A Cura
12 Cobaias
Notas iniciais

Já haviam se passado dois anos desde o fim do tratamento de Jimin e Namjoon agora era o presidente da Coreia, eleito com uma maioria esmagadora dos votos. Jimin, com treze anos, tinha uma saúde impecável. Namjoon já não precisava mais correr para hospitais ou clínicas, o que lhe permitia se dedicar melhor ao país, embora jamais deixasse de vigiar se Jungkook estava cuidando bem do seu filho.
Mesmo com a agenda apertada, ele sempre reservava os fins de semana para aproveitar com Jimin. Às vezes iam ao cinema, outras vezes ficavam em casa testando novas receitas. Mas ultimamente, havia algo que o deixava um pouco incomodado.
— Esses são pra mim? — Namjoon perguntou, curioso, olhando os bolinhos decorados com confetes coloridos e florzinhas de chantilly.
— Não, papai. Esses são pro Kookie. Aqueles ali é pro senhor — Jimin respondeu, apontando com a cabeça para outra bandeja.
Namjoon seguiu o olhar e viu seus próprios bolinhos, simples, sem confete, sem florzinha. Apenas cobertura e ponto.
— Hm… por que os do Jungkook são mais bonitos que os meus? — perguntou, claramente ofendido.
— Pai! Você tá com ciúmes do Kookie? — Jimin riu, sacudindo a cabeça enquanto fazia mais florzinhas nos bolinhos do outro.
— Não sou mais o seu favorito — disse Namjoon, fingindo estar choroso, cruzando os braços e fazendo bico.
— Ai, para de ser bobo. Você sempre vai ser meu favorito, o melhor pai do mundo! Mas o Kookie é… o Kookie, né — completou, sorrindo bobo.
Namjoon estreitou os olhos e ficou em silêncio por um segundo, analisando o filho.
— Vocês estão…?
— Estamos o quê, pai?
— Namorando?
Jimin arregalou os olhos e caiu na risada.
— Claro que não, pai! Somos só amigos!
— Ah, tá bom… até porque você não tem idade pra isso ainda.
— Ainda… — murmurou Jimin baixinho.
— O quê?
— Nada, nada! — Jimin disfarçou, voltando a confeitar com um sorrisinho sapeca nos lábios.
Namjoon bufou e se virou, pegando a pasta sobre a mesa.
— Estou indo pra uma reunião. Nada de bagunça, vocês dois.
— Pode deixar, papai. A gente vai se comportar direitinho!
Namjoon parou na porta, lançou mais um olhar desconfiado para os bolinhos do Jungkook… e saiu resmungando:
— Florzinha de chantilly… eu não ganho nem uma estrelinha de glacê.
Namjoon depositou um beijo carinhoso na testa de Jimin antes de sair às pressas. Já estava alguns minutos atrasado, e aquela não era uma reunião qualquer, era um encontro com ministros, e como Presidente da Coreia, não podia se dar ao luxo de chegar depois do horário. Dirigiu o mais rápido que pôde, os pensamentos ainda voltados para casa, até finalmente chegar ao local da reunião.
Jin já o esperava, com aquele sorriso sereno e encantador que tinha o poder de dissipar qualquer estresse, era o tipo de sorriso que revigorava Namjoon, que o fazia lembrar que, mesmo nas responsabilidades mais pesadas, havia beleza.
A reunião foi longa, mas produtiva. Quando terminou, Namjoon se recolheu em seu escritório, exausto, afrouxando a gravata e massageando os ombros tensos. Não havia tido sequer um minuto para um café.
Foi então que a porta se abriu suavemente. Jin entrou com uma xícara fumegante nas mãos e um brilho malicioso nos olhos.
— Senhor Presidente… trouxe café — disse ele, com um sorriso sugestivo e mordiscando os lábios.
— Entre, Jin… e fique à vontade. Bem à vontade, aliás — respondeu Namjoon, devolvendo o olhar com a mesma malícia.
Jin entrou e, sem hesitar, trancou a porta atrás de si.
— Ainda temos algum tempo antes do seu próximo compromisso — comentou, deixando a xícara sobre a mesinha e caminhando até Namjoon, que agora estava recostado na poltrona. Com um gesto firme, segurou a gravata do presidente e o puxou para perto. Namjoon não resistiu, passou os braços ao redor de sua cintura, colando os corpos.
— Eu preciso de você, Jin. Preciso dos seus beijos, do seu toque... de você — murmurou contra o pescoço dele, espalhando beijos quentes por sua pele.
— E você sabe que eu sou todo seu, não sabe? — Jin sorriu, se afastando apenas o suficiente para empurrar os papéis da mesa para o lado.
Namjoon já sabia o que aquilo significava.
Com movimentos lentos e provocantes, Jin começou a se despir. Deitou-se sobre a mesa do escritório, o corpo exposto e o olhar sedutor cravado em Namjoon.
