A carruagem balançava e tremia levemente ao avançar pelo caminho de terra e cascalho. Com o mapa em mãos, os três jovens debatiam qual rota seria mais apropriada para seguirem.

— Talvez, se cortássemos caminho pelos Montes Nevados, chegaríamos mais rápido a Brumos — sugeriu Dante.

— Seria realmente o caminho mais curto, mas há um pequeno problema: precisaríamos fazer toda a trajetória, da base até seu pico, a pé. O terreno é íngreme e acidentado demais para a carruagem — respondeu o Hugo, analisando o mapa com atenção.

— Não vamos esquecer de uma outra coisinha, bem boba na verdade — acrescentou Corina, em um tom irônico. — Há muitos elfos albinos naquele lugar. Acredite, não vai querer trombar com eles, são extremamente territorialistas, do tipo que atiram primeiro e perguntam depois.

— Não sei como conseguem viver naquela região congelante — ponderou Hugo, franzindo o cenho. — Mesmo que limpassem o gelo e a neve, o solo não serve para o cultivo.

— Devem viver à base de carne — opinou Corina. — Aposto que caçam aqueles cervos gigantes de seis patas. Aliás, sua carne é uma delícia! Uma pena que seja estupidamente cara. Mas, é claro, isso não seria um problema se um certo alguém dissesse as palavrinhas certas.

Hugo gargalhou, de forma desajeitada.

— Você é inacreditável, Cori — disse ele, balançando a cabeça.

— Eu poderia te fazer muito feliz, sabia? Seria uma ótima noiva — brincou a jovem, cutucando-o com o ombro.

Ambos se puseram a rir.

Dante franziu os lábios, mantendo-se calado, perante as brincadeiras e a descontração dos dois amigos. O céu, tingido de laranja e magento salpicados por leves toques de azul, fazia seus olhos se perderem em meio às cores daquele fim de tarde.

De repente, ele se sobressaltou.

— Vocês escutaram isso? — perguntou o rapaz, virando-se em seu assento, ao que um barulho abafado ressoou em seus ouvidos.

— Ouvir o quê? — indagou Corina, erguendo uma sobrancelha.

— Algo vindo de dentro… — murmurou Dante, antes de saltar da carruagem ainda em movimento, o que fez os cavalos pararem abruptamente.

Ele caminhou até a porta do veículo e a abriu devagar. Lá dentro, suprimentos estavam empilhados sobre os bancos e espalhados pelo chão. Olhou tudo atentamente até que notou uma das mantas que cobriam as provisões se mexer levemente. Aproximou-se com cuidado e puxou o tecido com um movimento rápido.

— Espere, sou só eu! — exclamou uma voz feminina, acompanhada de uma figura que se levantava apressada, erguendo as mãos como se temesse levar um golpe de espada.

— Helis!? O que está fazendo aqui? — perguntou Dante, confuso.

Ao reconhecer a voz da irmã, Hugo desceu imediatamente do assento da carruagem, o rosto tomado por indignação.

— O que você está fazendo aqui!? Eu te disse para ficar no palácio! Por que você sempre tem que ser tão teimosa? — repreendeu ele, claramente irritado.

— Me desculpa, eu sei que não fiz certo — disse Helis, fixando os olhos nos de seu irmão com firmeza. — Já escutei e li tantas histórias sobre terras distantes, lugares mágicos e belezas que talvez jamais veja, porque meu destino foi traçado por outras mãos. Só quero a chance de conhecer ao menos um pedaço desse mundo tão vasto. Por favor, me deixe ir com você.

O jovem ficou em silêncio por um instante, pressionando os olhos com as pontas de seus dedos.

— Há essa hora, nossos pais já deram por sua falta — disse Hugo, irrompendo o silêncio. — Possivelmente já enviaram alguém para buscá-la.

— Mas… tecnicamente, eu ainda estou no palácio — disse ela cabisbaixa, entrelaçando os dedos.

Hugo inflou pesadamente os pulmões e soltou o ar bem devagar, enquanto esfregava as pontas dos dedos na cabeça. Um gesto quase involuntário, que vinha à tona em momentos de ansiedade ou raiva.

— O que quer dizer com “tecnicamente”? — indagou ele, parando abruptamente o gesto.

— O colar de borboleta que me deu…

— Era a Miranda presente na minha despedida, se passando por você, não era? — interrompeu seu irmão.

Helis apenas fez um gesto de afirmação com a cabeça.

