A Cruzada de Karynthia
3 Terceiro Capítulo - Aquela que Disse Adeus
Notas iniciais

Meses haviam se passado e eu e Vikarr mal cruzávamos olhares na rua ou no Colégio. Simplesmente não adiantava. Sim, eu havia tido memórias muito boas com ele, memórias das quais nunca iria me esquecer. Mas eu não conseguiria aceitar que uma pessoa que sequer acreditava nos mesmos princípios que eu, ou em minha capacidade, tocasse-me de forma carinhosa como antes fazia.
Ao menos uma sugestão eu havia acatado de Vikarr, iria continuar a treinar, cada vez mais, com Fingar e Alistaire e, na verdade, com todos. Nossa briga havia, estranhamente, dado-me uma força de vontade ainda maior para o treinamento, fazendo-me dedicar ainda mais horas para o Colégio de Kharc.
Certa noite, já se passavam das dez e não havia ninguém tendo aulas no Colégio. A cidade estava silenciosa, pois a maioria das pessoas já estavam descansando em suas casas ou espantando a fome nas tavernas. Entretanto eu praticava com meu arco e flechas nos alvos. Incansavelmente, gastava todas as minhas flechas no alvo e ia até lá buscá-las novamente. Já fazia algumas horas que eu estava repetindo isso, até que, após soltar finalmente a flecha certeira que atingiria o centro do alvo, fui surpreendida por aplausos.
Assustada, virei-me em direção ao som, não esperando que nenhum dos moradores se daria o trabalho de me ver em treinamento, ainda mais tão tarde na noite. Deparei-me com um homem alto, de cabelos loiro escuros muito bem cortados e penteados. Usava uma armadura que me parecia ser cara, o que me chamou a atenção. Não o reconhecia e, pelas vestes, certamente não era daqui. Além do mais, um homem com um rosto tão… deslumbrante como aquele, certamente teria se fixado em minha memória.
— Muito bom, acertou certinho — disse, parando de bater palmas para analisar a mim.
— Obrigada, não é por falta de treino — respondi, entregando-me a minha curiosidade e indo de encontro ao homem.
— Percebo. Uma moça como você, a essa hora, em um centro de treinamentos é algo difícil de se deparar. É de surpreender que não esteja em uma taverna com suas amigas, indo a caça de algum jovem rapaz despreparado para tamanha beleza.
Pisquei algumas vezes, sem reação. Quem estava despreparada era eu, nunca tendo sido alvo de cantadas tão toscas. Sem querer, mas sem conseguir segurar, ri.
— O que foi? — perguntou-me o homem, dando ele também algumas gargalhadas de sua tentativa.
— Nada. — Consegui, finalmente, para de rir do pobre homem. — Quem é você?
— Apenas um viajante — respondeu, tentando soar misterioso, mas quando viu minha cara de quem não havia se impressionado, cedeu. — Chamo-me Enyolf Van Morsen, e você, bela dama?
— Não precisa se referir a mim assim, Enyolf — falei, dando a ele o arco e flechas. — Revelo minha identidade se conseguir acertar melhor do que eu — desfiei, entrando também no estranho jogo que ele estava jogando.
Ele sorriu, confiante, e pulou a cerca para dentro do campo de treinamento. Com meu arco e minha aljava, posicionou-se onde há poucos minutos eu estava.
— Quantas tentativas eu tenho? — perguntou, já se preparando.
— Hm, três — falei, querendo vê-lo falhar, por algum motivo.
Assentiu e, após poucos segundos para mirar, soltou a corda e a flecha voou, assobiando, até o centro do alvo. Não tive nem tempo de abrir a boca em contemplação, pois Enyolf atirou a segunda e a terceira, tão certeiras quanto a primeira. As três flechas a apenas milímetros de distância umas das outras. Estavam tão perto umas das outras que de certa distância não dava para perceber que eram três flechas, ao invés de uma só.
— E então, — Seu sorriso alargava-se à medida que voltava até onde eu estava, ao lado da cerca. — creio que você deve, ao menos, me dizer seu nome. Caso esteja sentindo-se mais generosa, poderia ceder sua companhia.