— Vem cá, Senhor Presidente…
…
Enquanto isso, em outro canto da cidade, Jeongin estava em seu quarto, sentindo a brisa fresca da noite entrar pela janela e acariciar suavemente seu rosto. O dia havia sido abafado, mas aquele ventinho agradável parecia trazer um novo ânimo.
Ele se espreguiçou, tirando os óculos e os colocando ao lado do notebook. Já estava cansado de tanto estudar.
Aos vinte e cinco anos, Jeongin acabara de se formar em Infecciologia e aguardava ansiosamente uma resposta que poderia mudar sua vida: havia enviado uma carta de recomendação para integrar a equipe científica da lendária cidade perfeita chamada Union.
Union era um projeto ambicioso de Dimitri Ivanov, um sonho antigo que finalmente se tornava realidade. Durante quase cinco anos, Dimitri havia trabalhado incansavelmente na construção dessa cidade-modelo com o apoio do governo. A proposta era simples, mas revolucionária: criar um lugar onde ninguém mais adoecesse.
Para isso, Dimitri estava reunindo os melhores profissionais da área da saúde, além de abrir oportunidades para jovens recém-formados, como Jeongin, que poderiam ser treinados por sua equipe.
Desde o final da faculdade, Jeongin alimentava esse sonho. Não desejava, necessariamente, ser um dos grandes cientistas, mas queria contribuir como infectologista. Era sua paixão. Seu propósito.
De repente, um grito irrompeu pela casa:
— INNIE! INNIEEEEEEE! — Seu pai o chamou desesperado do andar de baixo.
Jeongin saiu correndo do quarto, descendo as escadas num pulo só.
— Pai? O que foi? Aconteceu alguma coisa? — perguntou, ofegante e preocupado.
O pai, com os olhos brilhando, ergueu um envelope branco com o brasão de Union estampado.
— Filho… chegou!
— Chegou? — Jeongin mal conseguia acreditar, pegando a carta com as mãos trêmulas.
Rasgou o lacre com cuidado, como se aquilo fosse sagrado, e leu as palavras impressas no papel com atenção. Seu pai o observava com o coração acelerado.
— E então, filho?
Jeongin demorou um segundo, seus olhos marejados, e então sorriu de orelha a orelha.
— Pai, eu… EU CONSEGUI!
— Eu sabia! — disse o pai, emocionado, puxando o filho para um abraço apertado. — Você é incrível, Innie. Eu sempre soube que você conseguiria.
— Tudo isso só foi possível porque o senhor sempre esteve ao meu lado. Obrigado por nunca desistir de mim — Jeongin falou, emocionado, com lágrimas escorrendo pelas bochechas.
Ele olhou novamente para a carta em suas mãos.
— Nem acredito que agora sou parte da equipe do ilustre Dr. Ivanov… ainda bem que fiz aquele curso de russo — riu entre lágrimas — Agora é oficial. Eu vou pra Union!
— E lá é frio, não é? — comentou o pai com um sorriso.
— Muito frio… — Jeongin riu — Mas eu tô pronto. Agora é hora de fazer as malas.
…
Em outra parte da cidade, Hyunjin também recebia sua carta.
Aos vinte e sete anos, formado em Oncologia, trabalhava em uma pequena clínica numa cidadezinha afastada do centro. Apesar de amar sua profissão, sentia-se sufocado pela rotina monótona, pelas limitações de recursos e pela constante sensação de que estava desperdiçando seu potencial.
Cansado da mesmice e em busca de novos desafios, viu em Union uma chance de recomeçar. Um novo país, uma nova estrutura médica, novas experiências e, quem sabe, novas oportunidades para fazer a diferença. Quando abriu o envelope e leu a confirmação, um sorriso brotou em seu rosto pela primeira vez em semanas.
Tanto Hyunjin quanto Jeongin estavam em êxtase. Cada um, em seu canto, fazia as malas com o coração cheio de esperança, acreditando que estavam prestes a começar o maior capítulo de suas vidas. Ambos haviam sido aceitos na tão prestigiada equipe médica de Union, a cidade perfeita, livre de doenças, idealizada por Dimitri Ivanov.
Mas o que nenhum dos dois sabia era que Union era apenas uma fachada.
Por trás dos prédios limpos e da medicina de ponta, o verdadeiro foco de Dimitri estava longe dos olhos da população. Sob a superfície da cidade perfeita, escondia-se um complexo subterrâneo: um laboratório secreto, onde o ideal de cura ultrapassava os limites da ética e da humanidade.
…
Enquanto isso, nas instalações subterrâneas da cidade de Union, na Rússia, Dimitri realizava mais um de seus experimentos.
