A Cura

25 Fake Love



Jimin tentou dar um passo para trás. Só queria sair dali. Queria correr, se esconder no próprio quarto, desaparecer antes que aquelas palavras se tornassem ainda mais reais. Mas o corpo não respondeu.

As pernas tremiam de forma incontrolável, como se já não o sustentassem mais. O corredor começou a girar ao seu redor, as vozes ecoavam distantes e distorcidas, enquanto o peito apertava cada vez mais, como se o ar estivesse sendo arrancado de dentro dele. Levou a mão até um móvel, tentando se segurar, tentando se manter consciente e não desmoronar. Mas a dor já era grande demais.

A sensação de traição queimava dentro dele, sufocante e esmagadora, como se tudo o que acreditava até então tivesse sido arrancado de uma vez só. Cada lembrança, cada beijo, cada “eu te amo”, tudo parecia, de repente, contaminado por uma mentira.

“Kookie…”

O nome ecoou dentro dele, mas já não trazia conforto. Só doía.

Sua visão escureceu, o mundo perdeu a forma e então tudo desapareceu. O corpo de Jimin cedeu, inerte. O som da queda ecoou pelo corredor.

— MEU DEUS, JIMIN?! — Namjoon saiu do escritório às pressas, o coração disparado ao vê-lo caído no chão.

— AMOR, FALA COMIGO! — Jungkook se ajoelhou ao lado dele, segurando seu rosto com as mãos trêmulas. Jimin estava pálido, completamente inconsciente.

Namjoon tentou manter a calma, mas sua voz falhou.

— C-chama uma ambulância… pelo amor de Deus, Jungkook!

Jungkook mal conseguiu responder. Pegou o celular com as mãos trêmulas, discando rapidamente, enquanto o desespero tomava conta de cada parte do seu corpo. Depois, puxou Jimin com cuidado, colocando a cabeça dele em seu colo, como se pudesse protegê-lo de tudo, até mesmo da verdade que ele mesmo havia escondido.

— Chim… — sussurrou, a voz quebrada. — Por favor, abre os olhos…

Mas Jimin não respondia. E aquele silêncio era pior do que qualquer grito.

A ambulância não demorou a chegar, mas, para Jungkook, cada segundo parecia uma eternidade. Quando os paramédicos finalmente levaram Jimin, ele sentiu como se algo estivesse sendo arrancado dele.

Jimin abriu os olhos devagar, como se o mundo ainda estivesse pesado demais para ser encarado de uma vez só. A luz branca do quarto de hospital o fez piscar algumas vezes até conseguir focar. Tudo parecia silencioso, limpo e frio.

Virou levemente o rosto. Namjoon dormia na poltrona ao seu lado, a cabeça tombada, ainda segurando sua mão com firmeza, como se temesse perdê-lo mesmo inconsciente. Jimin ficou olhando para ele por alguns segundos, ainda atordoado, tentando se agarrar a qualquer sensação de normalidade. Mas então, a lembrança veio. As vozes das duas pessoas que mais ama e confia discutindo sobre aquele contrato cruel.

O peito apertou de novo, como se a dor tivesse apenas esperado ele acordar para continuar. Infelizmente aquilo não foi um pesadelo.

Naquele instante, a porta do quarto se abriu. Jungkook entrou, segurando dois copos de café, com um cuidado quase automático. Assim que viu Jimin acordado, seu rosto se iluminou.

— Amor! Chim… você acordou?

A palavra atravessou Jimin como uma lâmina e seu estômago se revirou.

— Amor? — repetiu, a voz baixa, fria e completamente diferente de tudo o que Jungkook já tinha ouvido. — Quanto você ganhou pra me chamar assim?

Jungkook parou, confuso, como se não tivesse entendido.

— Amor… tá tudo bem? — deu um passo à frente, preocupado.

— Fica longe de mim — Jimin disse, agora olhando diretamente para ele, os olhos cheios de algo que Jungkook nunca tinha visto antes. Ódio.

