A Cura

11 Amor Fraternal



O tratamento de Jimin havia finalmente chegado ao fim. As últimas aplicações da droga experimental — o temido e promissor Myovirus — já haviam sido feitas. Seis meses se passaram desde a primeira injeção, e agora, no consultório silencioso de Dimitri, os resultados aguardavam como uma sentença escrita no papel.

Namjoon estava ao lado do médico, tenso, as mãos frias e o coração disparado.

— Então, doutor… — disse, com a voz embargada — como está o meu Jimin?

Dimitri examinava os exames, paralisado. Seus olhos iam de um dado ao outro, e a expressão de espanto tomava conta de seu rosto.

— D-deu certo… — murmurou, com a voz embargada, quase sem acreditar — Deu certo!

Ele respirou fundo, tentando conter a emoção, mas os olhos marejados o denunciavam.

— Senhor Park… Jimin está curado!

Namjoon ficou sem palavras. Os lábios se mexiam, mas nenhum som saía. Ele apenas repetia para si mesmo, como se precisasse que aquilo fosse real.

— O Jimin… o meu Jimin… ele está curado?

— Sim! — confirmou Dimitri, com um sorriso largo. — Olhe isso… — estendeu os exames. — Parece o corpo de alguém que nunca teve qualquer doença. Não há sinal algum de anomalia, câncer, nada. Ele está perfeitamente saudável.

Namjoon desabou. As lágrimas escorriam sem controle, junto com risos nervosos, soluços e um alívio tão profundo que o fez perder as forças.

— Meu filho vai viver… — repetia, abraçando Dimitri com força, como se quisesse agradecer o impossível.

Ao retornar para a Coreia, Namjoon decidiu organizar uma festa de aniversário para Jimin. Nunca imaginou que teria a chance de celebrar os onze anos do filho, um momento que, por muito tempo, pensou que jamais chegaria. Era grato por ter confiado em Dimitri e aceitado o tratamento experimental. Se não fosse por isso, Jimin não estaria mais ali. Mas aquele não era um dia para pensamentos sombrios. Era um dia para sorrir. Para comemorar a vida.

A casa de Namjoon estava cheia de risos, cores e vozes animadas. Balões flutuavam pelos cantos, a música suave preenchia o ambiente, e o aroma de bolo recém-saído do forno invadia cada cômodo. Jimin estava radiante. Mal podia acreditar que estava vivo para celebrar seu próprio aniversário, e com tanta saúde e alegria.

Convidou todos os colegas da escola, até mesmo aqueles que um dia o haviam ignorado ou tratado mal. Agora, segundo Jungkook, Jimin era o Príncipe da escola, e príncipes devem ser tratados com o respeito que merecem. Quem ousasse dizer o contrário teria de lidar com seu fiel escudeiro, também conhecido como o espadachim Kookie, o temido matador de valentões. E ninguém se atrevia a desobedecê-lo.

Mas o príncipe, naquele momento, tinha os olhos presos ao relógio da sala. Jungkook ainda não havia chegado. E isso o incomodava.

Jimin começava a murchar. O sorriso sumia aos poucos, e no lugar dele crescia um nó na garganta, grosso e dolorido. Seus olhos começaram a arder. Tinha medo de que, por algum motivo, Jungkook não viesse. E sem ele, nada daquilo faria sentido.

Jimin olhou mais uma vez para o relógio, com os olhos marejados.

— Por favor, Kookie… vem logo. — murmurou baixinho, o coração apertado.

Depois de longos trinta minutos de atraso, Jungkook finalmente apareceu. Assim que seus olhos se encontraram, Jimin correu ao seu encontro como se o mundo ao redor desaparecesse. Se atirou nos braços dele e o abraçou com força, escondendo o rosto em seu peito. Jungkook, que costumava detestar qualquer tipo de contato físico, já havia se rendido à exceção que Jimin era em sua vida e envolveu o pequeno nos braços com a mesma força.

— Achei que não viria... — Jimin murmurou com a voz embargada, os olhos marejados.

