A Criada Francesa
12 O herdeiro
Quando o jovem empresário se aproximou pude observá-lo com mais atenção. Ele era alto e magro, e seus cabelos castanhos, levemente ondulados, eram curtos e penteados para o lado. No entanto, o que mais chamou minha atenção foram os seus olhos. Ele possuía heterocromia total, o que fazia com que seus olhos tivessem cores diferentes, sendo um deles azul e o outro de uma tonalidade mais esverdeada.
Aqueles olhos singulares nos encararam seriamente por alguns instantes, mas passada a surpresa inicial, sua expressão se abriu. Parecia que havíamos sido reconhecidos, ou pelo menos, Holmes havia sido.
— Sr. Sherlock Holmes? – perguntou ele, já seguindo em direção ao meu colega com a mão estendida para cumprimentá-lo, enquanto exibia um sorriso simpático.
— Vejo que me conhece, Sr. Hyde. – respondeu Holmes, retribuindo o aperto de mão caloroso, com o ego claramente envaidecido por ter sido reconhecido por um ilustre membro da alta classe londrina.
— Como não o conheceria? E acredito que esse seja o Dr. Watson, estou certo? – continuou ele, enquanto me cumprimentava também.
— Às suas ordens. – respondi, igualmente envaidecido.
— Sempre que posso leio suas histórias, doutor. Os senhores realmente têm uma vida interessante. Mas digam-me, ao que devo essa visita inesperada?
— Eles também vieram para perguntar sobre Juliette Renard. – respondeu Violet Hyde à pergunta do filho.
— Ah... Juliette... – disse ele, mais para si mesmo do que para nós. A mudança em seu semblante foi imediata. Não consegui decifrar se tinha sido uma expressão de saudosismo ou de pesar, mas certamente foi algo a se considerar.
— A Sra. Hyde já nos esclareceu muitas coisas, mas eu ainda gostaria de fazer algumas perguntas para o senhor. – disse Holmes.
— Certamente, Sr. Holmes. Poderia nos dar licença, mãe? – pediu o jovem empresário à mãe.
— É claro. Eu também tenho alguns assuntos a resolver. Com licença, senhores. – despediu-se ela, enquanto se retirava do aposento.
Diante da boa recepção do dono da casa, nós que já estávamos quase de saída, retomamos nossos assentos no sofá confortável, ansiosos para ouvir o que mais Ethan Hyde teria a acrescentar àquela história.
— Então, o que os senhores ainda desejam saber? – perguntou ele, indo direto ao ponto, sem perder tempo, como todo bom homem de negócios.
— Como o senhor já ficou sabendo por intermédio do Detetive Inspetor Lestrade, o Sr. Gilbert Renard está na cidade e deseja saber o que houve com sua irmã. Como o inspetor não está no momento em condições de continuar com a investigação, eu honrarei os seus esforços iniciais e encerrarei o caso em seu nome.
— Entendo. Então quer dizer que o estado do Inspetor é realmente grave? – perguntou ele, com um semblante preocupado. – É mesmo uma pena. Nossa conversa foi breve, mas ele me pareceu ser um bom detetive.
— Sim, ele é, mas eu sou melhor, então vamos ao que interessa. – disse Holmes, com sua já habitual falta de cerimônia. – Conversando com a Sra. Hyde, soubemos que o senhor e a Srta. Renard tiveram um relacionamento não muito profissional. Eu gostaria de saber um pouco mais a respeito disso.
— Bem, não vou mentir para o senhor, pois conheço sua fama e sei que o que eu disser aqui ficará entre nós. – respondeu Ethan Hyde, tranquilamente. — Sim, é verdade que Juliette e eu tivemos um caso enquanto ela trabalhava para a família. Na época eu era jovem e inexperiente, e muitas responsabilidades haviam sido jogadas sobre mim depois do inesperado sumiço de meu pai. Eu estava tentando me adaptar a essa nova vida já fazia quase três anos, mas era tudo era muito estressante. Eu não tinha amigos e os únicos assuntos presentes em minha vida eram a empresa e os negócios, mas as coisas começaram a mudar no dia em que conheci Juliette.
“Ela ajudava nos serviços da casa e me dava aulas de francês algumas vezes na semana. Ela era muito bonita, sabe? Mas não era só isso, ela era muito gentil e educada. Eu gostava de conversar com ela, porque ela realmente se interessava pelo que eu tinha a dizer, e não me ouvia apenas porque estava sendo paga para fazer aquilo.”
“Durante as aulas, ela não só me ensinava um pouco de sua língua, mas também me contava sobre sua vida, enquanto eu desabafava um pouco sobre a minha. Era bom. Era como tirar parte do peso de cima dos meus ombros. Eu conversava com ela sobre coisas que eu não tinha coragem de falar com a minha mãe, para que não parecesse um fraco ou incapaz na frente dela.”
