A Cura

10 Empatia



Jimin misturava os ingredientes com entusiasmo, a tigela quase transbordando de massa e pequenas gotas de chocolate. Seu rosto estava levemente sujo de farinha, mas ele nem ligava, estava radiante.

— Esses cookies são pro Kookie! — repetia animado. — Porque Kookie e cookie combinam!

Namjoon riu da lógica inocente, segurando a tigela para evitar desastres enquanto o filho despejava mais uma leva de massa.

Ele até tentou sugerir que comprassem cookies prontos, seria bem mais prático. Mas Jimin foi firme:

— Tem que ser feito por mim! Senão não vale!

Namjoon suspirou, rendido, e agora ali estavam os dois, pai e filho, dividindo um momento simples, mas cheio de amor.

Já se passaram dois meses desde que Jungkook entrara na vida de Jimin, e a amizade entre eles florescia com uma naturalidade linda. Jungkook era agora parte da rotina, um porto seguro para Jimin, que tinha mais motivos para sorrir, rir e sonhar.

Enquanto misturava a massa, Jimin pensou em outra pessoa que não via há tempos: Nikolai. Ele suspirou baixinho, o sorriso diminuindo um pouco.

Desde a última visita à Rússia, não conseguiu mais ver o amigo acordado. Dimitri explicou que Nikolai estava debilitado, reagindo de forma mais agressiva ao tratamento. Jimin teve apenas uma breve visita, em que viu o amigo dormindo, pálido e fraco. Sentiu saudade. Mas, por outro lado, ele mesmo vinha se sentindo melhor a cada sessão.

Aquela “droga experimental”, como chamavam, fazia sua energia voltar, fazia os exames melhorarem, os sintomas aliviarem. Jimin se sentia mais forte, mais vivo. O câncer que antes dominava seu corpo agora parecia, pouco a pouco, estar curando.

Ele não entendia exatamente o que acontecia em seu corpo, mas uma coisa era certa:

Estava feliz.

Feliz por estar melhor. Feliz por ter Jungkook. Feliz por poder fazer cookies com o pai.

E mal via a hora de ver o sorriso do Kookie ao receber seu presente doce e feito com carinho.

Jimin colocou cuidadosamente os cookies em um pacotinho rosa com fitinha branca, fechando com carinho como se estivesse guardando um tesouro.

Em seguida, foi se arrumar com pressa, mas atenção aos detalhes. Tomou um banho rápido, vestiu seu uniforme escolar impecável — calça social azul-marinho, camisa branca, colete xadrez azul claro, gravatinha azul-marinho e o terno combinando.

Antes de sair do quarto, se olhou no espelho. Passou a mão pela cabeça careca, num gesto automático e silencioso. Aquele era o único detalhe que o diferenciava dos outros meninos.

— Eu só queria ser bonito… — murmurou tristemente, colocando o inseparável chapeuzinho azul de lã, que o acompanhava desde o início do tratamento.

Respirou fundo, pegou a mochila, o pacotinho com os cookies e seguiu para o carro com um sorriso determinado no rosto.

Era um dia especial.

Tinha feito os cookies com todo carinho, e mal podia esperar para comer junto com Kookie antes da aula.

Fez questão de sair bem mais cedo e pediu que Jungkook também chegasse cedo, só para terem esse momento juntos.

Ao chegar na escola, lá estava Jungkook, já o aguardando no portão, encostado de forma casual, mas atento à movimentação.

Namjoon estacionou e saiu com o filho, carregando sua mochila enquanto Jimin segurava firme o pacotinho rosa.

Ao se aproximarem, Namjoon entregou a mochila a Jungkook.

— Cuide dele. — disse com simplicidade, mas o olhar carregava uma firmeza paternal.

Jungkook assentiu com respeito, mas também com ternura.

— Vou cuidar, Chim é meu bebê. — disse, apertando as bochechas de Jimin com carinho, fazendo o pequeno rir baixinho.

— Vem, Chim. Quero provar seus cookies. Fiquei ansioso desde ontem à noite quando você disse que ia trazer.

— Vamos, Kookie! Tchau, papai! Te amo! — Jimin respondeu, se virando para dar um beijo na bochecha de Namjoon.

O ministro se abaixou, o abraçou com força e lhe sussurrou algo que só os dois ouviram, antes de deixá-lo ir.

Jimin entrou saltitando, de mãos dadas com Jungkook, os dois rindo e conversando animadamente.

Namjoon os observou de longe. Viu o jeito como Jimin parecia leve, vibrante, cheio de vida. Ao ver seu filho tão feliz ao lado de Jungkook, sentiu que, apesar de tudo, havia feito a coisa certa.

— Huuumm, Chim, que delícia! — Jungkook exclamou com a boca ainda cheia, saboreando o cookie. Apesar de não ser fã de doces, aqueles cookies estavam realmente muito bons.

