O sol da manhã banhava o amplo quarto através das imensas janelas, enchendo o ambiente com sua luz suave, enquanto o alegre canto dos pássaros no jardim preenchia o ar. Era um típico e belo dia de verão. Da sacada, a vista se abria para o movimento dos empregados, que recolhiam folhas secas caídas das árvores, criando um delicado tapete dourado sobre o chão. Alguns regavam as flores recém-despertadas pelo calor da estação, enquanto outros, em escadas longas, podavam com cuidado as trepadeiras que se entrelaçavam nas paredes de pedra.

O príncipe inspirou profundamente, preenchendo os pulmões de ar fresco, enquanto seus olhos castanhos e profundos se voltavam para o azul claro do céu. Com um longo e tranquilo suspiro, soltou o ar, observando o lento deslizar das nuvens. No horizonte distante, um enorme pássaro de plumagem caramelo e peito branco e ostentando uma longa cauda escura, chamou sua atenção. Suas imponentes asas batiam com força, tentando equilibrar o peso adicional que carregava. Na cabeça do animal, um adorno, semelhante a um capacete, protegia seus olhos do brilho intenso do sol, e duas rédeas estavam firmemente seguras pelas mãos experientes de seu condutor.

— Há alguém com bastante pressa — disse Hugo, observando a enorme ave cruzar rapidamente sua linha de visão, dirigindo-se à outra extremidade do palácio. — O que poderia ser tão urgente para enviarem um mensageiro alado?

Seu pensamento foi interrompido por batidas suaves e firmes à porta.

— Está aberta, entre! — O jovem se virou em direção ao som.

— Bom dia! — exclamou Dante, abrindo a porta.

— Ah, olá! — Hugo foi ao seu encontro, envolvendo-o em um abraço. — Está pronto para ir?

— Estou sempre pronto — respondeu Dante com um sorriso, enquanto ajustava as mangas de sua camisa. — Mas para onde exatamente vamos?

— Vamos dar uma volta! Enquanto você se familiariza com o lugar, posso ver como as coisas mudaram — explicou Hugo. — Quero levar você a um local que eu costumava frequentar quando garoto. Só espero que ela ainda esteja de pé.

— Tudo bem, então vamos — disse Dante, começando a andar em direção à porta.

— Espere! Não vamos por aí, tenho outra coisa em mente. — Hugo apontou para a janela, com um sorriso sugestivo.

— Como assim? — indagou Dante, confuso.

— Vem, me dê a mão. Ou você não confia em mim? — O príncipe caminhou em direção à sacada.

— Sabes que confio mais em ti do que em qualquer outra pessoa — disse Dante, segurando a mão de Hugo com firmeza.

O príncipe fechou os olhos e, concentrando-se, canalizou sua magia para ambos os corpos. Em questão de instantes, foram envolvidos por um resplendor dourado. O jovem mago tornou-se leve como uma pluma e começou a levitar. Segurando firme a mão de Dante, puxou-o para o ar, conduzindo-o pela janela ao encontro do frescor da manhã.

Por onde passavam, atraíam olhares de crianças e adultos que apontavam para o céu, maravilhados. Subindo cada vez mais, aproximaram-se de uma nuvem, cuja umidade formava pequenas gotículas em seus cabelos. Hugo suspirou com certa dificuldade, mantendo-os no ar por tanto tempo, e começou a descer. Sobrevoaram campos de lavanda e vastas plantações de trigo e cevada. Por fim, pousaram em um campo de girassóis, rodeados por borboletas de cor canela.

— Não sabia que podia fazer isso — disse Dante, impressionado.

— Andei treinando alguns truques novos — respondeu Hugo, ofegante. — Mas é um pouco cansativo. Vamos ter que continuar a pé.

— O tempo está ótimo para uma caminhada.

— Vamos, é por aqui — disse Hugo, recuperando o fôlego, enquanto seguia por um caminho de terra batida.

Atravessaram um vasto pasto verde, onde um rebanho de bisões pastava tranquilamente. Parte dos animais estava separada para a ordenha, sendo cuidados por mulheres robustas, com braços fortes e cabelos trançados em coques baixos.

