A Corte do Bobo
6 Sem Rendição
Notas iniciais
Após alguns momentos de conversa aleatória sobre as experiências adquiridas com esses desfechos, Jester resolveu tocar num assunto de maior importância para ele.
— Você tem notícias do Urgan? — Mas antes de responder essa pergunta, Dalibor também expressou um breve questionamento.
— O que você descobriu sobre os passos de Razallath durante seus anos em Zívia?
— Eu falo primeiro então. Bom, resumidamente... Andei estudando sobre ele durante dia e noite sempre que possível. Inclusive, contratei espiões para isso, e cara, descobri coisas bem úteis.
— Por exemplo?
— Zarlek, o Rei Espantalho, faz viagens trimestrais para todos os reinos súditos ao demônio, com a intenção de mantê-los abastecidos de alimentos. Além de que, uma vez ao ano todos se reúnem possivelmente no reino do próprio Razallath para debater assuntos diversos que não fui capaz de saber ainda.
— Entendo. Enfim, vamos discutir essas informações melhor em breve, e quanto ao Urgan... bem, acredito que você já tenha uma ideia do que aconteceu com ele após você forjar a própria morte.
— Sinto cheiro de depressão... — Comentou ele observando o reino a partir da janela principal do quarto. — Sabe onde eu posso encontrá-lo depois?
— Supreendentemente, Urgan continua cumprindo a ordem estabelecida por seu pai no julgamento, de não poder sair dos limites de Vorosan e permanecer sempre por perto. As últimas notícias que tive sobre ele, era que estava enriquecendo os donos de tavernas usando o dinheiro que restou do tempo dele como general, da mesma maneira que o Alaric sempre fazia. E também, uma vez ou outra aparece metido em confusões pela cidade, apesar da maioria delas nem serem causadas por ele próprio. — Lembrando da confusão que aconteceu na entrada do palácio pouco tempo depois da notícia da morte do próprio Jester, a frustração e tristeza nos olhos do ex-general eram tão claros quanto o dia. — Sobre a depressão, sim, ele se mantém muito quieto e neutro quando sóbrio, porém, muito barulhento e depressivo quando bêbado! Os donos de bares já estão de saco cheio de o ouvirem se lamentar.
— Entendo, e ele mantém uma rotina de treinamento ainda ou se jogou no álcool e desistiu da vida? — De braços cruzados ao lado da janela.
— Até treina de vez em quando, mas comparado ao que já foi um dia, ele já perdeu e está muito longe do auge. Ao que parece, uma das únicas formas de treinamento dele é ter que lidar constantemente com os civis de Vorosan furiosos, que ainda insistem nele ser um traidor, e também um dos principais causadores da queda do Reino. — Lembrando das guerras de facções com ideais diferentes da realidade, enquanto Urgan se acaba na cachaça, nem percebe que existe um movimento lutando pela ideia de sua inocência e ajudando nas divergências políticas que perturbam a paz do reino. — A mesma desaprovação acontece comigo, mas, o fato de eu manter o cargo de rei me permite ser mais cauteloso, e você mesmo viu toda a armada pessoal que anda comigo para todo lado.
— Espera aí, quer dizer que, além dos malucos que só querem causar confusão e foram mortos no extermínio, os apoiadores de vocês dois ficam guerreando por aí e trazendo problemas para a estabilidade de Vorosan? Vocês dois criaram o... sei lá, Urganismo e Daliborismo?!
— Eeeh, então, uma colocação que eu não esperava, mas é basicamente isso mesmo.
— Mas que merda em... — Disse o príncipe rindo de nervoso com todas essas confusões que uma hora ou outra teriam que corrigir, se não, metade de Vorosan iria de arrasta para cima em um novo extermínio das massas populacionais. — E quanto ao Rugnar, aquele anão safado? O que aconteceu com ele nesses anos?
— Ah, ele ficou em Vorosan cumprindo a “dívida” que adquiriu com o Legório, ainda que o próprio Legório nunca tenha criado dívida alguma que o Rugnar teria de pagar, e também, ele sempre teve permissão para partir quando sentisse vontade. Enfim, orgulho de anão! Ele permaneceu todos esses anos treinando pessoas com a Classe Ferreiro, tanto para diminuir a carga de trabalho dele próprio, quanto para fortalecer Vorosan na raiz de tudo. — Lembrando das aulas que ele ditava para centenas de candidatos, e o tratamento extremamente “gentil” que ele dava a todos. — Hoje em dia, ele é conhecido como: Mestre Rugnar pelos seus aprendizes, e tudo o que ele diz a eles é: “Parem de formalidades, seus frouxos de braços de papel. Hoje é dia de esquentar o moldar o aço, não quero ver ninguém com corpo mole nessa porra, senão vão levar bastão de metal diretamente no cu!”, típico dos anões.
— Isso é bem a cara dele mesmo! — Rindo descontraidamente. — Pelo visto então, ele não mudou nada, só acontece que agora tem uma cambada de malucos o seguindo. — Ambos riram bastante, Rugnar era de fato uma figura extremamente cômica. — E aqueles parasitas do conselho, ainda perturbando a paciência dos verdadeiros nobres?
— Não seja tão cruel com todos, Jester.
— Não, todos não, me referia àquele velho otário lá, qual nome dele mesmo?
— Claudius...
— É, esse mesmo. O insuportável! E como ele tá? Respirando ainda ou posso ficar feliz em saber que não? — Ele realmente não suportava aquele velho homem.
— É, ele já não respira mais a algum tempo, agora deve estar perturbando a ordem dos conselheiros do submundo com seu conhecimento equivalente ao de uma porta.
— Mas uma porta não tem conhecimento, ela sequer tem consciência...
— Exatamente, jovem Jester, exatamente!
— Hahaha! Velho sem noção, nem na morte ele é levado à sério. E quanto aos demais? A Condessa, Dariush... — Buscava notícias dos membros relevantes do conselho.
— Partiu juntamente dos demais membros para Ardalan, se estabeleceram por lá por conta dos riscos de vida da nobreza atrelada ao meu poder aqui em Vorosan. Quanto à Condessa, bem, se tornou rainha do seu império crescente, antes era apenas uma cidade portuária, mas tem obtido tanto progresso que ao longo desses quatro anos, se expandiu ao ponto de caminhar lentamente para se tornar um grande império num futuro próximo.
— Então ela prosperou, isso é bom.
— Sim, e ainda mantém uma ligação muito forte com Vorosan apesar das crises. É uma mulher honrada, jamais abandonaria quem a ajudou por muito tempo sem uma razão lógica! No entanto, ouvimos por aí que ela tem tido desavenças com um certo povo do mar que era comandado pelo Leviatã, e com a morte dele na investida do Rei Legório, algumas perturbações andam acontecendo, mas isso não vem ao caso agora.
— É ótimo saber que os úteis à Vorosan ainda se mantém firmes e fiéis apesar de estarem com problemas aparentes. Agora que retornei, devemos começar o que foi planejado há quatro anos atrás. Temos de destituir os reis de Razallath, e tomar deles os recursos para Vorosan da mesma maneira que fizeram conosco depois que mataram meu pai. — A hora dos planos maquiavélicos estava chegando, e o momento de revidar toda a desgraça que trouxeram para seu lar durante muito tempo.
— Estou ciente desse fato, obviamente não planeja ir sozinho e também já deve saber muito bem qual será o primeiro reino após quatros anos de análise.
— Tenho alguns planos para isso, e primeiro vou precisar de duas cartas suas de recrutamento.
— Vai atrás dele?
— Pode crer que sim, ele vai ser muito útil ainda. — Dalibor pegou algumas cartas e começou a escrever, deixando Jester expectante daquilo.
— Apesar de tudo, você parece bem são.
— É a vida, se você não encarar os problemas com pulso firme, eles derrubarão você depois. E sabe, digo o mesmo de você, velho amigo. — Desde o começo, Dalibor percebeu a evolução de Jester ao longo de anos de preparação, tanto na questão física quanto na maturidade e modo de agir.
— Eu tinha uma missão, não podia falhar. — Lembrando das incontáveis noites batendo cabeça numa mesa de biblioteca lendo manuscritos antigos sobre magia e aprendendo sobre sua Classe de Bobo da Corte, não era muito acostumado a estudar sem ser ordenado pelo pai, então isso foi uma bela tortura, mas com um propósito extremamente necessário. — Suas instruções de combate e estratégia militar realmente ajudaram bastante nas caçadas que fiz para colocar o que aprendi em prática. — Dalibor desviou a atenção para ele, interrompendo brevemente as assinaturas.
