A Culpa - Parte Ii
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Acordei cedo de um sonho estranho com demônios, meu pai e Vergil. Não me lembrava do que se tratava, mas me lembro que havia sangue e morte.
Fazia tanto tempo que não pensava em meu pai, mesmo sendo este o motivo de ter começado toda minha mudança. Talvez sua figura humana desapareça de mim, com lugar apenas para a imortalidade e poder. Coisas que meu pai sempre se mostrou contra. Contudo, não podia negar quem era e a figura de minha mãe prevaleceu em minha mente enquanto continua com minha busca por maior poder e controle.
Assim que acordei, com o sonho ainda em minha mente, pensei seriamente se gostaria de olhar para Vergil depois da noite passada.
Cada dia que passava ficava mais confusa com meus sentimentos... Mas talvez não fosse só comigo que acontecesse isto.
A mansão estava deserta e ainda escura, com as cortinas todas fechadas. Tanto Vergil quando Alice não estavam em nenhum lugar visível.
“Depois do que aconteceu, Vergil naturalmente vai querer distância de mim.”
Aproveitei que estava sozinha para tomar meu café-da-manhã na cozinha. Ao terminar, caminhei até a entrada, me deparando com uma pequena carta na soleira da porta. Peguei-a e li o escrito no envelope com letras pequenas e bonitas:
Para Vergil.
Não estava lacrado e a pessoa que escreveu aquilo deveria saber que Vergil não morava sozinho. Minha curiosidade foi maior e abri a carta cuidadosamente. Dentro havia um papel branco com um recado curto, escrito com a mesma letra do envelope:
A hora certa chegou, Vergil.
Não há mais tempo para esperar. Você deve prepará-la para nossos planos. Eu sei que ela é capaz de entendê-los melhor do que você imagina, pois eu a vi.
Arkham
Reli aquilo duas, três, vezes. Por que Arkham deixaria um recado para Vergil sabendo que eu poderia ler? Naturalmente ele conhecia os riscos...
- Você fez de propósito, seu safado... – pensei em voz alta, colocando a carta em seu envelope.
- Quem fez o quê de propósito?
Escutei a voz de Vergil atrás de mim. Não deveria estar ali há muito tempo, mas já vira que estava com algo em minhas mãos.
- Arkham esteve aqui ontem duas vezes. Na primeira ele falou comigo pessoalmente, mas na segunda ele simplesmente deixou este recado para você.
Vergil parecia totalmente recuperado, tirando o fato de ainda possuir diversos cortes no rosto. Contudo, já recuperava o ar altivo de costume.
Ele pegou o papel de minhas mãos e leu a carta. Não esboçou nenhuma reação ao ler o conteúdo, dizendo apenas:
- Você leu?
“Por que mentir?”
- Sim, eu li. Não estava lacrada e eu quero saber o que acontece entre você e Arkham. Ele disse de um plano para mim, mas não tocou no assunto, e agora esta carta. Por que tantos mistérios?
- O que ele lhe disse?
- Do plano? Nada. Mas eu sei que é a meu respeito. Arkham disse que o único motivo de ainda estar aqui é por ser especial.
- Eu não a manteria aqui se você não fosse útil.
- Claro – respondi secamente. – Mas não foi isso que Arkham quis dizer.
- Fale claramente.
- Arkham disse que é você que pensa que sou especial. O que ele quis dizer com isso? Que plano é esse que preciso compreender e que Arkham tem tanta fé que irei aceitar? – caminhei até Vergil irritada. Não tive medo de sua reação. – Estou cansada de ouvir que preciso esperar. Aparentemente nem o plano pode esperar mais, não é mesmo?
- Eu não sei se você irá aceitar.
- Então, me diga.
- Não aqui – dizendo isso Vergil caminhou até o escritório no andar superior. Eu o segui calada. Finalmente teria minhas respostas...
- Há tempo venho mostrando a Arkham minhas idéias sobre Sparda, Mundus, os amuletos que eu e meu irmão possuímos e como poderia ganhar mais poder para enfrentar o Inferno. Por longo tempo eu estudei uma forma para trazer meu plano à tona, mas foi juntamente com Arkham que consegui desenvolvê-lo por completo.
Vergil se sentou em uma poltrona, mas eu continuei em pé.