“Com o passar do tempo, eu percebi que ficava ansioso para que as aulas de francês começassem. Não que eu fosse um aluno estudioso, longe disso, mas porque eu queria ficar perto de Juliette e eu logo percebi que ela sentia o mesmo. Foi quase impossível não me apaixonar por ela, mas sabíamos que nosso amor era proibido e o mantivemos em segredo.”
“Infelizmente, foi apenas uma questão de tempo até minha mãe descobrir, e quando isso aconteceu, ela me fez entender que se continuássemos com aquilo e a história se espalhasse, seria um escândalo sem precedentes, que poderia levar a empresa e o nome da família à ruína. Os acionistas já não confiavam em mim, e as coisas certamente piorariam se descobrissem que eu estava tendo caso com uma empregada, ainda mais com uma com o passado de Juliette. Éramos jovens e não pensamos nas consequências dos nossos atos, mas logo percebemos que não seria conveniente para nenhum dos dois.”
— Principalmente, para o senhor. — interrompeu Holmes.
— Sim, principalmente para mim. — concordou o Sr. Hyde. — Aquele não era o momento para escândalos, e antes que o assunto se tornasse público, decidimos que era hora de acabarmos com tudo e que em breve ela precisaria partir. Ela aceitou a situação e um dia, ela realmente se foi.
— O senhor compartilha da mesma opinião de sua mãe, de que Juliette apenas decidiu ir embora? – perguntei.
— De início, não compartilhava. Achei estranho, porque ela não se despediu de ninguém, nem mesmo de mim. Mas depois de algum tempo, passei a cogitar a hipótese, e entendi que tinha sido melhor as coisas terem terminado daquela maneira, sem despedidas. Quando a mãe dela apareceu à sua procura, confesso que fiquei intrigado, mas eu já havia me decidido há muito tempo, que Juliette seria apenas mais uma lembrança em minha memória e que não voltaria a me envolver com nada relacionado a ela. Assim que ela se foi, eu prometi à minha mãe e a mim mesmo, que minha atenção se voltaria totalmente para a Flora Cosmetics, e que eu honraria as memórias de meu pai e de meu avô, transformando-a na maior empresa do país.
— Vejo que foi uma resolução bem forte, afinal, quase dez anos depois, a Flora Cosmetics realmente cresceu de forma vertiginosa e o senhor continua solteiro... – não consegui me segurar e fiz um comentário, que parecia ter saído direto das colunas de fofocas das revistas, mas ele achou graça.
— Não é que eu tenha desistido das mulheres, nem nada do tipo, é que minha vida é muito corrida e é difícil manter um relacionamento sério com alguém. Eu tive algumas namoradas durante esse meio tempo, mas parece que quando elas conhecem minha vida de verdade, todas fogem desesperadas e não voltam mais. Acho que não é um bom negócio para elas se tornarem a “Sra. Ethan Hyde”. Talvez eu não seja um partido tão bom quanto aparento. – concluiu ele, com uma gargalhada.
— Parece que a riqueza também tem seu lado negativo. – observei.
— O senhor nem imagina, Dr. Watson.
— Bem, acho que já é o suficiente, Sr. Hyde. – disse Holmes, aparentemente, mais satisfeito do que antes. – Pedimos desculpas por tomar o seu tempo e agradecemos por ter nos recebido.
— Espero ter podido ajudar em algo. Confesso que recordar daquela época, me fez querer também saber o que de fato aconteceu com Juliette.
— O senhor ajudou bastante. Garanto que em breve teremos respostas tanto para o Sr. Renard, quanto para o senhor. Nós, certamente, voltaremos. Até mais.
— Até mais, senhores. — disse o jovem homem de negócios, se levantando da poltrona para se despedir de nós com outro aperto de mão. – Pedirei ao cocheiro para que os levem até a saída.
— Grato pela gentileza, mas não será necessário, Sr. Hyde. Nós já conhecemos o caminho e gostaríamos de ir andando. – disse Holmes, recusando a carona, que eu certamente não teria recusado, mas se ele tinha feito aquilo, é porque tinha algo em mente. – Assim aproveitamos para apreciar melhor o seu belo jardim.
— Se os senhores preferem assim, fiquem à vontade. Ele é uma verdadeira obra de arte da minha mãe e merece mesmo ser apreciado.
Nos despedimos cortesmente e pouco tempo depois já estávamos do lado de fora da casa. Depois de caminhar alguns minutos em silêncio pelo jardim, Holmes finalmente resolveu falar o que estava pensando desde que havíamos passado pela porta.
— Eu já não tenho dúvidas, meu caro Watson. Infelizmente, Juliette Renard não voltará para o irmão, porque ela encontrou o seu fim dentro desta casa. No entanto, ainda não posso afirmar quem é o verdadeiro culpado, se Violet Hyde, Ethan Hyde, ambos ou alguém ainda desconhecido. – surpreendeu-me ele com a declaração. – Ah, e Lestrade foi envenenado aqui, disso tenho certeza absoluta.
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