— Sério? Eu te vi crescer, rapaz, e a última coisa que via você fazendo era levar à sério o que os outros lhe ensinavam. Mas pelo visto, o tempo refletindo ajudou mesmo...
— Fazer o quê né! — Sorrindo de constrangimento, nesses quesitos, Meirin sempre se destacava mais, apesar de que Jester tinha total capacidade para acompanhar e até mesmo superar o irmão, o único detalhe era que não via tanta utilidade nessas coisas em sua mente jovial na época. — Além de tudo, tem uma coisa que eu preciso te contar...
— Que seria? — Curioso.
— Quando matei aqueles dois vermes no dia em que parti, eu quase fui derrotado depois que o Darlan apelou para as Amplificações de Classe em conjunto. A força que ele adquiriu mesmo com apenas um único braço para lutar, foi surreal.
— “Amplificações em conjunto”? Até para eles, isso é loucura. A carga de estresse imposta ao corpo com apenas uma amplificação já é grande, as variações em totalidade causariam danos avassaladores no hospedeiro.
— Realmente, mas aquele desgraçado parecia estar se movendo na força do ódio. — Nesse momento, Dalibor percebeu haver uma mecha branca em destaque em meio à cabeleira loira do príncipe e se aproximou para dar uma olhada mais detalhada. — Então...
— E você fez a mesma coisa, não foi? — Questionou com grande seriedade, era um fardo exageradamente pesado de se carregar, ainda mais em tão tenra idade.
— É, fiz. Mas foi um ato impulsionado pelo desespero, aquele cara mesclou o cântico, verbal e manual das amplificações. Chegou muito perto de me matar! — As lembranças do combate mortal sob a chuva de uma violenta tempestade de raios voltavam a sua mente, foi muito perigo, mas também muito glorioso.
— Se você ainda está vivo, alguma coisa a mais aconteceu, não é?
— É aí que eu queria chegar. — Respirando profundamente, nem ele próprio sabia como explicar o que aconteceu no final daquele dia infortunado, só lembrava de estar no chão e depois acordou com seus fios em forma de espada atravessando o pobre desgraçado de Darlan que sucumbiu em seguida e literalmente perdeu a cabeça com isso. — Na época, ainda não sabia muito bem sobre como funcionava essa minha habilidade, que deixa o ambiente num completo breu e com o vulto dourado.
— Espera... — Reorganizando os pensamentos. — Aconteceu de novo?
— Não apenas aconteceu, mas posso afirmar com convicção, que o pai aqui já aprendeu muito bem sobre como botar essa brincadeira em ação! — Seu sorriso sacana tomou conta de seu rosto. — Eeeh, mas acho que é melhor deixar isso em segredo por enquanto, principalmente dos meus aliados na missão, especialmente o Urgan, faz oito anos que não o vejo e preciso saber se ele ainda é um homem de confiança! — Finalizou grande seriedade nas palavras. Apesar de Urgan ser seu irmão, foram quase dez anos mergulhado até o pescoço no poço da depressão, e se havia algo que Jester tinha certeza, era que poderia encontrar tudo, exceto o general audaz que ele um dia foi.
— É uma sábia decisão... No entanto, posso perguntar sobre como aprendeu a usar essa habilidade? Pois você sabe muito bem dos dias perdidos em que tentamos recriar essa manifestação no ambiente, e apenas conseguimos perder tempo. — Aqueles dias foram tensos nas vidas dos dois.
— Zíria, a Rainha, me ajudou de certa forma a usar magia para explorar minhas capacidades que eu próprio desconhecia. Uma espécie de autoconhecimento místico, por assim dizer. Enfim, passei dias com a cara enfiada em livros sobre essas coisas e andei praticando nos campos de treinamento de Zívia, percebi que nas ocasiões em que essas singularidades aconteceram, meu corpo e mente estavam dominados por um estresse e fraqueza extrema. — Dalibor lembrava do primeiro acontecimento, Jester passou o dia, não, anos inteiros sendo espancado durante as “lutas” de treinamento, e em uma daquelas ocasiões rotineiras o tal fato sucedeu. — A luta com Darlan foi a experiência que me levou o mais perto até hoje da morte certa, e usei esse detalhe como o catalisador da busca pela descoberta. — Se Dalibor pudesse examinar Jester agora, ficaria estarrecido com todas as marcas, calos e cicatrizes espalhadas por todo seu corpo nas incontáveis tentativas e erros para atingir seu limite humano.
— Resumidamente, você quase se matou para alcançar os resultados que queria. — Disfarçando a feição de sarcasmo no rosto.
— De maneira literal, foi isso aí mesmo... — Respondeu satisfeito com o resumo do velho homem.
— Você é maluco, cara. — Riso controlado.
— Eu sei! — Os velhos amigos não aguentaram e caíram na gargalhada em seguida.
— Parece que você conheceu Zíria de maneira mais próxima do que eu esperava...
— Ah, ela me ajudou bastante no treinamento e tal... — Foi interrompido.
— Imagino que já saiba que ela é um dos súditos de Razallath, também imagino que saiba que você terá que enfrentá-la no futuro e com os propósitos corretos, certo? — Questionando seriamente o bobo da corte, pois havia percebido uma pequena fagulha de afeição ao mencionar a bela rainha sanguinária.
— Mas nem a pau! — Respondeu de maneira explosiva e enérgica, assustando o Rei que esperava no mínimo uma reação mais emotiva do mesmo.
— Eita! Calma, o que há de errado? — Essa reação ele não tinha previsto nem por um instante, dado a forma que Jester transparecia ao mencionar a soberana do Reino da Magia. — Achei que vocês eram amigos, que reação foi essa?
— Sim, somos amigos. Mas ter que lutar com ela é outra realidade... Embora seja fofa e gentil na maioria do tempo, eu já vi o que os poderes dela suprimidos são capazes de fazer com quem representa ameaça! — Durante as jornadas de limpeza aos arredores de Zívia, Jester encarou inimigos ainda mais poderosos que o próprio Darlan, que lhe causaram grandes problemas durante os enfrentamentos, e tinha certeza de que só havia sobrevivido graças aos seus anos de treinamento, caso contrário, teria sido morto há muito tempo. E viu Zíria exterminar cada um deles com cintilar do poder mágico de seu cajado, estraçalhando hordas inteiras de criaturas em poucos instantes; ela era a verdadeira definição de exército de uma pessoa só, desafiá-la diretamente era uma sentença de morte declarada. — Ela é uma grande mulher, e farei o possível para não precisar chegar nesse ponto! Mas se chegar... — Se aproximando do Rei Dalibor. — Mesmo com um exército ao meu lado, a vitória ainda será incerta!
— Parece que seu temor por ela é maior que a admiração. — Comentou ao sentir a tensão nas palavras do jovem príncipe.
— Eu diria que são sentimentos equivalentes. — Lembrando do dia em que a conheceu após despertar completamente remendado numa cama de hospital. — Zíria é extraordinária, mas ela consegue me assustar bastante!
— É, as lendas a respeito dos feitos de força dela são realmente notáveis.
— Essa é uma análise bem simplória a meu ver. A Rainha Zíria possui domínio do espaço-tempo, capaz de acessar qualquer lugar do mundo de maneira instantânea com a ajuda dos seus portais. Além de que ouvi boatos por aí de que ela foi capaz de erguer com facilidade uma fornalha gigante com uma só mão, diferente de vários outros súditos espantalhos do cabeça de abóbora lá que falharam nisso!
— Como soube disso?
— O nobre que foi o mediador da transação alimentícia com o Rei Espantalho contou para todos. Parece que a especialização dela é o controle da gravidade, alterando pesos e massas de objetos livremente, tornando extremamente leves ou pesados, conforme a vontade da mesma. — Esses feitos de alteração de gravidade de objetos poderiam sugerir que a força física da rainha não fosse tão grande como muitos pensam, porém, é fato de que ela é uma das criaturas mais fortes que já pisaram nesse mundo, e poderia fazer muito mais sem precisar alterar os fatos, apenas não vê motivos para fazer do modo mais difícil se pode fazer da sua própria maneira. — Só falei coisas que escutei por aí, deve haver muito mais que não tive conhecimento ainda...
— Imagino, depois pensamos nesses assuntos. — Pensativo, relatos diziam que Zíria era muito habilidosa com magia de cura, e isso fez Dalibor lembrar de um pequeno detalhe em Vorosan que o deixava de mãos atadas.
