A Cura
31 Escape

Jimin deu alguns passos para trás, cambaleando, incapaz de desviar os olhos daquela multidão que avançava lentamente em sua direção. Quanto mais as criaturas se aproximavam, mais detalhes conseguia enxergar, e cada um era pior que o anterior. Alguns corpos se arrastavam pelo chão porque já não tinham pernas; outros caminhavam de maneira grotesca, com os braços arrancados e os ombros terminando em carne rasgada. Havia pessoas com o abdômen completamente aberto, deixando as vísceras penderem enquanto continuavam andando como se nada daquilo importasse. Rostos dilacerados, mandíbulas pendendo em ângulos impossíveis e olhos esbranquiçados que pareciam enxergar apenas uma única coisa: ele. O cheiro de putrefação era tão intenso que Jimin precisou prender a respiração para não vomitar. A cada segundo, tornava-se mais difícil acreditar que aquilo não fosse um pesadelo, mas o calor das chamas, o sangue espalhado pelo chão e aquele odor insuportável de carne apodrecida eram provas cruéis de que tudo era real.
Aos poucos, começou a perceber pequenos detalhes nas roupas daquelas pessoas. Muitos ainda vestiam jalecos manchados de sangue e queimaduras; outros usavam uniformes de enfermagem ou crachás presos ao peito. Eram médicos, cientistas e enfermeiros, pessoas que provavelmente trabalhavam naquele laboratório poucas horas antes. A explosão que o despertou devia ter transformado aquele lugar em um verdadeiro inferno. Não sabia como nem por quê, mas alguma coisa havia acontecido ali, algo capaz de converter seres humanos naquelas criaturas famintas que caminhavam em sua direção.
Jimin respirou fundo, obrigando a própria mente a voltar a raciocinar. Entrar em pânico significava morrer. Não havia como seguir em frente, pois o corredor inteiro estava tomado por aquelas coisas. Voltar também não resolveria, já que atrás dele havia apenas o corredor sem saída de onde acabara de escapar. Apertou a pistola com mais força e fez uma rápida conta mental. A quantidade de munição que carregava não seria suficiente nem para derrubar uma pequena parte daquela multidão. Mesmo que seu corpo se regenerasse de qualquer ferimento, aquilo não faria diferença se fosse cercado. Bastava uma delas alcançá-lo para que as outras o derrubassem, e então seria devorado vivo antes mesmo que seu organismo tivesse tempo de se reconstruir. A única chance era correr e encontrar algum lugar onde pudesse se esconder antes que aquele mar de mortos o alcançasse.
Os mortos avançavam em sua direção com passos desajeitados, arrastando os pés e tropeçando nos próprios corpos, mas havia algo profundamente assustador na forma como se moviam. Não corriam, porém também não paravam. Continuavam vindo, um atrás do outro, como uma maré inevitável que lentamente engolia tudo em seu caminho. Jimin não esperou para descobrir se eles podiam acelerar. Virou-se e disparou pelo corredor sem olhar para trás. Sua respiração ardia nos pulmões, o coração martelava contra o peito e o único pensamento que ocupava sua mente era encontrar um lugar para se esconder. Ao avistar a porta do quarto onde havia despertado, correu até ela e entrou sem hesitar.
Assim que cruzou a porta, girou a chave na fechadura e começou a empurrar um armário metálico contra a entrada. O móvel era pesado, e seus músculos protestavam a cada centímetro conquistado, mas o desespero lhe dava forças que nem imaginava possuir. Quando finalmente conseguiu travar a passagem, recuou alguns passos, ofegante, sentindo o suor escorrer pelo rosto misturado ao sangue seco que ainda manchava sua pele.
— Só espero que isso segure eles... — murmurou entre uma respiração e outra, tentando controlar o tremor que percorria todo o seu corpo.
Mal teve tempo de recuperar o fôlego quando ouviu o primeiro impacto do lado de fora. Depois outro. E mais outro. As batidas faziam a porta estremecer, enquanto dezenas de grunhidos guturais ecoavam pelo corredor, formando um coro grotesco que arrepiava cada centímetro de sua pele. Por mais que tivesse conseguido se esconder, seu sangue fresco impregnava o ambiente. O cheiro metálico que sentia desde que escapou da maca provavelmente também guiava aquelas criaturas. Elas sabiam exatamente onde ele estava.
— Meu Deus... meu Deus... meu Deus... — repetia baixinho, quase como uma oração, enquanto recuava instintivamente. Tentava controlar a respiração, mas o pânico apertava sua garganta. Era apenas uma questão de tempo até que aquela porta cedesse. E, quando isso acontecesse, ele estaria encurralado dentro de uma sala sem janelas, sem saída e sem esperança.
Jimin fechou os olhos por um breve instante e apertou com força a empunhadura da pistola. Seu corpo inteiro tremia, mas, por baixo do medo, algo começava a despertar. Uma teimosia feroz. Uma vontade desesperada de continuar vivo. Respirou fundo, ergueu a cabeça e encarou a porta que estremecia a cada nova pancada.
