A Cruzada Carmesim: Lágrimas de Sangue
11 Capítulo 10.
Era uma bela noite. O céu encontrava-se decorado com dezenas de milhares de estrelas e, no ar, uma leve brisa invadia pelas janelas, tornando a fogueira ainda mais aconchegante. Hugo e Dante estavam sentados à esquerda, observando Helis cutucar a lenha com um pedaço de graveto. Corina servia pequenos pães arredondados e achatados, retirados de uma trouxa de tecido grosso.
Pairando sobre a fumaça quente da fogueira, encontrava-se a Sentinela, brilhando resplandecente com sua chama dourada radiante. Os jovens se deliciavam com os pães, exceto Dante, que insistia não estar com fome.
— Tem certeza de que não quer nem um pedacinho? Foram feitos pela minha prima Ilana — disse Corina, dando mais uma mordida em seu pão. — Não são tão calóricos, se o seu receio é engordar.
Dante franziu os lábios, pegando um pequeno pedaço do pão da mão de Hugo, mastigando-o enquanto olhava para Corina.
— Não é ruim, só não entendo a insistência de vocês para que eu coma — disse ele, engolindo o pão. — Prontinho, satisfeita?
— Talvez.
Os dois irmãos trocaram olhares cúmplices e, em seguida, se entreolharam.
— Corina… — disse Helis, rompendo o silêncio. — Mais cedo, você comentou brevemente sobre uma experiência que teve como parte das Damas. Poderia falar mais sobre isso?
— Claro, o que quer saber? — respondeu Corina, comendo o último pedaço de seu pão.
— Li em um pergaminho da biblioteca algo sobre um ritual envolvendo monumentos e cristais. Você sabe do que se trata ou ao menos se isso é verdade?
— Creio que se trate da fortificação dos selos de contenção. É um ritual antigo, realizado pelas Damas mais experientes. Periodicamente, precisa ser renovado para manter o Abismo em seu devido lugar — respondeu ela, jogando mais um pedaço de lenha ao fogo.
— Parece perigoso — disse Dante, entrelaçando um pequeno graveto entre os dedos.
— Como tudo na vida, isso também tem seus riscos, mas alguém precisa fazer, não é mesmo? — respondeu Corina.
— E como ele é feito? — perguntou Helis, com um tom curioso.
— Antes de tudo, é necessário forjar o Coração de Sylphir — disse Corina, pausando para cobrir um bocejo com a mão. — Simplificando ao máximo: é uma gema cristalina usada para conduzir magia bruta durante o ritual, permitindo que se entre em estado apoteótico sem ter o corpo e a mente destroçados pelo poder.
— Posso apenas imaginar o quão gratificante e honroso deve ser fazer parte de tudo isso — disse Helis, levemente eufórica.
— Continuando. São necessárias quatro Damas, acendidas por patronos distintos: Aretusa, a Senhora do Movimento e dos Caminhos; Nuriel, o Senhor da Destruição e do Renascimento; Camélia, a Progenitora da Vida e da Pureza; e Alísio, Detentor dos Segredos e da Liberdade. Elas se posicionam no topo de altos pilares de obsidiana, recitando cânticos e dançando de forma elegante, precisa e sincronizada. A partir desse ato, novos selos são esculpidos na pedra, entalhados por seus pés descalços — concluiu Corina. — Quanto mais perfeitos forem os passos, mais forte e durável será o selo.
— Eu quero ser uma Dama, Hugo — disse Helis, encarando o irmão com seus grandes olhos castanhos e um sorriso largo.
— Trate de se conter. Ainda não me esqueci do que aprontou, Helis — disse Hugo, com o semblante nebuloso.
— Acho que você se sairia muito bem — sussurrou Dante, aproximando-se do ouvido da garota.
— Não a incentive! Ela já tem comportamentos questionáveis o suficiente por conta própria — retrucou o príncipe. — Imagine se a encorajarmos.
Helis cruzou os braços e virou o rosto, assumindo uma expressão amuada.
