A Cruzada Carmesim: Lágrimas de Sangue
6 Capítulo 5.
O grande salão de reuniões estava agitado. O conselho, formado pelos representantes dos reinos aliados, debatia fervorosamente sobre as novas informações trazidas pelo mensageiro recém-chegado.
— Hori ainda está infestada pelas criaturas — disse o mensageiro. — Eu mesmo as avistei enquanto voava para cá. E o pior é que ainda há pessoas escondidas, presas em suas casas, amedrontadas demais para tentar escapar.
— Não sou capaz de imaginar a angústia que devem estar sentindo — a voz da rainha transbordava pesar. — O sentimento de impotência junto ao medo, é corrosivo.
— Precisamos encontrar uma maneira de resgatá-los — disse o rei, cuja aparência envelhecida refletia os pesares do luto. — Nem que para isso eu tenha que enviar todo o meu exército para Hori!
A impaciência do rei era compreensível. Há alguns anos, ele perdera suas filhas e netas para um ataque das mesmas criaturas. Tudo o que lhe restou foi assistir, impotente, enquanto o local onde elas estavam era atacado e completamente destruído. Os gritos desesperados e o choro inocente ainda o assombravam em seus pesadelos.
— E é o que faremos, meu amigo — disse o rei Terius, com um tom compreensivo.
— Há outro ponto que também merece atenção — interveio a rainha Ada. — Alguns grupos conseguiram fugir no início do ataque. Abriguei boa parte dos refugiados de Hori em minhas terras, mas meu reino não é tão extenso, e não temos capacidade para comportar todos. Espero contar com a colaboração dos senhores nesta causa.
Ada era uma mulher de postura imponente. Seus cabelos estavam presos em grossas tranças que formavam um coque no alto da cabeça. Majestosos brincos de prata reluziam sob a luz do salão, e colares cravejados de esmeraldas contrastavam com sua pele escura e lábios tingidos um suave tom avermelhado.
— A rainha Ada levantou um ponto crucial — disse o rei Terius, assentindo. — Aqueles que escaparam encontram-se desamparados e precisam de nosso apoio. Tomarei sua iniciativa como exemplo. As portas de Hosendell sempre estarão abertas para todos os que buscam refúgio.
— Meu reino também abrirá suas portas para os assolados por tamanha desgraça — acrescentou o rei velho, sua voz grave ecoando pelo salão.
— Amanhã mesmo enviarei um grupo de soldados para escoltar uma parte dos refugiados de seu reino, rainha Ada. Garantirei que cheguem em segurança — prometeu Terius, dirigindo-se a Citrius, seu general. Este fez um gesto de assentimento com a cabeça, concordando em silêncio.
O mensageiro, que até então permanecera em segundo plano, tomou a palavra novamente.
— Também trago uma mensagem do conde de Brumos — disse, voltando-se para o rei de Hosendell. — O pequeno condado na província está sendo assolado por inúmeros desaparecimentos misteriosos. Alguns relatam ter avistado uma névoa densa, de cor carmesim e com um odor pútrido, que surge sem aviso. Outros afirmam ter visto criaturas desfiguradas vagando pela área. O conde já esgotou todos os recursos disponíveis e, agora, suplica por sua ajuda, majestade.
— Um reino colossal destruído, um nevoeiro cor de sangue, monstros deformados e pessoas desaparecendo. Algo grande está acontecendo — refletiu o clérigo, com uma expressão sombria.
O rei Terius permaneceu em silêncio por alguns instantes, ponderando sobre o peso das questões que se acumulavam em seus ombros.
— Enviarei uma parte do meu exército para ajudar em Hori e outra para escoltar os refugiados. Mas, se mandar mais homens para Brumos, ficarei sem guardas suficientes para proteger o reino.
— Majestade, se me permite cuidar disso. Posso organizar uma equipe reduzida para enviar a Brumos, sem comprometer as defesas do reino — interveio o general Citrius.
— Tem minha autorização, general. Dou-lhe carta branca para agir — disse o rei, sem hesitar.
— Eu gostaria de participar dessa missão, general — declarou o príncipe Hugo. — Creio que minhas habilidades seriam úteis.
— Hugo, você acabou de chegar! Além do mais, ainda é inexperiente. Essa missão é perigosa. Você é um príncipe, querido, não um guerreiro — protestou a rainha Soriana, com o olhar carregado de preocupação.
— Compreendo sua apreensão, minha mãe, mas quero ser útil. Não posso fazer muito ficando confinado no palácio — argumentou Hugo, com determinação.
A rainha o fitou com olhos angustiados.