— Eu não posso morrer aqui. — disse para si mesmo, com a voz ainda trêmula. — Não posso acabar assim, não vou me entregar! — Apertou a arma com ainda mais força. — Não, hoje não.
Jimin olhou desesperadamente ao redor do cômodo em busca de qualquer possibilidade de fuga. Foi então que seus olhos encontraram uma pequena saída de ar próxima ao teto. Seu coração deu um salto. Aquela abertura era estreita, mas talvez fosse suficiente. Não era uma boa saída, mas era a única.
Arrastou um armário metálico até embaixo da saída de ventilação. O móvel raspava pelo piso, produzindo um som estridente que ecoou pelo laboratório. Em seguida empurrou a maca para o lado do armário, improvisando uma espécie de escada. Quando terminou, respirou fundo por um instante. Agora só precisava conseguir chegar até a abertura.
Os impactos do outro lado da porta aumentavam a cada segundo. As criaturas se debatiam contra a madeira com uma violência assustadora, fazendo toda a estrutura estremecer. Jimin subiu primeiro na maca e, com dificuldade, escalou o armário. Quando finalmente ficou de pé diante da saída de ar, seu alívio desapareceu na mesma hora. A grade metálica estava firmemente presa por quatro parafusos.
O desespero voltou a esmagar seu peito.
— Isso não está acontecendo... não... não... calma, Jimin... — murmurou para si mesmo, tentando impedir que o pânico assumisse o controle. — Só preciso de alguma coisa... qualquer coisa que abra isso.
Desceu rapidamente do armário e começou a vasculhar o cômodo. Abriu armários, revirou bancadas, derrubou bandejas no chão, procurando freneticamente algo que pudesse servir de ferramenta. Tentava ignorar os estrondos vindos da porta, mas era impossível. Cada pancada fazia o batente ranger mais alto, e cada rangido parecia anunciar que o tempo estava se esgotando.
Arrancou todas as gavetas das mesas, espalhando papéis, prontuários, frascos e instrumentos cirúrgicos pelo chão. Seu coração afundava a cada nova gaveta vazia. Não havia chave de fenda ou alicate, não havia absolutamente nada que pudesse ajudá-lo. Encontrou apenas tesouras cirúrgicas de diversos tamanhos, pinças e materiais médicos que pareciam inúteis naquele momento. Quando seus olhos pousaram sobre alguns bisturis, agarrou todos de uma vez, torcendo para que uma daquelas lâminas finas fosse suficiente para improvisar uma ferramenta.
Subiu novamente sobre o armário e encaixou a ponta do bisturi na fenda do primeiro parafuso. Suas mãos tremiam tanto que quase deixou a lâmina cair. O suor escorria por sua testa, embaçando sua visão, enquanto tentava fazer força suficiente para girar o metal. Atrás dele, as batidas contra a porta tornavam-se cada vez mais violentas. A madeira já começava a estalar, e ele tinha a impressão de ouvir o som das dobradiças cedendo aos poucos.
— Calma, Jimin... — sussurrou entre os dentes, respirando fundo para estabilizar as mãos. — Você consegue... só mais um pouco... você consegue...
Sentiu o suor escorrer por sua testa e arder em seus olhos. Nunca, nem em seus piores pesadelos, imaginaria viver algo assim. Um corredor tomado por pessoas desfiguradas, mutiladas, caminhando como cadáveres que se recusavam a permanecer mortos. Era exatamente como os filmes de terror que assistia ou os jogos de sobrevivência, tipo Resident Evil, que passava horas jogando com Jungkook. A diferença cruel era que, ali, não existia controle para pausar, salvar o progresso ou recomeçar caso morresse. O cheiro de sangue, de fumaça e de carne em decomposição era forte demais para permitir qualquer ilusão. Aquilo era real. E ele estava no centro daquele pesadelo.
Seus olhos desceram por um instante para o chão, encontrando o corpo do rapaz que havia derrubado minutos antes. O caco de vidro continuava cravado profundamente em sua órbita, e o sangue escuro havia formado uma poça ao redor da cabeça. Logo depois, lembrou-se do policial que também fora obrigado a matar no corredor. Fechou os olhos por um breve momento e respirou fundo, tentando impedir que o peso da culpa o esmagasse.
Sempre viveu cercado de proteção. Primeiro por seu pai, que fazia de tudo para mantê-lo seguro. Depois por Jungkook, que passou anos colocando a própria vida entre qualquer perigo e ele. Pela primeira vez, estava completamente sozinho. E, ainda assim, havia conseguido sobreviver até ali. Havia lutado. Havia tomado decisões difíceis. Havia enfrentado monstros. Lentamente, apertou o bisturi entre os dedos e murmurou para si mesmo, como se precisasse ouvir aquelas palavras em voz alta para acreditar nelas.