— O que te incomoda, companheiro?
— Lembra de quando falei que muitos religiosos fugiram para Ardalan? Então, eles eram as únicas pessoas capazes de usar magia de cura que sobraram durante os dias mais complicados dessa guerra civil. — Tempos difíceis levaram toda mão de obra capacitada para longe do progresso do império, e os dias de ouro de Vorosan pareciam cada vez mais distantes.
— E quais medidas você tomou para driblar essas adversidades?
— Juntei os cacos e investi na velha medicina tradicional. É um caminho mais demorado e arriscado, mas é a única coisa capaz de suprir a ausência dos magos curandeiros! Centenas de voluntários receberam a oportunidade de serem treinados por profissionais contratados de outros cantos do império, e obviamente fizemos entrevistas e interrogatórios para termos noção de quem realmente eram as pessoas que buscavam esses conhecimentos.
— Sensato, vai que eram membros dos anarquistas tentando sabotar seus planos. — Dalibor concordou com o pensamento do jovem, não se podia confiar na boa vontade de ninguém nesses tempos de crise.
Depois de muita prosa entre os dois amigos de longa data, Dalibor finalmente terminou de preparar os cartões de recrutamento com o seu selo real e os entregou, desejando boa sorte na procura por Urgan pelas milhares de tavernas espalhadas por Vorosan, era certo que nestas horas ele estaria por aí à beira do desmaio com seus rins implorando por misericórdia.
Na saída do palácio, Jester questionou os soldados que patrulhavam as ruas da cidade constantemente sobre o paradeiro do general que virou um mendigo pinguço. O falecido Rei Legório decretou que o mantivessem sob constante vigilância para que não fugisse, então, era dever deles saber dessa informação, mas, seus questionamentos não resultaram em nada e ele continuou vasculhando pela cidade, recebendo informações sobre os lugares onde Urgan costumava aparecer e outros onde era linchado pela população. Horas mais tarde e ao menos vinte tavernas visitadas, incluindo aquelas que Alaric mais frequentava, Jester encontrou um dos últimos pontos de referência do subúrbio de Vorosan, lar das prostitutas, bêbados e miseráveis.
A apresentação do ambiente não era nada agradável para quem não era familiarizado com tamanho descaso com a higiene, ratos transitavam pelos becos escuros e úmidos, fazendo companhia para os cachaceiros desmaiados em meio ao lixo e entulho. Pessoas mal-encaradas observavam Jester trajado naquela fantasia azul e dourada de bobo da corte, alguns até cogitavam perturbar a paciência do mesmo e tentar tirar alguns trocados para tomar uma saideira nos bordéis, mas a silhueta do príncipe disfarçado expelia um ar de grande imponência, deixando sua apresentação confundir os sentidos dos demais e estava pronto para encher de porrada quem tentasse lhe importunar.
— “Olho da Morte”, nomezinho bem convidativo. — Disse o bobo da corte rindo de forma sarcástica ao ler o cartaz de apresentação na entrada do estabelecimento. — “Prato do dia: Costela de Porco Defumada!”. Pelo menos é barato! Vou ver com o Dalibor mais tarde se dá para ordenar algumas medidas sanitárias para melhorar um pouco essa parte da cidade. — Lembrando de quando fez os planejamentos de enfraquecer o reino juntamente do Rei Dalibor, Jester ria de nervoso. — Dalibor, sua missão de deixar o reino em péssimo estado está se mostrando muito bem-sucedida. — Passando pela porta, acionando um sininho na entrada que chamou a atenção de todos os fregueses do estabelecimento, exceto um certo mendigo com uma caneca de cerveja no balcão, perturbando a paciência do barman com suas lamentações de vida.
No entanto, ao dar o primeiro passo dentro da taverna, foi empurrado contra a parede por alguns homens raivosos e impacientes que entraram logo em seguida.
— Sai para lá, porra! — Simplesmente empurrando Jester para o canto da parede, e depois avistaram Urgan, ignorando completamente o que acabaram de fazer.
— Bando de arrombados! — Pensou Jester contendo os fios dentro da roupa, na verdade ele queria saber o motivo daqueles caras terem mudado de feição tão rápido quando viram o ex-general no balcão enchendo a cara descontraidamente.
— Quem diria em... — Cinco homens de facções opositoras à Urgan se reuniram naquele lugar ao redor do mesmo, afugentando as pessoas ao redor que apenas bebiam suas bebidas tranquilamente. — Vejam, senhoras e senhores! O cara que fodeu o reino veio dar o ar de sua graça... — Dando um tapa nas costas de Urgan, que por pouco não deixou o copo de cachaça cair de sua mão.
— Falou comigo, cidadão? — Questionou o bebum um pouco desorientado.
— Urgan, do alto escalão da Guarda Real para o fundo absoluto do poço. Que destino de merda em amigo! — Todos começaram a rir histericamente em zombaria.
— É, muita merda... — Soluçando após litros e litros de cachaça, e se virou para a pessoa que o provocava. — Ah, que lástima. Pela voz de macho forçada, pensei que teria um homem aqui que aguentasse levar umas porradas, mas só vejo uma mocinha em busca de atenção...
— Num é que o cara está engraçado hoje! Pensei que iria continuar chorando por causa da sua vida fracassada.
— Ah, não. Meu amigo barman aqui já está careca de saber disso! — Rindo e tomando mais um copo. — Mas né, tem razão, puta vacilo meu naquele dia... perdi minha casa, meu trabalho, família. — Seus olhos já eram inchados por conta das milhares de noites em claro chorando sem parar, e sempre arranjava uma forma de chorar ainda mais apenas em lembrar de fagulhas das causas de suas frustrações. — Eu vivia na realeza, agora estou aqui afundado na merda junto de vocês! Hahaha! — Ele ria e lagrimava ao mesmo tempo.
— Sim, era do alto escalão e se achava melhor que todos nós. Um general incompetente que tentou subir além do que podia, e atentou contra a estabilidade desse reino... todos perdemos por causa dessa sua imbecilidade! Me surpreende que ainda não tenham te matado como vingança por tudo isso. — Continuou zombando da ruína do ex-chefe da guarda.
— Ah, é? E por que você não me mata para acabar logo com isso? Se fizer isso, estará me fazendo um grande favor. — Apertando o peito e tomando mais um gole, e o bobo da corte apenas assistia o desfecho daquela cena com atenção naquele bar de última categoria.
O Olho da Morte se destacava na sua decadência. Cada centímetro do interior era um testemunho da passagem impiedosa do tempo. O chão de madeira rangia sob cada passo, enquanto as tábuas desgastadas pareciam prestes a ceder a qualquer momento. A iluminação, filtrada pelas janelas quebradas, formava feixes de luz empoeirada que realçavam os vultos sombrios na penumbra.
O balcão de madeira, uma vez polido, agora exibia cicatrizes profundas de anos de uso. Manchas escuras de cerveja e resquícios de refeições malfeitas adornavam sua superfície. Copos irregulares, alguns lascados, estavam alinhados em uma ordem precária, enquanto o odor penetrante de álcool, impregnava o ambiente misturando-se ao cheiro de madeira mofada e à fuligem das velas queimando irregularmente sobre as mesas. Cadeiras de ferro frágil e madeira, rangendo ao menor movimento, suportam uma clientela variada.
Os frequentadores, sombras de vidas difíceis, ocupavam lugares escassos. Homens abatidos por desventuras, alguns adormecidos sobre as mesas, enquanto outros tentavam manter conversas apagadas. Cantos escuros eram ocupados por facções sinistras, sussurrando conspirações sob a penumbra.
Jester se sentou em uma cadeira no canto do bar, lembrando das palavras de Dalibor sobre os tempos terríveis que Urgan enfrentou nas ruas, e os treinamentos tentando sobreviver à fúria dos cidadãos que um dia o saudaram como um herói, mas agora o veem como a mais nojenta escória de Vorosan. A intenção do Bobo, era ver se Urgan realmente estava apto para conseguir lidar com as ameaças que viriam com a jornada que planejava seguir; e essa briga de bar comprovaria os resultados obtidos.
— Lá fora, agora! — Ordenou ao bebum depressivo na cadeira do balcão.