— A senhora tem razão, não recebi um treinamento militar como meu irmão — admitiu ele. — No entanto, conheço alguém de confiança que pode me auxiliar. Dante é um duelista exímio, e tenho certeza de que não recusaria se eu lhe pedisse para me acompanhar.
— Se me permite, minha rainha. Como bem sabe, uma de minhas sobrinhas, já fez parte da Ordem das Damas. Ela é extremamente capacitada e habilidosa, poderá ser de grande ajuda para os rapazes — pontuou o general. — Claro, se a senhora concordar com a participação do príncipe Hugo nesta missão.
O rei Terius, que até então permanecera em silêncio, segurou a mão de Soriana com ternura.
— Acho que essa é uma oportunidade para nosso filho crescer e desenvolver suas habilidades. Ele precisa se tornar forte para que possa ser capaz de proteger o seu futuro rei.
Os olhos do rei Terius se fixaram em seu primogênito, com seriedade.
— Está bem. Como mãe, quero proteger ao máximo meus filhos, mas, como rainha, reconheço que é a decisão correta. Você tem minha permissão, príncipe Hugo — concedeu ela, lançando um olhar apreensivo aos dois filhos presentes.
***
O príncipe caminhava rumo aos seus aposentos após a longa tarde de reuniões. Suas mãos estavam ocupadas, sobrecarregadas com mapas e pergaminhos empoeirados. Parou diante da porta do quarto e a abriu de maneira desajeitada. Acomodou os papéis no chão, ao lado da entrada, e sentou-se na cama, soltando um suspiro pesado. Ao lado da mesma, sobre a mesa de cabeceira, havia um pequeno vaso de barro, o qual abrigava uma linda rosa vermelha. Pintado de forma grosseira em uma de suas laterais, um coração amarelo abrigava, em seu centro, a letra "D".
Hugo sorriu e olhou para a janela. A imensa cortina balançava suavemente.
— Há quanto tempo está aí? — perguntou ele, lançando um olhar fixo para o tecido ondulante.
A cortina mexeu-se mais uma vez antes de Dante surgir, saindo de trás das volumosas dobras de tecido.
— Atrapalho? — perguntou ele, com um sorriso meigo no rosto.
— Que pergunta boba, claro que não. — Hugo fez um gesto, convidando-o a sentar-se ao seu lado.
— Como foi a reunião? — Dante se apoiou no ombro de Hugo, buscando conforto.
— Digamos que... produtiva. Nos voluntariei para uma missão. Vamos viajar para Brumos para investigar uma névoa cor de sangue que sequestra pessoas, além de relatos de criaturas deformadas — disse Hugo de forma ríspida.
— Névoa… sequestro… monstros? — O rapaz ergueu uma sobrancelha.
— Exatamente. Iremos eu, você, e a sobrinha do general — respondeu Hugo, repousando a cabeça no colo de Dante.
— Espera aí... você me inscreveu para uma missão, possivelmente perigosa, sem nem ao menos me consultar? — indagou Dante, fixando os olhos em Hugo.
— Isso mesmo — disse o príncipe, com um sorriso travesso.
— E se eu me recusar a ir? — Dante cutucou o nariz de Hugo com o dedo.
— Você realmente me deixaria enfrentar esses perigos sozinho, enquanto se deleita no conforto do palácio? — perguntou Hugo, com um tom manhoso.
— Essas camas são tão macias... e dormir no chão não é bem o meu forte — disse Dante, com um sorriso de canto.
— Vai me trocar por uma cama macia, é isso? — disse Hugo, enquanto se levantava e dava uma cotovelada leve no braço de Dante.
— Eu gosto quando você fica bravo, mas sabes que eu jamais te deixaria sozinho, meu principezinho mimado. — Dante o puxou para um abraço apertado.
— Eu sabia que podia contar com você. Mas agora você precisa ir. Temos apenas amanhã para nos prepararmos para a viagem, e eu tenho que acordar cedo. Ainda há algumas pendências que preciso resolver — disse Hugo, se desvencilhando do abraço e o conduzindo até a porta.
— Não quer me deixar dormir aqui esta noite? — perguntou Dante, com um olhar provocativo, enquanto se posicionava diante da porta.
— Dormir? Te conheço muito bem para saber que a última coisa que faríamos seria dormir. Melhor você ir para o seu quarto — respondeu Hugo, colocando a mão sobre a testa.
— Está bem, vossa alteza, como desejar — disse Dante, fazendo uma reverência exagerada e desajeitada.
— Seu bobo, te vejo amanhã — disse Hugo, inclinando-se para lhe dar um beijo carinhoso na bochecha.
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