A Culpa é das estrelas - Gus
2 Capitulo Dois - Parte 1
Notas iniciais
Eu dirigia mal, isso é verdade, até porque era difícil dirigir com uma perna que não era de verdade. A freada era difícil, a arrancada também. Às vezes Hazel Grace ia de encontro ao cinto de segurança do Toyota, na verdade toda vez que eu freava isso acontecia. Acho que ela estava com medo, ou nervosa, afinal, eu dirigia mal.
Depois de uns dois quilômetros e meio, eu decidi falar:
– Fui reprovado três vezes no teste de direção. – na verdade foram quatro.
– Não diga! – ela riu e eu ri junto.
– É que eu não consigo sentir nada com a boa e velha prótese aqui, e não me acostumo a dirigir com o pé esquerdo. Os médicos falaram que a maioria dos amputados conseguem dirigir sem problema algum, mas... não é bem meu caso. Ai eu cheguei no meu... quarto... teste de direção e foi mais ou menos como agora. — O sinal ficou vermelho, eu freie e Hazel foi em direção ao cinto de segurança – Foi mal, mas juro que estou tentando ir devagar. No fim do teste, eu estava certo de que havia sido reprovado, de novo, mas o instrutor disse: “seu jeito de dirigir é incomodo, mas não é arriscado, tecnicamente falando. ”
– Não sei se ele estava certo – ela disse sorrindo – acho que foi um “privilégio do câncer”.
“Privilégios do câncer” são coisas que nós que temos câncer recebemos, como bolas de basquete autografadas, carteira de motorista não merecida, esse tipo de coisa.
O sinal ficou verde e eu acelerei em direção à avenida que levava ao shopping da cidade, e Hazel disse:
– Você sabe que existem controles manuais para pessoas que não podem usar os pedais? – Claro que eu sabia, mas como saber até quando iria usar.
– Sei, quem sabe um dia? – suspirei fundo, afinal, ainda havia a chance do câncer retornar, mesmo que fosse pouca. Em torno de 15%.
– Então, você estuda? – Ela queria saber se eu já tinha desistido da vida normal e vivido o câncer.
– Estudo, na North Central High School, mas me atrasei um ano, parei no segundo por conta do câncer. E você? – Agora era minha vez de saber um pouco sobre.
– Não, meus pais me tiraram da escola há três anos. – Eu não acreditei naquilo!
– Três anos!
– Bem, fui diagnosticada com câncer de tireoide em estágio IV aos treze anos de idade e nós falaram que era incurável. Fiz uma dissecação radical do pescoço, que é tão desagradável como o nome, acredite. Depois, radioterapia e ai tentaram quimioterapia para os tumores no pulmão, que até diminuirão no primeiro momento, mas cresceram de novo. Eu já tinha quatorze anos. Meus pulmões começaram a se encher de liquido. Ai colocaram o PICC, um remédio que fluía por uma cânula para meus pulmões e outras variações de remédios. Por fim acabei na UTI com pneumonia. E para terminar, me lembro de não querer ficar acordada. Quando sai da UTI participei do teste de um remédio, o Falanxifor, que funcionou em menos de 70% dos que tentaram utilizar. Funcionou comigo, então é como um milagre! Viva o Falanxifor!
– Então você precisa voltar a estudar! – Eu disse.
– Na verdade não dá, porque já peguei meu certificado e estou tendo aulas na MCC.
– Uma universitária! Isso explica a sofisticação. – eu ri.
Chegamos em casa, depois de quase seis quilômetros. Entramos em casa e ela logo reparou nos Encorajamentos que meus pais faziam e colocavam nas paredes.
– Meus chamam isso de encorajamentos, estão espalhados por toda parte.
Meus pais estavam na cozinha, era noite de Enchiladas. Eles ficaram me olhando como se esperassem que eu à apresentasse.
– Esta é Hazel Grace.
– Só Hazel. –Ela disse e sorriu para minha mãe.
– Como vai só Hazel? – meu pai disse, no modo piadista de sempre.
– Tudo bem. – ela disse sorrindo como sempre.
– Como foi no grupo de apoio do Isaac? – Eu olhei pra ele enquanto fazia uma careta.
– Foi inacreditável!
– Você é um estraga-prazeres! – Minha mãe disse sorrindo – Hazel, você gosta de lá?
– A maioria das pessoas é bem legal. – Ela disse depois de um tempo de silêncio.
– Foi exatamente o que pensamos das pessoas do Memorial quando o Gus estava fazendo tratamento lá. Todos eram gentis. Forte, também. Nos dias mais sombrios, o Senhor coloca as melhores pessoas na nossa vida. – eu olhei pra ele e disse:
– Rápido, pegue a almofada e a linha, isso precisa virar um encorajamento! – Ele revirou os olhos e apontou com a cabeça pra um lado, onde isso já estava escrito em um quadro. – Só estou brincando pai, eu gosto desses malditos encorajamentos, só não posso admitir isso porque sou adolescente.
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