- Arkham disse que a única forma de obter o poder de meu pai é através de um portal entre os dois mundos. O portal chama-se Temen-ni-gru e é uma torre que leva o mundo humano até as profundezas do Inferno. Meu pai a selou, mas eu pretendo despertá-la. Para isso preciso de meu irmão para terminar o que comecei.
- Por quê?
- O portal é feito de vários selos, magia complexa que meu pai soube aplicar devido a seu grande poder. Eu preciso do amuleto completo para terminar o que comecei. O amuleto é uma chave para o mundo inferior e a única forma que tenho para alcançar o poder de meu pai.
- Por que não me disse isso antes? Eu sei sobre o amuleto, mas nada à respeito da Torre.
- Não gosto de falhar em meus planos. Precisava ter certeza que venceria. Dante precisa despertar sua força demoníaca para que dê certo, caso contrário tudo será em vão. Mas ele não está preparado, ainda. Há outros impasses também...
- Como?
- Parte do tempo estive preparando também meu processo de evolução. A luta com o demônio de ontem foi uma das coisas necessárias que tive que fazer... Tudo deve ser feito em seu devido tempo. Não posso me dar ao luxo de perder tudo agora. Precisava ter certeza de meu sucesso antes de lhe explicar meus planos; planos que você participará.
- Com o que? Dante? – perguntei intrigada, me sentando.
- Não. Seu papel será maior. Eu pensei em algo caso eu falhe, mas a idéia central veio de Arkham. Talvez por ele entender o que está em jogo e também saber de seu potencial. Ele acredita que a única forma de o sangue de um demônio como Sparda não se perder com os anos, é sua purificação através de gerações. Eu e Dante temos sangue humano em nossas veias, apesar do poder de meu pai ser maior do que o de uma humana.
- Mas é isso que te diferencia dos demais demônios – eu disse.
- Como também me faz ser melhor. Mesmo sendo puros, são pequenos perto do sangue de Sparda.
- Sangue demoníaco como... – parei para refletir no que estava falando.
- Você. Sua mãe não era uma simples figura. E você possui seu sangue também.
- O único problema é que não sou um demônio completo. Assim como você eu também tenho uma parte humana.
- A purificação vem através das gerações.
Eu o encarei por alguns segundos, pois havia entendido o que Vergil havia dito. Só tentava compreender o motivo de tudo aquilo. Não parecia natural um plano daqueles vindo de Vergil.
- Você disse que não sabia se aceitaria...
- Você não me ouviu.
- Eu ouvi sim. Por que isso agora?
- O que melhor que um demônio puro gerado por sangues tão poderosos?
- Arkham deu esta idéia, certo? – me levantei.
- Sim.
- Então por que está a aceitando? Não é de seu feitio isso!
- Somente agora entendo perfeitamente a conseqüência desse ato. Nem mesmo Mundus poderia vencê-lo.
- E Temen-ni-gru?
- Mesmo se ganhar, preciso de alguém que possa confiar. Alguém de meu próprio sangue.
- Agora entendo tudo... Ontem a visita de Arkham e a sua reação no quarto...
- Não confunda as coisas.
- Você está querendo me convencer para não parecer fraco perto de Arkham, não é mesmo? – perguntei de forma ameaçadora.
- Não é algo que só eu quero.
- Como sabe se aceitarei isso? Não é um objeto que poderá ser moldado do jeito que quiser! É uma criança que será gerada!!! – falei quase gritando.
- Por que você se exalta? Será sua chance também de conseguir o que quer. Ser melhor que sua mãe, esquecer seu passado humano. Somente assim você conseguirá.
- Não vejo como.
- Você não será prejudicada caso a Torre não abra seu portal. Se eu falhar, você terá sua chance e, claro, você será responsável assim como eu, por alguém melhor que todos que já caminharam nesse mundo humano. Um verdadeiro descendente de Sparda.
Eu não sabia o que dizer. Qualquer pessoa em meu lugar talvez ficasse tentada com aquela proposta, mas eu estava confusa.
- Eu vou pensar... Refletir sobre esse plano. Agora, eu preciso ficar sozinha...
Falei aquilo sem olhar para Vergil e logo em seguida caminhei em direção da porta.
Não era algo que pudesse ser resolvido repentinamente. A responsabilidade era grande e mais que nunca tinha que ser racional.
E acima de tudo, não podia confundir meus sentimentos...
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