A Corte do Bobo
7 Honra Inabalável
Notas iniciais
Jester e Urgan, envoltos na penumbra das vielas industriais, caminham entre as sombras projetadas pelas imponentes estruturas metálicas e enormes engrenagens que compõem o distrito industrial de Vorosan. O ruído constante das máquinas e o sibilar da fumaça escapando das chaminés criam uma atmosfera pesada e inquietante. O bobo da corte observava tudo ao seu redor com grande curiosidade, notando as mudanças em comparação com a última vez em que visitou o lugar. Em circunstâncias diferentes, seria uma visita descontraída para interagir com o povo e acompanhar as produções, mas as coisas não eram mais tão simples como costumavam ser.
O olhar de desconfiança e repúdio de alguns transeuntes se cruza com Urgan, cuja presença é notória mesmo em meio à multidão ocupada. Jester, disfarçado de bobo da corte, observa silenciosamente, sua máscara inexpressiva escondendo seus pensamentos.
À medida que avançam por entre as vielas, a complexidade da engrenagem industrial se desdobra diante deles. Homens sujos de fuligem e mulheres com mãos marcadas pelo trabalho árduo movimentam-se com propósito, cada um contribuindo para o funcionamento da máquina que é Vorosan.
— Olha, até que mudou um pouco, mas antes parecia ser mais limpo. — Comentou Jester, entretido com o vislumbre de sua velha cidade, e Urgan o observou com uma leve expressão de dúvida.
— Então você era de Vorosan antes de ser nomeado? — Pelos detalhes entendidos mais cedo, Urgan acreditava que esse "Jester" era um estrangeiro de alguma província fora das fronteiras de Vorosan que foi convocado por Dalibor para a nomeação.
Percebendo que deixou escapar um pouco mais de informação do que poderia, de certa forma, comprometer sua identidade secreta, Jester observou por alguns instantes os comércios ao redor e o fluxo de transeuntes em busca de uma desculpa para desconversar sobre esse assunto. Ao ver as roupas dos trabalhadores sujas, algumas ideias lhe vieram à mente.
— Sim, eu sou de Vorosan, do distrito comercial para ser mais exato. — Começou tentando puxar um assunto aleatório para descontrair.
— Ah, bom, e o que fazia por lá? — Questionou o ex-general, dando continuidade ao assunto puxado pelo bobo.
— Trabalhava na loja de roupas do meu pai, a maior da época para ser exato. — Olhando para as pessoas na rua em busca de mais alguma coisa para usar na resposta e enganar o irmão. — Porém, um arrombado corno do caralho o matou, me deixando sozinho. Dalibor simpatizou comigo e me acolheu, depois me nomeou para o que sou hoje, até porque duvido que ele iria me querer por perto apenas para ter roupas de graça por causa das minhas habilidades com os fios. — Jester não era lá muito criativo para inventar histórias do nada, mas conseguia manter sua típica personalidade mesmo tentando contar uma mentira. Todavia, ele conhecia bem Urgan, era um cara muito astuto e poderia perceber que era uma história inventada.
— Hum, entendo. Sei como é... — Jester virou subitamente o rosto na direção do mesmo.
— Ele acreditou mesmo? — Pensou ele surpreso, até que parou para pensar com mais calma no que acabara de dizer, percebendo a feição de curiosidade de Urgan ser substituída por uma neutralidade repentina. — Sem querer coloquei o dedo na ferida. Foi mal, irmão! — Não sabia se podia confiar em quem Urgan se tornou após todos esses anos, então ficou de certa forma aliviado por ter conseguido desviar do assunto, deixando sua verdadeira identidade segura novamente. — Tudo certo aí, mano? — Perguntou ao notar o silêncio do homem.
— Tudo certo, só lembrei de umas coisas sem importância aqui. — Agora foi ele que desviou da conversa, deixando Jester satisfeito, embora já previsse o que ele estaria pensando.
Continuando a caminhada, Jester mantinha sua visão analisando as construções de pedra e metal, entrelaçadas com as peças mecânicas, criando uma paisagem distinta e peculiar. A luz tênue dos lampiões de óleo destaca a arquitetura singular do distrito, revelando um mundo onde o antigo e o novo coexistem de maneira equilibrada.
Mesmo sob os olhares carregados de escárnio de alguns membros da população presente naquela noite, Urgan se mantinha fixo em seu objetivo, ignorando completamente esses detalhes inúteis por enquanto. Os hematomas da briga da manhã daquele mesmo dia ainda lhe incomodavam, mas nada que ele não pudesse ignorar também até estar completamente curado de novo. O que de fato lhe prejudicava era a enxaqueca proveniente da ressaca; era praticamente a primeira vez em oito anos que ele passava mais de seis horas sem ter uma gota de álcool na boca.
Jester percebeu isso e apenas riu baixo sem que o irmão notasse.
— Aí, só para saber. Quem você pretende recrutar mesmo? — Perguntou Urgan com uma das mãos apertando a lateral da cabeça, tentando suportar os efeitos da abstinência alcoólica.
— Já vai saber, mano. — Urgan começou a escutar sons repetidos de ferro sendo martelado, lembrando de haver uma ferraria muito conhecida ali pelas proximidades, incomodando sua cabeça. — Ressaca?
— Digamos que sim...
— Que merda em. — Dando leves gargalhadas da situação do homem.
— Aqui perto tem uma ferraria, tá querendo convocar algum dos trabalhadores de lá? — Mudando de assunto.
— Sim, ouvi falar bastante das habilidades dos ferreiros daqui na criação de equipamento.
— Tem alguém em mente ou vai entrevistar cada um?
— Tenho uma pequena ideia de quem chamar... — Respondeu com um tom sarcástico disfarçado na voz.
Ao longe, a dupla avistava a principal ferraria no distrito industrial de Vorosan, com suas paredes de tijolos desgastados que carregavam as marcas do trabalho intenso. Grandes portas de metal, adornadas com detalhes forjados, permitiam a entrada e saída de ferreiros e clientes.
Os dois entraram e foram rapidamente em direção às principais estações de trabalho dos milhares de empregados na ativa nas linhas de produção de equipamento militar para os soldados sob o comando da realeza. O interior da forja pulsava com atividade, onde as várias estações estavam dispostas de maneira estratégica. Bigornas marcadas pelo uso constante testemunhavam o impacto de martelos habilmente manejados, enquanto a luz alaranjada das fornalhas conferia um tom mágico àquele ambiente caloroso.
Um intricado sistema de polias e roldanas pendiam do teto, sustentando ferramentas especializadas. As paredes exibiam uma coleção de instrumentos de forja e equipamentos, cada um contando uma história de criação e aprimoramento.
— Então, qual deles você tá procurando? — Questionou Urgan tentando decifrar as intenções de Jester que se mantinha focado em busca de seu alvo.
Até que...
— Oh, Juvenal, bate nessa porra direito. O prazo para o próximo carregamento é amanhã! — Berrou um anão barbudo que surgiu do nada em meio aos corredores de produção, acertando um tapa nas costas de um ferreiro. — Quero que peguem nesses martelos que nem quando pegam nas mulheres de vocês, seus jumentos do caralho!
— Sim, senhor! — Responderam todos os ferreiros em uníssono mediante as ordens do mestre ferreiro, e continuaram espancando as estruturas de aço com toda vontade.
— Batam com toda a força e destreza que tiverem nesse metal da mesma forma que batem nas bundas delas. — Continuou o Anão Rugnar com sua típica personalidade rude e extremamente peculiar. — E quem não for dedicado aqui vai tomar uma na cara para ficar esperto! — E repetidamente todos elevaram a moral diante da motivação única do anão.
Jester notou a cara incrédula de Urgan, respondendo com um sorriso de orelha a orelha na máscara. Posteriormente, ambos foram abordados por alguém que veio pelo mesmo caminho por onde passaram após adentrarem nos domínios da ferraria.
— Posso ajudá-los? — Uma voz extremamente imponente e intensa rompeu o ambiente à retaguarda dos dois associados, deixando-os em completo choque com essa súbita aparição inesperada.
Ao virarem para o homem que surgiu, seus corpos gelaram como se estivessem na presença de uma monstruosidade. O recepcionista, uma figura imensa com mais de dois metros de altura, emerge silenciosamente à retaguarda de Jester e Urgan. O homem, robusto e adornado por inúmeras cicatrizes, irradia uma aura intimidadora que preenche o local.
Sua voz, profunda e grave, ressoa pelo recinto da ferraria, impondo uma presença formidável. Os olhos do recepcionista, sobrancelhas cerradas, examinam os recém-chegados, revelando uma vigilância constante. As mãos fortes, calejadas pelo trabalho árduo, permanecem prontas para qualquer eventualidade.
Enquanto a fuligem dança no ar e o calor da fornalha cria um cenário de fundo intenso, o recepcionista observa a dupla com a atenção de quem conhece os cantos mais sombrios da cidade. Percebendo a tremedeira constante pelo choque, Jester atinge Urgan com uma cotovelada no braço para que voltasse ao normal e pudessem falar o que queriam naquele lugar.
— Esse cara é uma muralha... — Pensou Urgan estático, há muito tempo que ele não encarava adversários de grande porte como fazia com frequência em seus tempos de general.
— Controla o cu, meu mano. — Sussurrou Jester para Urgan, sem que o colosso recepcionista conseguisse escutar o assunto. — Se levar um tapa dele, vai escutar um zumbido no pé do ouvido até a quinta geração dos teus filhos. — Disfarçando o riso.
— Anotado! — Respondeu o ex-general com ironia.
— E então. O que procuram por aqui? — Questionou o homem com uma voz parruda e intensa. — Caso esteja procurando agendar uma entrega de alguma armadura, arma ou ferramenta no geral, podem falar com a secretária que vai cuidar disso para vocês. — Apesar da aparência monstruosa, o recepcionista se apresentava com grande educação.
— Nós temos assuntos urgentes para tratar com o Rugnar. — Explicou o bobo da corte, procurando o anão que havia desaparecido de onde estava momentos atrás motivando os trabalhadores com seu modo único de agir.
— Infelizmente, o chefe está ocupado dando aula no momento. Vocês podem aguardar na sala de espera, ou podem se juntar a ele no treinamento. — Há vários metros de distância, Rugnar, com sua audição biônica, escutou seu nome sendo mencionado e observou na direção de onde havia notado isso.
