A Cruzada de Karynthia

2 Segundo Capítulo - Aquela que foi Resgatada


Notas iniciais
Sem dúvidas, preciso agradecer de coração a todos que vieram conferir a história. Estou muito feliz que já tenho todos vocês aqui comigo em mais uma aventura. *-* Obrigada! Trago para vocês um novo capítulo e espero que gostem!

Eu estava a poucos metros da minha presa, um porco do mato de médio porte que me renderia alguns dias de refeições. Talvez até pudesse usar suas presas para fazer uma nova faca ou tentar algumas flechas.

Eu já estava plenamente em casa nesse ambiente, já havia aprendido os truques de como se viver bem aqui, em meio às feras selvagens das selvas do Sul de Karynthia. Segurei minha lança com força, que eu havia aprimorado desde o dia que vim parar aqui, preparando-me para atacar. Flexionei meus pequenos joelhos, prendi minha respiração e pulei.

E dei de cara na grama, apenas ouvindo o animal sair correndo selva adentro.

Franzi o cenho imediatamente. Eu já não assustava mais os animais daqui, já havia aprendido, após muitos fracassos, como chegar em minha presa sem ser detectada. Além do mais, um porco do mato, a menos que filhote, não sairia correndo após perceber minha presença. Ao contrário, se ele me percebesse, quem teria que sair correndo era eu.

Ouvi o som inconfundível de uma folha seca sendo amassada e levantei-me num salto, apontando minha lança na direção do som. Aproximando-se cautelosamente de mim, vi três homens e uma mulher, já mais velhos. Engoli em seco. Quem eram eles? O que fariam tão profundamente na minha mata? E as patrulhas dos Nortistas, não os teriam visto, não os teriam impedido de perambular por aí?

— Abaixe a arma, criança — falou o mais destemido deles, sua voz já carregada pela idade. Estava já quase me alcançando, apesar de minha arma ainda estar apontada para seu coração. Eu não queria machucá-lo, mas também não queria baixar minha guarda, por isso fui dando pequenos passos para trás.

— Não nos tema, pobre menina. — Dessa vez quem falou era uma senhora, mais atrás dos outros, entretanto obviamente curiosa em relação a mim.

À medida que eu fui conseguindo enxergá-los melhor, percebi que todos vestiam o mesmo tipo de túnica, longa, cobrindo-lhes até as mãos e com capuzes. Já eram túnicas antigas, por isso as cores estavam apagadas, mas cada um usava uma cor diferente. O que havia se aproximado mais de mim usava a cor vermelha, enquanto a senhora usava uma azul. Os outros dois homens, atrás deles, possuíam um uma túnica laranja, e o outro uma verde. Eu nunca havia me aventurado para fora de Argentia, e ainda assim achava aquelas vestes muitíssimo estranhas. Eram algum tipo de religiosos, sacerdotes, monges?

— Quem são vocês? — perguntei com cautela. Minha voz soou rouca e cortada, devido ao tempo prolongado em que eu ficara sem falar.

— Isso não importa agora, você precisa de cuidados — afirmou a senhora, chegando cada vez mais perto de mim.

Por algum motivo, ela eu não temia. Sentia-me, como a muito tempo não sentia, segura em sua presença. Uma parte de mim que ansiava por conforto e carinho viu nela uma nova forma de conseguir isso. Sem pensar, abaixei minha arma, mas continuei a insistir.

— Me digam, quem são vocês. — Como eu havia abaixado minha arma, eu sabia que se eles acatassem meu pedido, seria por pura compaixão.

— Somos ajuda. Deveria parar de fazer perguntas que podem ser respondidas depois e aceitá-la — falou o homem de vermelho, ele parecia mais severo do que a senhora, por isso apontei minha lança de volta em sua direção, virando meu olhar para a mulher de azul novamente.

— Somos magos, pequena. Viajando em busca de algo que os deuses nos disse que encontraríamos aqui. Acreditamos fortemente que o que era nos dito para encontrar seja você.