— Uai, por quê? — Escorado na superfície de madeira que o separava do acesso das demais bebidas à disposição. — Eu estou bem aqui, vai é só enfiar uma faca no meu coração e acabar com isso... — Erguendo a camisa até o peito, deixando a guarda completamente aberta para um golpe direto e fatal do membro de facção. — Anda! — Há uma grande velocidade de movimento, Urgan alcançou a mão esquerda do homem que segurava uma faca no coldre na cintura a puxando diretamente para sua própria barriga. — Você não está puto comigo?! Anda, eu estou bem aqui! — As pessoas ao redor estranhavam essa ação maluca do ex-general, literalmente implorando para que finalizassem sua vida ali mesmo. — É só um deslize da mão e tudo acaba para mim! — A lâmina começava a perfurar sua barriga e o sangue escorrer levemente, essa insanidade fez os delinquentes recuarem levemente de suas intenções anteriores.
— Você é doente! — Berrou o homem acovardado, tremendo no lugar de nervosismo com reação inesperada de Urgan.
— Não, essa porra de mundo está doente! Eu sou apenas um fruto dos anos que passei me ferrando nessa porra de sociedade. — A depressão parecia ter se transformado em loucura. — Anda! Não era isso o que você queria?! — De repente, Urgan o desarmou e quebrou uma garrafa de Whisky de cinquenta anos em sua cabeça, o fazendo cair desmaiado com sangue escorrendo do crânio e fazendo a máscara de Jester se moldar num sorriso de empolgação extrema. — Se vai ficar só fazendo cena, então não interrompa enquanto estiver tomando minha dose! — Bebendo todo o líquido que restava no copo e ordenando ao barman que enchesse novamente. Porém, Urgan percebeu que os acompanhantes do desmaiado não recuaram, e pareciam ainda mais raivosos para começar uma briga depois do líder ter sido nocauteado. — Vão querer também? Tem garrafas aqui para todo mundo! — Tomando mais alguns goles, seus sentidos já foram tão prejudicados pelo alto índice de álcool que os nervos receptores de dor nem deveriam estar mais funcionando.
Todavia, antes que a verdadeira briga começasse, todo o salão foi subitamente tomado por uma melodia frenética tocada por um ukulele. Ao desviarem a atenção para o ponto de surgimento do som, perceberam o bobo da corte escorado numa cadeira logo a frente da entrada do bar com suas pernas esticadas acima de uma pequena mesinha com um vaso de planta.
— Ah, não se incomodem comigo, podem continuar se matando! — Falou Jester tocando o instrumento com ainda mais intensidade, aflorando os sentidos esquentados dos participantes da confusão que se instaurava naquele estabelecimento. Mas, sua ação acabou por também atrair a atenção do próprio Urgan que rapidamente foi tomado uma vaga lembrança de anos antes.
— Bobo da Corte? — Pensava Urgan com sua mente deteriorada por tanta bebida, em seguida, lembrou da violenta discussão que teve com Dalibor, e das palavras proferidas por ele durante o momento em que foi deixado inconsciente. — “Confie no bobo da corte...” — As palavras de Dalibor ecoavam em sua cabeça como um filme interminável, fazendo Urgan baixar a guarda e recebeu um soco no rosto de um dos arruaceiros restantes que fez cair no chão que nem pedra.
— Tá olhando para onde?! — Disse o agressor retirando o casaco e se preparando para descontar toda a raiva da população no causador de toda a desgraça do reino.
A atmosfera do bar estava impregnada de tensão quando os quatro inimigos, motivados por ressentimentos e busca de alguma gratificação para com suas facções opositoras, avançaram contra o ex-general, que se encontrava em um estado de embriaguez e distração com o músico bobo da corte.
Os malfeitores, desprezando a condição alcoólica do ex-general, começaram a desferir golpes desordenados em sua direção quando ele se levantou. Urgan, apesar de sua falta de concentração evidente, reagiu instintivamente, movendo-se com uma agilidade surpreendente para alguém em seu estado. Ele segurou o braço daquele e o bateu primeiro e chutou outros dois para trás que caíram sobre as mesas de outros bêbados.
— Eu estava distraído! — Disse ele com sua voz desengonçada.
— Foda-se! — Respondeu o agressor se soltando e chutou Urgan que recuou até o balcão novamente, derrubando a caneca de bebida no chão.
— Porra, derrubou minha bebida! — Avançando novamente no homem com um soco que foi segurado por ele, mas Urgan insistiu e o atingiu com uma cabeçada, depois o quarto adversário se intromete quebrando uma cadeira em suas costas. — Aaah! — Caindo de novo no chão e sendo chutado pelos quatro já recuperados.
Por outro lado, Jester continuava tocando a melodia e a feição da máscara mudou, de empolgação para desgosto, ele estava realmente inconformado com esse desempenho nada impressionante de seu meio irmão.
— Só isso? Vinte segundos de luta e ele já caiu de cara no chão duas vezes. Dessa forma ele vai ser morto no primeiro rei! — Urgan apenas tentava resistir aos chutes sob os urros da plateia torcendo por sua morte, mas a dor física era o menor de seus problemas, ele continuava perdido em pensamentos com tudo o que vinha acontecendo. Já estava cansado de tudo isso, poderia simplesmente deixá-los terminar o serviço e ele estaria livre para sempre de toda essa desgraça.
Quantas vezes ele já se viu dessa forma? Caído no chão, com golpes e berros de daqueles que o repudiavam. Essa nem de longe era a vida que ele almejou no princípio, e muito menos fez algo para merecer tudo isso; mas quem acreditava de fato nisso? Não tinha mais nada, todos se foram e restou apenas ele largado na sarjeta do império que ele jurou proteger com sua vida. Ele via de relance, as feições das pessoas ao seu redor, tomadas por ódio e devassidão, criaturas infectadas pelos males mais pútridos do mundo.
As lembranças de sua família sempre foram um conforto para Urgan nos momentos mais cruéis de sua realidade, sentia falta de tudo e faria qualquer coisa para voltar no tempo e impedir que a desgraça voltasse a cair em suas vidas. Ele sorria mesmo sob a dor constante, imaginando o que seus irmãos, principalmente Jester, diriam se o vissem naquela situação de merda nas mãos da escória do reino.
— Bora, Urgan! Levanta seu bêbado desgraçado, e mata eles! — Na mente enfraquecida de Urgan, eram essas palavras que Jester diria, porém, para sua surpresa em meio aos berros da multidão, ele de fato escutou essas palavras ecoando no ambiente.
— Hã?! — Sua atenção foi novamente tomada pelo bobo da corte no canto da sala, ignorando completamente os golpes e gritos das pessoas. — Essa voz... — Pensando.
— LEVANTA PORRA! — Agora, todos os presentes pararam para encarar o homem de azul com o instrumento musical. — Ops, foi mal galera! Aliás, se liga na música braba do pai... — Tocando com ainda mais intensidade, elevando os espíritos exaltados dos presentes. — Um duelo lindo desses sem música? Jamais! — Ele era literalmente um alívio cômico ambulante, desviou a atenção de todos para si e ainda fazia graça. — Não comigo aqui, isso é uma festa! — Os agressores voltaram a golpear o homem caído e as demais pessoas a gritar, desejando a morte do mesmo.
Diante dessa calamidade, Urgan foi tomado por uma lembrança muito antiga, de quando o Rei Legório o resgatou das masmorras do império élfico e procurou notícias sobre a possível família do garoto, além de seus falecidos pais, durante o regime escravista a que estiveram submetidos.
Após ficar vários dias hospitalizado na ala médica do palácio de Vorosan, Urgan esperava por notícias dos parentes de seus pais que estavam sendo procurados nos demais campos de concentração. No entanto, as equipes de resgate relataram que apenas ele e os grupos trazidos naquele mesmo dia foram capazes de sobreviver aos horrores daquela guerra, deixando-o sem esperança alguma de poder rever alguma face familiar.
Desamparado, o pequeno Urgan não imaginava o que faria dali para frente; era apenas uma criança órfã em uma terra desconhecida.
Muitos dias depois, ele foi visitado pessoalmente pelo recém-coroado Rei Legório, que queria saber como ele estava se sentindo atualmente.
Foi um encontro um tanto ácido por parte do jovem sobrevivente. Ele se manteve em silêncio durante toda a conversa e apenas escutava as palavras do rei. Apesar do silêncio e indiferença daquela criança, Legório permanecia contente por vê-la bem, como deveria ser. Ele recordava do estado desumano em que a encontrou naquele dia, mergulhado em sangue e barro na vala da escravidão. Mesmo desconfortável e traumatizado com tudo o que viveu até agora, Urgan não sentia maldade ou ressentimentos daquele homem à sua frente; ele exalava uma aura cativante, enérgica e honesta, superando as defesas emocionais da pequena criança.