O anão Rugnar observou de longe o recepcionista barrando duas pessoas que ele não conseguia identificar naquela distância, notando apenas a roupa destacada de bobo da corte que um deles usava.
— Que porra que tá fazendo um palhaço aqui? E por que ouvi meu nome vindo dele? — Indagava o anão para si mesmo, as labaredas de fogo, faíscas e fumaça no ambiente dificultavam sua visão naquela posição. Seguidamente, notou que ainda estavam falando sobre alguma coisa que ele não conseguia entender corretamente, pretendendo ir até lá para tratar esse assunto pessoalmente. — Se estiverem me xingando, vou pegar esse metal encandecido aqui e espero que os infelizes tenham um bom escudo para proteger o cu. — Indo ao encontro dos três em passos apressados. Chegando lá, de imediato interrompeu o interrogatório do funcionário gigante. — Oh montanha imprestável, sai da minha frente! — Ordenou o pequeno grande homem com intensidade na voz, chamando a atenção para si, e ao olhar quem eram os visitantes, reconheceu um deles logo de cara. — Que ótimo em Urgan, já não basta tu ter se fodido, agora anda com palhaços.
— Há quanto tempo amiguinho... — Disse Urgan com sarcasmo, fazia muito tempo que não via o anão mais gente fina do reino.
— Amiguinho é a puta que te pariu! Fala o que você quer? — Percebendo que o bobo da corte que acompanhava o ex-general estava passando mal de rir da cena. — E você aí, palhaço do riso frouxo, quem caralhos é você?
— Eu sou o cara que vai trazer você para o nosso time. Então, já seja muito bem-vindo antecipadamente. — Respondeu sem rodeios ou enrolação em meio aos risos. Até que Urgan o puxou pelo braço para lhe dizer algo.
— Era dele que você estava falando? — Perguntou ele sem acreditar tanto, afinal, Rugnar era excepcional, mas também muito imprevisível.
— Relaxa, mano. Deixa com o pai! — Rugnar voltou sua atenção para Urgan, se perguntando sobre o que aquele palhaço estava falando.
— É alguma piada? — Urgan gesticulou com negatividade, pretendendo deixar Jester explicar tudo com mais clareza. — Ou se trata de um passatempo para dar algum sossego dos teus dias de sofrimento, e acabou contratando um palhaço para isso? — Questionou de braços cruzados, desacreditando completamente de algum sinal de seriedade proveniente desse assunto.
— Fique calmo, e apenas escute o que ele tem para falar. É algo muito sério na verdade... — Jester se aproxima de Urgan e continua.
— É um assunto de extrema importância que tenho certeza de que você vai concordar, mas temos de falar isso em particular. — Complementou, mudando um pouco o tom de abordagem.
De uma forma ou outra, Rugnar era uma pessoa bem curiosa, mas também muito impaciente, e queria de toda forma ver o assunto que esse palhaço estava se referindo.
— Vamos falar na minha sala. — Chamou ele já se retirando e sendo seguido pela dupla. — Muralha imprestável, volta para o seu posto! — O gigante assentiu com a cabeça e retornou para a recepção. — E quanto a vocês... — Olhando para trás, interrompendo a caminhada de Jester e Urgan. — Espero que seja realmente um assunto importante, caso contrário... — Segurava a barra de ferro ainda quente com as luvas. — Os dois sairão daqui com a bunda mais ardida do que nunca! — Ambos assentiram repetidas vezes com a cabeça com um leve nervosismo, sabiam que o anão não brincava em serviço.
A sala de Rugnar era robusta, com paredes de pedra e uma fornalha destacando o ambiente. Uma mesa de trabalho cheia de projetos, estantes de livros de engenharia, armaduras e armas expostas completavam o cenário, expondo um ambiente de trabalho intenso e maestria.
Jester e Urgan adentraram na sala após Rugnar, acendendo um lampião que iluminou todo o lugar e se sentaram ao redor da mesa de trabalho lado a lado de frente para o anão que esticou as pernas para cima da mesa em puro sinal de relaxamento.
— Trabalhando muito, Rugnar? — Indagou Urgan, tentando puxar um assunto aleatório antes da questão principal.
— Para caralho! Esses caras aprendem numa velocidade inacreditavelmente lenta. É impressionante o quão bons eles são em serem lerdos... — Observando os ferreiros trabalhando a partir das grades da parede. — Agora, parem de coçar o saco e me digam o que querem de mim de verdade! — Ordenou, e Jester retirou uma carta de um pequeno bolso em sua camisa e a colocou sobre a mesa logo a frente do anão. — O que é isso? — Perguntou ele.
— Seu convite para o time. — Respondeu Jester, moldando uma expressão de deboche em sua máscara especial.
Rugnar abriu a carta e a leu. Cada palavra, cada frase e parágrafo com bastante atenção, finalizando-a após alguns instantes e depois a largou de volta na mesa, se levantando da cadeira com os braços cruzados em suas costas e observando novamente os trabalhadores nos corredores de produção. Rugnar parecia reflexivo, pensando no que acabara de ler e criando uma atmosfera silenciosa um tanto confusa para os dois presentes já tão acostumados com a personalidade barulhenta do anão.
— Interessante a proposta de vocês... — Começou, com uma voz estranhamente calma e continuava perdido em pensamentos. — Urgan, você recebeu os mesmos critérios da missão? — Sem virar o rosto para focar no velho conhecido, ainda jazia observando o lado de fora imersivo em pura análise do que acabara de presenciar.
— Sim. — Respondeu de imediato.
— E se não me falha a memória... — Virando o rosto para encarar o bobo da corte mascarado. — Você também se chama Jester, não é?
— Pode crer, menor. — Rugnar arremessou a barra de metal na direção de Jester, que prontamente desviou e o material atingiu o quadro da parede.
— “Menor” é a puta que te pariu! — Respondeu o anão barbudo com cara de raiva.
— Caralho... — Urgan não sabia nem o que dizer, Rugnar mudou de personalidade em um nanosegundo apenas com uma simples palavra.
— Foi mal! — Respondeu Jester com as mãos levemente erguidas em sinal de rendição.
— Enfim, continuando o assunto... — A calmaria de antes retornou de imediato. — Urgan, você recebeu os mesmos critérios da missão? — Ele concordou com a cabeça, deixando completamente clara sua noção dos perigosos eventos que os aguardam pelo caminho.
— Isso é basicamente uma missão suicida, mas... é o melhor caminho a se tomar. — Jester e Rugnar focaram a atenção no antigo comandante, ainda estranhando a concordância do mesmo apesar de julgar "suicida" as motivações dessa missão. — Todos nós fomos feridos de certa forma por aquele desgraçado, nos afundamos em nossas falhas enquanto Razallath se diverte assistindo isso de seu reino. Rugnar, você conheceu esse fardo tão bem quanto eu! Sei que tem suas objeções quanto a isso, porém, também sei que você reconhece que isso não pode continuar assim.
— Vorosan está ruindo, é apenas uma questão de tempo até sobrar apenas sombras e pó como fizeram com o lar dos anões no passado, o seu lar... — Falou Jester estranhamente sério sentado na cadeira com as pernas esticadas sobre a mesa de trabalho; mexendo na ferida de Rugnar, a maior motivação que o inspirava todo dia a melhorar para em algum momento, seus esforços rendam frutos para que seus aliados expurguem o demônio completamente desta existência.
— Não imaginei que palhaços soubessem de história. — Disse Rugnar com sua típica forma exaltada e carregada de sarcasmo de se expressar.
— Boatos se espalham pela sociedade que nem incêndio; a gente acaba escutando uma coisa ou outra por aí. — Simplificou, deixando claro os meios que o levaram a saber de específicos fatos da história de seus aliados.
— O cara é fofoqueiro. — Falou Urgan, cortando o clima de seriedade de segundos atrás, juntamente do anão, e Jester retribuiu mostrando o dedo do mesmo ao mesmo tempo em que ria descontraidamente. — Enfim, conhecemos bem os riscos, e vou entender se você não quiser fazer parte... — Recebendo uma encarada séria do anão barbudo.
— Eu não disse que não participaria, oh general mendigo. — Respondeu com ainda mais intensidade, contrariando os pensamentos de Urgan. — Danem-se os riscos. Se há uma possibilidade de eliminar aquele demônio corno, então eu topo! — Finalizou, concordando com grande convicção, deixando o bobo da corte satisfeito com essa decisão.
Nem Jester tinha total certeza se conseguiria recrutar esses dois, menos ainda sem tanta dificuldade. Urgan viveu quase uma década sob a sombra de sua antiga glória, sobrevivendo com migalhas de esperança de um dia recuperar sua vida e sua família, e tinha todos os motivos cabíveis para rejeitar essa ideia maluca e continuar sob sua própria conta e risco. Seria uma decisão estúpida continuar do jeito que estava? Seria. No entanto, seu coração ansiou por anos por uma nova oportunidade de se provar digno e merecedor de ter sua honra restaurada, alegrando a alma do Rei Legório que aguardava para reencontrá-lo nos jardins esverdeados do além.
Quanto ao anão mais gentil do mundo, suas habilidades eram extremamente notáveis e seu desejo de se vingar de Razallath era tão imenso quanto. Mas, também era uma pessoa sensata, e o Bobo não acreditava que Rugnar deixaria o sentimento de vingança falar mais alto que a razão diante de circunstâncias tão desvantajosas para esse time em formação. Ainda havia muita coisa a se fazer, muitas escolhas e preparações para que as chances de sucesso cresçam cada vez mais; deixando Jester com um ar de empolgação para dar início a isso.
— Mas se vamos fazer isso, faremos do jeito certo! — Avisou Rugnar com seriedade, batendo as mãos na mesa de trabalho.
— O que você sugere? — Questionou Urgan em dúvida, e Jester permanecia curioso com esse aviso.
A intenção de Rugnar era propor alguns testes para seus dois novos aliados. Embora conhecesse as histórias sobre os grandes feitos de Urgan, era fato que hoje em dia ele estava absurdamente distante de seu auge em quase todos os aspectos. E quanto ao bobo da corte, ainda o conhecia muito pouco e queria colocar as expectativas de Dalibor sobre ele expressas na carta à prova. Dando início a esses passos, Rugnar sugeriu dois desafios: força e resistência.