Continuaram a caminhada, passando por uma alameda de jacarandás, cujas flores formavam tapetes lilases sobre o solo. Ao final do caminho, depararam-se com uma árvore de grande porte, marcada pelo tempo. Suas cicatrizes no tronco e os galhos retorcidos, cobertos de folhas, projetavam uma sombra refrescante. Sob a árvore, um velho balanço pendia, desgastado pelo tempo. As cordas frágeis e o assento de madeira rangiam ao menor dos toques.

— Eu costumava vir muito aqui — disse Hugo, sentando-se no balanço. — Pode me balançar?

— Claro — respondeu Dante, empurrando levemente as costas de Hugo.

O balanço oscilava suavemente, para frente e para trás. Hugo se sentia como um menino novamente, sem preocupações. A brisa fresca da manhã acariciava seu rosto, e o canto dos pequenos canários ecoava pelos galhos acima. Com os olhos fechados, ele se viu transportado ao passado. Helis estava no jardim, brincando com sua boneca de cabelos encaracolados, enquanto Hilius lia um livro à sombra de uma árvore. Hugo ajudava a mãe a alimentar os cisnes da lagoa com porções de lentilhas-d'água.

De repente, o esperado aconteceu: o balanço rangeu e a corda se partiu, jogando Hugo no chão com um baque surdo. Ele olhou para Dante e disse, de forma dramática:

— Ai! — Os dois explodiram em gargalhadas.

— Acho que estou um pouco velho para isso — disse Hugo, se levantando e sacudindo a poeira.

— É, talvez — disse Dante, ainda tentando conter o riso.

— Está com fome? — perguntou Hugo.

— Não — respondeu Dante, de maneira seca e rápida.

Hugo lançou lhe um olhar de repreensão.

— Quero dizer, estou faminto! — corrigiu-se Dante, colocando a mão na barriga.

— Ótimo! Conheço um lugar que vende uns bolinhos de milho doce que são divinos.

— Bolinhos de milho, hein? — disse Dante, com um toque de sarcasmo. — Parece... delicioso.

***

Um dos pontos mais movimentados de todo o reino era a Praça dos Comerciantes, onde se podia encontrar de tudo, graças à diversidade de raças e, consequentemente, de produtos.

Comerciantes de todos os tipos ofereciam suas mercadorias. Entre eles, seres de baixa estatura, semelhantes a humanos, com orelhas pontudas e ligeiramente arqueadas, bochechas rosadas, com sobrancelhas em formato circular e imponentes cabeleiras ruivas e encaracoladas, cujos olhos variavam do azul ao verde, exibiam orgulhosamente seus mais variados tipos de chapéus — cartolas decoras com ramos e hastes, chapéus brancos adornados por um véu, e outros com longas abas trançadas à mão — em expositores cuidadosamente organizados.

Senhoras costureiras, com cabelos desbotados pela idade, arrumavam seus vestidos, perfeitamente decorados, em manequins à entrada de seus ateliês.

Mais adiante, um senhor supervisionava sua mesa repleta de brinquedos: cavalinhos de madeira, bonecas de pano com olhos de botões e cabelos trançados, pequenos soldadinhos e grandes ursos amarelos. Tudo chamava a atenção das crianças que olhavam encantadas, enquanto se deliciavam com maçãs carameladas no palito.

Um jovem, carregando um cesto de flores, passava por entre as pessoas sentadas nos bancos, oferecendo rosas, peônias e tulipas aos casais.

— Com licença — chamou Hugo, atraindo a atenção do rapaz.

— Meu príncipe, em que posso ser útil? — o jovem fez uma reverência.

— Por favor, sem formalidades — disse Hugo, ajustando sua postura. — Eu gostaria de uma rosa, por favor.

— Claro, senhor. Esta lhe agrada? — perguntou o rapaz, entregando uma rosa vermelha.

— É perfeita, obrigado — disse Hugo. — Quanto custa?

— É uma cortesia para meu príncipe.

Hugo sorriu e pegou a mão do jovem, colocando duas moedas de ouro nela.

— Por favor, aceite — insistiu o príncipe, fechando a mão do florista.

— Obrigado, o senhor é muito generoso — respondeu o rapaz, fazendo outra reverência antes de se retirar.