Estreitei meus olhos para eles. Eu havia sido confinada a sobreviver como animal nessa maldita selva por muito tempo. Anos, eu diria. Eu já não era mais a menina baixa e pequena de antes, sabia que muito tempo havia se passado. Depois de tanto tempo abandonada, não havia mais como eu acreditar nos deuses e em seus planos misteriosos e mal contados. Minha mãe certamente me bateria por pensar em tamanha heresia, mas até ela os deuses haviam tirado de mim. Os deuses e a guerra.

— Moramos em um vilarejo na costa leste — continuou a explicar a mim, mesmo sem eu pedir. — É um lugar pacífico, neutro, não erguemos nenhum estandarte de ninguém. Seria um lar acolhedor.

— Por que me levariam? Por que fariam isso por mim? — questionei, havia esquecido, após tantos anos, o que era demonstrar bondade.

— Porque você é importante — novamente o homem de vermelho falou, mas logo a senhora de azul o cortou e deu sua própria resposta.

— Porque você é apenas uma criança que, apesar de ainda estar viva, precisa sim de nossa ajuda. E podemos te oferecer muito mais.

Abaixei minha lança de uma vez por todas. Eu não confiava em todos eles, mas nela eu confiava. Precisava confiar. Apesar de tudo que vivenciei e de tudo que consegui fazer sozinha ao passar dos anos, ainda era uma criança. E a criança em mim necessitava de alguém que me protegesse, que me acolhesse.

Relutante mas esperançosa, segui-os, despedindo-me da selva e nem me dando ao trabalho de pegar qualquer pertence que eu havia feito enquanto vivia sozinha. Esta, agora, era uma segunda chance que havia me aparecido, do nada, no meio da mata. Um recomeço.

—x-

Kharc era um vilarejo maior do que Argentia, muito mais povoado e com muito mais comércio e instalações. Chegava a ser quase uma cidade e por isso eu, de início, fiquei perplexa em como um lugar tão grande conseguia se manter neutro durante a guerra. Como ninguém havia tomado aquele território? Feito daqui um ponto de descanso de tropas ou, pior, feito daqui o que haviam feito com Argentia — matado e escravizado a população para repopular com pessoas da outra região?

Algum tempo depois já ficou claro o motivo. Os tais magos que haviam me resgatado não eram quaisquer magos. Eram muitíssimo poderosos, e gerenciavam o Colégio de Kharc, uma escola de magia e luta que aceitava pessoas de qualquer reino, com qualquer passado. Você era um padeiro Sulista? Não tem problema, eles te aceitariam e te ensinariam. Era um torturador Nortista? Também estariam de braços abertos para você. Acreditavam no recomeço, assim como haviam me dado um.

Justamente por isso anos e anos se passaram e eu continuei em Kharc, sob a tutela dos magos e sob seu treinamento. Já estava com meus dezenove anos, havia passado o que restara de minha infância e adolescência em Kharc e treinando tanto magia, quanto luta.

As túnicas coloridas dos magos indicavam o elemento com o qual tinham maior afinidade e, portanto, ensinavam. Os quatro que me salvaram não eram os únicos, mas eram os mestres do Colégio de Kharc. Alistaire, o homem ríspido e severo que me pressionara a sair da floresta era meu tutor em artes de fogo. A senhora, Padla, era mestre em magias aquáticas, as quais eu gostava muito. Além deles, havia Drael, que me ensinava o elemento ar e Inean, que dominava as habilidades do elemento terra.

Além deles, eu tinha aulas todos os dias com Fingar, um homem careca e cheio de cicatrizes, mas muito bem humorado. Com Fingar eu aprendia principalmente o combate com espadas, pois era minha arma preferida. Entretanto, também achava útil treinar tiro com arco e flechas e combate com machado.

Eu tinha, nas artes mágicas, preferência e mais facilidade com os elementos água e fogo, mas os magos me diziam que isso era muito incomum. Afirmavam que era raro alguém conseguir utilizar corretamente magia de mais de um elemento. Diziam que o elemento escolhia o aprendiz, e que era estranho eu ser escolhida por mais de um. Ademais, diziam que, mesmo eu tendo habilidades medíocres nas aulas de Inean e Drael, ainda assim era surpreendente eu poder usar o elemento da terra e do ar a meu bel-prazer.

