A Culpa - Parte Ii
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Talvez por desejar ficar sozinho ou porque, assim como eu, tivesse achado seu comportamento estranho; Vergil simplesmente desapareça carregando apenas sua fiel Yamato. No começo achei irrelevante; ele sempre sumia daquela forma. Mas já havia se passado quatro dias sem notícia e aquilo começava a me perturbar.
Naqueles quatro dias sem Vergil, a pequena Alice decidira reaparecer e me seguir por onde quer que eu fosse pela casa. Aquilo me irritava profundamente, em especial nos momentos em que gostava de ficar sozinha refletindo sobre o turbilhão dos últimos acontecimentos.
Na noite do quarto dia que Vergil se encontrava desaparecido, estava na sala de treinamento lutando sozinha com um boneco quando senti a presença de alguém por perto. Um humano.
Ainda com o bastão de madeira nas mãos desci até o térreo, esperando encontrar Alice em algum momento de insanidade com um humano, ou até mesmo alguém perdido que decidira pisar naqueles jardins.
Abri a porta e ali estava parado na minha frente um homem, perto dos cinqüenta anos, careca e vestido de terno. Seus olhos eram de cores diferentes, sendo um azul e o outro castanho, e possuía uma queimadura na cabeça. Apesar de parecer humano, havia algo nele de diferente. Sem pensar duas vezes eu disse:
- Você é Arkham.
- Posso entrar? – perguntou de forma pomposa.
- Por que não... – falei abrindo mais a porta, o fazendo entrar.
Ele parou no meio do hall e disse com um sorriso no rosto:
- Como soube quem eu era?
- Há muito de humano em um recém-criado demônio como você. Pode ter vendido sua alma, mas ainda é mortal.
- Não foi só por isso... – Arkham falou arrogantemente.
- Eu senti que fosse a pessoa com quem Vergil anda falando ultimamente.
- Você não gosta mim. Eu posso sentir.
- Eu não confio em você.
- Justo.
- O que quer? – perguntei.
- Conversar.
- Vergil não está aqui.
- Eu percebi. Mas nada me impede de falar com você.
- Talvez.
Eu caminhei para uma das portas do lado direito do hall, sem dizer mais nada, e esperei que Arkham me acompanhasse até a saleta.
- Parece que você e Vergil ficaram bem amigos nesses últimos meses...
- Temos objetivos em comum – ele falou se sentando na cadeira que havia apontado.
Objetivos? Sim, talvez eu conseguisse tirar alguma coisa útil daquele humano dissimulado. Mal o conhecia, mas havia algo que não gostava naquele olhar pomposo. Era como se aquele homem vivesse para agradar os outros, esperando algum benefício em troca.
- Somente assim para uma amizade tão peculiar acontecer.
- Pode guardar seu sarcasmo para você, garota. Eu vim conversar com Vergil à respeito de nossos planos, mas como ele não está aqui resolvi conhecer a especial Taria.
- Especial? O que está falando?
- Vergil não lhe daria suporte se não achasse que você é especial, daria?
- Suponho que não. Mas o que você saberia disso?
- Ele não lhe disse? – perguntou com um tom surpreso. Mas eu percebi que estava fingindo.
- Fale logo aonde quer chegar, humano.
- Eu não sei se deveria, afinal de contas, mesmo sendo meu plano ele que deve contar. Talvez esteja refletindo, esperando a hora certa.
- Por que todos escondem algo de mim?
- Eu pensei que poderia contar, mas parece que me enganei. Não quero passar por traidor, no momento.
- Você vem até aqui, diz que tem algo a dizer, e agora fala que não pode mais? Acha que sou o quê? Estúpida?
- Naturalmente que não. Mas fiz um juramento e não posso traí-lo. Contudo, você pode conversar com Vergil.
- Eu duvido que consiga.
- Você tem tudo para conseguir. Por que o pessimismo?
- Eu não sei do que está falando...
- Pobre garota. Eu não acabei de dizer que Vergil nunca lhe ajudaria se não fosse por algum motivo.
- Ele pode ter um agora, mas duvido que tivesse naquela época.
- Não se engane.
- Sinceramente... Essa conversa não vai nos levar a lugar algum.
Não podia suportar mais as conversas em charada daquele estranho Arkham. Se ele veio aqui apenas para me encher de dúvidas, eu acabaria com sua alegria.
Levantei-me e disse caminhando até a porta:
- Você pode ir. Não temos mais nada de útil para conversar.
- Eu te ofendi?
- Não. Se quiser falar com Vergil volte outro dia ou encontre outro jeito. Eu realmente não me importo.
- Se insiste.
Ao passar do meu lado e parar na porta de entrada da mansão, disse:
- Eu não vim aqui para causar problemas. Somente para que veja além. Nós precisamos disso.
Antes mesmo que eu pudesse retrucar ele já virara de costas e caminhava para longe. Suspirei fechando a porta, repleta de dúvidas que Arkham não sanaria.
Passaram-se horas da visita de Arkham quando acordei com alguém me sacudindo. Era Alice.
O que ela poderia querer naquela hora?