O Teste de Resistência consiste numa batalha de bebedeira, para descobrir qual dos três tinha força de vontade e persistência o suficiente para aguentar uma quantidade de cinquenta doses de bebida alcoólica. Entretanto, a bebida em questão era extremamente diferenciada e considerada a mais forte presente em todo o Reino de Vorosan; apesar de ainda considerar as bebidas presentes nas adegas de Nidavellir infinitamente superiores às consumidas por todo o império humano, inclusive a mencionada anteriormente, era para Rugnar apenas um aperitivo para molhar a boca.
— Os desafios serão executados separadamente, sendo um de vocês responsável por um deles. Então, decidam de uma vez e mostrem que as duas mocinhas possuem peito para encarar! — Estufando o peito com um ar de autoridade suprema no assunto.
— Urgan, é contigo a salada. — Acertando um tapa no ombro dele. — Eu não bebo álcool, então boa sorte, general! Hahahaha! — Urgan se levantou da cadeira, aceitando o desafio de Rugnar, crente que seus anos de cachaceiro tornaram seu fígado mais resistente que o aço.
— Era justamente essa ordem que eu queria! — Revelou Rugnar, rindo malignamente de empolgação. — Vamos já testar se o “generalzinho” do boteco perdeu o shape! — Rindo da cara de Urgan.
Jester nada disse, continuou calado com uma mão no queixo apenas contendo o riso e tentando manter um sorriso simpático; se Urgan pudesse ver claramente o rosto dele, poderia perceber de longe o que ele estaria querendo dizer ao assistir a essa cena. Dessa vez, não iria deixar barato a zombaria do velho anão barbudo e retrucou:
— É por isso que você não arruma uma namorada... — Começou ele, plantando uma dúvida na cabeça dos outros dois presentes.
— O que isso tem a ver, garoto? — Respondeu o pequeno homem em confusão.
— É porque não tem como um namoro dar certo se os dois não crescem juntos! — Zombou ele em resposta à provocação de Rugnar, deixando-o completamente revoltado.
— Filho da... — Pegando a marreta de forja e indo para cima dele, mas foi segurado por Jester pelos braços.
— Calma, cara! — Pediu Jester, sendo que nem ele próprio conseguiu não rir dessa piada que enlouqueceu o anão. — ME LARGA, VOU ENCHER A CARA DELE DE PORRADA! — Berrava ele, percebendo Urgan escorado no canto da parede enquanto ria da sua cara.
— Foi mal, não queria provocar um “pequeno problema”. — Zombou ainda mais, se acabando de rir de Rugnar que começou a gritar de raiva, com o rosto ficando vermelho de raiva para matá-lo por fazer piada com seu tamanho.
Os gritos de Rugnar atraíram a atenção de todos os ferreiros que trabalhavam nas linhas de produção de equipamento, percebendo a revolta do anão enquanto era segurado por um palhaço e o outro ria da situação. Até que o recepcionista de mais de dois metros também percebeu esses gritos, e foi dar uma olhada, aparecendo no corredor e indo até a sala do chefe, já abrindo a porta com toda força.
— Tudo bem, senhor? — Perguntou o gigante, aparecendo de surpresa na porta, fazendo Urgan parar de rir momentaneamente.
— MURALHA DE MERDA! PEGA ESSE CARA E MATA ELE NO SOCO! — Gritou Rugnar, ordenando a morte de Urgan pelas mãos do titã em forma de funcionário.
— Fodeu... — Falou Urgan, percebendo o cara que mal cabia em pé na sala se aproximando com o punho inchado pronto para lhe enviar para o além-vida.
Muralha se aproximou correndo para cumprir a ordem do patrãozinho, direcionando seu punho direito para o rosto de Urgan, com uma pressão impressionante e velocidade capaz de cortar o ar com extrema facilidade. O ex-general, com uma expressão de temor, cruzou os braços em forma defensiva, criando involuntariamente um escudo para se proteger. Contudo, Jester largou Rugnar e rapidamente correu até o meio-irmão, agarrando o pulso dele e o puxando para desviar daquele golpe que parecia ter potência o suficiente para quebrar o escudo e o crânio dele junto.
O gigante colocou tanto ímpeto no ataque que não conseguiu conter o avanço e atingiu a parede de pedra logo à frente com um soco. Caídos no chão após isso, Jester disse:
— Você tem que parar de arrumar confusão! Já é a segunda vez que tenho de salvar tua bunda. — Rindo, e o escudo se desfez em mana; antes que Urgan respondesse alguma coisa, foi atingido por uma marretada no rosto que quebrou seu nariz e o jogou contra a parede, terminando inconsciente por alguns momentos.
— Que isso sirva de lembrete! — O gigante ressurgiu e se aproximou de Urgan para bater nele mesmo desacordado. — Deixa ele, muralha incompetente. Não viu que já resolvi?! — Ele parou e se desculpou. — Volta para o seu posto. — Ordenou, guardando a marreta de volta no compartimento em sua vestimenta.
— Sim, senhor. — Seus passos estremeciam o lugar, e finalmente, se retirou.
— Onde você achou esse cara? — Perguntou Jester curioso; afinal, viveu em Vorosan na maior parte de sua vida e nunca havia visto alguém de aparência tão monstruosa.
— Achei por aí... — Pegando um balde de água no lado de fora da sala e o jogando na cara de Urgan, o acordando subitamente com sangue escorrendo do nariz torto. — Acorda, princesa! — Ele parecia meio aturdido, sentindo uma dor intensa no rosto pela pancada que levou do anão revoltado.
— Aah, porra, quebrou meu nariz! — Reclamou Urgan sentindo o osso deslocado, o forçando de volta para o lugar após alguns movimentos cuidadosos, causando muita dor, mas valendo a pena. — Por quanto tempo fiquei desacordado? — Jogado de costas no canto da sala com Rugnar de pé à sua frente.
— Uns dois minutos, mano. — Respondeu Jester logo atrás, levantando a mesa de trabalho que foi derrubada quando Rugnar se enfureceu e tentou assassinar Urgan num momento de raiva pela piada com seu tamanho.
— Aaah, foi mal aí, não sabia que você tinha uma raiva tão grande. — Se levantando, e estranhamente, Rugnar não respondeu nada naquele momento, somente respirou fortemente em sinal de intimidação.
Por outro lado, Rugnar não deixou de notar o desempenho de Jester durante a briga contra o Muralha, dando-lhe uma boa primeira impressão, contrariando levemente seus pensamentos iniciais, levando apenas em conta o fato de ele ser um bobo da corte e não parecer levar as coisas tão a sério. É claro que nem o próprio Rugnar passava essa impressão às demais pessoas, mas este era o seu jeito comum de agir nos mais diferenciados cenários.
— Não vou mentir, fiquei um pouco impressionado pela facilidade com que você lidou com a Muralha agora há pouco. — Comentou, atraindo novamente a atenção de Jester, que até agora sequer havia pensado no que fizera, vendo aquilo como somente mais um dia normal. — Entretanto... — Focando a atenção em Urgan com um pano no nariz para conter o sangramento. — Você aí! — Apontando o dedo para ele. — Tem que voltar a treinar o quanto antes, você tá mais frouxo do que pensei! — Acusou, e o ex-general respondeu somente com um semblante de vergonha, até porque, era notável sua decadência e ele próprio reconhecia isso.
— Mudando de assunto. Quando você quer fazer esse desafio da cachaça? — Perguntou Jester, achando que Rugnar deixaria para outra ocasião agora que Urgan quase foi conhecer o criador.
Rugnar apenas sorriu em resposta, caminhando até um pequeno armário no canto leste da sala, ao lado da parede que foi golpeada por Muralha. Os dois ficaram calados, em expectativa sobre as intenções do anão barbudo. Seguidamente, Rugnar abriu o armário de duas portas, revelando milhares de garrafas de biritas diversas, de vários gostos e tipos, impressionando ambos.
— Agora mesmo! Ou o narizinho do Urgan o deixou incapacitado?! — Desdenhando da força de vontade do ex-general.
— Jamais! — Respondeu Urgan, convicto de seu sucesso nesse desafio de cinquentas doses. Fora apanhar, uma das coisas que ele mais fez ao longo desse período na sarjeta, foi encher a cara por aí, moldando um pensamento de certeza de que conseguiria vencer essa provação “fichinha” de acordo com seus pensamentos. — Espera, você também vai participar? — Um detalhe que ainda não havia sido mencionado.
— Óbvio! — Nunca que Rugnar perderia a oportunidade de mostrar quem era o mais brabo na arte do pé inchado.
O ex-general conhecia a fama dos anões no consumo alcoólico, e se o desafio fosse de fato um desafio para saber quem consegue beber mais, então suas chances de vitória eram mínimas. No entanto, ele não se acovardaria perante tão apropriada batalha. Rugnar sorria malignamente, muito ansioso para humilhar Urgan assim como fizera com quase todos os seus oponentes no passado.
Jester nem pensava em se intrometer no assunto, era uma disputa ferrenha entre dois homens acostumados a lidar com o assunto, ele seria apenas o intermediário que elevaria a moral do desafio para o possível público que presenciaria o evento.
— E aí, princesa. Vai topar ou deixar para outro dia? — Nariz ferrado e as marcas de porrada da briga no bar no início do dia não seriam um problema para Urgan, já esteve em situações muito piores e o álcool foi seu fiel companheiro nessa jornada.
— Você falou de bebidas diferenciadas, mas essas aí até eu já vi e experimentei, e não achei grande coisa! — Acusou ele, desprezando as palavras enaltecedoras de Rugnar sobre suas escolhas para beber.
— Alguém tá muito apressado para tomar um pau! — Voltando para o armário e afastando as garrafas, expondo vários exemplares da bebida mencionadas mais cedo, as mais fortes de Vorosan de acordo com as palavras de Rugnar.
— “O Anjo Decapitado”. — Leu Urgan no rótulo da garrafa. — A meu ver, parece um título bem sensacionalista... — Comentou, ainda duvidando da verdadeira potência da escolha de Rugnar.
— Beba e descubra então... — Rugnar abriu uma das garrafas, apreciando o aroma forte da bebida como um perfume excelente. — Aaarh! Maravilha. Sente só o aroma do néctar dos semideuses... — Urgan mantinha uma figura confiante, pegando a garrafa das mãos do homem de baixa estatura e apreciando, ou melhor, ao menos era isso o que esperava fazer.
Mas antes que ele pudesse ter uma prévia do que o aguardava, Jester se aproximou de Rugnar para fazer uma simples pergunta.