— Nunca perderia esse dia por nada — Jungkook disse com firmeza. — Eu só estava procurando o seu presente.

— Meu presente? — Jimin o olhou, curioso e surpreso.

— Sim. Passei o dia inteiro procurando algo que combinasse com você, Chim. E finalmente encontrei.

Jungkook segurava uma sacola pequena e elegante. Com cuidado, tirou de dentro dela um objeto envolto em papel dourado. Ao desembrulhá-lo, os olhos de Jimin se arregalaram e um sorriso enorme brotou em seu rosto.

— U-UMA COROA?! — exclamou, encantado.

— Claro. Você é o Príncipe Jimin, lembra? Todo príncipe precisa de uma coroa.

Com delicadeza, Jungkook se aproximou, depositou um beijo suave no topo da cabeça de Jimin e, em seguida, colocou a coroa sobre ela com reverência. A peça brilhava sob a luz do salão, mas nada se comparava ao brilho nos olhos de Jimin.

Mesmo carequinha, com a cabeça lisa, Jimin estava incrivelmente belo. Era mais do que um príncipe, era um raio de sol, uma joia rara. E para Jungkook, não havia ninguém mais digno daquela coroa do que ele.

Jimin passou a mão com cuidado pela peça em sua cabeça e sorriu com os olhos brilhando.

— Obrigado, Kookie… é o melhor presente do mundo.

Jungkook riu de leve.

— Não é a coroa que faz o príncipe, Chim. É você. Eu só mostrei o que o mundo inteiro já devia saber.

Jimin pegou a coroa com as duas mãos, cuidadosamente, como se estivesse segurando um tesouro. Observou os detalhes delicados, era feita de ouro verdadeiro, com pequenas pedras de rubi incrustadas que reluziam sob a luz. Uma verdadeira coroa de príncipe.

Embora fosse parte de uma brincadeira entre os dois, Jimin amava a forma como Jungkook o tratava, sempre o colocando num pedestal, sempre o fazendo sentir que era importante, especial, alguém digno de admiração.

Sorriu emocionado, e algumas lágrimas escorreram silenciosas por seu rosto. Colocou a coroa de volta na cabeça com delicadeza.

— Obrigado, Kookie… — murmurou com a voz trêmula.

Jungkook abriu os braços automaticamente, já sabendo o que viria. E, como sempre, Jimin se atirou em seu abraço, encaixando-se perfeitamente como se aquele lugar tivesse sido feito só para ele.

— Não precisa me agradecer, Chim — disse Jungkook, afundando o rosto em seu pescoço, sentindo o cheirinho doce e suave que ele sempre tinha. Um cheirinho de talco que fazia Jimin parecer um bebê.

— Foi o presente mais lindo do mundo… mas... — Jimin afastou-se um pouco para olhá-lo nos olhos — Eu não quero ser príncipe sozinho. Quero que você seja príncipe comigo.

— Hmm… — Jungkook sorriu de canto — Acho que não tenho muito jeito pra príncipe. Mas posso ser outra coisa.

— O quê?

— Posso ser o guerreiro do reino. O espadachim mais nobre e corajoso, que vive ao lado do príncipe e o protege de tudo e de todos. O que acha?

— Tá bom, aceito… mas aviso que vou dar muito trabalho! — disse Jimin fazendo um biquinho, o que arrancou uma risada carinhosa de Jungkook.

— Não tem problema. Eu sei exatamente como cuidar do Príncipe Chim. Sei dar carinho, atenção… e amor o suficiente pra ele nem pensar em aprontar.

Jimin sorriu, hipnotizado. Seus olhinhos brilhavam como se estivessem vendo um sonho ganhar forma. Eles estavam tão próximos, tão conectados naquele instante, que começaram a se inclinar um para o outro, devagar, como se fossem puxados por uma força invisível.

Os olhos de Jungkook desceram até os lábios macios e avermelhados de Jimin. Sentiu uma vontade genuína de beijá-lo. Jimin fechou os olhos, ansioso e sereno, prestes a viver seu primeiro beijo.