— Minha companhia? — indaguei. — Para quê?
— Ainda não tive a oportunidade de conhecer as tavernas locais. Gostaria de me acompanhar, senhorita…?
— Safiya Fair-Shield — respondi, decidindo que me divertir não seria uma má ideia.
—x-
Depois daquele dia que fui com Enyolf até a taverna, tornamo-nos muito próximos. Enyolf havia acabado de chegar a Kharc naquela noite em que nos conhecemos, e foi muito divertido para mim mostrar nosso pequeno vilarejo para ele ao longo daquela semana.
Enyolf era alguns anos mais velho do que eu, que ainda era uma adolescente, mas não deixava de ter boas histórias para contar e coisas interessantes para discutir. Contei a ele meu passado, e ele lamentou comigo os caminhos que a guerra estava tomando. Também dividia a opinião de que o conflito estava provando ser longo demais. No início, eu não esperava muito de Enyolf. Ele me ajudava a passar o tempo, a treinar e a suprir a falta que a companhia de Vikarr fazia. Entretanto, logo fomos nos tornando cada vez mais próximos, mesmo levando em conta as origens Nortistas de Enyolf.
Enyolf era de uma família rica na grande cidade Nortista de Newham, conhecida por ser um grande ponto comercial do Norte e um grande centro de treinamentos de soldados. Como eu havia suspeitado, a família Van Morsen era uma das centenas de famílias que tinham como tradição enviar os filhos para a guerra. Era visto como um ato de honra e virilidade, mas era perceptível que Enyolf também tinha um amor pela luta. Não fora alistado apenas por causa da pressão da família.
Sim, era um Nortista. Servia ao reino de Alanus, rei este que deu a ordem de tomar Argentia. Contudo, eu não conseguia refletir minha raiva por Alanus, ou mesmo pelo Comandante Ivar em Enyolf. Eu havia perguntado se Enyolf conhecera Ivar, mas ele negara, dizendo que havia servido sob outro comandante. Enyolf, na verdade, viera a Kharc sob ordens de assegurar alguns acordos comerciais, pois nem mesmo seu comandante achava que invadir Kharc seria uma boa ideia.
Não demorou para nós dois nos tornarmos íntimos, desenvolvermos sentimentos mais intensos um pelo outro. Enyolf era um instrutor muito bom nas artes da espada, tão bom que até Fingar havia se submetido a aprender alguns movimentos com ele, e após cada treinamento, íamos até a praia nos refrescarmos sob as ondas. Algumas vezes eu vira Vikarr nos espiando do topo das falésias em que antes nos deitávamos, mas passaram-se alguns dias e ele parou de aparecer. Eu achava melhor dessa forma, cada um tomando um novo rumo para nossas vidas.
Sempre jantávamos juntos, Enyolf sempre com uma história divertida para alegrar a refeição. Normalmente era alguma história sobre sua infância em Newham. Ele gostava de me contar sobre como ele, seus irmãos e amigos costumavam correr pelo distrito mais pobre da cidade e defender os comerciantes de ladrões e batedores de carteira. Dizia ele que havia muitos meninos que achavam graça roubar nos mercados mais pobres, pois sempre estavam mais amontoados e com pouca vigilância. Sempre que Enyolf contava suas histórias de infância eu não conseguia conter um sorriso, pois parecia que até mesmo o menino Enyolf estava sempre pronto para fazer algum ato de bravura.
Nossas vidas iam muito bem, sozinhos em Kharc. Fazia pouco mais de um mês que Enyolf estava hospedado aqui, mas sentia que logo teria de partir. Já havia feito tudo o que podia em relação aos acordos. Alguns foram aceitos, mas a maioria Kharc rejeitou, pois queria permanecer o mais neutra possível. Se o Sul percebesse que nosso vilarejo estava lucrando demais graças a acordos Nortistas, teriam uma desculpa para atacar, mesmo que eu acreditasse que o Colégio ainda assim conseguiria manter a maioria das pessoas a salvo.