— Tome, é para você — disse Hugo, entregando a rosa a Dante.

— Que gentileza, obrigado. É realmente um belo órgão reprodutivo, e ainda foi podado em seu ápice — comentou Dante, com um tom debochado, segurando a flor com delicadeza.

— Eu deveria ter te deixado naquela floresta com os bárbaros. Aposto que você teria uma vida muito confortável como escravo — retrucou Hugo, acertando de leve o cotovelo no braço de Dante.

— Você é empático demais para tomar uma decisão dessas. E isso é uma das muitas coisas que amo em você — rebateu Dante, empurrando levemente a testa de Hugo com o dedo.

— Você é inacreditável — disse Hugo, sorrindo.

— Hum, chegamos. É logo ali. Vamos, ainda estou com fome — completou o rapaz, caminhando em direção a uma cozinha ao ar livre, da qual o doce aroma de milho, com toques suaves de canela, permeavam o ambiente.

***

— Tem certeza que não quer um pouco? — perguntou o rapaz, estendendo a mão e oferecendo uma porção de seu bolinho.

— Não, estou bem. Mas obrigado.

— Você não sabe o quão delicioso isso está — disse Hugo, dando mais uma mordida em sua guloseima.

— Posso imaginar, pelas expressões que seu rosto faz enquanto come — disse Dante, o encarando.

— Peço desculpas por precisar de mais do que água e um pouco de sol para sobreviver — respondeu Hugo, limpando as migalhas da boca. — Nem todos são agraciados por tamanha autossuficiência.

— Fazer o quê, não é mesmo? — disse Dante, dando de ombros e franzindo os lábios.

Seguiram caminhando entre os comerciantes e clientes. Algumas pessoas acenavam e faziam reverências à medida que passavam. Outras ofereciam produtos exóticos, como botões de pixie, pequenas criaturinhas de aparência travessa, dotadas de um par de asas semelhantes às de insetos.

— Botões de pixie? — Dante levantou uma sobrancelha, curioso, enquanto se aproximava da banca. Pequenos ovos translúcidos estavam dispostos em uma caixa de madeira, forrada com musgo e folhas ainda verdes.

— Isso mesmo, senhor! — respondeu o vendedor, animado. — Botões de pixie, prestes a eclodir. As pequeninas são ótimas para cuidar dos seus animais ou de suas plantas. Até mesmo aquelas crianças mais travessas vão adorá-las, claro, desde que sejam bem cuidadas.

— Interessante — disse Hugo, dando mais uma mordida no bolinho. — Que tal eu comprar uma para a Helis?

— Não me parece uma ideia muito boa — Dante franziu o lábio. — Não acha que ela sozinha já é, digamos assim, um pouco imprudente? Imagine na companhia de uma pixie.

— Pensando melhor, você tem toda razão, não é uma boa ideia — concordou Hugo, afastando-se da banca junto a Dante.

— O que será que está chamando a atenção de todas aquelas pessoas?

— Parece que vai ter algum tipo de apresentação — respondeu Hugo, enquanto comia o último pedaço de seu delicioso bolo.

— Quer dar uma olhadinha? — perguntou Dante. — Pode ser divertido.

— Tudo bem, vamos! Só espero que não seja uma daquelas apresentações interativas.

A multidão havia se agrupado em um semicírculo, aguardando ansiosa pela performance. No centro, destacava-se um elfo de aparência jovem, até mesmo para os padrões de sua raça. Cabelos cor de marfim caíam suavemente sobre suas orelhas pontudas, quase as camuflando. Vestia uma túnica em tons de azul e calças de um marrom escuro.

O elfo abriu uma bolsa trançada e, de seu interior, tirou uma lira de madeira clara, de formato sinuoso. Checou suas cordas e então deu início à melodia.

Afiem os ouvidos,
Pois vou lhes cantar,
A história profana
Da que não se deve citar:

No início de tudo,
Nada aqui existia,
Era frio e inóspito,
Vida aqui não havia.
Então algo veio e se compadeceu,
Com esse pedaço de rocha
Em meio a todo o breu.
O céu, antes vazio,
Agora se encheu
Com a luz do primogênito
Que se ergueu.