Mas então…

— Hã-hã — a voz de Namjoon ecoou junto com o pigarro proposital. Eles se afastaram rápido, como se tivessem sido pegos fazendo uma travessura.

Namjoon estava parado à porta, braços cruzados, expressão séria e olhar diretamente para Jungkook.

— Os convidados estão esperando vocês dois lá no quintal.

Jungkook coçou a nuca, sem graça.

— Sim, claro… Vamos, Príncipe Chim. Sua festa está te esperando.

Jimin riu, pegando na mão de Jungkook com firmeza, e juntos correram para o quintal como um casal em um conto de fadas, o príncipe e seu espadachim inseparável.

Enquanto isso, na Rússia, Dimitri preparava cuidadosamente seu consultório, ajustando instrumentos e checando os dados uma última vez. O frasco contendo o Myovirus descansava sobre a bandeja de metal, reluzindo sob a luz branca e fria. Agora que Jimin estava completamente curado, ele tinha esperanças renovadas. Era a vez de seu filho.

Nikolai estava sentado na maca, franzindo levemente o cenho, o corpinho frágil envolto em um agasalho azul-claro. Seus olhos, grandes e curiosos, acompanhavam cada movimento do pai com atenção e um pouco de medo.

— Isso vai doer, papai? — perguntou ele, num sussurro hesitante.

— Não, meu amor — respondeu Dimitri, com a voz mais suave que conseguiu — Isso vai te curar. Vai acabar com toda a dor e sofrimento que você já enfrentou.

— Eu vou poder crescer… ir pra escola? Estudar com outras crianças?

— Vai sim, filho. Vai viver como qualquer outra criança. Assim como o Jimin se curou, você também vai se curar. Eu prometo.

Nikolai soltou um suspiro de alívio, seus ombros relaxando um pouco.

— Está bem, papai… Eu confio no senhor — disse, estendendo o braço com um sorrisinho tímido.

Dimitri se preparou, segurando a seringa com firmeza. Mas antes de tocar a pele do filho, ouviu:

— Espere!

O pai o olhou, assustado.

— Papai… — Nikolai o fitava com olhos marejados — Eu só queria dizer que eu te amo. E que o senhor é o melhor pai do mundo. Obrigado por nunca desistir de mim, por sempre tentar me salvar.

Dimitri sentiu os olhos arderem e sua voz falhar.

— Eu também te amo, Niko. Mais do que tudo. Eu daria minha vida por você. Graças a você, descobri a cura pro câncer… e talvez, pra tantas outras doenças. Você é minha força, filho.

Nikolai sorriu, orgulhoso.

— Então… é hora de me livrar dessa doença, papai! — disse, erguendo novamente o braço com convicção.

Dimitri respirou fundo, segurando a seringa com firmeza. Seu coração batia acelerado enquanto injetava o líquido verde e viscoso na veia fina do braço de seu filho. Por um momento, o mundo ficou em silêncio.

Ele se manteve ao lado da maca, atento a cada detalhe do rosto do menino.

— E então? Como está se sentindo? — perguntou, cauteloso, com a voz baixa e ansiosa.

— Estou bem, papai… acho que deu certo — respondeu Nikolai com um sorriso pequeno, se levantando da maca devagar.

— Ei, não se levante ainda — Dimitri se apressou em segurá-lo pelos ombros — Os efeitos colaterais podem causar tontura, você precisa ficar deitado.

— Não, papai… eu estou realmente bem, e eu…

A frase morreu em seus lábios.

Num piscar de olhos, Nikolai caiu no chão com força, como se o corpo tivesse sido desconectado da alma. Dimitri correu até ele, ajoelhando-se com o coração aos pulos.

— NIKO?! FILHO?! — gritou, desesperado, enquanto o som contínuo do monitor cardíaco preenchia a sala com um apito agudo e cortante.

O coração de Nikolai havia parado.