— Aí, por que chamou de “Néctar dos semideuses”? — Parou de braços cruzados ao lado do anão, interessado em saber o sentido do termo usado na descrição.
— Significa que é poderoso, porém, extremamente inferior ao Néctar dos Deuses, consumido antigamente nas tavernas de Nidavellir... — Respondeu, sugerindo existir safras de outras bebidas ainda mais poderosas que essa apreciada apenas pelos mais acostumados com álcool em Vorosan.
— Valha-me... — Urgan finalmente inspirou o aroma contido na garrafa, e no instante seguinte, seus olhos se arregalaram como balões e sentiu uma sensação absurdamente quente consumir seu olfato.
— Aaah! Aha! Cof cof! — O cheiro era ridiculamente forte, bagunçando seus sentidos e o fazendo ter uma breve crise de tosse.
— HAHAHAHAHAHA! — Jester e Rugnar riram em uníssono daquela cena, vendo Urgan quase ir de base sem sequer ter experimentado a bebida de fato.
— Aaaah! Que porra de bebida é essa que você consome?! — Somente o cheiro foi capaz de desestabilizar brevemente os seus sentidos.
Rugnar tirou a garrafa das mãos de Urgan, evitando que fosse desperdiçada num possível descuido por parte dele. Notando uma leve desorientação, vendo os objetos se moverem mesmo isso sendo impossível sem intervenção externa; Jester, vendo isso, pensava, se inclusive Urgan que estava acostumado a beber essas coisas frequentemente e horas antes quase colapsou por conta da abstinência, quem sabe o que poderia acontecer com ele próprio que nem apreço tinha por essas porcarias.
—"O Anjo Decapitado", chamada assim por conta de sua fama, possibilitando àqueles corajosos que a beberem um encontro pessoal com os próprios anjos do paraíso... — Revelou Rugnar, mostrando a gravidade da situação em que Jester enfiou Urgan.
Mas esse ainda era o nível básico, foi apenas um rascunho do que aguardava o supostamente acostumado a beber. Após alguns segundos, Jester acertou o rosto de Urgan com um tapa para fazê-lo recuperar ao menos um pouco os sentidos depois de serem destroçados pelos efeitos retardantes da bebida de alto teor alcoólico. Rugnar revelou a Jester que as bebidas que Urgan estava acostumado a tomar tendiam a ter uma baixa fermentação, concluindo esse processo dentro do corpo do consumidor e causando os efeitos comuns do álcool de forma gradativa conforme o consumo, efeitos como: relaxamento, euforia e desinibição. Contudo, essa, em questão, era famosa também por sua alta fermentação, além de alguns ingredientes mágicos que a tornavam ainda mais potente em todos os aspectos. Urgan teve apenas uma prévia, e quando o desafio começar, vai se sentir um verdadeiro novato nesse assunto.
— Tá vivo aí, cara? — Dizia Jester tentando despertar Urgan completamente, mas ele aparentava estar com a cabeça nas nuvens sorrindo de maneira boba e sem um pingo de constrangimento.
— Batata? — Dizia nada com nada, e Jester olhou para Rugnar expressando dúvida, e o anão apenas riu ao mesmo tempo em que tomava um gole da bebida e reagia apenas com claros sinais de relaxamento e apreciação do sabor. — Eu não fiz nada daquilo... — Soluçando. — O dragão-elefante que roubou o whisky do balcão, moço, foi eu não! — Soltando leves risadas desengonçadas, e Jester continuava sem entender nada.
— Ele só está delirando. Provavelmente o efeito mágico entrou em ação, estimulando os resquícios de álcool ainda presentes no organismo dele e o fez aparentar que bebeu todas de novo... Dá só alguns instantes, e logo ele estará de boa de novo. Vai, me ajuda aqui a levar essas 10 garrafas de Anjo Decapitado lá para fora! — Jester deixou Urgan sentado na cadeira ao lado da mesa para se recuperar e foi ajudar Rugnar com os preparativos para esse teste.
O estado atordoado de Urgan fazia Jester questionar se ele estaria realmente apto para continuar com isso no dia atual, mas Rugnar sabia que isso não era o bastante para derrubá-lo completamente pelo resto do dia e tinha certeza de que, dentro de alguns minutos, estaria pronto novamente e com ainda mais empolgação para competir. A bravura sempre descreveu quem de fato era a pessoa Urgan, e embora a decadência o tenha alcançado, essa vontade de persistir nunca se apagou; qualquer outro sem força de vontade que fosse submetido a viver da forma que ele viveu na última década já teria cometido suicídio há muito tempo.
Rugnar abriu a porta com um chute forte, atraindo a atenção dos ferreiros com a pancada, e os deixando curiosos ao verem tanta bebida em posse do chefe e do homem vestido de bobo da corte que o acompanhava.
— AÍ, SEUS FROUXOS! PRESTEM ATENÇÃO NO PAI AQUI... — Todos os ferreiros sem exceção, interromperam suas funções e focaram a atenção no anão que, em seguida, organizou juntamente de Jester as várias garrafas da bebida extraforte sobre uma grande mesa de metal ao lado da escada que ligava aquela ala à sala pessoal do ferreiro chefe. Rugnar deixou tudo pronto, e os seus funcionários não faziam ideia do que ele estava planejando fazer, alguns já até especulavam uma pausa do serviço com direito à bebida de graça da adega pessoal do patrão.
— Para quem está achando que vai poder beber junto de mim... pode tirar o cavalo da chuva. Mas, hoje é uma ocasião especial para todos nós! — Urgan finalmente despertou de seu delírio e saiu da sala de Rugnar, um tanto tonto e com o equilíbrio corporal ainda em recuperação. — Ora, a bela adormecida acordou rápido pelo visto... — O ex-general sorriu, gesticulando positividade com o polegar direito enquanto se segurava no corrimão da escada.
— Tá de boa, cara? — Questionou Jester vendo o ex-militar descer das escadas lentamente, quase caindo e indo de cara no chão rochoso.
— Melhor impossível! — Parando de pé entre Jester e Rugnar que o encarava com sarcasmo e arrogância. — E aí anão de jardim, tá pronto para aprender como se enche a cara de verdade? — Falou Urgan meio desmantelado, mas Rugnar somente riu das palavras de seu adversário, e Jester colocou uma mão no ombro de seu meio irmão, chamando sua atenção.
— Baixa a bola, meu mano. Depois do que vi, vou dizer é nada... Hahahaha! — Não tinha motivações adequadas para quebrar a expectativa de Urgan, queria ver com seus próprios olhos até onde ele iria aguentar nesse “duelo”, mesmo tendo certeza de que ele vai tomar a maior surra da vida. O bobo da corte odiaria perder essa cena cômica.
Neste instante, alguns ferreiros começaram a cochichar entre si, reconhecendo quem era Urgan e os seus feitos de traição para com o reino. Mas, Rugnar ordenou que todos ficassem quietos e prestassem atenção em seu anúncio; por outro lado, Jester tomou a frente do anão, oferecendo a si mesmo para noticiar o grande evento da noite. O Bobo se colocou diante de seus companheiros com seu velho companheiro de guerra, o violão ukulele, de frente para a plateia de trabalhadores sujos de fuligem e suor naquele calor que fazia na ferraria. Jester, tocando uma breve trilha sonora impactante para servir como abertura para o verdadeiro show.
— CIDADÃOS DE VOROSAN! FERREIROS DO BRAÇO FORTE QUE ADORAM PEGAR NO FERRO... — Escutou sussurros de “Lá ele” entre os espectadores. — LHES APRESENTO AQUI UMA DISPUTA QUE PARA SEMPRE VIVERÁ EM SUAS MEMÓRIAS. VAMOS DESCOBRIR HOJE QUAL DESSES DOIS AQUI CONSEGUE ENCHER O CU MAIS RÁPIDO... DE BEBIDA, É CLARO. — E os “Lá ele” repercutiam infinitamente entre os ouvintes acostumados a pegar no ferro. — DE UM LADO ESTÁ ELE: A PESSOA MAIS DÓCIL DESSE REINO, O GIGANTE DENTRE OS GIGANTES... — Rugnar, logo atrás, arremessou uma faca na direção da cabeça de Jester que habilmente se esquivou ao mover sua cabeça para a esquerda, e um dos ferreiros a segurou no ar no maior susto. — O BRABO DOS BRABOS, AQUELE QUE MAIS PEGA NO FERRO DENTRE TODOS AQUI! HAHAHAHAHA! — Ele não sabia se falava ou se ria, uma compulsão que ele não tinha tantas forças para conter. — O MAIS ORGULHOSO DE TER O BRAÇO MALHADO NA PUNHE... DIGO, FERRARIA. UM DOS POUCOS SOBREVIVENTES DE NIDAVELLIR; EU LHES APRESENTO, RUGNAAAAAAAR!!! — Anunciou e todos os ferreiros responderam com gritos de elevação, saudando o chefe-ferreiro que se colocava à frente de todos berrando com os braços erguidos de empolgação e proferindo palavras de baixo calão para com o seu adversário. Parecia a final de um campeonato mundial, o vigor da plateia na torcida pelo ídolo era sem precedentes.
— É ISSO, EU VOU ACABAR COM ELE! — Exclamava o anão empolgado, pronto para vencer qualquer desafio.
— ELE VAI LUTAR PARA DEFENDER SEU TÍTULO DE O ATUAL MAIOR CACHACEIRO DE VOROSAN, CONTRA UM OPONENTE TÃO PÉ INCHADO QUANTO. ELE, O FUDIDO, O ESBAGAÇADO DE PORRADA E O SER MAIS ODIADO À NÍVEIS EXTREMOS, EX-GENERAL URGAAAAAAAN! — No entanto, ao contrário de Rugnar, não houve comemoração da plateia, apenas os zumbidos dos mosquitos e os sons costumeiros dos grilos eram ouvidos por toda ferraria.
Urgan, caminhou para se apresentar diante da plateia, mas foi convocado por Jester para lhe dar algumas ideias.
— Hã, o que foi? — Disse ele, Jester chegou de mansinho em seu ouvido para sussurrar algo.
— Cria uma espada e coloca um encantamento de fogo nela com a amplificação... — Sugeriu, deixando Urgan surpreso com o fato de ele ter informação sobre isso.
— Espera, como caralhos você sabe disso? — Desta vez, Jester não se preocupou em ser descoberto pois já estava esperando essa pergunta.
— Fofocas, General... — Disse ele contendo um riso.