— Você gostou mesmo? — Jimin perguntou com os olhinhos brilhando e um sorriso tão grande que mal cabia em seu rostinho, os olhos quase fechando de tanta alegria.

Jungkook parou por um instante para observá-lo, o cookie esquecido em sua mão.

"Jimin é tão bonitinho… tão fofo..." — pensou, encarando aquele sorriso com um aperto no peito.

"Dá vontade de apertar as bochechas dele… ele é muito fofinho..."

Ele balançou a cabeça discretamente, tentando se recompor.

"O que estou pensando? Ele é a minha missão. Meu trabalho. Não posso me apegar a ele"

— Sim, Chim. Obrigado pelos cookies deliciosos. Estão realmente muito bons, vou comer muitos!

— Coma todos! — Jimin disse com entusiasmo. — Eu fiz pra você, Kookie.

Jungkook sorriu sem perceber, e quase automaticamente estendeu a mão, tocando a bochecha macia de Jimin e fazendo um leve carinho.

Jimin arregalou os olhos surpreso, congelando por um segundo com o toque inesperado.

Jungkook piscou, percebendo o que tinha feito, e tirou a mão imediatamente.

— D-desculpa, Chim! Eu... foi sem querer... — disse, coçando a nuca, claramente confuso com o impulso.

Mas Jimin segurou sua mão com delicadeza, e a trouxe de volta ao rosto com um sorriso calmo.

— Eu gostei, Kookie. — sussurrou, os olhos fixos nos dele.

Ficaram assim, em silêncio, apenas se olhando, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido por um momento. Era um silêncio confortável, gentil, cheio de algo que nenhum dos dois sabia nomear. Até que foram interrompidos pelo som de uma voz feminina.

— Olá, Jungkook. Sou a Mary! — disse a menina, estendendo a mão com confiança.

Jungkook, meio contrariado por ter que soltar a mão de Jimin, a cumprimentou de forma rápida e seca.

— Olá, Mary… o que quer? — perguntou, impaciente, querendo voltar ao seu momento tranquilo com Jimin.

Jimin, por outro lado, a observava encantado. Mary era mesmo muito bonita. Tinha a pele clara como porcelana, olhos verdes intensos, e cabelos ruivos alaranjados que desciam em cachos volumosos e brilhantes, como os de uma boneca ou princesa.

Jimin se pegou pensando em como aqueles cabelos pareciam macios, e por um segundo desejou ter cabelos bonitos como os dela. Mas o encanto quebrou-se imediatamente quando Mary nem sequer o cumprimentou. Ela o ignorou como se ele nem estivesse ali. Jungkook percebeu e não gostou nada disso. Então, Mary falou, com um sorriso convencido:

— Eu sou a mais linda e a mais popular da escola. Todos os meninos querem me namorar, mas eu sou exigente, só aceito os melhores. Então escolhi você pra ser meu namorado! — declarou com autoridade, como se estivesse fazendo um favor.

Houve um momento de silêncio desconcertante. Então Jungkook caiu na gargalhada.

— HAHAHAHA! — Ele segurava a barriga, rindo alto — Você sabe contar boas piadas.

Mary franziu a testa, ofendida.

— Por que está rindo?! — perguntou irritada.

Jungkook, ainda rindo, apontou para Jimin.

— Ouviu isso, Chim? Ela disse que é a mais bonita da escola! — riu ainda mais alto.

Jimin olhava de um para o outro, sem entender nada, um pouco nervoso com a reação da menina.

— K-Kookie...? — murmurou, incerto.

Mary cerrou os punhos, a cara vermelha de raiva.

— Isso não é uma piada! Qual é o seu problema? Está tão feliz assim por saber que vai namorar comigo?

Jungkook respirou fundo, tentando se recompor, e então olhou diretamente nos olhos dela, sério pela primeira vez.

— Espera, espera… primeiro, você não é a mais bonita da escola.

Mary piscou, chocada.

— A pessoa mais bonita dessa escola… — continuou Jungkook, com um pequeno sorriso, virando-se para Jimin — Na verdade, é a mais bonita do mundo inteiro… — Ele tocou de leve o braço do amigo e completou com firmeza — É o meu amigo Jimin!

Jimin arregalou os olhos, surpreso, o rosto corando intensamente.

Mary ficou boquiaberta, sem reação.

— Jimin?! — ela exclamou, incrédula. — Ele nem tem cabelo!

As palavras cortaram como navalha. Jimin baixou os olhos na mesma hora, como se tivesse levado um golpe invisível no peito.

Jungkook cerrou os punhos. Se fosse um menino que tivesse dito aquilo, ele já teria se jogado em cima e arrancado os dentes. Mas respirou fundo, e deixou sua raiva sair em forma de palavras afiadas.

— E daí?! — rebateu, firme. — Ele é tão lindo que é lindo de qualquer jeito.

Jungkook deu um passo à frente, com o olhar mortal.