O relógio marcava quase uma da manhã e me sentando disse, sem esconder minha irritação:
- O que foi Alice?
- Ele voltou e está ferido – Alice falou em um tom baixo.
- Vergil está machucado? – perguntei um pouco mais alerta.
- Sim. Mas ele me expulsou de lá. Estava furioso! – ela tinha os olhos marejados, mas não chorou.
Mesmo sem ter certeza se deveria ir até Vergil, me levantei, coloquei meu roupão de seda preta por cima da camisola e antes de sair do quarto disse para Alice:
- Pode voltar a dormir. Eu resolvo isso.
Ela caminhou na direção de seu quarto com um olhar de censura.
Com uma batida leve abri a porta do quarto de Vergil. Estava impecavelmente organizado, como de costume. Não era usual entrar ali, mas todas as vezes que o fizera nunca encontrou nada fora do lugar. O chão de madeira era tão lustroso que podia ver-se o reflexo, a cama ficava do lado oposto da entrada, em um patamar mais elevado. Havia duas poltronas na parte mais baixa do quarto e um som antiquado em um dos cantos com um closet do lado oposto.
- Vergil? – perguntei receosa.
Havia luz na parte de cima do quarto e ele estava sentado sem camisa na cama, com pedaços de pano branco nas mãos, que logo deduzi serem ataduras.
- Não venha até aqui.
- Alice disse que estava ferido e parece ser verdade.
- A garota não consegue ficar calada, não é mesmo? – perguntou secamente sem olhar na minha direção.
- O que aconteceu? – perguntei me aproximando vagarosamente.
- O que parece para você?
- Que encontrou algo além do que poderia lidar – falei astutamente, sem me importar se Vergil poderia se irritar com meu tom.
- Está errada. Eu venci.
- Espero que sim, pelo seu estado.
Já havia cruzado a saleta que antecedia o quarto e agora parada próxima da cama disse:
- Você precisa de ajuda...
E de fato precisava. O braço que tentava inutilmente enfaixar estava repleto de cortes profundos. Uma marca de garra cortava todo o peito e em seu rosto havia diversas marcas.
- Não preciso – falou vacilante.
- Não seja teimoso. Olhe só pra você – falei irritada, como se estivesse tratando de uma criança. Aproximei-me, mas fui impedida pelo braço são que colocou Yamato em minha direção. Eu olhei da espada para Vergil, que tremia, e suspirei.
- Eu não sou sua inimiga – pousei calmamente as mãos na espada e a abaixei. – Se quisesse fazer mal a você já teria feito.
Ele suspirou e recolocou a espada ao seu lado.
Eu sentei ao seu lado e percebendo que estava mais calmo tirei de suas mãos a faixa que segurava e falei:
- O que atacou você?
- Um demônio. Parte de um teste.
- Teste? – falei sem compreender porque Vergil faria aquilo num momento desses.
- Preciso testar meus limites. Aprender com meus erros.
- Parece que conseguiu o que queria.
- Ele está morto. Eu estou vivo.
- O machucado está infeccionado. Deve ter algum tipo de veneno nas garras, vê? – falei apontando para seu braço. – Você pode ser filho de Sparda, mas não teria muita utilidade sem um braço...
Levantei-me novamente e caminhei até o banheiro. Ao voltar com o necessário para desinfetar as feridas, ele disse indiferente:
- Eu vou me recuperar sem essas coisas de humano.
- Não seja tão confiante. Infelizmente, para você, existe um pouco de humano aí também. Só estou querendo acelerar a cura...
Sentei-me novamente e comecei a limpar a ferida com água oxigenada. Ele não reclamou.
- Por que está fazendo isso comigo?
- Você não pode morrer agora.
Vergil permaneceu calado me observando limpar os machucados e somente depois de enfaixar seu braço e peito que recomeçou a falar:
- Não esperava isso de você.
- Só estou fazendo o que é preciso.
Ele olhou para baixo e disse algo que não pude compreender. Suspirei profundamente e sem pensar muito nas conseqüências do que faria, me aproximei do rosto de Vergil lhe dando um beijo brando nos lábios. Logo em seguida me afastei confusa e disse:
- Desculpe por isso. Eu...
- Não sinta – respondeu me interrompendo. Mas seu tom era fraco e não prepotente como de costume. Talvez estivesse mais confuso do que eu mesma.
- Eu deveria controlar minhas ações – falei já em pé, arrependida pelo o que havia feito. – Algumas vezes eu ainda ajo como a antiga Taria.
Vergil ficou ali me olhando por mais alguns segundos. Foi quando me lembrei de Arkham. Ameacei falar da estranha visita do homem, mas não disse nada. O mestiço, contudo, pareceu notar minha expressão e perguntou:
- Tinha algo para me dizer?
- Nada. Amanhã conversamos.
Falei séria e caminhei para a saída do quarto. Realmente tocar naquele assunto não era o melhor a se fazer. Principalmente depois do que acabara de ocorrer com Vergil.
Talvez Arkham estivesse certo quando afirmou que realmente Vergil me julgava especial; apesar de sua dificuldade em aceitar aquilo.
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