Certa tarde, enquanto eu estava no centro de treinamento, Enyolf me ajudava com minha mira. Envolvia-me com seus braços enquanto mirava meu arco, ajudando-me a manter o equilíbrio e achar o ponto certo para atirar. Sussurrava incentivos em minha orelha, quando ouvimos o som de uma grande cavalaria se aproximando.
Atirei minha flecha, frustrada por ela ainda estar relativamente longe do centro, mas percebi que a atenção de meu companheiro loiro não estava mais em mim.
Os cavalos portavam mantas vermelhas e os soldados carregavam um estandarte com a fatídica torre guardada por um leão e um lobo, o símbolo das tropas do rei Alanus. Enyolf endireitou-se quando os reconheceu, saudando-os como era de praxe por soldados.
— Boa tarde, cidadãos. Estamos em busca do emissário Enyolf Van Morsen.
Engoli em seco. Nós suspeitávamos que esse dia chegaria, mas eu não achava que viria tão cedo.
— Senhor, eu sou o soldado Van Morsen — respondeu Enyolf, lançando-me um olhar preocupado antes de abaixar a cabeça para a tropa, em sinal de respeito.
— Pois bem, soldado. Recebemos suas notícias sobre os acordos comerciais. Agora que já cumpriu seu papel de emissário, poderá voltar ao campo de batalha. Tenho ordens de realocá-lo para a capital, onde será designado para um novo comandante e designado a uma frente de batalha. Serviremos como sua escolta. Partiremos amanhã.
Enyolf apenas assentiu, e tanto eu quanto ele observamos os soldados cavalgarem em direção ao centro do vilarejo. Iriam sem dúvidas repousar em uma das tavernas e já partir antes do raiar do sol.
— Enyolf… — murmurei, largando meu arco e minha aljava displicentemente no chão e correndo até ele, que havia se aproximado da cerca para falar com a tropa.
— Safiya, eu… me desculpe. — Seu olhar era triste e estava cabisbaixo. — Eu não posso fazer nada.
— Não pode ficar? — perguntei, já me sentindo boba após soltar essas palavras. — Não tem como recusar, ficar ao menos mais um tempo aqui?
— Saf, nós sabíamos que eu não poderia ficar. Nunca vou poder ficar em um lugar fixo, não enquanto a guerra continuar. — Amaldiçoei pela milésima vez aquela maldita guerra. — Não posso rejeitar uma ordem, Safiya. Eu seria punido. Não posso também cometer uma deserção. Jamais faria isso, não somente pela vergonha que isso causaria minha família, nem pela pena de morte, mas simplesmente porque não sou o tipo de homem que foge de suas responsabilidades.
— Mas e nós? Como ficamos? Como eu fico?
Enyolf passou suas mãos por meus cabelos, acariciando-os e olhando fixamente em meus olhos. Depositou um leve beijo em meus lábios antes de finalmente responder.
— Terei de ir, minha bela Safiya. Mas não irei encontrar meu fim nessa guerra, prometo a você. Assim que eu conseguir uma brecha, irei pedir que me transfiram para um assentamento mais próximo daqui. Conseguiremos então nos encontrarmos, mesmo que demore, mesmo que seja até eu ser realocado novamente.
— Isso é loucura, Enyolf. Não tem como você me garantir uma promessa dessas — argumentei, mas ele apenas me calou com mais um beijo.
— Sinto muitíssimo, Saf, mas é a única promessa que consigo te fazer. Sou apenas um soldado, devo minha lealdade aos meus superiores. Até o Norte ou o Sul ganharem, não tenho como ser um homem livre. — Pegou minhas mãos e as apertou, forçando-me a encarar seus olhos como se pudesse ser a última vez que eu fosse vê-los. — Farei tudo que eu puder para voltar, isso posso prometer. Um dia, encontrarei você em Kharc. Me espere.
Fechou o espaço entre nós com um beijo acalorado que juntou nossos corpos. Sem mais palavras a serem ditas, a não ser por despedidas e lamentações, ocupamo-nos em aproveitar a companhia e o calor um do outro no tempo que nos restava.
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