— Amor…

— PARA DE ME CHAMAR ASSIM! — o grito veio rasgando o ar, cheio de dor e revolta.

Jungkook congelou no lugar. Nunca tinha visto Jimin daquele jeito. Ele, que sempre era doce, leve e tranquilo, agora parecia alguém completamente diferente, quebrado por dentro.

O barulho acordou Namjoon, que se levantou assustado.

— Jimin… meu filho, o que está acontecendo?

Jimin não tirava os olhos de Jungkook.

— Tira ele daqui — disse, a voz rouca, carregada de dor.

— Jimin? — Jungkook deu mais um passo, ainda tentando entender.

— EU FALEI PRA TIRAR ELE DAQUI! — Jimin gritou, perdendo completamente o controle.

Em um impulso, pegou o jarro de vidro ao lado da cama e o arremessou na direção de Jungkook. O objeto passou raspando e se chocou contra a porta, estilhaçando-se em pedaços pelo chão. O som ecoou pelo quarto. Jimin respirava pesado, tremendo, os olhos marejados, mas cheios de uma dor impossível de esconder.

Namjoon olhou para Jungkook, sério.

— É melhor você sair. Eu vou conversar com ele.

Jungkook não respondeu. Apenas assentiu levemente, ainda em choque, e saiu do quarto sem dizer uma palavra.

— Chim, meu amor. O que está acontecendo?

Jimin riu, mas não havia humor nenhum naquele som.

— O que está acontecendo? — repetiu, a voz baixa no início, tremendo, até explodir. — O QUE TÁ ACONTECENDO? Você ainda tem coragem de me perguntar isso?

Namjoon ficou em silêncio.

Jimin passou a mão pelo rosto, tentando conter as lágrimas que insistiam em cair, mas elas vinham do mesmo jeito, sem pedir permissão.

— Olha… eu não te repudio porque você é meu pai. É meu sangue. Você cuida de mim desde que eu me entendo por gente. Eu te devo respeito… — sua voz falhou por um instante — … apesar de você ter mentido pra mim todos esses anos.

Respirou fundo, mas o ar parecia não preencher nada dentro dele.

— Mas o Jungkook… — o nome saiu mais baixo, mais dolorido — … o Jungkook não é nada meu, não é? É só um guarda-costas. Eu sou só um… trabalho pra ele.

As palavras machucavam enquanto saíam.

— Eu fui idiota… — riu sem humor, balançando a cabeça — completamente idiota por acreditar que ele me amava. Mas ele só estava fazendo o que você mandou.

A voz começou a embargar de vez.

— E eu… eu… — tentou continuar, mas o choro o interrompeu. Levou a mão à boca, tentando se controlar, tentando se manter inteiro — … eu realmente amo ele. Eu amo ele de verdade com todo meu coração, com meus sentimentos mais puros e verdadeiros.

As lágrimas escorriam sem controle.

— Mas era tudo mentira…

Namjoon abriu a boca, mas nenhuma palavra parecia suficiente.

— Jimin… eu…

— Por quê? — Jimin o interrompeu, levantando o olhar, agora cheio de dor e incredulidade. — Por que você fez isso comigo?

Namjoon suspirou, passando a mão no rosto. Não havia mais para onde fugir.

— Jimin… me escuta — disse, com a voz mais baixa. — Eu vou te contar tudo. Mas você precisa tentar ficar calmo.

Jimin fechou os olhos por um instante, respirou fundo, tentando se recompor, mesmo que por fora apenas.

Quando os abriu novamente, já não havia suavidade.

— Estou ouvindo — disse, frio.

Namjoon hesitou, mas começou:

— Eu não estava pensando direito naquela época… eu… eu achei que ia te perder. Os médicos disseram que você tinha poucos meses de vida… e eu entrei em desespero. Eu só queria que você fosse feliz nesse tempo, queria que você tivesse alguém, que soubesse como era ter uma amizade.