Quando estava em um dia mais pensativo, Padla se abria comigo. Recontava sobre o dia em que os deuses haviam revelado para os quatro sobre como teriam que me buscar na selva de Argentia, como eu havia sido selecionada para coisas maiores. Normalmente eu dispensava tudo isso como besteira, mas às vezes me arrepiava quando ela dizia que eu tinha um dom, uma habilidade fora do comum que me garantia facilidade em aprender a usar todos os quatro elementos, e que esse dom, um dia, seria requisitado por forças maiores. Um dia, Padla dizia, quase como um mantra, às vezes para mim, às vezes apenas para si mesma, eu teria que servir como um soldado, mas não de nenhum reino, mas sim dos deuses.

Sentia-me muito incomodada quando ela repetia essas coisas. Eu não acreditava nos deuses, não acreditava nessas baboseiras todas, mas mesmo assim elas tinham um efeito negativo sobre mim. Quando isso ocorria, eu sempre me distanciava o máximo possível do Colégio, indo praticamente me esconder no litoral.

Kharc era, sem dúvidas, uma cidade maravilhosa. O Colégio ficava mais longe da costa, mas a maioria das casas eram justamente construídas para obterem tamanha vista do oceano. Era uma costa rochosa e sem muita areia, mas, na minha opinião, isso fazia dela ainda mais bela. Eu subia em uma pequena escarpa, a mesma que sempre subia quando me sentia assim, e ficava apenas a observar as ondas irem e virem, chocando-se com as altas e afiadas pedras. Gotículas salgadas respingavam em minha face, o vento refrescava-me e esvoaçava meus cabelos. Tudo isso fazia de Kharc meu lar, meu porto seguro, meu conforto reconquistado após tanto sofrimento. Mas eu sabia que um dia teria que partir.

Um dia eu iria deixar Kharc e todos que eram importantes para mim para trás. Eu sabia que a única coisa que realmente me dava forças para treinar tanto, meu real objetivo com tudo aquilo, era acabar com a guerra. Os reinos insistiam em trazer destruição e desolação para o continente, mesmo após mais de quinze anos de guerra. As forças eram muito parecidas, nenhum dos dois lados iria ceder, pois ambos tinham as mesmas chances de vencer, mas isso justamente fazia o conflito se prolongar cada vez mais. E o povo não aguentaria por mais quinze anos, alguém teria de fazer alguma coisa.

Eu havia sentido na pele do que a guerra era capaz. Não sabia quantas cidades e vilarejos conseguiam se manter como Kharc, sem baixas, sem invasões. Apostava que eram pouquíssimas. Sentia que precisava pôr um fim a tudo aquilo e por isso, logo, precisaria deixar meu lar e ir em frente para fazer o que era certo por Karynthia.

Como era comum quando eu me escondia nas escarpas do litoral, uma conhecida companhia, e muito apreciada, vinha se juntar a mim.

— O que te faz vir aqui hoje, Saf? — Sua voz, sempre amigável e calorosa, dava-me ainda mais conforto. Quando eu vinha para as escarpas, meu intuito era ficar sozinha, e mesmo assim desejava que Vikarr aparecesse em algum momento para me fazer companhia.

— Pensando na vida — respondi, sem me virar para encará-lo. Eu sabia o que ele faria em seguida, e encenei tudo em minha mente antes dele fazê-lo.

Vikarr sentou-se grudado comigo, passando seu braço por minha cintura e puxando meu queixo para um demorado beijo.

— Pensando no quê? — perguntou, esticando suas pernas e deitando na grama.

— No que fazer a seguir.

— Bem, eu se fosse você tentava me especializar o máximo com Alistaire. Convenhamos, é o melhor elemento e o mais útil. Além disso, Fingar poderia te introduzir espadas mais leves, para você tentar empunhadura dupla. — Não me surpreendia que ele não havia entendido. Vikarr também treinava no Colégio de Kharc, mas, ao contrário de mim, não era dotado de nenhuma habilidade mágica. Segundo Padla, ele não havia sido escolhido por nenhum elemento e talvez por isso levasse seus treinamentos com Finger muitíssimo à sério.

— Não é bem disso que eu estava falando, Vikarr — sussurrei, fazendo-o se levantar e me encarar.

— O que foi, Saf? — Seu olhar era genuinamente preocupado, fazendo-me lembrar do porquê que meu coração havia se rendido a ele quando ainda era um garoto. — Sabe que pode sempre contar comigo.

