A Criada Francesa

13 Provas são "colhidas"


Ainda atordoado com a afirmação repentina e categórica de Holmes, eu não conseguia entender como ele poderia ter deduzido tudo aquilo da conversa que tínhamos acabado de ter. Apesar de não concordar com a atitude dos Hydes, nada do que eles haviam dito tinha sido realmente incriminador.

— Como você pode ter tanta certeza disso? – indaguei, confuso. – Depois de escutar os dois, eu sinceramente, não vi muita coisa que pudesse incriminá-los dessa forma. Eles até me fizeram começar a cogitar a possibilidade de que Juliette tenha mesmo ido embora, uma vez que motivos não lhe faltavam. Não posso recriminá-la por não querer voltar a ver a cara de nenhum dos Hydes depois de ter sido “usada” pelo patrão e em seguida praticamente expulsa da casa. Eu, no lugar, dela teria feito o mesmo. Apesar de tudo, ao meu ver, eles são culpados apenas de serem dois canalhas ricos, que acham que podem usar os pobres e depois descartarem feito lixo.

— Temo que “canalhas ricos”, seja uma apenas um eufemismo para o que eles são. Acho que a palavra certa é “assassinos”. – disse Holmes seriamente. – E não me venha com essa de que você acreditou nessa história de que ela teria simplesmente juntado suas coisas e ido embora, porque isso não faz sentido algum e você sabe muito bem disso. Você e sua visão romântica do mundo! Por mais que a sua razão grite que isso é praticamente impossível, você teima em se apegar a uma ilusão tola de que ela está viva e feliz em algum lugar só esperando para fazer seu retorno triunfal.

Eu não podia negar que o desgraçado me conhecia bem. Era verdade que aquela teoria também não tinha me convencido totalmente e que eu queria me apegar a uma esperança quase infantil de que aquela história ainda poderia ter um final feliz, mas eu jamais admitiria que ele tinha razão.

— Bem, como você mesmo disse, é praticamente impossível, mas não completamente... Então não custa nada termos um pouco de esperança. – retruquei.

— Watson, para solucionarmos esse, ou qualquer outro caso, é preciso sermos realistas e nos atermos aos fatos, e não a esperanças fúteis. Como eu disse, ainda não posso provar que eles fizeram algo à Juliette, mas posso te dar algumas provas a respeito do caso de Lestrade agora mesmo. – disse ele com convicção, enquanto começava a caminhar lentamente.

— Observe esse jardim. – disse ele. – Veja todas estas flores, aparentemente inocentes, que enfeitam o lugar: copos-de-leite, lírios, azaleias, espirradeiras, dedaleiras, todas lindas e... todas venenosas. Esse jardim é praticamente um viveiro de plantas venenosas, que nas mãos de quem souber extrair todo o seu potencial, podem se transformar em verdadeiras armas mortais. E como você bem sabe, o que nunca faltou nessa casa, foram especialistas no assunto. Eu não vi a beladona que tirou Lestrade temporariamente do jogo, mas eu sei que ela cresce em lugares mais úmidos. Tenho certeza de que se procurarmos, mais precisamente, próximo do lago, a encontraremos. Venha comigo!

Assim que terminou suas explanações, Holmes olhou atentamente ao redor em busca de olhos observadores, e como não encontrou nenhum, saiu correndo em direção ao lago que não estava muito distante. Quando me dei conta, ele já tinha se embrenhado no meio do mato que rodeava parte dele. Sem outra opção, também olhei ao redor e corri atrás dele.

— A-há! Atropa belladonna!— exclamou ele antes que eu pudesse alcançá-lo dentro dos arbustos.

Quando finalmente o encontrei, vi que ele tinha razão. Atrás do lago havia um terreno pantanoso encoberto pela vegetação densa e lá estava ela, a temida beladona. Seu fruto, aparentemente inocente, que à primeira vista lembra uma cereja de cor preta e possui sabor adocicado, tinha sido responsável por enganar incontáveis pessoas através do tempo, levando-as a uma morte inesperada.