Jimin soltou uma risada curta e amarga.

— Então você me deu uma amizade falsa?

— Jimin, me desculpa — Namjoon disse, a voz carregada. — Eu nunca quis te machucar. Eu só… não queria que você sofresse.

Jimin o encarou, incrédulo.

— Não queria que eu sofresse? — repetiu, a voz subindo aos poucos. — E isso aqui é o quê? — levou a mão ao peito, como se pudesse apontar a dor — Você deixou eu me apaixonar por ele. Você viu isso crescer, virar amor de verdade e não fez nada.

Respirou fundo, tentando conter a própria revolta.

— E você chama isso de não querer me fazer sofrer?

Jimin desviou o olhar, limpando as lágrimas com pressa, como se estivesse cansado até de chorar.

— Vai… continua — disse, seco. — Já que começou, termina de contar logo tudo.

— Ok… — Namjoon respirou fundo, como se cada palavra custasse mais do que deveria. — Teve um dia, uma manhã, na verdade. Eu estava desesperado, triste, com medo de te perder e disposto a qualquer coisa pra te ver sorrir. Foi nesse dia que eu conheci o Jungkook.

Jimin ergueu o olhar devagar, os olhos ainda marejados.

— Esse é o nome dele mesmo? — perguntou, com um amargo quase imperceptível na voz. — Porque, sinceramente, eu nem sei o nome do homem que eu amo.

— É… — Namjoon assentiu, engolindo seco. — Esse é o nome dele.

— E como você conheceu ele? — Jimin apertou a coberta com força entre os dedos, como se precisasse descarregar em algum lugar tudo o que estava sentindo.

Namjoon hesitou por um instante.

— Ele era… — passou a mão pelo rosto, cansado — não tem como suavizar isso, ele era um trombadinha. Roubou minha carteira naquele dia. Era um garoto de rua, órfão. Tinha fugido da casa dos pais adotivos depois de uma tentativa de abuso.

Jimin apenas ouviu. Cada palavra parecia desmontar, peça por peça, a imagem que ele havia construído de Jungkook. Como se estivesse olhando para um retrato e, de repente, alguém revelasse que tudo ali era uma pintura mal feita.

Um nó se formou em sua garganta.

— Então, era tudo falso — sua voz saiu baixa, quebrada. — A família dele, a casa, a amizade — engoliu em seco — O amor dele… — As lágrimas voltaram com mais força. — … era um amor falso…

— Filho… — Namjoon deu um passo à frente — me perdoa. Eu sei que errei. Tudo isso foi culpa minha. O Jungkook só fez o que eu mandei.

Jimin levantou o olhar, os olhos agora endurecidos.

— Então ele é seu cúmplice — disse, seco. — E isso faz dele culpado também. — Respirou fundo, sentindo o peito doer. — Por que vocês não me contaram antes?

Namjoon fechou os olhos por um instante.

— Porque eu tive medo, eu fui fraco. E o Jungkook… ele quis te contar várias vezes. Eu que não deixei. — Sua voz falhou levemente. — Ele se apaixonou por você, Jimin. Ele te ama de verdade.

Jimin soltou uma risada amarga, quebrada no meio do choro.

— Me ama? — repetiu, incrédulo. — Você ainda tem coragem de dizer isso pra mim? Esse teatrinho ridículo já acabou.

Namjoon não respondeu de imediato. Apenas o olhou, com um peso evidente no rosto.

— Eu sei que você está com raiva, e tem todo o direito. Sei que talvez não queira olhar pra gente agora, ou nunca mais. Mas, por favor, — sua voz baixou — não duvide que o que sentimos por você é real. A gente errou muito. Mas… tenta nos perdoar um dia… por favor.

Jimin desviou o olhar, exausto. Até respirar parecia cansativo.

— Eu não quero falar mais sobre isso, não agora. Eu estou cansado — murmurou, virando-se de lado, dando as costas para o pai. — Me deixa sozinho.

