Notas iniciais
"Vocês não podem matar Max Mayhem" - Counterinsurgence 2: O preço do alvorecer.

Isaac tinha me mandado várias mensagens pedindo pra que fosse no grupo de apoio com ele, já que ele estava pra perder o olho bom. Isaac é meu melhor amigo, sempre foi, então eu não podia deixar ele na mão. Até porque ele nunca me deixou.

Isaac sempre estava comigo nas piores horas, como quando eu tive minha perna amputada, mas isso não importa agora.

No inicio eu vivia a vida do câncer, onde tudo que você faz é levado em conta o câncer, mas eu desisti de estar assim. Porque mesmo com o câncer ou sem ele, eu decidi me dar o prazer das coisas, então pra mim, seria uma boa oportunidade de ser um exemplo de vida aos do grupo de apoio. Seria uma ótima maneira de ajudá-los.

Isaac me contou sobre o grupo, um elenco rotativo de pessoas que se reunia toda quarta no porão de uma igreja episcopal, onde ouviam o líder, Patrick, falar sobre a vida e acho que a morte, porque quem vive do câncer vive assim. Isaac ia com a namorada, Mônica, e eu ia no meu carro, o que facilitaria pra eles dois se pegarem a vontade.

Logo que cheguei lá vi Isaac agarrando Mônica na frente da igreja, nada mais sensato. Fui até eles e ele mal falou comigo, afinal, a boca dele estava um pouco ocupada.

Desci as escadas até o local do grupo de apoio, sentei-me em uma cadeira e fiquei observando todos dali. Isaac chegou alguns minutos depois, sentou perto de mim e começou a falar sobre Mônica. Enquanto ele falava meus olhos fixaram em um único ponto.

Uma menina de uns dezoito anos de idade, jeans folgado, uma camisa de uma banda que eu gostava e um cabelo cortado bem curto. Ela me olhou, parecia desconfortável, mas eu não me negaria o prazer de olhá-la. Isaac percebeu, porque ele parou de falar da Mônica, o que é um milagre.

A menina sentou ao lado de Isaac, e eu continuei encarando ela. Ela também me encarava agora, e tinha um leve sorriso no rosto. Ela começou a fingir que não se importava e começou a mexer no celular. Eu ri.

O líder, Patrick, começou a falar com serenidade, mas eu não conseguia para de olhar pra ela, que também começou a me encarar. Parecia um jogo do sério. Sorri do modo como ela me olhava e olhei pra Patrick tentando me concentrar, mas tive que voltar a olhar pra ela.

Ela me encarava, parecia que dizia: HaHa, eu ganhei. Dei de ombros, porque Patrick já me olhava. Acho que ele percebeu que eu não estava ligando muito pro que ele dizia.

Depois de alguns minutos as apresentações começaram e Isaac foi o primeiro.

– Meu nome é Isaac. Tenho dezessete anos. Parece que vou ter que ser operado em duas semanas, depois fico cego. Não que eu esteja reclamando ou brigando, não, porque poderia ser pior, como no caso de outros aqui, mas, tipo, ficar cego é uma droga. Ter uma namorada gostosa me ajuda. Além de amigos como o Augustus. — Ele falou de mim, claro que ele falaria. — Não tem que nada que possa mudar isso.

Depois todos foram se apresentando, até que chegou minha vez.

– Meu nome é Augustus Waters, tenho dezessete anos, tive um pouco de osteossarcoma a um ano e meio, mas só vim aqui hoje pra acompanhar o Isaac. — A menina estava com os olhos fixos em mim.

– E como está se sentindo? — Patrick perguntou.

– Tô uma maravilha! Numa montanha-russa que só vai pra cima, amigão! — Sempre quis dizer isso.

Mais duas pessoas falaram, até que chegou a vez da menina.

– Meu nome é Hazel. — Finalmente a menina tinha um nome, mas qual seria ele completo? — Tenho dezesseis anos. Tireoide com metástase nos pulmões. Estou bem.

Ela sentou e a reunião continuou como deveria ser, até que, de surpresa, Patrick diz:

– Augustus, talvez você queira dizer quais seus medos.