— Isso não é fácil de se encontrar atualmente, mas pode me ser útil algum dia. – disse ele enquanto arrancava algumas folhas e bagas da planta e as colocava no bolso interno de seu paletó.

— Vamos, Holmes! – chamei-o tentando não elevar muito o meu tom de voz. Eu queria sair daquele lugar o mais rápido possível, antes de sermos descobertos. Ele não respondeu, mas por incrível que pareça, me obedeceu. Quando finalmente estávamos prestes a sair do meio das plantas, demos de cara com um dos funcionários, um jardineiro. Para a nossa sorte, o rapaz, que não aparentava ter mais do que 20 anos, devia ser bem inocente porque não se deu conta de que estávamos bisbilhotando sem permissão, apesar de aquilo ser bastante evidente.

— Os senhores precisam de ajuda para chegar à saída? – perguntou ele, achando graça de ver dois homens adultos enroscados nas trepadeiras que envolviam os arbustos.

— Olá, meu jovem! – respondeu Holmes, tentando disfarçar. – Acho que acabamos perdendo o rumo neste maravilhoso paraíso botânico.

— Isso acontece com os visitantes às vezes. – respondeu o rapaz, estendendo a mão para nos ajudar a sair de lá. – Dizem que esse lugar é tão grande que até mesmo um funcionário já desapareceu no meio desse mato e nunca mais foi visto. – disse o jovem, dando risada.

— Não me diga! Mas que história mais curiosa! – respondeu Holmes, já se interessando por aquela nova informação, assim como eu. Seria possível mais um desaparecimento naquele lugar? Aquilo era uma casa ou o Triângulo das Bermudas?

— Ah! Eu estava só brincando. Isso é o que os empregados mais antigos contam para assustar os novatos. – respondeu ele, achando graça por termos levado à sério a piada. Mas também pudera, com o histórico daquela família, tudo naquele lugar parecia ser possível, por mais absurdo que fosse. – Mas se os senhores quiserem, eu os acompanho até o portão.

— Nós ficaríamos muito gratos, meu rapaz. – agradeci.

O jovem jardineiro nos acompanhou até a saída e em poucos minutos já estávamos de volta em frente ao enorme portão de ferro. Assim que chegamos à rua tomamos uma carruagem de aluguel de volta à Baker Street.

Durante o caminho, tentei arrancar mais algumas informações de Holmes, pois para mim ainda era difícil acreditar que a pobre criada pudesse estar mesmo morta e enterrada em algum lugar dentro daquela propriedade, e ainda mais sendo assassinada daquela maneira vil e por um motivo tão fútil.

— Holmes, você acredita mesmo que eles teriam coragem de tirar a vida de uma inocente? Apesar de toda a canalhice, eles foram tão educados e solícitos conosco...

— É justamente aí que mora o perigo, meu caro Watson. Hoje pudemos testemunhar o quão dissimulados e convincentes aqueles dois podem ser. Eu não só tenho certeza de que se livraram de Juliette, mas também acredito piamente que Alexander Hyde não sumiu em meio a floresta tropical, como o mundo todo acredita. Acho que fizeram alguma coisa com ele assim que retornou de sua expedição, só não sei o quê nem por qual motivo.

— Você acha que o filho pode ter dado cabo do pai para assumir a empresa?

— Não sei, mas tudo pode ser possível em se tratando dos Hydes. Não creio que isso esteja diretamente ligado ao caso de Juliette, já que aconteceu antes de a moça os conhecer, mas quem sabe, desvendar esse outro mistério, nos ajude a conseguir provas da má índole dessa família. Aqueles dois são verdadeiros monstros por trás de toda aquela fachada de elegância e nobreza, mas a máscara deles vai cair, mais rápido do que eles imaginam.

— Então me conte o que você está pensando. – pedi, já morrendo de curiosidade.