Aquecendo o solo com tanto fervor,
Que logo a terra decidiu se impor,
Devolvendo a ele todo o calor,
Dando vida, enfim, a mais um sucessor.

O solo ardia com tanto clamor,
Que com pena o céu em prantos ficou,
Suas lágrimas ao fogo vieram aplacar.

E da primeira chuva
Já se jazia,
Do manto das águas
Sua filha nascia.
Por onde seus rios percorriam,
A vida floria.

Então, certo dia,
Se levantou
A outra irmã, e a terra fértil ficou.
Florestas formadas do seu amor,
E assim,
A vida enfim prosperou.

E então,

O penúltimo irmão já surgia,
Soprando os ventos com euforia,
Esfriando as montanhas
Quando convergia.

Mas a noite
Ainda era mórbida e fria.
Então decidiu
Que precisava de mais duas filhas.
As encheu de luz
Como o primeiro irmão,
E as duas, enfim, repeliam a escuridão.

Mas uma, egoísta e invejosa, se tornou,
Querendo o trono,
Ela tramou:
Livrar-se da irmã,
E sozinha reinar
Como a Soberana da Noite deste lugar.

Mas,
Por sua ambição,
Foi castigada,
Teve sua luz arrancada,
E no abismo foi selada,
Jurando vingança de um dia retornar,
E seu trono, por direito,
Arrebatar!

Mas não se esqueçam,
É apenas uma história,
Contada por eras
Em oratórias.

Aplausos preencheram o ambiente ao fim de sua apresentação. Ele se curvou em agradecimento aos calorosos elogios. Próximo a ele, havia uma pequena caixa de madeira avermelhada, com detalhes em amarelo, na qual as pessoas depositavam moedas de cobre e prata. Ele abaixou-se, recolhendo-a e retirando-se para a outra extremidade do amplo local.

— Acho melhor voltarmos para o palácio, teremos uma reunião mais tarde e não posso me atrasar — disse o rapaz, virando-se para Dante.

— Está bem — respondeu Dante. — Mesmo não sendo muito, estou feliz com o tempo que passamos juntos.

— É, foi divertido, talvez só o balanço que não tenha sido tanto assim — disse Hugo, empurrando delicadamente o ombro de Dante com o dedo.

***

Os rapazes cruzavam o grande salão de baile. O piso de mosaico formava uma enorme bromélia de pétalas rosadas e interior amarelo-ouro. Cortinas em tom de verde musgo, com bordados de cor violeta, encontravam-se perfeitamente alinhadas ao lado das grandes janelas de vidro. As pesadas portas do salão estavam guardadas por magníficos jarros de porcelana branca, que portavam exuberantes buquês de flores.

— Eu preciso ir agora, meu pai deve estar à minha espera — disse Hugo, virando-se e dando um beijo rápido em Dante.

— Tudo bem, te vejo mais tarde — respondeu o rapaz, enquanto Hugo se distanciava a passos rápidos.

— Eu preciso encontrar um local para você, amiguinha — murmurou Dante, olhando para a rosa que havia ganhado mais cedo.

Ao se virar para a saída do grande salão, deparou-se com Miranda. Apressada e distraída, a jovem esbarrou no rapaz, fazendo-o derrubar a flor.

— Me desculpe, senhor Dante, não foi minha intenção. Preciso aprender a tomar mais cuidado — disse a jovem, abaixando-se rapidamente para pegar a rosa.

— Está tudo bem, não se preocupe — falou Dante, sorrindo amigavelmente.

— Eu sei que você é bastante ocupada e apressada, mas poderia me dizer onde posso encontrar um recipiente, um vaso ou uma tigela que eu possa usar para plantar esta flor?

— Eu posso falar com os jardineiros do palácio, eles devem ter alguns vasos desocupados. Eu o encontro daqui a alguns minutos, senhor.

— Muito obrigado — agradeceu o rapaz, com um de seus melhores sorrisos.

A jovem fez um cumprimento com a cabeça e se retirou.

Notas finais
Obrigado por ler ʕ•́ᴥ•̀ʔっ (Por algum motivo acabei me demorando mais que o normal para finalizar esse capítulo)