– Meus medos? — Eu não fazia ideia do porque daquilo, talvez fosse a iniciação.

– Eu tenho medo de ser esquecido. Tenho medo disso como um cego tem do escuro. — Isaac estava rindo, mas Patrick o repreendeu.

– Por favor Augustus, você disse que tem medo de ser esquecido?

– Sim! — Patrick estava meio perdido, então perguntou se alguém queria dizer algo sobre.

– Hazel, pode falar — Disse ele.

– Vai chegar um dia em que todos vão estar mortos. Todos nós. Vai chegar o dia em que não vai existir um ser humano sequer pra lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai ter ninguém pra se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido, e tudo isso vai ter sido inútil. Pode ser que esse dia chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do sol, não vamos viver pra sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai ter outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto pra lá, Deus sabe que é isso que todo mundo faz.

Minha única reação foi sorrir, mesmo com aquele silencio, mesmo sem ela me conhecer, ela disse toda a verdade.

– Putz! Você é demais! — Disse baixinho.

A reunião terminou algum tempo depois com Patrick orando e falando o nome dos que se foram. Depois todos disseram: "VIVENDO O MELHOR DA NOSSA VIDA HOJE" e pronto, acabou.

Me levantei e fui até ela. Eu ia finalmente saber o nome dela, tipo, completo.

– Qual seu nome?

– Hazel.

– Não, o nome completo!

– Hazel Grace Lancaster. — Ela me olhou fixamente dentro dos olhos.

Isaac se aproximou antes que eu pudesse dizer que ela estava linda. Virei pra ele e disse:

– Isso tudo foi pior do que você tinha dito, serio!

– Eu disse que era um tédio. — ele disse sorrindo.

– Porque você vem aqui mesmo?

– Sei lá, meio que ajuda...?

– Ela vem sempre aqui? — Sussurrei pra ela não ouvir.

– Viu, valeu a pena você ter vindo.

– Quer saber? Conta pra Hazel da ida pro médico.

Isaac contou uma historia super chata, mas foi tempo o suficiente pra eu observar Hazel Grace e seu interesse por essa historia. Quando Isaac terminou de contar a tal historia, ela fez uma piada e ele riu, já não estava mais prestando atenção.

– Já vou indo, Mônica tá esperando por mim. Preciso olhar bastante pra ela enquanto posso. — Nem tinha percebi que ele já estava indo.

Counterinsurgence amanhã?

– Claro! — Isaac praticamente correu pra fora.

Olhei pra Hazel Grace Lancaster e disse:

– Literalmente.

– Literalmente? — Ela me olhou confusa.

– Estamos literalmente no coração de Jesus! Pensei que estivéssemos no porão da igreja, mas é literalmente o coração de Jesus. — Ela riu.

– Alguém deveria contar isso pra Jesus. Tipo, guardar crianças com câncer no coração deve ser perigoso!

– Eu mesmo poderia contar, mas, estou, literalmente, enterrado no coração Dele, então Ele não vai conseguir me ouvir. — Ela riu de novo, um belo sorriso aquele.

– O que foi? — Ela perguntou logo depois que eu balancei a cabeça dela com meu indicador.

– Nada. — Quase disse que só estava admirando.

– Porque você está olhando pra mim desse jeito? — Ela estava corando.

– Porque você é bonita. Eu gosto de olhar pra pessoas bonitas, e faz algum tempo que resolvi não me negar os prazeres mais simples da existência humana.

De repente silêncio.

– Porque tipo, como você deliciosamente disse, tudo isso vai acabar em total esquecimento e tal...

Ela tossiu, pelo menos eu acho que foi uma tosse e disse:

– Eu não sou boni... — Não pude deixar ela terminar tal frase!

– Você é tipo uma Shailene Woodley milenar. Tipo a Shailene Woodley em Divergente*.

– Nunca vi esse filme. — Ela disse.

– Serio? Garota linda, rejeita autoridades e não consegui resistir a um cara que sabe que vai ser um problema. É sua autobiografia. Pelo menos até agora.