— Entendi. — Se preparando para fazer o que foi sugerido.
A partir de suas mãos, a mana presente em sua alma moldou uma grande espada medieval de aço reforçado com uma empunhadura composta por uma guarda, que é uma estrutura protetora posicionada entre a lâmina e o cabo, projetada para proteger a mão do usuário durante o combate. O cabo era envolvido por tiras de couro, proporcionando uma aderência firme.
Neste momento, a forma natural da Amplificação de Classe se fez presente, contornando o corpo de Urgan com um brilho azul-cristalino que era a representação da própria mana o consumindo, prestes a infundir as chamas em sua arma de batalha, fios serpentearam pela espada até a cobrirem completamente, formando uma camada por toda a superfície do material metálico, criando um ar de mistério para os espectadores que assistiam a cena com atenção e absoluto silêncio. A seguir, os fios são instantaneamente incinerados pelas chamas remanescentes que incendeiam o coração de Urgan embora ofuscadas pela penumbra depressiva rondando sua alma.
O brilho escarlate do fogo intenso prevalecia sobre todas as coisas, muito mais brilhante que as chamas das fornalhas ardentes espalhadas pela ferraria. Mantendo o silêncio absoluto, Urgan apontou sua espada flamejante na direção de Rugnar, como um claro sinal de desafio que de certa forma o deixou intimidado. Entretanto, abruptamente, as chamas e a espada desapareceram, se desfazendo em fragmentos de mana com um brilho azulado, que rapidamente foram absorvidas de volta para seu corpo, causando uma sensação calorosa em seu ser.
Mas, para a surpresa de Rugnar, após a arma escarlate desaparecer por completo, Urgan manteve sua palma esticada na direção do anão, com a feição de tranquilidade estampada em seu rosto como se estivesse o convidando para um aperto de mãos amigável, dando ênfase nos costumes de tratamento esportivo que devem ser levados nas competições. Logo, Rugnar atendeu à solicitação e os dois adversários se cumprimentaram. Um sinal claro de competitividade mútua, porém, nenhum dos dois pretendia se acovardar quando a verdadeira batalha enfim começasse.
Esse simples ato de convicção de Urgan perante as circunstâncias negativas do povo com sua presença, marcava também como o retorno de algo que ele não fazia há muito tempo, suas Amplificações, antes usadas para combater as adversidades e depois para sobreviver nas ruas áridas da humilhação, agora, retornava uma vez mais para demonstrar sua falta de fraqueza, demonstrando que não vai se render a nada. A espada, em conjunto com a forma Natural da Amplificação de Classe, além da cor específica de sua mana ao se manifestar, servia como um lembrete do sentimento que nunca o abandonou apesar de tudo; uma força muito poderosa que impulsiona os perdidos para além dos próprios limites: esperança. E ao fazer a espada desaparecer juntamente de sua amplificação, Urgan absorveu essa mana, impondo um significado importante que apenas os mais atentos poderiam notar — ele absorveu a esperança em si, mantendo-a viva para grandes realizações futuras, e nada o fará perdê-la.
Após todos estes eventos, os concorrentes se colocaram à retaguarda da grande mesa de metal recheada com as várias garrafas de Anjo Decapitado, um desafio intenso que os aguardava para testar seus corpos para além de um limite desconhecido. Rugnar, porém, não parecia tão preocupado com isso, estava se alongando e rindo descontraidamente enquanto seus funcionários espalhados por todo o salão se reuniram com o Muralha que se tornou o mediador de apostas, as vozes exaltadas dos trabalhadores dominavam o estabelecimento como uma sinfonia interminável; ao final das escolhas feitas do possível vencedor, Jester notou que as opiniões em praticamente todos os aspectos previam uma queda iminente de Urgan e o prevalecimento absoluto do anão extravagante.
Posicionados um afastado do outro com quantidades igualadas de garrafas da mesma bebida, Urgan tentava não pensar em nada antes de começar, pois sabia melhor que todos que a balança da probabilidade estava contra ele. Em seguida, Jester, se colocando ao lado de Urgan e Muralha ao lado de Rugnar, ambos com bandejas ocupadas com vários copos de vidro na mesma quantidade e os colocara sobre a mesa em fila indiana, esvaziando o máximo de garrafas possíveis até preencher todos os copos, todos perfeitamente cheios e posicionados para dar início ao verdadeiro embate.
O primeiro teste de Rugnar: Resistência. A cada quinze copos tomados, equivalem a uma garrafa inteira. Urgan, mentalmente preparado para o que estava por vir, pensava em táticas diferentes para conseguir lidar com o teor alcoólico de alto nível, além da própria magia que reforçava os diversos efeitos. O cheiro quase o matou, e sinceramente, não via formas de conseguir prevalecer, e o olhar de Rugnar o deixava irritado, conseguia de longe perceber que estava fazendo pouco caso dele.
Jester, observando minuciosamente os preparativos para esse desafio, foi conversar com o anão para entender melhor algumas coisas levadas em conta agora no princípio de um evento que com certeza fará Urgan cair em coma depois. Ele se aproximou de Rugnar, chamando sua atenção para fazer umas breves perguntas:
— Fala, palhaço. — Respondeu o anão ao escutar seu nome ser chamado por Jester em meio aos berros da multidão empolgada.
— Não acha essa quantidade exagerada? — Rugnar arqueou a sobrancelha, um pouco confuso sobre o objetivo desse papo. — Digo, o desafio inicial era apenas de cinquenta doses. Todavia, apenas sete delas já eram o suficiente para encher ao menos cem copos... — Comentou ele, mas Rugnar apenas soltou uma breve gargalhada, fazendo chacota das palavras do bobo da corte.
— Sim, e daí? Para mim isso aqui é apenas um aperitivo, e quero ver até onde vai a força de vontade do seu generalzinho de papel! — Inicialmente, ele não pretendia participar disso, apenas assistir e ver se Urgan realmente tinha algum culhão sobrevivente naquela casca surrada pelas circunstâncias das falhas. — Mas se isso te serve de consolo, parte do que sobrar da cachaça será repassada para os ferreiros. Nem ferrando que vou deixar bebida ser desperdiçada aqui porque a princesa aí não aguentou beber! — Finalizou, bufando com impaciência para começar logo. — Inclusive, você, palhaço, também vai beber nem que eu te mate para isso! — Jester deu um passo para trás, discordando das palavras do anão cara de pau.
— Mas nem fodendo! — Respondeu de imediato, nunca teve costume ou vontade de encher a cara, a única coisa boa que via nisso eram as galhofadas que o Alaric costumava fazer durante a embriaguez e que lhe rendiam infinitas ideias novas de zoação para perturbar a paz do mago cachaceiro. — No entanto, vai ter a oportunidade de me matar no próximo teste. E é bom que não pegue leve no Teste de Força! — Fazendo um sorriso maligno se formar na máscara,
— Não tenho medo de palhaços!
— E nem eu de gnomos... — Rugnar franziu o cenho e tentou pegar sua faca para esfaquear Jester, mas lembrou que havia perdido a posse dela quando a usou para tentar matá-lo na outra vez. — Procurando alguma coisa? — Falou Jester com a faca de Rugnar e gozando da cara dele, havia usado seus fios secretamente que roubaram a faca que estava com um dos ferreiros.
— Filho de uma rapa... — Um berro súbito de Urgan os interrompeu.
— Vamos começar logo isso. Eu quero ir para casa dormir! — Disse ele com pressa, tentando não deixar seu nervosismo tão evidente.
— Mas você não tem casa... — Falou o Muralha se intrometendo no assunto após servir apenas de apoio para Rugnar nos preparativos.
— Cala a boca, Muralha! Não tá vendo que vai fazer o cara cair na depressão?! — Reclamou Rugnar, fazendo o gigante voltar a fazer papel de estátua ao seu lado.
— Perdão, senhor. — Cruzando os braços nas costas e ficando em silêncio.
— Bom, tecnicamente ele tem uma casa para ir, só não pertence a ele. — Ponderou Jester, lembrando que havia comprado o hotel onde tratou Urgan mais cedo que apanhou no bar até perder a consciência. Ele, por sua vez, encarou Jester com um olhar de confusão.
— Uai, eu tenho casa? — Questionou Urgan, ele nem sabia que aquele quarto de hotel pertencia a Jester, as únicas coisas que lembrava era de ter acordado na cama de lá e sequer perguntou sobre o assunto depois de o conhecer.
— Tem, mano. Papai aqui tira da rua e cuida com muito carinho...
— Lá ele! — Lembrando de quando Jester revelou que não havia comido seu cu enquanto estava desmaiado.
— Enfim, vamos começar logo isso porque já tá ficando chato de esperar! — Falou Jester sem paciência também, juntamente dos espectadores que reclamavam sem parar junto dele.
Rugnar gesticulou com o punho cerrado, um aviso ordenando para que todos os ferreiros entusiasmados se calassem para que Jester pudesse dar início de fato ao grande evento. O bobo da corte se colocou à frente da mesa de metal, preparando um breve discurso de abertura.
— Muito bem, companheiros ferreiros, após uma longa espera, finalmente estão prontos os preparativos para esse desafio. De acordo com as regras estabelecidas por Rugnar, Urgan deverá tomar cinquenta doses antes de capotar! Isso é para vencer o desafio, mas para vencer Rugnar. Aí vai ter que segurar na mão do criador e confiar na fé. Por fim, que dê início a essa competição maravilhosa de entupir o cu de cana! — Rugnar tomou as rédeas da primeira rodada, pegando o primeiro copo cheio e o virando em questão de segundos, ainda provocando Urgan com um sorriso cheio de malícia. — Eita que esse tem pressa para encher o cu de cachaça! Digo, e Rugnar já tomou o primeiro copo e disparou na liderança dessa corrida maluca. Será que Urgan vai conseguir acompanhar?!
Urgan, jazia calado observando seu primeiro copo ainda cheio, com os berros dos espectadores o ordenando começar a tomar ou desistir de uma vez para encurtar a espera de quem apostou na vitória de Rugnar. Ele pegou o copo, insistindo em ignorar o desfecho óbvio que o aguardava na primeira virada, e Jester até cobriu os olhos para evitar rever essa vergonha alheia novamente; Urgan observou Rugnar que apenas sorria com o maior sarcasmo de sua vida. Então, o ex-general criando determinação e surpreendendo toda a torcida, apanhou o copo da mesa e o encostou nos lábios para tomar, apenas para que o simples cheiro ao invadir suas narinas, repetisse o efeito anterior e o fazendo ir de encontro com o chão de uma só vez, contrariando as expectativas de quem havia criado uma mínima confiança em sua resistência.
