A Cura
2 A Cidade Perfeita
Notas iniciais

Jimin estava deitado de barriga para baixo no tapete da sala, rabiscando com seus giz de cera enquanto assistia a um desenho na TV. Seus pequenos dedos corriam animados pelo papel, misturando cores com a inocência e criatividade de uma criança.
— Papai… — chamou, erguendo a folha com entusiasmo para mostrar ao pai, que o observava da poltrona. — Tá ficando bonito?
Namjoon inclinou-se para ver melhor o desenho. Seus olhos percorreram as figuras infantis rabiscadas no papel, tentando decifrar o que via. Mesmo sem entender completamente, sorriu.
— Sim, meu amor. Está lindo. — apontou com carinho. — Esse homem grandão sou eu, e esse pequenininho segurando a minha mão é você…
Então, sua expressão mudou. Atrás de Jimin, uma figura sombria se destacava no desenho — uma mancha preta com chifres, imponente e ameaçadora.
— Mas… o que é isso, meu amor? — perguntou, indicando a figura estranha.
Jimin franziu as sobrancelhas, surpreso com a dúvida do pai.
— Você não sabe, papai?
— Não, meu amor. — Namjoon sentiu um aperto no peito ao encarar aquela imagem perturbadora.
O menino sorriu de leve, como se a resposta fosse óbvia.
— Você acertou, esse sou eu e esse é você. E esse aqui… é o moço que vai vir me buscar.
Namjoon congelou.
— Que moço, Jimin? — sua voz saiu trêmula.
— O moço que leva as pessoas quando elas morrem. Ele vai me levar pra junto da mamãe.
Um calafrio percorreu a espinha de Namjoon. O coração apertou como se alguém o tivesse espremido dentro do peito. Sem hesitar, ele se abaixou e envolveu Jimin em um abraço apertado, como se pudesse protegê-lo de qualquer força invisível que estivesse ali.
— Eu não vou deixar você morrer, meu amor. — A voz de Namjoon saiu trêmula, embargada pela emoção. — Vou te salvar e vamos ficar juntos, está bem?
Ele tentou segurar as lágrimas, mas a dor que rasgava seu peito tornava impossível conter o desespero.
Jimin, com a serenidade inocente de uma criança que entende mais do que deveria, afastou-se levemente para olhar o pai nos olhos. Sua pequena mão pousou no rosto de Namjoon, um gesto suave e reconfortante, como se fosse ele quem precisasse acalmar o adulto.
— Tudo bem, papai. — disse com um sorriso doce. — Eu estou bem. Quero aproveitar o máximo de tempo possível com o senhor. Depois, eu vou cuidar da mamãe.
Namjoon sentiu um nó se formar em sua garganta, incapaz de responder.
— Não se preocupe. — continuou Jimin, com a convicção de quem já havia aceitado seu destino. — Eu vou ficar bem lá no céu com ela. Não vou mais sentir dor.
Foi nesse momento que Namjoon quebrou.
As lágrimas, antes contidas, finalmente caíram, escorrendo livremente por seu rosto. Sem conseguir dizer nada, apenas abraçou Jimin com força, como se, segurando-o nos braços, pudesse impedir que o tempo o levasse embora.
...
Namjoon acariciava o rosto delicado de seu filho, sentindo o calor suave de sua pele sob seus dedos. Jimin já não tinha mais nenhum fio de cabelo, mas isso em nada diminuía sua beleza. Ele continuava sendo a criança mais linda do mundo.
Dormia tranquilamente em seu colo, a respiração leve e ritmada, os pequenos traços serenos como se estivesse sonhando com algo bom. Namjoon observava cada detalhe com ternura, e sem perceber, um sorriso bobo surgiu em seus lábios. Por um breve momento, a dor e o medo desapareceram, substituídos pelo simples prazer de vê-lo em paz.
Com cuidado, levantou-se, segurando Jimin com delicadeza. Seus passos eram lentos, cuidadosos, para não despertá-lo. Ao chegar ao quarto, deitou-o na cama com todo o carinho, puxando as cobertas para mantê-lo aquecido.
Ficou ali por um tempo, apenas olhando para ele. Apesar de tudo, Jimin era forte. Tão pequeno e, ainda assim, carregava um espírito imenso.
Namjoon passou os dedos suavemente por sua cabeça e depois deslizou a mão até sua bochecha, acariciando-a com infinita delicadeza.