— Bem... — Começou o rei, levantando-se do canto da cama. — É bom te ver bem, menino. Volto para te visitar em outra ocasião. — Dizia ele com alegria e se retirando, mas o menino enfaixado o chamou de volta.
— Espera! — Legório parou de caminhar e se virou novamente para ele. — Por que me trouxe aqui? Os outros que estavam comigo já foram levados embora, mas eu ainda estou aqui. — Urgan havia visto de longe a tirania do Rei Elfo anterior, carrasco e sanguinário, considerando todos àqueles que não pertenciam à sua mesma raça como inferiores.
Foram poucos os anos em que o jovem Urgan conheceu a monotonia. Sua vida pacífica em seu vilarejo de nascimento foi consumida pela xenofobia dos invasores, transformando sua infância num turbilhão de dor e sofrimento sob trabalhos forçados até a exaustão e surras sem piedade que, após anos, culminaram na morte de seus pais. O Rei Elfo havia sido o único governante que Urgan havia conhecido até então, moldando sua concepção de que quase todos eram tão malignos quanto, e jamais poderia confiar na bondade do mundo.
No entanto, quando o até então príncipe Legório surgiu, com sua armada implacável que subjugou os opressores com uma força avassaladora, Urgan acreditava que nada mudaria, afinal, os tempos tendiam a sempre mudar, mas a opressão continuava. Ele viu o jovem príncipe lutar bravamente e o pai do mesmo se sacrificar para dar um fim nesse conflito e libertar os escravizados, dando um fio de esperança àquela criança sofrida.
E agora, o vendo cara a cara, Urgan se questionava se podia de fato confiar nele e queria saber o porquê de ainda ser mantido ali, e também o motivo de tanta insistência para salvar a ele e às demais vítimas, insistência essa que resultou em milhares de vidas perdidas, incluindo a de seu próprio pai, o rei anterior de Vorosan.
— Que tipo de homem eu seria, ficando parado vendo tudo aquilo acontecendo com as pessoas no Reino dos Elfos? — Essas palavras alcançaram o coração do garoto, criando um brilho de esperança em seus olhos perante a benevolência inabalável daquele homem.
Foi nesta ocasião que a visão de Urgan começou a mudar. Ele foi acolhido pelo Rei Legório como seu próprio filho, treinado e instruído pelos servos mais habilidosos de todo o reino para um dia conquistar seu direito de sentar-se à mesa do mais alto escalão da realeza e guiar Vorosan para um futuro promissor. Depois de dois anos, Urgan visitava os aposentos de seu pai com uma pequena questão que lhe tirava o sono há alguns dias. O garoto de sete anos bateu na porta, revelando quem era e recebendo permissão para entrar.
— Pai? — Passando pela porta e vendo o monarca terminar algumas anotações no pergaminho acima da escrivaninha de madeira nobre.
— Meu filho, o que deseja? — Desviando a atenção para o menino na porta de entrada, parecia nervoso e confuso, havia acabado de terminar prematuramente o treinamento diário com a espada por ordem de seu instrutor, que o alegava não estar focado no propósito naquele dia. — Algum problema com o treinamento? — Ele havia aparecido ali durante o horário do treino, então se ele estava ali, algo deveria ter acontecido para fazê-lo se ausentar de seus deveres.
— Não, quer dizer, sim! Ah, preciso falar com o senhor sobre uma coisa... — Claramente nervoso, já fazia dias que não dormia direito na esperança de tentar adivinhar a resposta de suas dúvidas.
— E o que seria? — Focalizando completamente sua atenção no garoto pensativo que foi chamado por ele e se sentou à beira da cama imperial com consentimento.
— Por que eu, pai? — Desta vez foi a vez do rei ficar com uma expressão de dúvida, não entendendo a pergunta mal explicada de seu filho adotivo. — Havia muitas mais crianças escravizadas no reino dos elfos. Por que eu fui escolhido pelo senhor para ser o seu herdeiro? — Urgan nunca se viu como alguém especial, com valores e importância acima das demais pessoas. Em sua visão, ele era igual a todo mundo, apesar de sua posição de prestígio atual.
— Hum... — O Rei Legório suspirou ao se erguer lentamente de seu assento, e Urgan rapidamente se curvou diante de sua majestade absoluta. — Eu percebi sua indiferença ultimamente mesmo e imaginei que viria conversar comigo uma hora ou outra. — De fato, Urgan sentia que deixava suas indagações transparecerem grandemente para quem tinha um olhar atento como seu pai. — Mas, respondendo sua pergunta: sendo sincero com você, filho. Não sei explicar bem, eu só... fiquei cativado. Uma criança escravizada que perdeu tudo, e mesmo assim continuou resistindo com coragem e persistência admirável. — Legório havia interrogado muitos ex-escravos, contaram relatos aterrorizantes das atrocidades que viveram sob o regime do antigo Rei Elfo e falaram sobre aquela criança cheia de energia. Mesmo após perder os pais, Urgan resistia aos espancamentos e sempre sonhava com o dia em que poderia viver em paz, apesar de já nem lembrar sequer se isso realmente ainda existia no mundo, pois praticamente desde que ele se entendia como gente, viveu nesse meio e tinha apenas lapsos de seu vilarejo natal. — Você viu os horrores do mundo e ainda conseguiu recuperar a alegria, seguindo um novo destino e evitando olhar para o que passou. Meu pai sempre foi um homem espontâneo, mas as crises sempre perturbavam sua paz, e você me lembrou um pouco desse lado dele agora. Porém, sua perseverança em mudar e seguir em frente me inspirou realmente. — Sempre que podia, Legório observava o pequeno Urgan se esforçando diariamente em prol de ajudar os mais necessitados, com uma bondade que sempre teve consigo, mas que foi brevemente ofuscada pela dor que o rodeava. — O que quero dizer, meu filho. A sua perseverança apesar de todas as adversidades, me inspirou a continuar enfrentando todos os problemas com garra e virtude! Por isso, eu escolhi você... — Urgan levantou o rosto para fitar o de seu pai. — Nunca mude, filho. Não importa o problema ou quão intensa for a dor, nunca se renda diante dos males da vida! Continue perseverante e lute até vencer, sucumbir jamais será uma opção. — Essas foram as palavras que o inspiraram a nunca ceder em nada em sua vida, que o motivaram a caminhar mesmo quando suas pernas não tinham mais forças ou estavam em estado crítico em batalha.
"Nunca se renda diante dos males da vida", mesmo agora, essas palavras se repetiam como música em sua mente, desviando-o de qualquer malefício externo que pudesse subjugar sua vontade de se erguer e continuar tentando evoluir.
À sombra de seus caluniadores, Urgan mantinha seu olhar estático. As palavras de seu falecido pai continuavam a inspirá-lo mesmo perante tanto caos em sua vida. O sangue do ex-general começou a ferver por todo seu corpo, e uma força de vontade gigante brotou no coração entupido de álcool. Os golpes continuavam sem parar, mas nestas alturas, ele de fato já nem ligava mais de modo algum e soltou um urro de batalha carregado com toda sua vontade de sobreviver, assim como seu pai tanto admirava no passado; num salto voraz, ele se levantou atingindo o rosto de um dos agressores com a retaguarda de sua cabeça, deixando os outros três pasmados com essa repentina reação carregada de convicção como se nem ao menos estivesse bêbado.
Urgan já não via mais nada. Faria todos ali pagarem por terem lhe insultado naquele dia. Dois homens despertaram do turbilhão de dúvidas e o agarraram pelas costas para mantê-lo imóvel enquanto o terceiro desferia socos sem parar na barriga do antigo nobre, mas para ele, as dores não eram nada. Em suas veias corriam litros e litros de whisky e ondas massivas de adrenalina estimuladas pela memória de seu pai. "Nunca desistir", essa concepção continuava martelando seu cérebro, remetendo a toda amargura e caos que sobreviveu durante toda a vida; a vibração intensiva de seu coração e as vozes berrantes dos seus caluniadores em conjunto, como as partituras de uma canção instrumental. As falhas corroíam sua carne, insistindo em devolvê-lo para o abismo deprimente que a sua realidade lhe impôs.
No entanto, hoje seria diferente. Urgan já não tinha mais paciência ou algo a perder; as memórias de sua família eram as únicas coisas que ainda insistia em preservar. Portanto, por que continuar se submetendo a essas injúrias? Se todos ali queriam castigá-lo por causa de uma ideia que simplesmente aceitaram como correta sem questionar, então não há motivos para dar esse gostinho a eles. Visto que os incentivadores esperavam por um espetáculo sanguinolento, Urgan faria acontecer, mas não da forma que esperavam.