— Para mim está bem obvio que Ethan Hyde se aproveitou da pobre, e já abalada, Juliette. Ele a usou o quanto quis e quando precisou se livrar da amante inconveniente, recorreu à mãe. Me pareceu que a mãe exerce uma grande influência sobre o filho, embora ele já esteja bem grandinho para tomar suas próprias decisões. Eles poderiam apenas tê-la demitido, como disseram que fizeram, mas isso não a impediria de algum dia contar o que havia acontecido. Então, para não passar o resto da vida temendo que isso acontecesse, preferiram silenciá-la para sempre e depois disseram a todos que ela simplesmente havia ido embora.

“O plano era perfeito. O que é mais fácil do que desaparecer com alguém já quase invisível perante a sociedade? Ninguém jamais saberia da verdade, afinal os únicos que poderiam questionar a história eram a sua família, que estava há quilômetros de distância em outro país. Porém, eles não contavam com a perseverança da Sra. Renard. Jamais imaginaram que a mãe de Juliette viria procurá-la, mas até nisso eles deram sorte, já que a pobre mulher também acabou morrendo antes que pudesse descobrir algo e causar-lhes algum problema.”

“O que me leva a ter tanta certeza de que eles seriam realmente capazes de tal barbárie é justamente o “sumiço” de Alexander Hyde. Se ele realmente foi visto em sua casa antes de desaparecer, voltamos novamente aos nossos dois suspeitos principais: Ethan e Violet Hyde. Se eles foram, capazes de sumir com um membro da própria família, eliminar uma humilde empregada e envenenar um policial, foram brincadeiras de criança.”

Holmes tinha razão e me arrepiava os cabelos só de pensar que tínhamos estado na presença de dois assassinos frios, que aos olhos de qualquer um se passariam por cidadãos exemplares e acima de qualquer suspeita.

— Meu caro Watson, aqui temos o exemplo perfeito de o que o dinheiro e a busca desesperada por mantê-lo, aliados à falta de caráter são capazes de fazer.

— Mas se você estiver mesmo certo, acho que teremos dificuldade em provar tudo isso, porque a história deles foi bastante convincente. Os dois nos contaram exatamente a mesma história, não houve nenhuma divergência entre eles, o que me leva a acreditar que é verdade ou que os dois ensaiaram muito bem o que falariam caso fossem questionados a respeito do fato.

— Não acredito que eles tenham mentido descaradamente e ensaiado suas histórias, muito pelo contrário, também acredito que nos disseram a verdade, mas creio que nos omitiram parte da história, uma parte muito importante, e acho que a verdadeira causa de tudo isso. Mas em uma coisa você está enganado, Watson. Como eu já havia dito antes, você ouve, mas não escuta. Eles não contaram exatamente a mesma história, embora tenham dito basicamente a mesma coisa. Nesse caso, os detalhes fazem toda a diferença e acho que eles já podem ter me dado uma pista do verdadeiro assassino, mas não falarei nada até ter certeza.

Aquela última declaração de Holmes tinha me deixado encucado. O que eles poderiam ter dito que eu não havia captado? Fiquei intrigado e aquilo tinha sido muito cruel da parte Holmes, já que daquele momento em diante passei a rememorar toda a conversa em busca de algo que eu tivesse deixado passar.

Após me contar sobre suas hipóteses, meu colega permaneceu o restante do percurso em silêncio. Mesmo ele não sendo muito afeito a demonstrar emoções, percebi que estava sério, talvez desapontado por não poder solucionar o caso como gostaria para o Sr. Renard. Eu estava devastado por descobrir que a pobre Juliette não estava apenas desaparecida, mas certamente morta e que seu corpo, provavelmente, jazia em algum canto daquele enorme e belo jardim. Era preciso expor toda a podridão daquela família, e mesmo que não pudéssemos trazer Juliette de volta para o irmão, daríamos um descanso digno para aquela pobre alma. Aquilo havia se transformado em uma questão de honra.

Notas finais
Todas as plantas citadas nesse capítulo são realmente venenosas, portanto, cuidado com elas! ;)