Com isso, todos exceto Jester, começaram a rir sem parar da cena vergonhosa que o suposto maior general desse império protagonizou.
— Aí você me quebra, meu patrão! — Pensou Jester com a mão na testa, inconformado com esse desenrolar humilhante para alguém que já foi tão prestigiado no passado.
Entretanto, contrariando novamente o que todos pensavam, Urgan se reergueu do chão lentamente, deixando Jester sem entender mais nada. Ele se levantou, seu rosto parecia meio abatido e seu semblante ainda mais cansado. De fato, Urgan havia novamente perdido a consciência ao sentir o cheiro incomparável do Anjo Decapitado, porém, após a primeira experiência com ela na sala particular do anão safado, seu organismo havia de certa forma conseguido assimilar boa parte das características da bebida e principalmente os efeitos mágicos após a breve aprimoração de seu corpo com a Amplificação de Classe usada anteriormente. Portanto, conseguindo ter mais resistência a ela agora, mas não o suficiente para seguir tranquilo.
— Ainda não estou morto! — Pegando o copo e o virando de uma vez na força do ódio mais intenso escondido no ponto mais abissal de sua alma. — Aaaaaah! — Batendo o copo vazio na mesa, e Jester trocou olhares de leve surpresa com o próprio Rugnar que fazia uma careta nada contente com isso. — Sua vez, doçura! — Falou Urgan mal conseguindo se manter estabilizado no mesmo lugar.
— Se empolga não, moleque. Essa falsa marra só vai conseguir te ajudar agora! — Acusou Rugnar já tomando o seguinte copo de uma só vez, e Urgan já estava suando por conta da sensação de queimação extrema do primeiro copo. — Aaahg, isso que é vida! Anda, sua vez de novo! — Colocando o copo sobre a mesa e já segurando o próximo, e com Muralha reabastecendo os que foram esvaziados.
Rugnar ainda desdenhava da capacidade de Urgan, especialmente após vê-lo sucumbir apenas com o cheiro da bebida escolhida. Pior ainda agora que Rugnar tomou a dianteira na primeira rodada e Urgan parecia prestes a ser novamente derrubado. Urgan parecia desestabilizado; o Anjo Decapitado era realmente mais forte do que sua resistência base e mal preparada poderia suportar. Segurando-se na mesa de metal, encarou o próximo copo cheio e ouviu os urros da multidão, ansiosa por testemunhar sua queda. Respirando pesadamente como se estivesse com falta de ar, Urgan observou Jester de relance, com sua máscara esbranquiçada mantendo uma figura neutra. Ele era o único presente que mantinha o silêncio, não desejando ver Urgan fracassar mais uma vez.
E mais uma vez, as palavras encorajadoras de seu falecido pai voltaram a reverberar em sua mente, e uma silhueta do próprio oculto em meio à multidão gritante se fez presente, elevando o espírito guerreiro de Urgan e encorajando-o a não se deixar levar pelas fraquezas, por mais intensas que fossem. Ele ergueu o rosto para encarar seus opositores, exalando uma perseverança indomável em relação aos seus ideais. Começou a sussurrar num tom quase inaudível, sua voz descompensada como se estivesse delirando.
— Shiii, já tá alucinando tão cedo? — Perguntou Rugnar, zombando da atitude de seu rival.
Jester, que continuava calado esse tempo todo com seus braços cruzados, apenas assistindo o desenrolar dessa competição maluca, arregalou os olhos e descruzou os braços. Sua expressão foi tomada por um ar de empolgação, e abriu um sorriso imenso em sua máscara ao notar já ter visto aquela ação em outra ocasião. De fato, as coisas vão pegar fogo nesse teste.
Ignorando completamente as consequências e se enfiando de cabeça na batalha, Urgan juntou as mãos e realizou um selo de mão, calando a boca de Rugnar e automaticamente fazendo o sorriso de desdém ser substituído pela mais singela feição de surpresa.
— Seja feita a sua vontade. Amplificação de Classe! — A mana azulada voltou a brilhar intensamente ao envolver completamente seu corpo como uma aura quente, levando-o para muito além de seus próprios limites e aprimorando cada uma de suas capacidades a níveis absurdamente elevados.
Jester mal conseguia conter a empolgação ao contemplar tamanha obra de arte. A última vez que viu algo assim, quase significou sua morte em batalha, mas desta vez, poderia contemplar numa posição privilegiada as verdadeiras capacidades dos tempos atuais de seu meio-irmão. O bobo da corte jazia agitado, ao mesmo tempo em que soltava risadas de provocação, desiludindo Rugnar que entrou nessa, cético de que seria um passeio no parque.
Entretanto, além disso, todas as Amplificações foram usadas em conjunto, gerando um aumento ainda mais exagerado de capacidades. Todos ficaram em puro êxtase com tamanho desfecho. Urgan sentia seu corpo arder em excitação como se estivesse pegando literalmente fogo, evaporando a maior parte da concentração alcoólica em seu organismo debilitado.
Então, Urgan pegou o seguinte copo e o virou completamente dentro de sua boca inteiramente aberta. Rugnar, desacreditado por não ter previsto essa ação audaciosa de seu adversário, rangeu os dentes em cólera por estar sendo feito de bobo por um cara que mal aguentava o cheiro básico dessa bebida, e agora estava superando os próprios limites e indo cada vez mais longe com todos os meios disponíveis para tal.
— EITA, O JOGO ESTÁ EMPATADO COM DOIS PONTOS PARA CADA! URGAN REALMENTE NÃO PRETENDE DEIXAR BARATO, VAI ENCARAR O ANÃO DE FRENTE NESSE DUELO. QUEM VENCERÁ NO FINAL? — Anunciava Jester aos gritos para uma multidão enérgica.
A aura estridente de Urgan intimidava seu adversário, que sem hesitação, repetiu os mesmos procedimentos feitos por Urgan e também ativou todas as suas formas de amplificação. A cor cinza de sua mana o cobriu completamente, estremecendo todo o ambiente. Para Rugnar, uma batalha onde apenas um demonstra grande ímpeto para alcançar a vitória é uma desonra completa para ambos os lados.
— Se você quer jogar à sério desde o início, então vamos com tudo desde o início! — Advertiu ele com intensidade, tomando o terceiro copo de uma só vez novamente e limpando o excesso em seus lábios e barba. — Anda! Toma essa porra! — No segundo posterior, Urgan também já havia tomado seu próximo copo e sentia o teor intensivo da bebida insistir em bagunçar seus sentidos. No entanto, a força extra proveniente das amplificações resultou numa resistência capaz de suportar muito mais. — Aaah, seu moleque! Você realmente tem culhões para estar aqui, mas essa sua marra não vai durar muito! — O teste parecia caminhar rumo a uma disputa acirrada, contrariando as probabilidades e requisitando um esforço maior da parte de Rugnar caso de fato queira alcançar o êxito nesse duelo de cachaceiros.
— Vai ficar de papo furado ou vai começar a encher a cara de verdade? — A atmosfera parecia infinitamente mais pesada naquele ambiente, e os dois rivais não demonstravam intenção alguma de ceder perante o outro.
Alguns espectadores estavam suando frio, descrentes da certeza do prevalecimento de Rugnar e o alcance da vitória nas apostas colocadas sobre as costas do anão. As auras de ambos queimavam como fogo, afugentando os mais frágeis para uma posição mais distante se quisessem contemplar essa batalha que alcançava novos patamares.
De uma hora para outra, Jester deu início ao verdadeiro desafio, e nenhum dos dois demonstrou mais enrolação na hora de consumir as respectivas doses. Rugnar, ao virar o seu de uma única vez como de costume, Urgan realizava a mesma ação sem a menor hesitação ou demonstração de fraqueza, apesar das provocações de seus opositores desesperados pela sua desistência.
Logo, após longos e intermináveis minutos, já estavam na quadragésima sexta rodada. Rugnar respirava com leve dificuldade, não que as bebidas estivessem lhe afetando de certa forma. Na realidade, eram apenas os efeitos colaterais do abuso das amplificações o debilitando brevemente, mas como seu corpo já era familiarizado ao ser levado para o limite por causa das milhares de horas intensivas de trabalho em prol de um dia alcançar sua vingança, Rugnar conseguia se manter estável apesar de tudo. Ainda assim, nesse meio-tempo de desafio ininterrupto, o fôlego de Urgan foi empurrado para um estado tão crítico que seu corpo parecia estar definhando, como se estivesse desistindo dele próprio e prestes a se autodestruir.
Ele estava caído, escorado com a cabeça na mesa de metal, parecendo ofegante. Segurava seu próximo copo e mal conseguia se mover para continuar na batalha. Por outro lado, além dos efeitos do álcool extremo, seu corpo sofria de espasmos constantes e dores musculares tão violentas que ele facilmente poderia cogitar tirar a própria vida, caso pudesse lhe outorgar algum alívio. Então, Urgan se esforçou ao máximo e conseguiu virar o copo seguinte, o largando na mesa em seguida. Ele próprio quase foi de encontro com o chão; sua mão se agarrou na borda metálica da mesa, o salvando de ter a marca rochosa do piso abaixo marcada em seu rosto.
— Tudo certo aí, cara? — Questionou Jester ao lado dele, contemplando a situação humilhante do ex-general.
— Estou bem... Estou bem... — Não estava não, na realidade, ele só estava consciente ainda por conta dos aprimoramentos das amplificações, e sabia muito bem o que iria acontecer quando chegasse a hora de voltar para a forma base.
Jester observava atentamente, percebendo a aura ardente azulada de Urgan falhar momentaneamente como se o fogo estivesse se apagando, diferente de Rugnar que, apesar de tudo, se mantinha perfeitamente equilibrado em seu lugar observando o estado de Urgan. Era apenas uma questão de instantes até esse “combate” alcançar o derradeiro ápice e o vencedor definitivo ser declarado.
O filho adotivo do falecido Rei Legório reconhecia seu descuido, sua falta de responsabilidade com seu próprio corpo resultou nessa fraqueza vergonhosa. Por dentro, Urgan se sentia inconformado, não havia conjurado arma alguma ou entrado em combate físico para ser levado ao ponto de ser destroçado pelas amplificações — uma vergonha completa ao ver dele. Já tinha anotado em sua lista de afazeres, caso sobreviva ao dia de hoje, iria se dedicar aos treinamentos mais intensivos de sua vida para ao menos recuperar sua dignidade como ser humano e a sombra de seu antigo orgulho.