Dimitri rapidamente injetou epinefrina direto na veia, na tentativa de estimular uma resposta. Nada. Iniciou manobras de reanimação com as mãos trêmulas. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, cravou os punhos sobre o peito frágil do filho e começou a massagem cardíaca.

— Vamos, filho… volta pra mim… volta pra mim!

Nada.

Pegou o desfibrilador. Ligou. Carregou. O visor brilhava com a voltagem.

O choque atravessou o pequeno corpo. Um solavanco. O silêncio. Até que…

Nikolai abriu os olhos.

Dimitri sorriu em alívio, as lágrimas transbordando em sua expressão de esperança.

— Niko?! Você voltou?! Está me ouvindo?

Nikolai sorriu fraco. Seus olhos estavam marejados, mas calmos. Profundos.

— Papai… eu te amo… mas… me deixe ir…

E então, seus olhos se apagaram.

A cabeça tombou para o lado. O silêncio voltou, mais alto do que nunca.

— NÃO! — Dimitri gritou, a voz rasgando sua garganta — NÃO VAI TERMINAR ASSIM!

Voltou a fazer massagem cardíaca com força, repetindo o nome do filho entre soluços e súplicas. Durante trinta minutos, lutou contra o impossível. E perdeu.

Exausto, os braços trêmulos, ele se deixou cair de joelhos. Puxou o pequeno corpo para seu colo, abraçando-o com desespero. Com a mão, fechou suavemente os olhos abertos de Nikolai, agora vazios.

O tempo parou. E tudo que restava era o som baixo do choro de um pai quebrado.

Dimitri estava desolado. O peito arfava entre soluços enquanto apertava o pequeno corpo frio em seus braços. Nada fazia sentido. Por que aquilo tinha acontecido? Por que Nikolai tinha morrido daquela forma? Ele havia criado o Myovirus para salvá-lo, testado, calculado… tinha certeza que daria certo.

Mas ali estava ele, quebrado, destroçado, abraçado ao corpo sem vida do próprio filho.

As lágrimas escorriam como se jamais fossem cessar. Ficou naquela posição por quase duas horas, balançando o corpo de Niko como se ainda fosse um bebê, murmurando palavras que já não tinham significado algum, pedindo a Deus, à ciência, ao universo, a qualquer coisa que o devolvesse.

E então Nikolai se mexeu.

Dimitri congelou.

— Niko? — murmurou, com a voz embargada.

Os olhos do menino se abriram devagar. Mas havia algo errado.

Terrivelmente errado.

O branco de seus olhos agora era esverdeado, e suas íris outrora azuis estavam manchadas de sangue, esbranquiçadas e opacas. As pupilas estavam contraídas ao extremo, sem reagir à luz. Não piscavam. Não focavam.

— Niko...? — a voz de Dimitri saiu como um sussurro trêmulo. — Está me ouvindo?

Nikolai não respondeu. Seu corpo se moveu de forma lenta, quase descoordenada, e um grunhido baixo, gutural, escapou de sua garganta.

Dimitri sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Pegou o estetoscópio com pressa, encostou no peito do filho e nada.

Nenhum batimento.

Olhou para a máquina cardíaca. O monitor ainda mostrava uma linha reta. Niko não tinha pulso, não tinha ritmo e mesmo assim, se movia.

— Isso não é possível… — sussurrou, assustado.

Mas havia um brilho em seus olhos: o brilho da negação. Da esperança cega.

Ele não conseguia aceitar que o filho estivesse morto. Preferia acreditar que aquilo era algum estágio desconhecido da cura, algo reversível, algum efeito colateral raro.

— Não importa... você voltou pra mim, Niko. Isso é o que importa! — disse com firmeza, tentando convencer a si mesmo.

Acariciou os cabelos ralos do filho e enxugou as próprias lágrimas. Estava decidido.

— Eu vou te salvar, custe o que custar. Ainda há esperança. Eu juro que vou trazer você de volta... completamente.

Mesmo que no fundo uma parte dele negasse, aquele que estava deitado em seus braços já não era mais Nikolai.