Eu olhava pra ela e ela me olhava e mordia o lábio inferior. Acho que eu estava excitando ela...

Alisa passou por nós e eu falei com ela, ela era do mesmo hospital que eu, o Memorial.

– Que hospital você frequenta? — Perguntei pra Hazel Grace.

– Hospital Pediátrico. — Ela disse bem baixo e começou a se arrumar pra ir embora. — Então a gente se vê na próxima, talvez?

– Você devia assistir o Divergente. — Falei sorrindo.

– Tá, vou ver se acho na internet.

– Não. Comigo. Na minha casa. Hoje. Agora.

– Eu mal conheço você, Augustus Waters. Você poderia ser um assassino! — Eu ri e concordei e segui meu caminho pra porta da igreja.

Hazel Grace me seguiu, devagar, até chegarmos no estacionamento da igreja. Olhamos pro lado e Isaac e Mônica estavam se pegando na parede de pedra da igreja e podíamos escutar os dois dizerem "sempre", um após o outro.

– Eles são grandes adeptos de demonstrar o afeto em público.

– Qual é o do "sempre"? — Ela perguntou.

– É o lema deles. Eles vão se amar sempre e tal. Pelos meus cálculos, eles devem ter trocado em torno de quatro milhões de mensagens de texto com a palavra sempre, só no ano passado.

Só estavam agora eu e Hazel Grace e Isaac e Mônica, e nessa hora, Isaac percebeu isso e colocou a mão no peito dela e começou a apalpar o mamilo, por cima da blusa é claro. De repente, Hazel Grace diz:

– Imagine a última ida de carro até o hospital. A ultima vez que você vai dirigir um carro.

Eu simplesmente disse:

– Você está atrapalhando a minha vibe aqui, Hazel Grace. — Aquilo estava me excitando. — Estou tentando observar o amor adolescente em sua magnifica e esplendorosa estranheza.

– Acho que ele está machucando o peito dela. — Hazel Grace disse.

– É. É difícil saber se ele que excitar ela ou fazer um exame de mama.

Peguei meu maço de cigarros do bolso e coloquei um na boca e percebi que Hazel Grace me olhava com reprovação.

– Isso é sério?! Você acha isso legal? Ai meu Deus, você acaba de estragar a coisa toda.

– Que coisa toda? — Perguntei...

– Um garoto que não é pouco atraente ou pouco inteligente, de forma alguma pouco tolerável me encara e chama minha atenção para utilizações incorretas da literalidade e me compara a atrizes e me chama pra ver um filme na casa dele. Mas é claro que sempre tem uma hamartia e a sua é que, mesmo você TENDO TIDO UMA ***** DE UM CÂNCER, você ainda dá dinheiro para uma empresa em troca de chance de ter MAIS CÂNCER. Deixa eu só te dizer como é não conseguir respirar? É UM INFERNO. totalmente decepcionante.

– Uma hamartia? — Perguntei, mas não tirei meu cigarro da boca.

– Uma falta trágica.

Ela foi um pouco pra frente, acho que pra me deixar sozinho, ai um carro ligou, era a mãe dela.

– Hazel Grace Lancaster, eles não matam se você não acender e eu nunca acendi um. É uma metáfora. Você coloca a coisa que mata entre os dentes, mas não dá o poder de completar o serviço. — Ela ficou quieta.

– Ah, é. Você determina seu comportamento com base nas ressonâncias metafóricas.

– Sim — dei um sorriso bobo.

Hazel Grace se virou pra janela do carro e disse pra sua mãe:

– Vou ver um filme com Augustus Waters... — Não consegui ouvir o resto. Acho que ela pediu sorte.

Notas finais
*mudei o filme, pq sim. eu que mando aqui, bjs de luz.Pra quem achou longo, saiba que é como o capitulo do livro, se o capitulo do livros for muito longo, eu separo em dois.espero que tenham gostado. vem mais pela frente. vão ter algumas coisas novas nessa versão. coisas que só o Gus sabe. XO