Após o último golpe que feriu seu corpo ser executado, Urgan ergueu sua face para encarar seus agressores, que continuavam empenhados em infligir dor, porém, não perceberam um detalhe que faria total diferença naquele momento crítico; aqueles não eram mais os mesmos olhos carregados de tristeza e fracasso, não, estes eram os olhos reanimados com a antiga convicção do Grandioso General Urgan de Vorosan.
Durante o próximo soco de seu adversário, Urgan puxou aquele que segurava seu braço esquerdo para perto de si, fazendo-o receber o golpe em seu lugar.
— Aaah! Porra! — Percebendo que fez merda e seguindo para pegar o causador da desgraça, mas ele já não estava mais para brincadeira.
Urgan pisou no pé do segundo que segurava seu outro braço e o arremessou sobre o outro que avançava para lhe bater. Os dois se desestabilizaram, e depois o ex-general começou a trocar golpes com o integrante que levou o soco anterior em seu lugar.
Ele atacava com fúria e intensidade, desvinculando-se de técnicas e estratégias de luta e deixando a emoção tomar conta de suas ações. Mesmo sob efeito da cachaça, Urgan esquivou por baixo do braço dele ao falhar em um soco e depois o empurrou para trás, fazendo-o bater a cabeça no balcão do barman.
Em seguida, o homem que recebeu uma cabeçada quando Urgan se levantou finalmente se dispôs a continuar a investida e arremessou uma cadeira de madeira em sua direção. Todavia, Urgan conseguiu pegá-la no ar e seguidamente quebrou nas costas daquele que teve o rosto chocado contra o balcão, deixando-o enfim fora de combate.
Com esse desfecho, o mesmo arruaceiro puxou uma faca da cintura e começou a desferir golpes de diferentes direções no bebum que recuava e esquivava como podia, até que alcançou a borda do estabelecimento. Convencido de que agora atingiria o traidor, o homem tentou perfurar o peito de seu alvo, mas Urgan segurou o braço dele a poucos centímetros do alvo.
Vendo a ausência de uma defesa sólida nas pernas, Urgan deu uma pisada tão forte no joelho direito de seu adversário que o rompeu; os ossos se quebraram como galhos, rasgando a carne como facas, fazendo-o gritar de dor e cair no chão, se contorcendo sem parar.
Em contrapartida, Jester não parava de tocar sua melodia enérgica ao assistir à luta de seu meio-irmão; era um deleite para ele presenciar algo assim como sempre o fizera antigamente.
— Vê-lo lutar de novo me traz muita nostalgia... — Pensava ele, tocando seu ukulele sem parar, vendo os dois bandidos que restavam partindo para cima dele com socos e chutes em conjunto. — Me faz lembrar da época em que ele levava surras diretas do velho Alaric porque queria ser o braço direito do meu pai.
Neste instante, Urgan recebeu uma joelhada no estômago, o fazendo cuspir sangue misturado com saliva e perder o fôlego momentaneamente. Sem tempo para se recuperar, ele foi agarrado pela cabeça e depois jogado contra uma mesa, sendo espancado e insultado pelos espectadores revoltados.
Distraído com os golpes da multidão enfurecida, Urgan teve suas pernas agarradas pelos dois inimigos restantes que o puxaram para o chão amadeirado do bar e posteriormente quebraram uma garrafa de bebida em seus braços que protegiam o alvo primário dessa ação, ou seja, o rosto de Urgan. Logo, os dois e mais alguns revoltados da plateia se uniram ao espancamento com chutes e golpes com as mobílias restantes no estabelecimento, que nestas circunstâncias já estava praticamente em ruínas.
O sangue escorria quente por todo o corpo de Urgan, e o ex-general se enrijeceu o máximo que pôde para conseguir suportar tudo sem perder a consciência, pois isso poderia ser o seu fim sem dúvidas. No canto do bar, Jester se mantinha absolutamente contido em seu lugar, tinha fé que Urgan poderia superar isso por conta própria e pulverizar cada um desses vermes sem noção e covardes.
Ele começou a gemer e gritar de dor; suas costelas foram quebradas durante a chuva de porrada sem possibilidade de se defender.
Espancamento, ódio e desonra; essa era a vida a que Urgan fora submetido. Seu coração já havia se acostumado com a dor do fracasso, e esses golpes eram apenas um lembrete que seu corpo jamais poderá esquecer, mesmo que um dia consiga provar sua inocência. Bom, isso se ele conseguir sobreviver ao furor hediondo de seus atacantes.
— Nunca desistir! — As palavras de seu pai continuavam ressoando em sua cabeça, gerando o estímulo necessário para que o audaz ex-general pudesse se impor novamente contra todo o mal.
Os golpes da multidão se repetiam sem parar, mas Urgan rugia em cólera, forçando seu corpo contra a pressão e dor exercida sobre si. Ele se colocou de joelhos apesar de tudo, e de suas mãos se materializaram duas luvas de aço, uma demonstração de sua velha classe que mal se recordava da última vez em que a usou. Usando a vantagem da imunidade temporária à dor por conta da bebida em sua circulação, Urgan se esforçou contra todos os inimigos de uma vez e se ergueu de uma vez com um impulso de sua vontade voraz de terminar com tudo aquilo. Seus dois punhos, em conjunto, carregavam uma força sem igual; avançando para cima de dois infelizes que tiveram o imenso azar de serem vistos primeiro pelo homem espancado.
Seus punhos revestidos de metal atingiram a face de dois agressores com tanta força que foram arremessados contra outros presentes e atravessaram a janela de vidro logo atrás. Eles caíram inconscientes do lado de fora, seus olhos opacos e bocas entreabertas, emitindo um gemido constante até que sucumbiram de vez entre as latas de lixo onde foram parar, sob o olhar dos mendigos que ali viviam.
Todos lá dentro assistiram a esse desfecho inesperado, uma força de vontade que foi capaz de fazer um derrotado se erguer do piso úmido do tormento e revidar com ainda mais poder. Urgan respirava pesadamente, ainda não estava nem perto de ficar satisfeito; seu coração bombeava sangue freneticamente, gerando impulsos de energia para todo o corpo, dando-lhe uma intensidade física extrema.
Vendo tudo aquilo com um enorme sorriso estampado em seu rosto, Jester trancou a porta do bar sem que percebessem. Em seguida, a janela anteriormente cedida deixou cair alguns escombros, fechando toda a abertura e prendendo todos ali, sim, presos com o enfurecido Urgan.
Poucos minutos mais tarde, aquela taverna parecia um filme de terror, com pessoas espancadas para todo lado e outras rastejando pelo chão em busca de uma saída. Enquanto tudo isso acontecia, Jester não parou um instante sequer de tocar sua música, observando Urgan sentado no chão de frente para os dois últimos arruaceiros que provocaram todo esse caos mais cedo.
Urgan se esforçou para se colocar de pé mais uma vez, suas luvas se desfizeram em fragmentos de mana que retornaram para sua posse. Ele cambaleou na direção dos dois restantes, que estavam escorados na parede esquerda do bar e, mesmo com muito medo, se levantaram para encarar o bêbado genocida. Portanto, o primeiro recebeu um chute no abdômen, o fazendo voltar para o chão no canto da parede, e o segundo teve os braços segurados; em seguida, seu crânio foi rachado com uma cabeçada.
— Aaaaahhhh! — Sangue escorreu de sua testa, a visão começou a sucumbir, e ele caiu de joelhos desfalecido perante o ex-general.
Independente de tudo o que aconteceu até aqui, ninguém envolvido naquela briga foi de fato assassinado pelas mãos de Urgan. Ele, por sua vez, não compartilhava o ódio doentio daqueles seres em matar; sua pretensão era apenas ensinar uma lição que jamais esqueceriam. Querendo ou não, eles ainda eram cidadãos de Vorosan, e Urgan fez um juramento de lealdade absoluta ao povo, lealdade essa que não foi rompida apesar dos tempos difíceis.
Aquele que levou um chute finalmente conseguiu se recuperar e voltou para importunar o alvo solitário, desferindo socos no rosto e chutes pela barriga. No entanto, Urgan nem parecia mais consciente nessas alturas. A cabeçada de agora pouco havia lhe causado danos também, fazendo-o pender um pouco no lugar. O facínora se preparou para mais um soco direto no nariz; porém, Urgan, em um lapso de reação defensiva involuntária de seu cérebro, impactou sua palma direita no rosto de seu agressor, arremessando-o contra a parede, batendo a cabeça e terminando desmaiado.