Namjoon ficou ali por alguns segundos, em silêncio.

— Tudo bem — disse por fim, em um tom baixo. — Eu entendo. — Se aproximou com cuidado e depositou um beijo leve na testa de Jimin. — Só… me perdoa, filho. Eu te amo.

Caminhou até a porta, lançou um último olhar para ele, carregado de arrependimento, e saiu.

O quarto ficou em silêncio. Jimin puxou a coberta contra o corpo, como se aquilo pudesse protegê-lo de alguma coisa. Enterrou o rosto no tecido e, finalmente, deixou o choro vir sem tentar segurar. Agora não havia mais ninguém olhando, e a dor podia sair.

Ao sair do quarto, Namjoon mal teve tempo de fechar a porta antes de dar de cara com Jungkook, que praticamente avançou sobre ele com os olhos cheios de desespero.

— E o Jimin? Como ele tá? O que aconteceu? Ele tá bem? — as perguntas saíam atropeladas, sem espaço para resposta.

— Jungkook, se acalme — disse Namjoon, tentando manter a voz firme. — Ele não está bem, mas vai ficar. Ele descobriu tudo. Descobriu que eu te contratei.

As palavras caíram como um peso sobre Jungkook.

— Eu preciso falar com ele — disse imediatamente, já dando um passo em direção ao quarto.

Namjoon o segurou pelo braço antes que ele pudesse avançar.

— Me solta! — Jungkook puxou o braço, desesperado. — Eu preciso explicar, preciso dizer que eu amo ele de verdade!

— Jungkook, você só vai piorar as coisas agora — respondeu Namjoon, mais sério. — Ele está muito abalado, precisa de tempo pra processar tudo isso.

— Mas eu… — a voz de Jungkook falhou — eu não quero que ele pense que tudo foi mentira. Eu não quero que ele ache que eu não amo ele, porque eu o amo. Eu amo de verdade.

Havia algo cru na forma como ele dizia aquilo, quase implorando para ser acreditado por alguém que não estava ali para ouvir.

Namjoon respirou fundo.

— Eu sei, mas agora não é o momento. Ele está com raiva, magoado. Se você entrar lá assim, só vai machucar ainda mais. Dá um tempo a ele. Talvez amanhã ele esteja mais calmo.

Jungkook fechou os olhos por um instante, lutando contra a própria ansiedade.

— Eu só quero que ele fique bem… — disse, mais baixo. — Não deixa ele sozinho, por favor. Eu vou ficar aqui no hospital. Amanhã eu tento falar com ele.

— Ele também não quer me ver agora — confessou Namjoon, com um peso na voz. — Mas eu sou o pai dele. Vou dar um tempo e depois volto pro quarto. Não se preocupe, eu vou cuidar dele.

Colocou a mão no ombro de Jungkook, tentando oferecer algum tipo de apoio. Mas Jungkook parecia distante demais para sentir qualquer conforto.

No dia seguinte, o céu estava pesado. A chuva caía forte do lado de fora, batendo contra as janelas com um ruído constante, quase hipnótico.

Jungkook parou diante da porta do quarto de Jimin, o coração acelerado. Respirou fundo antes de bater. Tentou uma vez, duas, e não teve nenhuma resposta. Hesitou por um segundo e então abriu a porta.

Jimin estava sentado na cama, encostado na cabeceira, com as pernas dobradas contra o peito e os braços ao redor delas, como se estivesse tentando se manter inteiro. Olhava fixamente para a janela, para a chuva que escorria pelo vidro. Seu rosto estava molhado pelas lágrimas que ele já não fazia questão de esconder.

Jungkook entrou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar ainda mais o que já estava frágil. Parou a poucos passos dele.

— Jimin… — sua voz saiu baixa, cuidadosa — a gente pode conversar?

Jimin não respondeu e o silêncio que ficou parecia dizer mais do que qualquer palavra.

Notas finais
A TRETA VEM ...