A Cura

14 Meu Primeiro Amor



Jimin já havia completado treze anos. Estava diante do espelho, penteando com cuidado seus cabelos loiros que caíam suavemente até a altura dos olhos. Era impossível não se emocionar ao lembrar do passado. Aos nove anos, jamais imaginaria que chegaria tão longe. Naquela época, os médicos haviam sido diretos: ele não viveria para ver os dez. Seus cabelos, sua força, sua própria vida, tudo parecia prestes a desaparecer.

Mas ali estava ele, três anos depois. Vivo, saudável, e com uma vitalidade surpreendente. Sua recuperação fora tão milagrosa que ele já nem se lembrava da última vez que tivera uma simples dor de cabeça. Gripe? Resfriado? Nada. Seu corpo era forte, quase como se a vida quisesse compensar cada sofrimento do passado. E Jimin era grato todos os dias. Grato por ter vencido a doença. Grato por poder viver ao lado de seu pai. Grato por ter tempo.

Naquele momento, se arrumava com entusiasmo, Jungkook logo chegaria.

Desde que se tornaram amigos, Jungkook passava todos os fins de semana com ele. Podiam passar horas apenas conversando, assistindo animes, jogando videogame, desenhando ou brincando na piscina. Às vezes nem faziam nada, e mesmo assim, era o suficiente. Quando estavam juntos, tudo era divertido.

Jungkook, no entanto, nunca falava de seus pais, sua casa ou de qualquer coisa relacionada à sua família. Para Jimin, isso sempre foi um mistério. Supunha que o amigo talvez tivesse algum problema familiar, e por isso evitava o assunto. Também não o convidava para ir até sua casa. Jimin respeitava isso, embora guardasse no peito uma vontade imensa de conhecer o lugar de onde Jungkook vinha. Mas por enquanto, se contentava com cada segundo ao lado dele.

A casa na árvore — sonho antigo de Jimin — estava quase pronta. Namjoon cuidara das partes pesadas, e agora bastava acertar os detalhes. Quando o pai precisou se ausentar para um compromisso, deixou os dois sozinhos para finalizar o “grande projeto”.

Jimin ajeitava almofadas sobre o pequeno sofá de pallets.

— Ficou perfeita, né, Kookie? — disse, sem esconder o orgulho.

— Sim, perfeita! Vai ser a sede do nosso clube secreto! — Jungkook respondeu, passando um pano úmido pela mesinha recém-lixada.

Jimin ergueu as sobrancelhas, curioso.

— Clube secreto?

— Claro! Todo herói precisa de um quartel-general — explicou Jungkook, sorrindo antes de voltar aos afazeres.

Enquanto ele se esticava para pendurar uma luminária, a camiseta subiu e revelou parte do abdômen definido. Apesar de ter apenas dezesseis anos, Jungkook era alto e mantinha um físico que denunciava horas de treino. Jimin reparou de um jeito novo, não apenas admirado, mas intrigado pelo que sentia.

— E como vai se chamar o nosso clube? — perguntou, desviando o olhar de volta para o rosto do amigo.

Jungkook pensou por um instante, depois sorriu de canto.

— Que tal… Clube JiKook?

Jimin soltou uma risada leve, o coração batendo mais rápido do que gostaria de admitir.

— Clube JiKook, então. Sede oficial da nossa dupla de heróis!

— Adorei o nome, Kookie! Mas a gente também precisa de nomes de herói, isso é fundamental — disse Jimin, animado. Ele apoiou o queixo na mão e pensou por um segundo antes de soltar, com uma gargalhada: — O seu vai ser Garoto Coelho! Com esses dentões, você dá uma mordida certeira na jugular do inimigo!

— Engraçadinho você, né? — Jungkook rebateu, apertando com carinho as bochechas coradas de Jimin. — Então você vai ser o poderoso Bolinho Lindo.

— Ah não! Isso não é um nome legal! — Jimin fez um bico, indignado. — Que poderzinho eu teria com esse nome?

— Você seria tão fofo, mas tão fofo, que os inimigos ficariam desnorteados, hipnotizados pela sua fofura e cairiam aos seus pés sem reação.

— Isso não é um poder maneiro! — Jimin se aproximou com um brilho brincalhão nos olhos. Ficou na ponta dos pés, segurou Jungkook pela gola da camiseta e encarou-o bem de perto, os rostos separados por poucos centímetros. — Deu certo, Kookie? Você está desnorteado e hipnotizado?