Com mãos firmes e olhos cansados, ele injetava cuidadosamente uma nova dose do Myovirus em alguns ratos de laboratório. Observou em silêncio, anotando os efeitos com precisão cirúrgica. Após poucos minutos, os corpos dos ratos começaram a tremer até colapsarem completamente, tombando imóveis. Mortos. Mais uma falha.
— Anotar: lote 371 falhou novamente. Morte celular em menos de sete minutos. Zero respostas neurológicas... — murmurou para o gravador enquanto escrevia em seu diário científico, os olhos semicerrados pela frustração.
Ele era o único com permissão de entrar naquele setor isolado. Nem mesmo seu assistente mais próximo, Hoseok, conhecia a existência daquela ala do laboratório. Aquilo era sagrado. Pessoal. Obsessivo.
Com um suspiro exausto, Dimitri deu um gole em seu café amargo, observando o enorme tubo cilíndrico de vidro à sua frente. Era um casulo translúcido, iluminado por luzes esverdeadas. Dentro dele, submerso em um líquido viscoso e levemente fosforescente, estava seu filho. Nikolai.
Seus olhos permaneciam abertos, imóveis, vazios. A pele, pálida e em processo de decomposição lenta, era preservada pelo fluido especial desenvolvido por Dimitri. Seu corpo não apresentava sinais vitais: sem batimentos cardíacos, sem respiração. E ainda assim, o cérebro estava ativo. Incompleto, rudimentar, mas aceso. Um paradoxo médico que Dimitri jamais conseguia explicar, ou aceitar.
— Calma, filho… eu vou conseguir. Nem que me leve uma vida inteira, eu trarei você de volta — murmurou, aproximando-se do tubo e tocando o vidro com a ponta dos dedos.
Nikolai não respondia. Mas também não estava morto. Não exatamente. Seu corpo apenas reagia ao instinto mais primitivo de todos: o de devorar. Sempre que Dimitri o retirava do casulo para alimentá-lo, era obrigado a usar trajes especiais e acalmar os acessos violentos do filho com sedativos pesados. Ele só comia o que ainda estava vivo.
Mesmo sem compreender aquela nova "condição", Dimitri se recusava a desistir. Acreditava que Nikolai estava ali dentro, preso em alguma parte de si, sufocado, esperando. Por isso preservava seu corpo com obsessão. Por isso continuava injetando o vírus. Por isso mantinha o segredo.
A cidade perfeita lá em cima era apenas a cereja do bolo. O verdadeiro propósito de Union pulsava ali embaixo, onde ciência e loucura caminhavam de mãos dadas pelo amor de um pai.
— Preciso de algo maior... — murmurou Dimitri, escrevendo freneticamente em seu caderno de anotações. Suas fórmulas se acumulavam em páginas rabiscadas, enquanto ele caminhava de um lado para o outro em sua sala secreta, como um cientista à beira de um colapso. Do outro lado da sala, Nikolai o observava em silêncio, submerso no líquido esverdeado de seu casulo de vidro, murmurando baixo, faminto, seus olhos mortos seguindo cada passo do pai.
Determinando-se, Dimitri trouxe uma nova cobaia: um cachorro pastor alemão de grande porte, contido por correntes grossas e preso em uma gaiola reforçada. O animal rosnava, assustado, mas não havia escolha. Dimitri preparou uma nova versão do Myovirus, mais estável e mais potente. Com mãos firmes, injetou o líquido na veia do cão.
Minutos depois, o corpo do animal tremia com febre intensa, até que seus músculos relaxaram de uma vez. Parada cardíaca. As máquinas confirmavam: morte clínica.
Silêncio.
Até que, de repente, o cão abriu os olhos. Mas não eram os mesmos olhos, estavam vidrados, opacos, cheios de raiva primitiva. Com um rosnado gutural, ele se lançou contra as grades com violência.
— Incrível... — sussurrou Dimitri, pasmo.
O animal agora era uma criatura transformada. Sua saliva escorria em fios grossos, as presas expostas em uma mandíbula esticada pelo ódio. Seus músculos haviam aumentado, as veias pulsavam sob a pele enquanto os pelos caíam em tufos, revelando uma epiderme escura e doente. O rosnado parecia vir de algo que já não era apenas um cão, era um monstro.
O mais perturbador, no entanto, era o monitor térmico. Nenhum sinal de calor. Nenhum batimento. Nenhum traço de vida. Estava morto. E mesmo assim se movia com uma força brutal.
Dimitri recuou, o olhar fixo na criatura possessa.
Cada ajuste no vírus só piorava. Não criou cura. Criou aberrações. Estava cada vez mais distante do seu filho.
Ele se virou lentamente para o casulo onde Nikolai boiava, imóvel.
— Preciso de hospedeiros humanos... — murmurou, encarando a fera que se debatia na jaula — A mente humana é a chave. Só assim poderei encontrar a resposta. Só assim poderei salvar você, meu filho.
Fale com o autor