Ao final de tudo, todos foram derrotados pela força avassaladora de Urgan. No entanto, a situação dele também não era uma das melhores. Suas pernas pareciam estar nas últimas e prestes a ceder. Para a surpresa de todos, Urgan tirou uma pequena garrafa de seu bolso, que por milagre ainda permanecia intacta. Ele a abriu para tomar um gole e depois a ergueu no ar com um dos braços, em um sinal de celebração por uma complicada vitória.
Jester parou de tocar a música, e junto com o barman, aplaudiu a façanha de Urgan.
No entanto, em instantes após a adrenalina passar e o álcool tomar conta, Urgan caiu duro de costas no chão, deixando ambos os espectadores pasmados. Ao final de tudo, Jester observou a situação do bar e foi conversar com o único funcionário presente.
— Ehh, chefe. Esses caras são foda, sem educação nenhuma e quebrando tudo. — Encostado de braços cruzados no balcão, observando o primeiro provocador ainda em seu sono de beleza ao levar uma garrafada na cara.
— Relaxa, isso aí acontece praticamente todo dia. — Enxugando uma caneca com um guardanapo. — Além disso, o governo sempre paga pelos reparos quando o Urgan é um dos envolvidos. — A máscara de Jester se moldou para uma expressão de entendimento, que seguidamente voltou para o sorriso constante.
— Ah, suave então. Se liga, tem duas doses de limão sem álcool aí? O pai lançou muito a braba na música, agora um descanso de leves seria bom! — Observando as opções disponíveis nas prateleiras atrás do barman.
— Tem sim, vai querer batida ou mexida?
— Bate uma para mim aí. — Rindo com puro sarcasmo e malícia.
— Lá ele! — Indo buscar os ingredientes para fazer as duas bebidas. Ao terminar de preparar os copos separados como ordenado, algo lhe despertou uma dúvida. — Para quem é o outro?
— Toma aí, meu patrão! — Ambos pegaram seus copos e brindaram. — Saúde! — E tomaram as bebidas, mas logo essa cena foi interrompida quando os dois últimos arruaceiros nocauteados por Urgan finalmente despertaram.
Estavam aturdidos e fora da realidade, mas ainda muito revoltados com a humilhação que passaram nas mãos de um bebum depressivo. Jester apenas assistiu aquela cena quieto, até que ambos cambalearam na direção de Urgan. Queriam matá-lo e fariam facilmente agora que ele estava moribundo no chão. No entanto, Jester sabia que isso seria um grande erro.
— Sugiro que fiquem longe dele, senão vão acabar mortos... — Ignoraram as palavras daquele cara usando uma fantasia e pegaram alguns pedaços de madeira para espancar Urgan. O problema era que Jester conhecia o gênio de seu meio-irmão, e mesmo dormindo, o cérebro dele continuava muito bem consciente. Finalmente, invocou uma lança que empalou os dois homens que estavam em fila indiana. — Bom, é burro, mas foi avisado! Oh, meu rei, manda mais uma dose aí para nós. — Os dois caíram mortos ao lado do desfalecido Urgan.
— Saindo... — Fazendo a batida de novo e entregando para o jovem.
— Ehh, você sabe bater gostoso em!
— Lá ele, quinhentas vezes. Mas, obrigado! — Não perdia a postura, mas se segurava para não rir da zoeira de Jester.
— Só tomar isso aqui e vou cuidar dessa putaria toda que rolou até agora. Fica tranquilo, que vou tirar o caos em pessoa desse estabelecimento! — Disse Jester pegando o copo e brindando mais uma vez.
Os dois beberam novamente a dose de limão, e Jester se ergueu do banco, caminhando na direção de Urgan e deixando o barman um tanto confuso. Porém, ao chegar perto, a reação involuntária do desmaiado se fez presente mais uma vez quando outra lança se materializou na direção de Jester. Diferentemente dos dois imbecis que morreram, este estava atento e formou um escudo de fios para impedir sua morte também. Rebateu a arma de Urgan, e depois seus fios se enrolaram ao redor das pernas do mesmo.
— Até a próxima, meu rei! — Puxando-o pelas pernas para fora do bar, mas antes de sumir de vez, deu o último recado ao novo amigo. — Falou aí, meu mano. Um dia vou voltar aqui e tu vai ter que bater outra para mim, e para os meus amigos juntos! Então é melhor preparar essa mão aí. — Finalizou rindo muito alto, e o homem atrás do balcão respondeu enviando o dedo do meio ao mesmo tempo em que ria de volta.
Horas mais tarde, Urgan finalmente desperta do sono de bêbado em uma cama de um quarto de hotel. Sua cabeça doía muito, e mal conseguia raciocinar. Sentou-se na cama tentando lembrar de tudo o que aconteceu, percebendo seu corpo quase completamente enfaixado e uma xícara de café numa mesinha ao seu lado.
— É o quê? — Tocando na própria cabeça na esperança de diminuir a dor, até que seus olhos exploraram o quarto e viram um bobo da corte sentado numa cadeira no canto do quarto, o observando fixamente com um sorriso perturbador estampado na máscara branca. — AAAAH! — Se assustou subitamente e saltou para trás, batendo a cabeça na parede. — Aah, porra! — Agora a dor de cabeça triplicou gratuitamente.
Aos poucos, Urgan foi percebendo que apagou após exagerar de novo na cachaça. Por outro lado, o bobo da corte permanecia quieto, apenas vendo o desenrolar da cena, criando um silêncio momentâneo no quarto. Até que, finalmente, Jester disfarçado se pronunciou:
— Eu não comi o seu cu, se é isso o que está pensando... — Ele tremulava pelo esforço extremo que fazia para não rir.
— EU NÃO ESTAVA PENSANDO NISSO! — Berrou ele, e logo lembrou desse bobo da corte que tocava música enquanto ele próprio apanhava mais que mulher de bandido.
Entretanto, ignorando esses detalhes, Urgan lembrou daquela mesma situação que vivenciou ao ser humilhado por Dalibor naquele dia distante. “Confie no bobo da corte”, foram essas palavras que o rei usurpador expressou antes que o general destituído perdesse a noção da realidade. E agora, estava diante de um bobo da corte de fato. Qual seria o significado de tudo isso? Ele se questionava sem dizer.
— Por que me tirou daquele lugar e me trouxe até aqui? — Perguntou ele em dúvida; aquele cara não devia nada a ele, ou era ao menos isso o que ele pensava.
— Preferia que eu te deixasse lá? — Respondeu com frieza na voz, deixando Urgan um tanto confundido com o tom controverso com a aura que transmitia com aquela fantasia. — Estou zoando, na realidade, é que eu preciso de você para uma missão, ex-general! — A frieza desapareceu por completo, dando lugar para um ar cômico graças ao jeito daquele homem fantasiado.
— E que missão seria essa? — Ainda confuso, e o bobo da corte esticou os pés para cima de uma pequena mesa à sua frente.
— Matar os Reis súditos à Razallath, pegar de volta os recursos que tiraram de Vorosan e é claro, matar o próprio Razallath. — Falou com tanta naturalidade que mais parecia uma missão comum de um domingo monótono.
— Ah, ótimo, você realmente faz jus a um bobo da corte, não consegue parar de contar piadas. — Disse ele com pessimismo acompanhado de deboche. A seguir, a atmosfera ambiente pareceu pesar um pouco mais, voltando para aquele ar de frieza, e a máscara branca se voltou numa feição neutra.
— Não estou brincando sobre essa missão, general Urgan. — Colocou o dedo na ferida, mas nada o homem acamado respondeu; apenas continuaram se encarando por mais alguns momentos. — Aliás, essa missão também foi aprovada pessoalmente pelo próprio Rei Dalibor, que inclusive escreveu uma carta de recrutamento para trazer você para essa missão! — Entregando a carta de recrutamento para Urgan que prontamente leu em voz alta.