— E se a pegarem, você pensou nas consequências que isso pode gerar a ela? — retrucou Hugo. — Ou é egoísta demais para se importar?

— É claro que me importo com ela! Mas sei que ela me conhece excepcionalmente bem, sei que estará segura e que não vão desconfiar de nada.

— E quando derem por falta dela? Vocês sempre estão juntas, para onde vai ela te acompanha.

— Eu pensei nisso. Convenci nossa mãe de que uma parente, muito próxima a Miranda, estava doente e que por conta disso, ela precisaria se ausentar. Então para a rainha, ela está apenas cuidando de uma querida tia que está enferma — disse Helis, deixando escapar um certo orgulho da história que havia inventado para encobrir a farsa.

O príncipe ficou em silêncio, voltando seu olhar para Dante e Corina, incrédulo.

— Não quero me intrometer nesse assunto de família, mas já está começando a ficar escuro — ponderou Corina. — É melhor seguirmos pela estrada, de acordo com o mapa, há um abrigo mais à frente onde podemos passar a noite.

Hugo inspirou o ar com força e o soltou bem devagar.

— Está bem, tem razão, devemos continuar.

— Isso quer dizer que vai me levar com você? — perguntou Helis, de forma esperançosa.

— Não! Isso quer dizer que vamos passar a noite nesse lugar seguro e amanhã, bem cedo, partiremos em direção ao reino para te levar de volta para casa — disse Hugo com firmeza. — Agora vamos, entre na carruagem.

Ambos voltaram para o veículo. Hugo e Dante assumiram o papel de cocheiros, enquanto Corina e Helis se sentaram no interior do transporte.

— Por essa eu não esperava, estou quase surpresa com seu plano — disse Corina com sarcasmo. — E quanto a essas roupas? Onde as roubou?

A princesa usava roupas simples, bem diferentes das luxuosas vestes bordadas e de tecidos finos. Nessa ocasião, ela trajava uma capa cinza-azulada, com bordas desgastadas e uma gola com capuz. Por baixo, vestia uma blusa azul clara ajustada e um colete amarrado na frente.

Um cinto largo de couro marrom, com pequenos bolsos e bainhas, cruzava sua cintura, e a parte inferior da blusa caía suavemente sobre calças justas de tom azul. Suas botas de couro, com tiras cruzadas e fivelas, exibiam claramente os sinais de longas caminhadas.

— Engraçadinha, não as roubei, são apenas umas roupas antigas da Miranda. Digamos que um vestido de três camadas com espartilho não seria muito furtivo, não é mesmo? — rebateu Helis, olhando para a amiga.

— O que tinha em mente? Planejava ficar escondida a viagem toda? — disse Corina, cruzando as pernas. — É muita ingenuidade achar que conseguiria passar despercebida.

— Ao invés de ficar me julgando, poderia me ajudar a persuadir meu irmão.

— Não mesmo, não quero ter que me responsabilizar por algo ruim que possa a vim te acontecer. Não quero ter que lidar com isso, não de novo.

— O que quer dizer com “de novo”?

— Não desvie o foco, o assunto da conversa é você. — A jovem cruzou os braços. — O que esperava conseguir com essa viagem? Encontrar uma cidade perdida, salvar uma princesa de uma torre, invadir um castelo e matar um tirano, ou talvez descobrir que é a escolhida de uma profecia milenar?

— Bem que eu gostaria, “Helis, a escolhida” — disse ela, gesticulando com as mãos. — Eu poderia me acostumar com isso.

— Você tem uma visão muito fantasiosa e idealizada do mundo — disse Corina, abaixando-se e pegando um cantil com água. — Em certas partes, me faz lembrar de um certo alguém.

— Deixe-me adivinhar, está se referindo a você?

— Ela era ingênua ou talvez, só muito imatura — disse Corina, ignorando a pergunta da jovem. — Tinha uma leveza no olhar e um sorriso gracioso. Acredito que você ia gostar dela.

— De quem você está falando?

— Era a mais jovem entre todas nós. Tinha acabado de entrar na adolescência. Me lembro como se fosse ontem: ela correndo assustada, com um véu amarrado na cintura, achando que tinha se machucado — continuou ela, deixando escapar um leve sorriso. — As garotas mais velhas riam quando ela dizia, com toda a convicção do mundo, que se tornaria a mais forte e habilidosa entre as Damas. E que, um dia, seria escolhida para o ritual de fortificação.

