era, faltava alguma coisa, ou melhor, alguém.
À tarde, foi para a clínica onde fazia trabalho voluntário. Entre cuidar dos animais, limpar, ajudar nos atendimentos e cumprir suas horas complementares, encontrou um pouco de paz. Ali, pelo menos, tudo fazia sentido. Era um dos poucos lugares onde o mundo parecia simples.
Quando o sol começou a cair, Jimin já estava exausto. O corpo pesado, as pernas doloridas, mas o coração estranhamente mais leve.
Entrou no carro com um suspiro, afundando no banco. Queria apenas chegar em casa, tomar um banho quente, vestir algo confortável e desaparecer na própria cama.
Enquanto o carro avançava pelas ruas, ele observava a paisagem passar pela janela, perdido nos próprios pensamentos. Até que sentiu um solavanco, o carro freou bruscamente. Jimin foi jogado para frente, segurando o cinto com força, o coração disparando.
— O QUE TÁ ACONTECENDO? — gritou, assustado.
Antes que pudesse entender, o carro deu ré de forma abrupta, desviando do veículo à frente, e logo em seguida avançou para a pista da esquerda, acelerando com tudo.
O motor rugiu e o mundo lá fora virou um borrão.
— Senhor… — disse o motorista, tentando manter a voz firme, mas sem conseguir esconder o nervosismo. — Estamos sendo seguidos.
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