— Sempre fui protegido pelo meu pai e pelo Kookie... mas olha onde eu consegui chegar sozinho. Eu enfrentei dois desses monstros, sobrevivi e me defendi, ninguém fez isso por mim. Eu não sou fraco, nunca fui. Só passei tempo demais acreditando que precisava ser salvo. — Respirou fundo, sentindo o coração se acalmar apenas o suficiente para continuar. — Eu não vou desistir nunca. Se eu morrer aqui, vou morrer lutando até o último segundo.
Um sorriso quase imperceptível surgiu em seu rosto quando, enfim, sentiu o primeiro parafuso girar. A pequena peça metálica caiu no chão fazendo um simples barulhinho, mas aquele som lhe pareceu o mais bonito do mundo. Ignorando a dor nas mãos e o cansaço que queimava seus braços, continuou trabalhando. Um parafuso e depois outro, cada volta do bisturi renovava sua esperança. Restava apenas o último. Apenas mais um e estaria livre daquela sala.
Foi então que um estrondo sacudiu todo o laboratório.
A porta explodiu para dentro. O armário metálico foi lançado para o lado como se não pesasse absolutamente nada, arrastando a maca junto e espalhando cacos de vidro pelo chão em um barulho ensurdecedor.
Jimin congelou. Seu coração pareceu parar por um instante.
As criaturas começaram a invadir o cômodo umas atrás das outras, esticando os braços em sua direção, enquanto dezenas de rostos deformados se voltavam para ele ao mesmo tempo. Algumas se empurravam, tropeçavam umas sobre as outras e se arrastavam desesperadamente para alcançá-lo.
Jimin olhou para a saída de ar. Depois para o último parafuso, faltava apenas um, e os monstros já estavam embaixo dele.
Numa explosão de adrenalina, Jimin concentrou toda a força que ainda lhe restava naquele último parafuso. Suas mãos escorregavam por causa do suor e do sangue, enquanto o bisturi ameaçava escapar de seus dedos a cada tentativa. Atrás dele, os zumbis já haviam tomado completamente o cômodo. Sentiu dedos frios e apodrecidos se fecharem ao redor de seu tornozelo, puxando sua perna com violência. O armário inteiro balançava perigosamente, rangendo sob o peso das dezenas de criaturas que tentavam derrubá-lo. O coração de Jimin martelava tão forte que parecia rasgar seu peito. Então, finalmente, o parafuso girou. A pequena peça metálica caiu, e ele arrancou a grade da saída de ar quase no mesmo instante. Um dos mortos continuava agarrado à sua perna, impedindo-o de entrar na abertura. Sem pensar, Jimin sacou a pistola e disparou à queima-roupa. O estampido ecoou pelo laboratório, e a cabeça da criatura explodiu para trás. O corpo despencou sobre os outros, criando uma pequena confusão entre eles. Aproveitando aqueles poucos segundos preciosos, Jimin impulsionou o próprio corpo para cima e se pendurou na abertura da tubulação exatamente no instante em que o armário tombou com um estrondo ensurdecedor. Seus braços queimavam de esforço, mas ele continuou puxando o próprio peso até conseguir deslizar completamente para dentro do duto. Só então ousou olhar para baixo. Dezenas de braços erguidos se agitavam freneticamente, mãos ensanguentadas tentavam alcançá-lo, bocas deformadas se abriam em grunhidos famintos. Respirando de forma descompassada, apoiou a cabeça na parede metálica e fechou os olhos por um instante. Eles não conseguiriam alcançá-lo. Pelo menos não por enquanto.
Com as mãos ainda trêmulas, ligou a lanterna. O feixe de luz percorreu o interior da tubulação, revelando um emaranhado estreito de dutos metálicos que se estendiam na escuridão. Não havia espaço para ficar de pé. O teto era baixo demais e as paredes apertadas faziam o ar parecer ainda mais sufocante. A única maneira de avançar seria rastejando, centímetro por centímetro. Não era uma rota confortável, mas era uma rota. E, naquele momento, qualquer caminho que o afastasse daqueles monstros era suficiente.
Jimin permaneceu sentado por alguns minutos, tentando controlar a respiração. Seus braços ainda tremiam pelo esforço, seu peito doía e as batidas aceleradas do coração pareciam ecoar dentro da tubulação. Pela primeira vez desde que acordou naquele laboratório, permitiu que o choque o alcançasse. Toda a coragem que encontrou para sobreviver pareceu desaparecer de uma vez, deixando apenas um garoto assustado, perdido em um país estrangeiro, cercado por criaturas que desafiavam qualquer lógica.
— Pai... — sua voz saiu baixa, embargada. — Kookie... eu... eu quero voltar pra vocês... — As lágrimas voltaram a escorrer sem que ele tentasse contê-las. Abraçou os próprios joelhos, como se aquilo pudesse protegê-lo do mundo lá fora. — Eu achei que conseguiria sozinho, achei que era forte, mas eu... eu to com muito medo. — Enterrou o rosto entre os braços e chorou em silêncio, enquanto os grunhidos abafados ainda ecoavam sob seus pés. — Kookie, amor, por favor... vem me buscar...
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