— E URGAN ALCANÇOU SEU QUADRAGÉSIMO SÉTIMO COPO! ESSE DUELO ESTÁ MAIS DISPUTADO DO QUE TODOS IMAGINÁVAMOS. PARA QUEM ESTÃO TORCENDO SEUS BUNDÕES? — Gritava Jester, motivando a plateia a enaltecer os adversários a continuar guerreando até o final.
As palavras dos ferreiros ressoavam conjuntamente em meio à barulheira constante, incentivando Rugnar a destruir completamente as esperanças de Urgan. E ele, sem tardar, também tomou o seguinte copo de o Anjo Decapitado, demonstrando ter capacidade para fazer isso o dia todo e assim, acabar com a moral do ex-general que nestas alturas, beirava a morte.
— Você está no meu território, generalzinho. Não é vergonha aceitar a derrota! — Urgan continuava suando frio, seu organismo inteiramente clamava por piedade e uma rendição dessa batalha impossível de se vencer desde o início.
Urgan, entre urros e grunhidos bêbados, lutava para manter-se desperto, cada gole do Anjo Decapitado sendo um golpe cruel em sua dignidade há muito prejudicada pelo seu período nas ruas. As Amplificações de Classe, paradoxalmente, proporcionavam grande resistência ao corpo, mas não às zombarias e à humilhação. A disputa não era apenas contra a bebida e principalmente contra o anão debochado, mas também contra a plateia que ansiosamente assistia à decadência do outrora temido general.
Sentindo as dores crescentes em seus músculos castigados pelo abuso das amplificações, Urgan forçou seus sentidos já debilitados pelo álcool a enfrentar as últimas doses do temido Anjo Decapitado. Ele não conseguia mais virar tudo de uma única vez, precisando se submeter aos goles gradativos, cada um era como um feroz embate sua vontade de vencer o desafio e os efeitos corrosivos da bebida.
Enquanto Urgan lutava, Rugnar, o anão, mantinha seu riso zombeteiro e provocativo, a expressão de diversão estampada no rosto robusto. Jester, por sua vez, permanecia em silêncio, observando a cena com os braços cruzados. Embora tentasse conter a empolgação, não conseguia disfarçar completamente a esperança na vitória de seu meio-irmão.
À medida em que assistia essa provação de Urgan diante desse teste inusitado, Jester mergulhava em pensamentos, traçando uma comparação entre Urgan e Darlan. A batalha em que vingou seu irmão foi um marco crucial, especialmente quando Darlan também empregou todas as Amplificações de Classe em uma tentativa desesperada de superar suas fraquezas e ganhar uma força avassaladora contra Jester.
Comparando isso com Urgan, embora o ex-general não estivesse engajado em uma luta física com seu compatriota assassino, parecia atingir seus limites com muito mais facilidade. O suor escorria frio de sua testa, sua carne parecia se desfazer internamente, e seus músculos se contorciam, causando-lhe uma dor excruciante. Jester, no entanto, mantinha-se convicto de que Urgan, conhecido por sua incrível persistência em todo o Reino de Vorosan, conseguiria suportar de um jeito ou de outro até o final do desafio.
— Sinceramente, eu achava que você cairia duro de novo no primeiro gole, mas... confesso, que você realmente tem se mostrado bastante persistente! — Comentava Rugnar, reconhecendo a força do ex-general ao vê-lo terminar de beber mais um de seus últimos copos restantes.
Urgan nada disse, apenas observou o anão com seu olhar meio morto e quase sucumbindo sobre a mesa de metal, sendo observado por Jester que sorria de canto de satisfação. Rugnar, ansioso para terminar logo com tudo isso, pegou dois copos de uma vez e os virou em sua boca; ingerindo todo o conteúdo alcoólico em instantes, em seguida, colocou ambos sobre a mesa de metal e desafiou Urgan a fazer melhor. Jester riu baixo em nervosismo e se juntou ao anão, e lhe fez uma pergunta simples:
— Só para saber, mano... — Sussurrando no ouvido do anão cachaceiro. — Ele já te sacaneou alguma vez? — Perguntou, observando Urgan jogado sobre a mesa emitindo um gemido constante como se sua cabeça estivesse em transe, divergindo entre o que era realidade e alucinação.
— Não! — Respondeu de imediato, deixando Jester um tanto confundido.
— Tem certeza? Porque parece que você tá querendo matá-lo! — Urgan já aparentava estar mais morto do que vivo, e Rugnar insistia em levá-lo ainda mais além do que já foi.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Vamos dar graças aos deuses se ele conseguir acordar amanhã, porque nestas alturas, no mínimo vai pegar um coma ferrado! — Expressava ele com nervosismo disfarçado, mas Rugnar parecia nem se importar com os resultados dessas atitudes precipitadas, ele só queria ver o circo pegar fogo.
— Seu general de papel não é obrigado a continuar, se vai aceitar ou não, é com ele. E quanto a você, palhaço... — Ignorando completamente seu adversário atual, sabendo que o resultado desse duelo era claro. — Depois daqui, vai ser a sua vez de levar uma surra! — Dos dois testes propostos por Rugnar, o de resistência foi colocado na conta de Urgan e estava prestes a finalizar, porém, o segundo, e ainda mais intensivo que este, aguardava ansiosamente para colocar Jester e Rugnar em lados opostos, prontos para um duelo cataclísmico que sacudirá o distrito industrial completamente.
— "Levar uma surra”? Não sei se você é muito otimista, ou muito iludido, meu amigo. Mas, confesso que achei fofo anão de jardim — Provocou, retribuindo a ironia habitual que Rugnar sempre expressa.
— Estou apenas dizendo fatos, caro palhaço! — Respondeu o anão, não se intimidando pelas palavras do bobo da corte.
— Veremos se esses “fatos” irão se concretizar caro companheiro de jornada. — Já basicamente confirmando a entrada de Rugnar no time suicida.
— Hahahaha! Vocês ainda têm que vencer os desafios! Não seja apressado para ver sua derrota, palhaço! — Rugnar ainda não estava completamente convencido do potencial desse grupo, mas, a conclusão destes testes poderia alterar sua crença.
— Como você mesmo disse: “Estou apenas dizendo fatos”. — De repente, essa calorosa conversa foi interrompida pelo barulho abrupto do copo de vidro se chocando com a mesa metálica.
Os dois desviaram o olhar rapidamente para o local de origem do barulho e viram Urgan novamente estirado sobre a mesa ao esvaziar o seguinte copo, avançando no desafio. Nesta altura do campeonato, Urgan não conseguia mais discernir e muito menos administrar sua força. Ele literalmente estava a um passo de despencar para sua derradeira morte por cirrose, um audaz guerreiro que conseguiu persistir até o limite do limite de suas forças. Jester ignorou Rugnar e foi até o irmão, fazendo uma breve análise da situação do mesmo após essa façanha memorável.
— URGAN CONSEGUIU AVANÇAR PARA A ÚLTIMA RODADA! É INACREDITÁVEL! — Gritava em puro êxtase, e os próprios ferreiros tremularam a ferraria com seus berros estridentes e saltos em comemoração por contemplar uma disputa mais emocionante do que esperavam. — No entanto... — Todos se acalmaram de imediato. — Rugnar continua com a vantagem ao já ter alcançado todas as doses do desafio, Urgan precisa recuperar a compostura para tomar a última e ao menos concluir a quantidade escolhida! Será que ele consegue?! — Toda a atenção do estabelecimento se voltou para o ex-general, vozes abafadas e estridentes de espectadores ansiosos o motivando a se reerguer para conseguir terminar o teste e provar sua capacidade.
Urgan, por outro lado, jazia imerso num delírio intenso, enxergando elefantes voadores à sua frente e outros turbilhões de imagens irreais provocadas por suas alucinações estimuladas pela bebida. O Anjo Decapitado debilitou tanto seus sentidos que as únicas desvantagens comuns das amplificações que o incomodavam de fato eram a febre escaldante e a fraqueza dominando seu corpo aos poucos. Seu coração bombeava sangue violentamente, distribuindo doses e mais doses de adrenalina para conseguir se manter na disputa e resistir a todos os efeitos colaterais, mas isso estava prestes a terminar.
Os músculos atrofiados de Urgan concederam limitações severas aos seus movimentos gerais; nestas alturas, a única explicação para ainda ao mesmo estar consciente eram as Amplificações de Classe ainda persistindo com o que restava de sua mana. Urgan, agora, estava literalmente de pé, apenas por conta da mesma coisa que insistia em derrubá-lo de vez. Precisava terminar com isso de uma vez, e lidar com as consequências depois; ele podia sentir debilitações se apoderando de seu corpo, sentindo-se mais desgastado fisicamente como um ancião se sente normalmente.
Os urros da plateia continuavam, mas não desdenhando mais da capacidade do próprio, pois já havia provado seu valor. Aos poucos, a adrenalina correndo em suas veias dava resultados, fornecendo a possibilidade de reação e uma breve resistência. Os olhos de Urgan aos poucos recuperavam uma certa estabilidade, conseguindo discernir do que era realidade ou alucinação, escutando a multidão empolgada torcendo por ele.
Seus braços estavam dormentes, e usou as pernas para se empurrar sobre a mesa e alcançar o copo da dose final logo à sua frente. Jester se prontificou a ajudá-lo, porém, Rugnar o impediu, instruindo para que deixasse que o próprio Urgan vencesse sua guerra pessoal. Cada injúria e golpe infligidos à sua carne nos anos que passaram provaram ao mesmo que sua vontade de vencer era maior que qualquer mal existente no mundo, e não seria hoje que ele se deixaria ser subjugado pelas adversidades.
Apesar de ser o adversário, Rugnar estranhamente permaneceu calado, assistindo ao início de uma história inteira de realizações, que aguardava ansiosamente pela persistência inabalável do ex-general mais implacável que esse reino já conheceu até agora.
Com o mundo correndo em câmera lenta na visão de Urgan, ele enxergava todos com olhares de expectativa sobre si, o incentivando a continuar lutando contra seus males impiedosos. Jester, orgulhoso do desempenho de seu irmão, esperava ansiosamente que o próprio alcançasse o objetivo, superando de vez as expectativas negativas que todos os antes opositores ali tiveram ao longo da disputa.