Eu havia conhecido Vikarr no mesmo dia que os magos haviam me trazido. Correu até nós, circulando-me como somente um garotinho demasiado curioso faria. Daquele dia em diante nem eu, nem ele, havíamos largado um ao outro. Vikarr tinha família em Kharc, mas certamente agia como se não tivesse. Estava sempre correndo pela cidade e os arredores, aprontando, fazendo besteira e se metendo em confusões. Quando sua mãe finalmente ficou farta de suas travessuras, decidiu ingressá-lo no Colégio, o que foi bom, despertando um dom para a luta armada no menino e um pouco de disciplina.

— Sinto que minha hora está chegando, Vikarr. Minha hora de partir.

Como de costume, seu olhar preocupado transformou-se em uma carranca. Ele odiava quando eu falava em ir embora.

— Por que partir, Safiya? Seu lugar é aqui — falou, e senti que a palavra “comigo” havia ficado propositalmente subentendida.

— Você, de todas as pessoas, é quem deveria entender melhor — teimei. — Você sempre soube o que eu pretendo fazer. Não, o que eu preciso fazer.

— Por que tem de ser você, Safiya? — Estava ficando irritado, mas eu sabia que tamanha irritação era causada por seus sentimentos em relação a mim. — Há tantos guerreiros e guerreiras em Karynthia. Por que você tem de ser a salvadora?

— Não necessariamente serei salvadora de nada, Vikarr. Mas preciso fazer minha parte. Devo isso a todos, pois sei como é o sofrimento da guerra, sofrimento este que Kharc não conseguiria nem imaginar. — Vi que o havia ofendido, sem querer, com minha palavras, mas continuei. — Devo isso a meus pais e a meu irmão, que nem sei se ainda vive. Seria um milagre se um dia ainda conseguisse encontrar Ralof.

Ele ficou em silêncio, carrancudo, como era de costume quando discutíamos sobre isso.

— Você poderia vir comigo — sugeri, e me arrependi imediatamente.

— Em uma missão suicida? — Ele nunca havia, abertamente, criticado meus planos, apenas discordava. Parecia que ele estava farto de se desentender comigo por causa disso, e desta vez estava soltando tudo aquilo que estava preso em sua mente. — Safiya, você se engana se acha que vai conseguir mudar alguma coisa. Você é somente uma pessoa, uma pessoa. Se quisesse mudar alguma coisa, teria que conseguir um exército. E, acredite, montar um terceiro exército seria traição para qualquer um dos lados.

Eu sabia que alguns de seus argumentos eram válidos, mas ele jamais iria mudar minha cabeça.

— Devemos agradecer por morarmos em Kharc, um lugar protegido e ainda neutro. De que adianta arriscarmos nossas vidas em nome de um rei ou outro, que não está nem aí para nossas pacatas vidas? Ao contrário de você, Safiya, eu pretendo me sacrificar para montar uma vida para mim, não para os outros. Treino para arrumar serviço, para arrumar dinheiro, para depois viver confortavelmente em Kharc e deixar minhas preocupações irem somente até as fronteiras de minha cidade.

— Você está enganado — retruquei em tom baixo.

Eu sabia que as chances de eu conseguir convencer Vikarr a vir comigo eram mínimas, mas eu não sabia que ele sequer botava fé em mim. Para ele, se eu partisse, certamente seriam encontrados somente meus ossos.

— É dever de todos, não somente meu, importar-se com nosso continente, nosso verdadeiro reino. Você pode até se iludir achando que se ficar em Kharc estará tudo bem, que não há consequências para nós que moramos aqui. Tudo que acontece ao nosso redor nos afeta, Vikarr. E ficar aqui sem fazer nada é apenas aceitar uma vida medíocre e destinada à confinação.


Levantei-me, bloqueando o resto das implicâncias que ele continuava a falar, tentando me convencer a ficar e continuando a criticar meus planos. Eu não mudaria de ideia em relação ao meu futuro, mas já havia mudado de ideia em relação a ele.

Notas finais
Obrigada por escolherem acompanhar Karynthia e, por favor, deixem suas críticas e opiniões nos comentários abaixo. ♥