— E sobre o seu pedido nojento… EU JAMAIS VOU NAMORAR UMA FEIOSA COMO VOCÊ! Sua nojenta cara de cu, credo. Eu hein. Vaza daqui, demônio!

Mary soltou um grito embargado, e saiu batendo os pés e chorando.

Jungkook deu de ombros como se não tivesse sido nada demais, e então se virou para Jimin, que ainda encarava o chão, os olhinhos cheios d’água.

Com cuidado, segurou os ombros dele e o virou de frente.

— Ei, Chim… — falou com doçura. — Não liga pro que aquela feiosa disse, tá?

Jimin respirou fundo, tentando conter o choro, mas as lágrimas continuavam escorrendo discretamente pelas bochechas.

— Ela tem razão, Kookie… — murmurou. — Eu sou… feio.

Jungkook sentiu o coração apertar.

Sem pensar duas vezes, levantou com delicadeza o queixo de Jimin, fazendo-o olhar em seus olhos.

— Jimin. Me escuta. — disse firme. — Você é lindo sim. E eu não estava mentindo quando disse aquilo. Você é a pessoa mais linda que eu já vi na minha vida. É sério.

Jimin tremeu levemente, surpreso com a intensidade nas palavras dele.

— Você… me acha bonito? — perguntou com a voz embargada.

Jungkook assentiu sem hesitar, olhando-o nos olhos com sinceridade.

— Mas é claro que sim. Sempre achei. Desde o primeiro dia em que te vi.

Jimin engoliu em seco, tocando no próprio chapeuzinho, puxando-o para baixo em um gesto tímido, tentando esconder o rosto.

— Mas Kookie… eu não tenho cabelo… — sussurrou, quase como se fosse uma confissão.

Jungkook sorriu com ternura, aproximando-se mais, e tocou suavemente nas mãos de Jimin, afastando-as devagar do rosto dele.

— Olha pra mim, Chim. — Jungkook disse, ficando bem perto do seu rosto.

Jimin arregalou os olhos com a aproximação, os seus ainda inchados de tanto chorar, mas obedeceu e o encarou.

— Você me acha bonito? — Jungkook perguntou, com os olhos firmes e sérios.

— C-claro q-que sim, Kookie. — Jimin respondeu sem hesitar. — Você é o mais lindo de todos!

Jungkook sorriu de leve, assentiu e disse:

— Ok… então espere aqui.

E saiu correndo, deixando Jimin com um ponto de interrogação gigante na cabeça, sem entender nada.

Quase uma hora se passou.

Jimin já estava prestes a ir procurá-lo quando, de repente, viu Jungkook voltando correndo em sua direção.

— K-Kookie...? — sussurrou, se levantando, os olhos se arregalando conforme ele se aproximava.

Jungkook parou na sua frente. Estava careca. Tinha raspado toda a cabeça. Jimin levou as mãos à boca, as lágrimas voltando com força, agora por um motivo completamente diferente.

— Jimin… você ainda me acha bonito? — Jungkook perguntou, ofegante, mas com um sorrisinho no canto da boca.

Jimin o olhou através das lágrimas, a visão borrada, o coração cheio.

— Sim, Kookie… você ainda é o mais lindo de todos! — disse, chorando. — Você… fez isso por mim?

— Sim. — Jungkook se aproximou mais. — Pra você ver que, assim como você me acha lindo independente de eu ter cabelo ou não… eu também te acho lindo, independente de qualquer coisa.

Ele estendeu a mão com delicadeza, tirou o chapeuzinho da cabeça de Jimin e o jogou pra longe, sem hesitação. Se inclinou e beijou suavemente a cabeça de Jimin.

— Você é lindo, Chim. Não deixe que digam o contrário, ok?

Jimin chorava tanto que mal conseguia respirar entre as lágrimas.

— Obrigado, Kookie… — foi tudo o que conseguiu dizer, a voz embargada e o coração transbordando.

E então, ergueu-se nas pontas dos pés e abraçou Jungkook com toda sua força. Jungkook ficou imóvel por um instante. Nunca tinha recebido um abraço. Mas logo seus braços envolveram o pequeno corpo de Jimin, num abraço firme e calmo, como se quisesse protegê-lo do mundo inteiro.

O sinal tocou. A aula chamava. Jungkook segurou a mão de Jimin com força, sorrindo.

— Vamos, Chim! Vamos estudar!

Pela primeira vez, Jimin não sentia vergonha por ser careca. Porque agora Jungkook também era, e mesmo assim, continuava lindo, confiante, inspirador. Os colegas elogiaram o “novo estilo” de Jungkook, e isso fez Jimin olhar para ele com admiração. E, inspirado, endireitou os ombros, levantou o queixo e andou com confiança pelos corredores. Jimin se sentia forte. Se sentia bonito.

"Isso, Chim... mostra pra esses filhos da puta que você é o mais foda!" — pensou Jungkook, observando, com o peito inflado de orgulho.

Notas finais
Eu amo o Kookie! ಥ_ಥ