A Cura
27 Perseguição

O motorista dirigia em completo desespero, lançando olhares rápidos para o retrovisor enquanto a van preta continuava na cola deles, ameaçadora, como um predador perseguindo a presa sem intenção de desistir. Ele até tinha habilidade ao volante, mas faltava experiência em situações reais como aquela, e isso ficava evidente em suas mãos trêmulas apertando o volante com força excessiva.
Costurava entre os carros em alta velocidade, ultrapassando qualquer veículo que surgisse no caminho. O som das buzinas ecoava pela avenida enquanto o carro desviava por centímetros de colisões que pareciam inevitáveis. O suor escorria por sua testa, e sua respiração vinha curta e acelerada.
Sabia muito bem o que estava em jogo. Se falhasse não perderia apenas o emprego, poderia custar vidas. O filho do presidente estava dentro daquele carro, e o peso daquela responsabilidade fazia seu coração bater tão forte que parecia querer atravessar o peito.
Jimin segurava o cinto de segurança com força enquanto o carro derrapava nas curvas. O corpo era lançado violentamente contra a porta a cada mudança brusca de direção, mas, estranhamente, não era o medo por si mesmo que o consumia, era adrenalina, uma adrenalina sufocante e intensa.
O motorista fazia curvas fechadas praticamente em drift para não perder velocidade, arrancando o carro de situações absurdas por puro instinto. Algumas vezes passaram tão perto de outros veículos que Jimin chegou a ouvir o som metálico dos retrovisores raspando.
Jimin não estava preocupado consigo. Seu maior medo era que aquele homem se machucasse tentando protegê-lo, e isso o deixava ainda mais angustiado, porque não havia nada que pudesse fazer além de torcer, em silêncio, para que tudo acabasse bem.
— Quem são eles? — perguntou assustado, tentando se firmar no banco enquanto outra curva brutal quase o jogava contra a janela.
— S-Senhor Jimin… eu não sei… — o motorista respondeu entre respirações tensas. — Devem ser terroristas, inimigos políticos do presidente… eu realmente não sei, mas o senhor vai ficar bem. Eu vou tirar a gente daqui.
Ele tentou acionar alguém pelo ponto eletrônico em seu ouvido, apertando repetidas vezes o comunicador, mas não aconteceu nada, só estática.
— Merda… sem sinal — murmurou, claramente entrando em pânico. Então olhou rapidamente para Jimin pelo retrovisor. — Consegue ligar pra alguém?
Jimin pegou o celular com as mãos trêmulas, tentando ignorar o coração disparado. Tentou ligar para a polícia e nada, sem sinal. Tentou novamente, a tela piscou estranhamente. Os aplicativos começaram a fechar sozinhos, o aparelho travava, comandos apareciam e sumiam como se alguém estivesse controlando tudo à distância. O sangue de Jimin gelou.
— O celular… — sussurrou, olhando a tela falhando — estão hackeando meu celular.
Naquele instante, ele percebeu que quem estava perseguindo eles, não era amador.
— O que tá acontecendo? — Jimin perguntou com a voz falhando, tentando olhar para trás sem perder completamente o controle. — Por que tão fazendo isso?
Seu coração quase parou quando viu um dos homens da van se inclinar para fora da janela. Ele segurava uma metralhadora, apontada diretamente para eles.
— E-ELES TÃO ARMADOS!
Mal terminou de falar e os disparos começaram. O som das balas cortando o ar foi ensurdecedor e violento. Instintivamente, Jimin se encolheu no banco, protegendo a cabeça com os braços, enquanto o motorista abaixava o corpo o máximo que conseguia sem perder o controle do volante. O carro quase derrapou.
— S-Senhor Jimin? — o homem perguntou, desesperado, com a voz trêmula. — O senhor tá bem?
Jimin respirava rápido, tentando entender se tinha sido atingido.
— E-estou… estou bem. Não me acertou.
— Se abaixa! Precisamos despistar eles!
O carro avançava em velocidade absurda pela rodovia. Mas, quanto mais fugiam, pior parecia ficar. Aos poucos, a cidade desapareceu completamente, dando lugar a uma estrada quase vazia, cercada apenas por uma floresta densa e escura dos dois lados.