— “Soldado, se estiver lendo essa carta, saiba que foi selecionado a dedo para uma missão especial aprovada pelo próprio Rei de Vorosan. É seu dever ajudar a livrar os reinos submissos das garras dos monstros que se proclamam autênticos reis, que fizeram pactos de lealdade e venderam as próprias almas para o Imperador Demônio, perpetuando seu poder e expandindo seus domínios sobre todo o planeta. Mas não se preocupe, não estará sozinho nessa importante jornada... O melhor soldado de todas as nossas tropas atualmente irá te acompanhar, o nome dele é: Jester. Ele é um pouco excêntrico às vezes, no entanto, tenho certeza de que se darão muito bem; desejo-lhes boa sorte, e que consigam salvar o mundo desse caos.” — Terminando de ler a carta, já encarando o bobo da corte. — Sempre soube que Dalibor já estava meio velho e caduco, mas concordar com isso... Porém, outra questão é: por qual razão eu aceitaria partir numa missão suicida dessas? Sei que é pelo bem do reino, mas porra, é o Razallath! — Gesticulando com as mãos, como se estivesse dizendo ao emissário: “Ele só pode ter ficado maluco”.
— Olha o outro lado da carta. — Ordenou o homem disfarçado, e o bebum percebeu mais um detalhe que por pouco ficou subentendido.
— “Ps: Em caso de concordância e principalmente a conclusão da missão, o Soldado em questão receberá o perdão real por todos os seus atos e será restituído ao seu cargo anterior, possibilitando também uma promoção à Guarda-Costas Real do próprio Rei, além de recompensado com uma das terras libertadas com a derrota de seus tiranos.” — Apesar de todas as informações detalhadas nessa parte, a mente de Urgan se focava em um detalhe especial. — “Restituição”. — Ele pouco ligava para o perdão real de Dalibor, até porque ambos sabiam muito bem sobre sua inocência naquela ocasião, embora as provas contrárias apresentadas naquele julgamento ainda prejudiquem a exposição dessa realidade. — Espera aí... — Outro detalhe esquecido da carta lhe chamou a atenção. — Jester? — Comentou olhando para cara do bobo da corte e de volta para o nome escrito na carta repetidas vezes. — Seu nome é Jester?
— Sim, meu patrão. Algum problema? — Urgan leu novamente o assunto da carta após ser tomado por alguns devaneios nostálgicos por conta desse nome.
— É porque se trata do mesmo nome do falecido príncipe. — Essa era a outra ferida que corrói a alma do ex-general até hoje, dando um breve clima depressivo no ambiente, mas se desfez com outra indagação do mesmo. — Enfim, não vou nem perguntar sua classe também... até porque está óbvio qual é apenas olhando para você. — Disse ele num tom sereno recheado com um pouco de tédio.
— Quanta consideração. Porém, já imaginou se minha Classe fosse de Pescador? Aí não teria como saber. — Sorrindo sarcasticamente na cadeira ao ver a cara de trouxa que Urgan fez com esse comentário. — Para resumir, tenho o mesmo nome do príncipe porque fui nomeado assim pelo próprio rei, pois, ele se sentiu responsabilizado pela morte do antigo Jester e decidiu criar alguém como eu, um soldado com o mesmo nome e classe, para honrar o legado desse nome e a importância que ele traz consigo. — Para Urgan, esses argumentos foram bem convincentes, ainda que a questão de Dalibor querer substituir Jester com outro Jester ainda não fazia muito sentido dentro de sua cabeça. A seguir, Urgan deixou seus devaneios de lado, se esforçando para levantar-se da cama e caminhar até o encontro de Jester.
— Você acredita mesmo que possamos vencer essa batalha? — O bobo da corte se colocou de pé diante do bêbado, permanecendo cara a cara com um ar de seriedade no ambiente. — O próprio Rei Legório falhou quando teve a mesma intenção! Você realmente acredita que nós tenhamos alguma chance nisso? — Jester esticou a mão até seu ombro direito, baixando a cabeça enquanto na máscara se moldava uma expressão de tristeza. — Você acredita mesmo nisso? — Ele levantou o rosto de novo, e o sorriso voltou a dominar a máscara.
— Não! — Voltou a rir, e Urgan fez uma expressão de descrença e revolta com a aleatoriedade daquele cara fantasiado.
— Porra! E você está basicamente querendo me convidar para te acompanhar até a morte. — Afirmando com incredulidade diante da audácia brincalhona de Jester.
— Meu mano, não é bem isso não, mas se rolar né, é a vida! Hahaha! — Urgan se afastou dele e caminhou pelo quarto com as mãos na cintura, refletindo sobre a proposta e os desafios pela frente. — Pelo visto eu não sou o único maluco aqui... — Urgan não concordou até agora com a convocação, mas também não discordou. — Cara, falei de brincadeira, quer dizer, mais ou menos... É complicado mesmo, então vou entender caso recuse a missão. — Compreendeu os pensamentos do ex-general, que já havia transitado em círculos pelo quarto umas trezentas vezes. — Há muitas variáveis para o resultado de tudo isso, chances reais de acabar morto. Entretanto, também há muitas de vingar o que Razallath fez ao antigo monarca deste reino, o Bravo Rei Legório. — Uma oferta tentadora, Urgan era extremamente grato ao seu pai, apesar de todas as desavenças no final, ele só respirava hoje, porque Legório o acolheu da sarjeta como seu próprio filho e lhe preparou para sobreviver no mundo. — Então, isso... — Urgan o interrompeu.
— Por mais cômico que pareça, não acredito que viria com uma ideia maluca dessa sem o mínimo de esperança na vitória. Estou certo? — As feridas do ex-general eram grandes demais para ficarem sem tratamento, era um dever sagrado para ele fazer uma devida correção.
— Está sim, general. — Ele parou de andar em círculo, ficando de pé em frente à janela do quarto que dava a visão do comércio do centro do império, onde pessoas de todas as idades e etnias transitavam; homens, mulheres, crianças e idosos com seus afazeres diários, existências menores em busca de uma vida tranquila que está sendo ameaçada pelo demônio do continente vizinho. — A balança da justiça sempre pende para o lado dos justos! E se tivermos de cair, cairemos lutando... — Falou Jester inspirado.
— Sendo assim. — Virando o rosto para o bobo da corte. — Irei garantir que quem esteja se contorcendo no chão ao final de tudo seja o próprio Razallath! — Estendendo a mão para Jester, que de imediato se juntou ao próprio em um cumprimento de irmandade, firmando o pacto de parceria nessa missão especial.
— Sabe das consequências, não é, Urgan? — Perguntou novamente, um sorriso estampado em seu rosto já prevendo a resposta que seu meio irmão estaria prestes a pronunciar.
— General Urgan, se apresentando para a missão... — Rebateu, ignorando todas as adversidades e perigos; ele enfrentaria todos em prol de consertar o mundo e recuperar sua vida.
— Muito bom... — Comentou, mas logo sorriu disfarçadamente por baixo da máscara. — Pelo visto, falar igual meu pai realmente deixou o bebum inspirado... — Pensou por alguns momentos. Com isso, Jester começou a traçar planos para preparar Urgan para a verdadeira batalha, visando recuperar seu auge de poderio e na possibilidade de recrutar outros membros para essa missão maluca; especialmente, um certo anão muito gentil, carinhoso e delicado. — Essa missão de mandar o demônio de volta para o inferno vai ser divertida! — Rindo alto, esse seria um prelúdio de uma longa e épica jornada para os dois meios-irmãos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Por outro lado, esse último comentário do bobo da corte deixou uma pulga atrás da orelha do ex-general Urgan. Ele fez uma expressão de julgamento, tentando recordar com clareza onde ouviu tais palavras ou quem falava assim.
— Tudo certo aí, meu mano? — Interrogou ao perceber a mente distante do bebum.
— Sim, só... Lembrei de um amigo meu aqui! Hahaha! — Ele riu também, lembrando do anão Rugnar, o mais dócil de todo o império.
Jester ainda tinha mais uma carta de recrutamento. Preparar Urgan para a jornada seria um passo que poderia esperar mais um dia, e agora, deveriam buscar os próximos integrantes para essa missão gloriosa e extremamente suicida.
Após reunir os preparativos escassos do primeiro recrutado, Jester seguiu juntamente com Urgan para a zona industrial da cidade em busca do próximo participante. A maior preocupação de Jester não era nem sobre os inimigos perigosos que enfrentariam, e sim se aceitariam esse chamado maluco para a morte certa. Um plano muito bem pensado ao longo de quase dez anos, sendo muito tarde para desistir e repensar; os primeiros passos são sempre os mais difíceis, e ele lutaria com todas as forças para recuperar a prosperidade que seu lar um dia teve.
Conhecendo o gênio forte de Rugnar, é quase certo que aceitará ajudar nisso, com a promessa de vingar Legório e seu lar devastado pelo mal do demônio. Apesar disso, a dúvida em questão é: será que os demais recrutados aceitarão seguir com isso, sob liderança de um Bobo da Corte?
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