A Culpa - Parte Ii
9 Capítulo 9
Sai da sala suja de sangue demoníaco e subi até a biblioteca de Vergil. Havia dúvidas em minha mente e precisava saná-las. Assim que entrei no local pude ver Vergil sentado em uma poltrona com os olhos fechados e uma expressão grave no rosto.
- O que fez com o amuleto? – perguntei sem delongas. Não havia motivo para complicações. Ele sabia que entrara ali e estava parada ao seu lado.
Vergil abriu lentamente os olhos e respondeu sem me olhar:
- Devolvi ao seu dono.
- E agora Dante sabe sobre seus planos, suponho.
- Por que diz isso?
- Não consigo ver você entregando o amuleto por livre e espontânea vontade para Dante sem deixar claro o motivo de ter feito isso. Não combina com seu feitio.
- De fato. Eu contei, pois percebi que Dante não me atrapalharia, e além do mais, as preparações para abrir o portal de Temen-Ni-Gru estão quase próximas de terminarem.
- Ele tentará lhe impedir. Agora que contou sobre a torre...
- Dante conseguiu desenvolver seu lado demoníaco hoje e eu pude ver. Foi mais cedo que esperava, mas não há problemas – Vergil me interrompeu com sua voz grave e fria. – Foram falhas, mas todas resolvidas. De qualquer modo o lado demoníaco de Dante deveria despertar num momento, apesar de saber que não está totalmente completo.
- E você supõe que tendo feito isso, Dante não irá atrás de você? Acredita que por ter visto que está mudado, ele não se preocupará com o irmão? Ele não irá lhe agradecer por isso...
- Ele não sabe por onde procurar. Dante nunca foi muito esperto. Ele não entende meu esforço para acordar o mundo infernal e tornar-me mais forte que todos aqueles demônios. Mais forte que meu pai. E, não se preocupe, não espero o agradecimento de meu irmão. Eu só quero que ele esteja preparado para o que preparei.
- Eu sei disso – respondi. – Claro... Você pode pegar aquele amuleto a qualquer hora, suponho...
Vergil nada disse, mas não era preciso. Era exatamente isso que estava pensando: quão fraco era seu irmão perante sua sagacidade.
- Taria... Preciso lhe avisar novamente para não ir atrás de Dante. Agora, mais que nunca, seria um risco muito grande para nós. Ele vai entender que está comigo.
- Logo esta situação terminará – disse começando a caminhar em direção a porta. Percebi o olhar de Vergil me seguir, mas ele não disse mais nada.
“Há quanto tempo não respirava o ar noturno?”
Foi com este pensamento que decidi sair de casa e daquele clima pesado que pairava a mansão e caminhar pela cidade. A noite era fria e sem nuvens no céu, mas havia pessoas na rua. Caminhei longamente até perceber onde meus pés tinham acabado de me levar. Não pude deixar de fechar os olhos e sentir-me sozinha; estava na frente dos grandes portões de metal do cemitério onde meu pai e meu amigo Jeff estavam enterrados. Suspirei e apesar de não saber se seria certo reviver aquela dor, acabei por me desafiar e entrei naquele local.
Ao passar, o coveiro me avisou que logo fechariam, mas mesmo assim havia algum tempo para lamentar os mortos. Caminhei por entre vários túmulos até chegar onde eles estavam enterrados. Um do lado do outro.
Fiquei ali, em pé, olhando para as lápides, sem entender o motivo de suas mortes... Não havia razão para morrerem, pois o único motivo de estarem ali eram o fato de me conhecerem. Não pude fazer nada para salvá-los, pois negava quem eu era de verdade. Se eu me conhecesse, naquela época, como hoje me conheço, talvez nada daquilo tivesse ocorrido. Jeff estaria sorrindo e despertando paixões por onde passasse e meu pai... Bem, ele ficaria orgulhoso em ter-me como filha.
Sentia que parte do que acontecera era minha culpa. Se tivesse sido forte eu teria capacidade de protegê-los. Talvez, pensando melhor, Jeff nem mesmo me conheceria, pois dificilmente me vendo hoje em dia, poderia pensar em ter como amigo um humano. Mas meu pai... O fato de ele ter sido escolhido pela minha mãe só mostrava quão forte ele era, e ironicamente ele teve que arcar com o fato de ter uma mestiça como filha.
Era uma situação que se repetira com Vergil e Dante, a única diferença é que Dante não conseguia enxergar a verdade: de que era preciso poder para vingar àqueles que mataram as pessoas que amava. Era um carma que mestiços como ela e Vergil deviam carregar. Verem todos que estimavam morrer.
Olhei pela última vez para os túmulos e caminhei para fora do cemitério. Não havia mais nada ali que pudesse me fazer sofrer mais. Era bom relembrar de quem eu era, seria sempre um incentivo para que eu constantemente evoluísse.
As ruas perto do centro estavam ainda movimentadas e depois de muito andar cheguei num lugar calmo e que há tempos não entrava. Era um parque antigo e arborizado. Havia crianças com seus pais, entretanto parecia mais sereno que as ruas lá fora. Sentei-me perto de uma árvore e tirei de dentro do sobretudo que usava um pequeno diário de notas. Há tempos não me sentia inspirada para escrever sobre minhas opiniões mais intimas, mas nos últimos dias ocorreram tantas coisas, coisas que nunca imaginei que pudessem ocorrer, coisas que haviam me mudado. Contudo, eu não era a única pessoa a mudar; sentia que Vergil, apesar do medo e desconfiança, quebrava lentamente com suas barreiras. Talvez aquelas experiências perto de mim fossem responsáveis por essas lentas transformações – só o tempo diria se estava certa.
Senti uma mão pequena encostar em meus dedos, fazendo parar minha escrita e olhar para cima. Era uma pequena menina de cabelos ruivos e sardas que apareça do meu lado e sorria timidamente. Não sei o que poderia ter feito a criança vir até onde estava, mas não consegui retribuir seu sorriso, não havia tanta simpatia em mim para tal. Ao invés disso, apenas a fitei. Ela não se sentiu intimidada e disse:
- Moça... Você parece triste.
Fiquei calada por um tempo. Crianças... A inocência delas não conhecia limites. Se os nossos sentimentos fossem tão simples e pudessem ser divididos entre alegria e tristeza.
- Por que pensa isso?
- Você não sorri – respondeu timidamente.
Antes que pudesse responder, a mãe da criança chegou e a puxou para longe pedindo perdão. Continuei calada apenas olhando as duas se distanciarem.
Eu seria capaz de criar uma criança com amor?
Acabei por me ver pensando nisto ao ver mãe e filha sumirem entre a multidão. Pareciam tão inocentes e puras... Mas o destino de uma criança ao meu lado seria diferente. Era cruel, mas necessário.
Ultimamente nada poderia ser justo. Contudo era o preço a se pagar por minhas escolhas. Suspirei e decidi voltar sabendo mais que nunca que nenhum caminho seria bem sucedido se não houvesse perdas e sofrimento.
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