Não havia para onde correr, só existia aquela estrada, e a van continuava atrás deles.
Outro disparo ecoou. Dessa vez, o vidro traseiro explodiu em milhares de pedaços, seguido pelo dianteiro, espalhando estilhaços pelo interior do carro. Jimin sentiu os cacos atingirem seus braços e rosto como pequenas lâminas. Mas aquilo estava longe de ser o pior.
O motorista lançou um olhar rápido para trás e empalideceu ao ver o sangue escorrendo pelo braço de Jimin.
— Senhor… seu braço…
Jimin olhou os cortes superficiais, respirando fundo apesar da dor.
— Calma, eu estou bem — disse, mesmo ofegante. — São só cortes… só presta atenção na estrada. A gente precisa ganhar distância.
Os homens da van claramente já poderiam ter acabado com aquilo há muito tempo. A verdade assustadora era justamente essa, eles não atiravam para matar, atiravam para assustar, para pressionar. Porque Jimin era um alvo fácil, e valioso demais para morrer.
O carro continuava avançando em alta velocidade até que, mais à frente, algo fez o sangue dos dois gelar. A pista estava bloqueada.
Três vans pretas estavam atravessadas no meio da rodovia, formando uma barreira impossível de ultrapassar. Homens armados desciam dos veículos enquanto a chuva fina começava a cair sobre o asfalto escuro.
Era uma emboscada. Uma armadilha perfeitamente planejada.
— Meu Deus… — o motorista clamou, completamente pálido. — E agora?
Jimin olhava fixamente para frente, tentando controlar a própria respiração. O coração batia tão forte que chegava a doer.
— O jeito é se render — disse, engolindo seco. — Acho que me querem vivo. Devem querer dinheiro, recompensa ou qualquer coisa assim.
— Nem pensar! — o motorista rebateu imediatamente, a voz tremendo. — Eu vou distrair eles e o senhor corre pra floresta. Corre o mais rápido que puder, Senhor Jimin!
Jimin virou o rosto para ele, sentindo a garganta apertar.
— Você não vai se sacrificar por mim.
— É meu trabalho proteger o senhor!
— Não! — Jimin o interrompeu com a voz embargada. — Eu não quero que ninguém morra por minha causa! — Os olhos dele marejaram novamente. — Só… para o carro e foge. Eu dou um jeito nisso.
Mas ambos sabiam que não existia “dar um jeito”. Já tinham sido cercados e estavam sem saída.
O motorista reduziu totalmente a velocidade até parar diante das vans atravessadas na rodovia. O som da chuva batendo no carro misturava-se ao ronco dos motores e ao clique metálico das armas sendo preparadas.
Homens vestidos de preto começaram a cercar o veículo lentamente. Alguns usavam máscaras cobrindo o rosto. Outros não faziam questão alguma de esconder a própria identidade. A maioria era claramente estrangeiro, homens altos, de pele clara, cabelos loiros ou castanhos e expressões frias como pedra. Todos armados com metralhadoras apontadas diretamente para eles.
Um dos homens bateu violentamente no capô do carro e fez sinal para que descessem. O motorista apertou o volante com tanta força que os dedos ficaram brancos. Jimin sentiu o próprio coração afundar.
— Senhor Jimin… — o motorista chamou, com a voz baixa e trêmula. — Foi uma honra servir ao senhor. E… me desculpe por não ter sido bom o suficiente.
Aquilo apertou o peito de Jimin de imediato. Mesmo apavorado, virou-se para ele e balançou a cabeça.
— Ei… não fala isso. Você fez tudo o que podia. A culpa não é sua. — tentou soar firme, mesmo sentindo as próprias pernas tremerem. — Eu vou tentar negociar com eles, tá bem? Só se acalma. Não tenta nenhuma loucura.
O motorista assentiu em silêncio, claramente aterrorizado.
Do lado de fora, os homens armados continuavam cercando o carro como lobos aguardando a presa sair da toca. Sem alternativa, os dois respiraram fundo e abriram as portas lentamente. A chuva fina imediatamente atingiu seus corpos.