Jungkook engoliu em seco, surpreso com a proximidade. Tinha dito aquilo como piada, mas agora, com Jimin tão perto, encarando-o daquele jeito, seu coração estava disparado.

“Jimin é bom nisso…” — pensou, nervoso.

— S-sim… deu certo, Chim. Seu poder é devastador! — levou a mão ao peito — Achei que você fosse fazer meu coração explodir.

— Uau! Eu consigo fazer isso?

— Pelo jeito sim… mas não vale usar esse poder em mim, nós somos parceiros, lembra?

— Foi sem querer. Eu nem sabia que funcionava em você — Jimin respondeu com um sorrisinho inocente.

— Funciona… e muito — murmurou Jungkook, tentando manter a compostura.

— Kookie… eu não quero explodir seu coração. Gosto dele do jeitinho que é — disse Jimin, sorrindo daquele jeito que fazia o peito de Jungkook parecer pequeno demais pro próprio coração.

Jungkook sentia um frio na barriga toda vez que olhava para Jimin. Não conseguia entender exatamente o que eram aqueles sentimentos — se eram bons ou ruins — só sabia que o deixavam nervoso, ansioso, meio fora do ar. Algo dentro dele mudava quando Jimin estava por perto, e isso acontecia cada vez com mais frequência.

Depois de terminarem de arrumar tudo na casa da árvore, se jogaram exaustos no pequeno sofá. Jimin deitou a cabeça no peito de Jungkook, que ficou completamente rígido, tremendo por dentro como se estivesse prestes a ter um infarto. Já estavam acostumados a passar tempo juntos, eram amigos há mais de dois anos, mas ultimamente… algo estava diferente. Jimin mexia com ele de um jeito novo, mais intenso.

— Ficou perfeita a nossa casa na árvore! — disse Jimin empolgado. Depois se inclinou, aproximando os lábios do ouvido de Jungkook — Nossa Sede Secreta! — sussurrou, e completou em outro sussurro — Tem que falar baixinho, senão os inimigos ouvem.

O arrepio que percorreu o corpo de Jungkook foi imediato.

— Uau! Chim… já falei pra não usar seu poder contra mim!

— Usei? — Jimin disse com inocência, com um sorriso brincalhão.

— Usou! — Jungkook respondeu, passando a mão pelo rosto quente — Você me deixou meio... estranho.

— Estranho como?

— Eu não sei explicar… meu corpo fica esquisito, meu coração parece que vai explodir, tô com calor, minhas mãos estão suando…

Jimin arregalou os olhos, impressionado.

— Uau… então eu tenho mesmo um super poder!

— Você quer que eu morra, é isso? — Jungkook disse teatralmente, empurrando de leve o ombro de Jimin — Ou você vai fazer meu coração explodir… ou eu vou pegar fogo!

— Não é pra morrer! Está bem, parei, parei… vou controlar meu poder — disse Jimin, antes de apertar Jungkook num abraço cheio de afeto.

— J-Jimin… i-isso não está ajudando! — Jungkook engasgou com a própria saliva; quanto mais sentia o calor de Jimin, mais o coração parecia saltar dentro do peito.

— Mas, Kookie, abraço cura tudo — respondeu Jimin, confuso, erguendo o rosto.

— Cura, sim. Seu abraço espanta qualquer tristeza… só que meu corpo reage de um jeito estranho, eu não sei explicar.

— Estranho ruim ou estranho bom? — quis saber Jimin, franzindo a testa.

— Não é ruim. É como se eu quisesse te apertar ainda mais.

O sorriso de Jimin se abriu, radiante.

— Então é bom.

— Eu diria que é muito bom — confessou Jungkook, desviando o olhar para disfarçar o nervosismo.

Jimin, satisfeito com a resposta, acomodou-se de novo no peito dele. O silêncio que se seguiu foi confortável. Lá fora, pássaros riscavam o céu azul, e o leve farfalhar das folhas entrava pelas janelas abertas da casa na árvore.

Ali, embalados pelo canto distante dos passarinhos, Jungkook tentava acalmar o coração acelerado, enquanto Jimin, sem entender completamente o que se passava, apenas se sentia seguro e estranhamente feliz nos braços do seu melhor amigo.

Jimin se remexeu levemente, a cabeça ainda apoiada no peito de Jungkook.

— Kookie?

— Hum?

— Quando eu estava doente, achava que nunca teria tempo de experimentar certas coisas… — Jimin abriu um sorriso tímido — Mas olha só onde cheguei. Tenho uma curiosidade antiga e queria pedir algo a você.