— Eu te amo, Jimin… — sussurrou, inclinando-se para lhe dar um beijo suave na testa.
Ficou ali por mais alguns instantes, admirando-o, gravando cada detalhe daquele momento em sua memória, como se quisesse segurá-lo para sempre.
“Você está crescendo rápido demais… já fez nove aninhos. Parece que foi ontem que deu seus primeiros passos e falou sua primeira palavra” — Pensou e suspirou, orgulhoso.
Namjoon deu um beijo na bochecha de Jimin e se levantou, apagou a luz e saiu do quarto.
Ao voltar para a sala, Namjoon ligou a TV, ajustando o volume enquanto procurava pelo noticiário da noite. Como Ministro da Defesa, manter-se informado era essencial. Passou rapidamente pelos canais até encontrar o que queria.
A voz da jornalista preencheu o ambiente, relatando algo que chamou sua atenção.
"Foi aprovado o projeto da cidade perfeita."
Namjoon arqueou as sobrancelhas, intrigado, e aumentou um pouco mais o volume.
"O governo russo, em parceria com o renomado cientista e oncologista Dr. Dimitri Ivanov, dará início a esse tão aguardado projeto: a criação de uma cidade perfeita. Nela, todos os cidadãos terão moradias seguras, acesso a saneamento básico, escolas, lazer e serviços públicos de qualidade."
Namjoon inclinou-se para frente, atento. A voz da jornalista continuava.
"Durante uma entrevista exclusiva, Dr. Ivanov afirmou que essa será uma cidade revolucionária, um local onde hospitais não serão necessários. Segundo ele, seu maior sonho é construir um lugar onde as pessoas possam viver felizes e livres de doenças terminais, como o câncer. E, ao final da entrevista, o doutor fez uma declaração ousada: 'Em breve, teremos a cura para o câncer’."
Namjoon ficou imóvel. Seu coração apertou no peito, a respiração falhando por um breve instante.
A cura para o câncer.
Essas palavras ecoaram dentro dele com uma força cruel. Ele sentiu os olhos marejarem ao pensar em Jimin, dormindo inocente no quarto, frágil, mas lutando com todas as suas forças.
Tudo o que ele mais queria no mundo era ter esperança. Esperança de ver seu filho crescer. De vê-lo correr, brincar, sonhar… viver.
E, pela primeira vez em muito tempo, essa esperança reacendeu dentro dele.
Jimin tinha câncer. E, segundo os médicos, restava-lhe apenas mais um ano de vida.
Namjoon sentiu o peito apertar, e por mais que tentasse se manter firme, algumas lágrimas escaparam, rolando silenciosamente por seu rosto. Ele já havia feito de tudo. Consultado os melhores oncologistas do mundo, viajado para outros países em busca de tratamentos alternativos, mas nada… nada havia conseguido mudar o destino cruel de seu filho.
Mas agora… Agora havia uma chance.
Engolindo o nó na garganta, pegou seu notebook e começou a digitar freneticamente. Disparou e-mails para contatos influentes, acionando pessoas de dentro da polícia e de outras áreas sigilosas do governo. Precisava saber mais sobre Dimitri Ivanov. Precisava da ficha completa daquele homem. A noite seria longa.
Enquanto seus contatos trabalhavam com eficiência para lhe fornecer as informações solicitadas, Namjoon levantou-se e foi até a cozinha. Preparou um café forte, esperando que a cafeína o ajudasse a se manter alerta.
De volta à sala, sentou-se novamente, segurando a xícara quente entre os dedos. Seus olhos estavam fixos na tela do notebook, a cada minuto atualizando a caixa de entrada, esperando por qualquer novidade. Cada segundo de espera parecia uma eternidade.
Namjoon quase deixou o notebook cair do colo quando a notificação de e-mail apareceu na tela.
O retorno veio mais rápido do que esperava. Com o coração acelerado, clicou na mensagem e viu que havia vários anexos — fotos e um documento detalhado. Sem perder tempo, abriu as imagens primeiro.
As primeiras fotos mostravam o Dr. Dimitri Ivanov. Em algumas, ele vestia um jaleco branco impecável, a postura ereta e confiante. Era um homem alto e de físico imponente, com traços europeus bem definidos — pele clara, cabelos loiros bem arrumados e olhos azuis tão frios quanto o gelo. Apesar da idade, sua aparência era jovem, quase intocada pelo tempo.