Jimin ergueu as mãos acima da cabeça, tentando ignorar o frio que não vinha do clima, mas do medo que se espalhava por dentro dele. O motorista fez o mesmo.
Um dos homens se aproximou. Ele fumava um cigarro com total tranquilidade, como se aquilo fosse apenas mais uma noite comum de trabalho. Seus olhos percorriam os dois sem emoção alguma.
Com brutalidade, ele empurrou o motorista contra o capô do carro e começou a revistá-lo, arrancando a arma que ele carregava na cintura. Depois foi a vez de Jimin. Mãos ásperas o seguraram sem cuidado, revistando seus bolsos e seu corpo enquanto várias armas permaneciam apontadas diretamente para sua cabeça.
— Se ajoelhem — ordenou o homem em coreano. Era um dos poucos dali que falava sua língua.
Jimin e o motorista obedeceram lentamente, ajoelhando-se no asfalto molhado, com as mãos na cabeça.
A água da chuva escorria pelo rosto de Jimin, misturando-se discretamente às lágrimas que ele se recusava a deixar cair. Tentou respirar fundo, precisava manter a calma.
— Senhor… — começou, tentando soar racional — podemos negociar. Poupem nossas vidas e eu consigo qualquer quantia de dinheiro que quiserem.
Os homens riram. Um riso baixo, debochado e cruel.
— Já fomos pagos, loirinho.
A resposta fez o estômago de Jimin afundar.
— Por quem? — perguntou, tentando esconder o tremor na voz. — O que vocês querem comigo?
O homem tragou o cigarro devagar antes de responder.
— A gente só cumpre ordens. E você parece ser alguém muito importante.
Ele se abaixou levemente, olhando Jimin de perto.
— Então relaxa. Não vamos te machucar. O chefe quer você inteiro.
Jimin sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Chefe? Quem é ele?
O homem apenas sorriu de lado. Então jogou o cigarro no chão molhado e o apagou com a bota.
— Isso… é o que você vai descobrir em breve.
Jimin engoliu em seco e rapidamente olhou para o motorista ao seu lado, que tremia visivelmente.
— Soltem ele — pediu imediatamente. — Eu vou com vocês pra onde quiserem. Ele não tem nada a ver com isso… deixem ele ir.
O homem soltou uma risada cruel. Então sacou a pistola, o disparo ecoou pela rodovia vazia.
Antes mesmo que Jimin pudesse entender o que estava acontecendo, o corpo do motorista caiu ao seu lado, sem vida. O sangue espirrou quente em seu rosto, em suas roupas e em suas mãos. Jimin ficou imóvel. Não conseguia olhar para o corpo caído ao seu lado. Não conseguia respirar direito. Sentia apenas o sangue escorrendo lentamente por sua pele enquanto um zumbido preenchia seus ouvidos.
O motorista estava morto por causa dele. A culpa veio esmagadora, seu estômago revirou e as mãos começaram a tremer.
— Não precisávamos dele — o homem disse com indiferença, guardando a arma como se tivesse apenas descartado algo inútil. — Já conseguimos o que queríamos.
Ele inclinou levemente a cabeça, observando Jimin em choque.
— E, sinceramente? Ainda bem que pegamos você sem aquele guarda-costas antigo. Aquele cara daria trabalho pra caralho. Já tentamos nos aproximar várias vezes antes, nunca dava certo.
O coração de Jimin falhou uma batida.
“Kookie…”
As palavras ecoaram em sua mente de forma dolorosa.
“Ele sempre me protegeu”.
Mesmo quando Jimin o afastava e mesmo quando dizia odiá-lo, Jungkook continuava protegendo ele de coisas que sequer percebia.
Jimin sentiu o corpo enfraquecer de repente. As pernas bambearam ainda mais, os olhos ardiam violentamente e o ar parecia não chegar aos pulmões. Era como se estivesse à beira de uma crise, como se fosse desabar ali mesmo.
O homem deu alguns passos até parar bem na frente dele e segurou seu queixo, forçando Jimin a erguer o rosto manchado de sangue.
— Então, loirinho… — disse, encarando-o de perto com um sorriso perturbador. — Espero que goste da Rússia, porque é pra lá que nós vamos.
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