Dentre as sombras, um chamado, quase como um sussurro, quebrou o silêncio da noite.
— Por favor... ajuda-me... — clamou uma voz oriunda da escuridão.
Hugo se levantou, subindo na plataforma de madeira e fitando a noite através da pequena janela.
— Quem está aí? — indagou ele.
— Estou perdida... Ajuda-me, por favor…
— Aproxime-se, saia das sombras para que possamos vê-la! — ordenou Corina, destrancando a porta, seus olhos vasculhando o breu à procura de qualquer movimento.
— Fui atacada... Estou ferida…
Hugo se posicionou à frente da amiga e avançou para fora da construção. A Sentinela se agitou, tremendo em leves espasmos.
— Por favor... rasgaram minhas vestes... Ajuda-me — disse a voz, forçando um tom sedutor.
— Espere. — Corina segurou o braço do rapaz, impedindo-o de prosseguir. — Isso não é uma pessoa…
Hugo fitou novamente a escuridão e então ergueu o braço, conjurando um pequeno feixe luminoso e arremessando-o na direção da voz.
A criatura foi banhada pela luz, revelando sua forma hedionda. Possuía cerca de três metros de altura, um corpo esguio e alongado, com garras no lugar dos dedos. De sua coluna projetavam-se grossos espinhos, e sua cabeça comportava pequenos olhos fundos e uma boca repulsiva, repleta de dentes afiados, com uma língua comprida e bifurcada.
— Abominação asquerosa! — disse Corina, com a voz repleta de repulsa.
Com um comando de Hugo, a Sentinela se projetou para fora, além da porta, expandindo-se e banhando a noite com sua chama pura, fazendo a criatura recuar.
Dante e Helis se levantaram de seus assentos, com a jovem se pendurando na janela, em busca de observar o que estava acontecendo.
A outrora confortável voz distorceu-se em uma gargalhada sádica e mórbida.
— A falsa luz de um ídolo vazio não protegerá sua raça por muito mais tempo. A Silenciada se erguerá de sua sepultura…
— Volte para o buraco de onde sua existência fétida nunca deveria ter saído! — bravejou Hugo, instruindo a Sentinela a atacar.
A esfera luminosa agitou-se e, então, disparou um feixe de chamas em direção à criatura do abismo. O monstro gritava e se contorcia enquanto era completamente envolvido pelo fogo. Em seu último momento de consciência, a criatura se voltou novamente para os jovens.
— Hori... foi só o começo... seu mundo irá definhar... A Silenciada se erguerá... A SILENCIADA... SE ERGUERÁ…
Farta das provocações, Corina arremessou uma adaga dourada, presa ao seu antebraço, diretamente no rosto da criatura em chamas, atravessando-a. O fogo a consumiu completamente, sobrando apenas cinzas e o cheiro pútrido.
Com um simples movimento de seu braço, a lâmina retornou para sua mão. A jovem se abaixou, limpando a arma na grama úmida.
— Temos que ser mais cuidadosos, ou não chegaremos inteiros ao nosso destino — disse Corina, guardando a adaga de volta no suporte.
— Sim, você tem razão — assentiu Hugo. — Mas, sobre quem aquela coisa estava se referindo? “A Silenciada se erguerá”...
— Não deve se preocupar com o que essas coisas dizem. Servem apenas para nos manipular, nos infundir medo — disse Corina. — Bom, assim espero.
Mais ao fundo, próximos à fogueira, Helis e Dante conversavam sobre o que havia acabado de ocorrer.
— Isso foi assustadoramente incrível, estou toda arrepiada — sussurrou Helis para o amigo. — Sempre ouvi os relatos, mas assim, pessoalmente, e ainda tão de pertinho, é a primeira vez que vejo uma criatura dessas.
— Você não para de me surpreender com sua esquisitice — disse Dante, inclinando-se até o ouvido da jovem.
— Obrigada, muita gentileza de sua parte — agradeceu a jovem, de forma sarcástica, colocando a mão sobre o peito.
O rapaz revirou os olhos, com um sorriso desleixado no rosto.
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