— O que é esse ritual? — indagou Helis, no entanto, sua pergunta foi prontamente ignorada pela amiga.

— Ela era muito esforçada e corajosa. Não duvidaria que realmente conseguisse alcançar o que sonhava. — Corina fez uma pausa, levando o cantil à boca antes de continuar. — Certa vez, fomos enviadas para escoltar um membro do Alto Clérigo até uma fazenda. Ela estava extremamente animada, era sua primeira vez em campo. Foi uma das experiências mais horríveis que já presenciei... A família havia sido vítima de um incubador. O que um dia fora o patriarca daquele lugar, estava agora reduzido a um corpo seco, atrofiado, assim como o que, talvez, fossem seus filhos. Era difícil dizer ao certo.

Ela respirou fundo, como se as palavras custassem a sair.

— Mas o verdadeiro horror ainda estava por vir. De um dos cômodos, ouvimos um gemido fraco. Era a esposa do homem. Ela... estava fundida à cama. Seu ventre inchado se mexia, como se algo vivo estivesse dentro dela, consumindo-a e apodrecendo-a por dentro. Não havia mais nada que pudéssemos fazer. O Clérigo ordenou que saíssemos do quarto. Ele não queria que víssemos o que quer que fosse a abominação dentro dela. — Ela fez uma pausa, respirando fundo. — Mais tarde, enquanto investigamos a casa, encontramos um lamento de bruxa. Aquele ataque não foi um mero acaso... alguém o havia atraído para aquela família.

— Mas e depois? O que estava na barriga da mulher? Vocês chegaram a ver? — perguntou Helis, a curiosidade em sua voz soando quase insensível.

— Não é esse o ponto. — A resposta veio firme, quase cortante. — Você não deveria encarar isso como algo emocionante. O mundo não é tão glamouroso como nas histórias que você leu. Ele é trágico, cruel, e nem sempre nos dá a chance de entender ou impedir seus horrores.

— Me desculpe, Cori. Eu sinto muito — disse ela, envergonhada. — Não quis ser insensível.

Corina desviou o olhar para a janela, permitindo que a paisagem além dela a puxasse para longe. Os grandes carvalhos se erguiam majestosos, enquanto o canto dos pássaros formava uma melodia doce que contrastava com os pensamentos que embebedaram em sua mente. A memória daquele dia voltou como um peso. Uma família inteira, destruída por um mal indescritível. Como alguém seria capaz de lançar tamanho mal sobre simples camponeses? Que ato eles poderiam ter feito para serem merecedores de tamanha desgraça?

A jovem desperta de suas memórias, com o toque suave de Helis em seu braço.

— Desculpe... Hugo pediu para você descer. Ele quer dar uma olhada ao redor para garantir que é seguro passar a noite — disse a jovem princesa, já descendo da carruagem.

— Ah... sim. Já estou indo — respondeu Corina, hesitante, enquanto se levantava, tentando afastar as sombras da memória que ainda pesavam em seu peito.

Já fora do transporte, a visão se abriu para uma estrutura modesta, feita de pedras brancas, com um formato hexagonal. Na lateral, havia um pequeno anexo que lembrava um celeiro. Corina se aproximou da entrada, parando diante de uma pesada porta de metal, cravada com runas élficas.

— Parece bem seguro para mim. — A voz de Hugo quebrou o silêncio, fazendo-a virar-se de súbito. — Te assustei?

— Não, não é isso — respondeu Corina, tentando empurrar a porta. — É mais pesada do que imaginei. Me ajuda aqui.

Unindo forças, ambos pressionaram a porta até que ela cedeu com um rangido pesado, abrindo-se lentamente para revelar o interior. Correntes robustas desciam das paredes, sustentando pranchas de madeira que serviam como plataformas ou prateleiras. Janelas do mesmo metal da porta, igualmente reforçadas, estavam dispostas ao redor do espaço, deixando entrar apenas um fiapo de luz. No centro, um grande braseiro, construído com blocos de pedra e moldado com hastes metálicas, dominava o ambiente. Acima dele, o teto tinha uma abertura com grades, provavelmente para ventilar a fumaça.

— É melhor do que eu esperava — comentou Hugo, observando ao redor e chutando a poeira que cobria o chão. — Até tem um lugar para guardar a carruagem.


Notas finais
Obrigado por ler ʕ•́ᴥ•̀ʔっ