Namjoon deslizou para as próximas imagens. Agora, o cientista aparecia em viagens, em locais variados pelo mundo. Nenhuma delas mostrava uma mulher ao seu lado, o que indicava que provavelmente não era casado.
Mas então, uma sequência específica de fotos chamou sua atenção. Em várias fotos, um menino aparecia ao lado de Ivanov. A criança tinha feições delicadas, cabelos claros e olhos idênticos aos do cientista, tão semelhantes que não restavam dúvidas. Devia ser seu filho.
Namjoon ficou parado por um momento, analisando cada detalhe. O garoto aparentava ter a mesma idade de Jimin. E, por alguma razão, isso fez um calafrio percorrer sua espinha.
Namjoon começou a ler os documentos com extrema atenção. A ficha do Dr. Dimitri Ivanov era completa, contendo cada detalhe de sua vida — o país e a cidade onde nasceu, os nomes de seus pais, sua idade e, como suspeitava, o nome de seu filho, que confirmava ser o menino das fotos. Também havia informações sobre sua falecida esposa, que havia morrido tragicamente em um acidente de carro.
A ficha listava todas as instituições de ensino pelas quais Dimitri havia passado, suas credenciais impecáveis e suas conquistas acadêmicas. Segundo os contatos da polícia, ele não tinha antecedentes criminais, nunca havia se envolvido em escândalos. Pelo contrário, era considerado um cidadão exemplar, um pai dedicado e um dos profissionais mais respeitados na área médica.
E o mais impressionante: Dimitri Ivanov já havia recebido prêmios Nobel por suas pesquisas inovadoras e descobertas no tratamento de diversas doenças.
Namjoon fechou os olhos por um momento. Seu peito subia e descia em um suspiro profundo. Pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu algo diferente dentro de si.
Esperança.
Um sorriso hesitante surgiu em seus lábios, ao mesmo tempo em que uma lágrima escorria discretamente por seu rosto.
Foi então que Jimin entrou na sala, abraçado à sua cobertinha, os olhos sonolentos e os pequenos pés descalços roçando o chão frio. Ele piscou algumas vezes antes de olhar para o pai.
— Papai…? — Sua voz veio baixinha e rouca pelo sono.
Namjoon rapidamente enxugou as lágrimas e sorriu.
— O que foi, meu amor? — perguntou, fechando o notebook enquanto olhava para o filho com carinho — Por que levantou da cama? Está tudo bem?
— Tive um pesadelo… — disse Jimin, coçando os olhos e bocejando de sono.
Namjoon se levantou e foi até ele, o pegando no colo.
— Quer dormir com o papai hoje?
— Quero! — respondeu animado.
Namjoon sorriu ao ver o filho sorrindo de volta, os olhinhos fechados em pura inocência. O coração transbordava de emoção, e, por mais que tentasse segurar, as lágrimas continuavam a cair, teimosas.
Jimin franziu o cenho ao notar. Com sua mãozinha pequena, tocou o rosto do pai e, com a pontinha do dedo, pegou uma de suas lágrimas.
— Está chorando de novo, papai? — perguntou com doçura.
Namjoon soltou uma risada baixa, segurando a mãozinha de Jimin com carinho.
— São lágrimas de alegria, meu amor… — disse com a voz embargada. — Lágrimas de alegria e esperança.
Jimin não compreendia completamente o que aquilo significava, mas sentia que era algo bom. Sem pensar duas vezes, se aconchegou no colo do pai e acomodou a cabeça na curvatura de seu pescoço, abraçando-o com força.
Namjoon passou a mão suavemente pelas costas do filho, sentindo como ele estava cada dia mais leve. A perda de peso era um sinal cruel da doença avançando, mas, pela primeira vez, aquele aperto em seu peito foi aliviado por uma nova sensação.
Esperança.
Ele fechou os olhos por um momento, inspirando fundo, e então sorriu.
— Nós vamos fazer uma viagem divertida, meu amor.
Jimin afastou-se minimamente para olhar o pai com expectativa.
— Pra Disney? — perguntou, animado.
Namjoon soltou uma risada baixa e assentiu.
— Sim, nós vamos para a Disney… — disse, fazendo uma pausa antes de completar — Mas primeiro, nós vamos para a Rússia.
Fale com o autor