— Pode pedir, Chim — respondeu Jungkook, tocando de leve o queixo dele.

Jimin respirou fundo, reunindo coragem.

— Kookie… você pode me dar um beijo?

Jungkook arregalou os olhos.

— U-um b-beijo? — gaguejou, surpreso.

— Sim. Um beijo de verdade, na boca, como nos filmes românticos. Quero que seja com você — confessou Jimin, quase num sussurro.

“Deuses, isso não estava no manual!” — Jungkook pensou, o coração disparado.

“Aprendi a usar facas, armas, até a derrubar adultos… mas beijar?” O pensamento o deixou ainda mais nervoso.

— Kookie?

— C-Chim, desculpa… — balbuciou.

— Tudo bem — Jimin sorriu, mas havia um toque de decepção em sua voz. — Acho que você não quer me beijar.

— Eu quero! Quero muito — assumiu Jungkook, corando. — Só… nunca fiz isso antes. Não sei como.

O rosto de Jimin se iluminou.

— Eu também nunca beijei. Podemos descobrir juntos.

Jungkook respirou fundo, tentando manter a calma.

— Certo. Fecha os olhos, então…

Jimin se ajeitou no sofá, sentando-se de frente para Jungkook com os olhos bem fechadinhos e fazendo um biquinho adorável.

Jungkook sentiu o ar escapar dos pulmões ao ver aquela cena. O rosto de Jimin era lindo, os lábios cheios e naturalmente vermelhos pareciam chamá-lo, como se seu próprio corpo soubesse o que queria antes mesmo dele entender.

Com delicadeza, Jungkook levou as mãos ao rosto de Jimin, acariciando suas bochechas com os polegares. Aproximou-se devagar, quase hesitante, sentindo o coração martelar no peito. Quando seus lábios finalmente tocaram os de Jimin, o mundo pareceu parar. Foi um beijo calmo, doce, com um toque demorado que dizia mais do que mil palavras. Os olhos se fecharam naturalmente, e o tempo deixou de existir.

Quando se afastaram, os dois abriram os olhos devagar, como se tivessem despertado de um sonho.

— Isso é bom, né Kookie? — Jimin perguntou baixinho, com um sorriso tímido nos lábios.

— É muito bom, Chim… — Jungkook respondeu com sinceridade, passando os dedos suavemente pela bochecha dele — Quero te beijar todos os dias.

Jimin sorriu, o coração batendo leve, e se aconchegou no peito do outro, escutando as batidas apressadas que entregavam o quanto aquele momento significava.

“Eu tenho mesmo um super poder sobre o Kookie…” — pensou, escondendo o sorriso enquanto se deixava embalar pelo calor do abraço.

Após quase uma hora abraçados, embalados apenas pelo som distante dos pássaros e pelo próprio silêncio, Jimin se levantou do sofá, ainda com o rosto levemente corado.

— Vou preparar um suco de frutas pra nós. Fica aqui, Kookie, já volto!

— Quer ajuda?

— Não precisa. Prometo que não vou demorar.

— Certo, estarei te esperando — respondeu Jungkook, sorrindo preguiçoso.

Jimin desceu a escadinha da casa na árvore, atravessou o quintal e entrou na cozinha. Pegou um abacaxi fresco e uma faca afiada. Enquanto descascava a fruta, conversas felizes lhe vinham à mente, planos de filmes, maratonas de anime, sonhos que pareciam infinitos.

No último movimento da lâmina, a faca escorregou.

— Ah! — o gemido foi baixo, quase um sussurro de surpresa.

Ficou paralisado ao ver o corte profundo na palma da mão. Gotas de sangue caíram na pia de inox, vermelhas como tinta. Ele abriu a torneira e deixou a água fria escorrer, esperando a dor pulsante aliviar.

Então algo aconteceu.

A pele se fechou diante de seus olhos, costurando-se sozinha como um zíper invisível. Em meros segundos, não havia sinal de ferida, apenas carne nova e perfeitamente intacta.

Jimin ficou imóvel, o coração martelando. O fluxo da água pareceu ecoar na cabeça como um trovão.

— O que… o que eu sou? — sussurrou, atônito.

Notas finais
SOCORRO BRASIL! AGORA A POHA VAI FICAR SÉRIA! O que ta acontecendo com o Chim? E ESSE BEIJINHO? AHHHH MEUS JIKOOK