Urgan, se atirou sobre a mesa, mordendo a borda do copo e o virando completamente em sua boca, consumindo aos poucos em goles constantes para conter o máximo possível os efeitos absurdos do Anjo Decapitado. Seus órgãos internos estavam em chamas, e sua mente à um passo de colapsar. Não obstante, todo o conteúdo do copo foi consumido e o próprio o cuspiu para qualquer direção, o quebrando no chão rochoso do estabelecimento. Logo, um silêncio desconcertante dominou todo o lugar, e Urgan jazia de joelhos com seu rosto estirado sobre a mesa ao mesmo tempo em que lutava para conseguir regular sua respiração e não desmaiar por falta de ar.
De repente, o ex-general se esforçou ao máximo e ergueu seu braço direito até o ponto mais alto possível, confirmando a conclusão do teste com seu polegar esticado. Seguidamente, em prévias ou rodeios, todos os presentes, exceto Rugnar e Muralha, começaram a gritar o mais alto possível em comemoração. Jester, com muita satisfação, acompanhou a todos os exaltados com urros ainda mais estridentes para celebrar a persistência de Urgan até o fim.
— ACABOOOOOU! ACABOOOOU! ACABOOOOU! — Comemorando muitíssimo, afinal, ninguém ali, incluindo o próprio Jester, acreditava que Urgan conseguiria resistir até a segunda rodada.
Os espectadores saltitavam de alegria, alguns inclusive executavam piruetas no ar e mortais de costas em celebração pela final espetacular dessa competição nem tanto acirrada, mas, deveras empolgante aos olhos daqueles que tiveram a oportunidade de presenciar tudo de perto. Jester, muito contente, balançava a cabeça, gesticulando positividade para o meio-irmão que sorria dificultosamente expressando satisfação por ter conseguido chegar até o final.
Rugnar começou a bater palmas lentas, atraindo a atenção de todos os presentes que se calaram aos poucos. Caminhando devagar até a frente da mesa de metal para felicitar seu audaz adversário, Rugnar redirecionou seu foco para a plateia, escolhendo as palavras corretas que continham o peso necessário do que de fato gostaria de expressar.
— Sua derrota era mais do que prevista por todos nós, porém, você demonstrou ter culhões e provou seu valor como guerreiro do pé inchado. Meus parabéns! — Falou Rugnar ignorando o orgulho, fazendo Jester ficar um pouco desconcertado por essa reação nada natural do anão zombeteiro.
Repentinamente, todos ovacionaram o ex-general estirado sobre a mesa, ainda resistindo com seus resquícios finais de mana que, em instantes depois, se acabou. A aura azul oscilou uma última vez e logo se desfez, cancelando as Amplificações de Classe e permitindo que todos os efeitos colaterais, em conjunto com o peso do consumo excessivo de álcool especial, o atacassem sem que ele tivesse alguma oportunidade para se preparar.
Urgan, com a desativação abrupta das Amplificações de Classe, sentiu como se todo o seu corpo estivesse sendo dilacerado. Seus músculos, antes sobrecarregados pela potência das amplificações, começaram a inchar de maneira descontrolada, como se fossem balões prestes a explodir. O tecido muscular se esticava, rasgando internamente e esmagando os ossos próximos pela pressão crescente.
Uma febre avassaladora o dominou, uma sensação de calor insuportável queimava sua pele, e o suor frio escorria por todo o seu corpo. A dor, interna e penetrante, irradiava cada fibra de seu ser. Cada célula parecia protestar contra o abuso a que fora submetida. Urgan se contorcia sobre a mesa de metal, emitindo gemidos de agonia que ecoavam pela ferraria.
— Aaaaaahhhg! — Gemia Urgan sentindo seus músculos se contorcerem como grandes tumores, esmagando seus ossos, além de febres intensas e o enfraquecimento gradual das células. — Aaaahh! — Seu corpo inchou ao ponto de aparentar estar prestes a explodir.
Os espectadores, que inicialmente celebravam sua aparente vitória, agora assistiam com expressões sombrias, percebendo o preço terrível que Urgan estava pagando por sua coragem. Rugnar e Jester, mesmo sem meios para poder aliviar sua dor, se esforçaram para ampará-lo da melhor forma possível, mas era uma batalha que só Urgan poderia enfrentar. Uma luta não só contra os malefícios físicos, mas também contra a sua própria resistência mental diante do sofrimento insuportável.
Até que, a dor implacável finalmente venceu Urgan, levando-o ao desmaio. Seu corpo, antes tenso e contorcendo-se, cedeu, e ele começou a tombar em direção ao chão rochoso da ferraria. No entanto, Jester, rápido como um reflexo condicionado pelo tempo, conseguiu segurá-lo antes que sua face encontrasse o solo áspero.
O bobo da corte, mantendo Urgan nos braços, olhava para o rosto do meio-irmão com certa preocupação. A expressão de agonia que antes dominava aqueles traços agora estava substituída por uma tranquilidade momentânea no desmaio. Rugnar, observando a cena, também mostrava uma leve preocupação pelo estado de Urgan, apesar de sua natureza rústica.
Inicialmente, Rugnar, com uma calma peculiar, desativou também suas próprias amplificações, uma ação realizada com uma destreza que demonstrava longa familiaridade com aquele processo. Ao contrário do tumulto que se abateu sobre Urgan, Rugnar apenas experimentou um breve mal-estar, como se fosse uma inconveniência passageira em sua rotina.
— Aahg! — Reclamou Rugnar, levemente também prejudicado pelos efeitos colaterais, mas nada tão sério quanto ao estado calamitoso de Urgan. — Como ele está? — Perguntou, quebrando o silêncio extenuante que se fez presente naquele lugar quente.
— E você, tá de boa depois disso tudo? — Questionou Jester com singela surpresa, afinal, Rugnar fez literalmente as mesmas coisas que Urgan e sequer evidenciava algum sinal de dor ou fadiga.
— Preocupe-se com seu amigo, palhaço. O próximo será você! — Revelou de maneira desafiadora, e o bobo da corte nada disse. — É, ele não vai acordar tão cedo! — Urgan aparentava estar mais morto do que vivo, mal demonstrava sinais de ainda permanecer neste mundo.
— Acho melhor levar ele de volta para o quarto para poder descansar. — Sugeriu Jester, acreditando que o estado de seu irmão poderia piorar se continuasse naquelas circunstâncias.
— Também acho. Oh Muralha! — O gigante parou ao lado do pequeno homem ao ser solicitado.
— Sim, senhor... — Disse o homem com sua cordialidade básica.
— Leve a princesa de volta para o hotel! — Muralha segurou Urgan pelos braços e o colocou em seus ombros. — Estarei aqui aguardando para sua possível “chance de morte”, palhaço. Acho bom não amarelar e fugir depois de levar o general de papel para o quarto! — Advertiu. — Aliás, Muralha, fica de olho no palhaço! Não quero ele comendo o cu do Urgan desmaiado. — Jester o observou com um olhar misto de zombaria com malícia, rindo descontraidamente das palavras do anão cachaceiro.
— Pode deixar, senhor! — Respondeu com uma intensidade quase agressiva, e Jester apenas levou tudo isso na esportiva.
— Não vai entrar em coma alcoólico até eu voltar, ó aquele que olha todos de cima — Retrucou o bobo da corte, nunca deixando outro ter a última zoeira.
— Sou seu amigo general molenga não! — Os dois riram e Jester foi até a saída da ferraria sendo acompanhado por Muralha com Urgan nos ombros. — Isso, palhaço, vai descansar... um cu não será perdoado! — O Teste de Força iria mostrar a Rugnar quem de fato era Jester, o bobo da corte, escolhido pessoalmente pelo Rei Dalibor para comandar essa missão suicida. — Enfim, vou descansar também. Ninguém é de ferro! — Pensou ele se retirando também, mas logo notou que todos os ferreiros ainda estavam ali fora de seus afazeres e assistindo tudo. — VÃO TRABALHAR, CAMBADA DE VAGABUNDO! — Quebrando a expectativa de todos aqueles que esperavam para ganhar uma dose do Anjo Decapitado também.
A experiência árdua que acabara de ocorrer na ferraria deixou claro que, mesmo entre os mais corajosos e habituados, os limites do corpo e da resistência eram fronteiras desafiadoras. O Anjo Decapitado, tão renomado por sua intensidade, mostrou da pior maneira para Urgan o tamanho do preço cobrado, e agora o foco estava na recuperação do ex-general diante das consequências desse desafio extremo.
Seguidamente, todos os trabalhadores retornaram para seus postos, alguns inclusive trabalhavam com muito mais intensidade, principalmente aquele que deu mortais de costas em comemoração, seu ódio era tanto por ter esperado em vão por uma dose, que o martelo se tornou o alvo ideal para descontar a frustração.
Andando calmamente pelas ruas em direção ao hotel que comprou recentemente, Jester não pôde deixar de notar que a atenção do povo de Vorosan mais uma vez estava focada neles, muito mais em Urgan inconsciente nos ombros de Muralha. Os cochichos não paravam, e Jester conseguia captar tudo tranquilamente com sua audição focada; não obstante, o assunto tratado era sobre a “morte” de Urgan, e muitos comemoravam essa possibilidade.
— Opa, opa, relaxa pessoal! Ele não tá morto, então podem parar por aí! — Anunciou ele, acabando com a alegria dos transeuntes que voltaram a seguir os próprios rumos completamente inconformados.
Minutos mais tarde, os três finalmente chegaram ao hotel e Muralha jogou Urgan sobre a cama como se fosse um saco de batata.
— Está entregue... — Esfregando as mãos.
— Delicado que nem o gigante de nós todos! — Sempre há espaço para uma piada na lista de afazeres diários de um bobo da corte.
— Por favor, não coma o cu dele! — Pediu o gigante com semblante de ironia.
— E eu achando que você era só um robô! Hahaha! — Ambos riram como bons amigos, mas, Muralha tinha hora para voltar, se não iria levar bronca do chefinho e se despediu dos dois, saindo do quarto de imediato.
Após a porta se fechar, Jester voltou seu foco para Urgan desmaiado, estava contente com o desempenho dele apesar de tudo. Ele não havia presenciado de perto todas as injúrias que seu irmão havia sido submetido, toda a desgraça que começou com aquela maldita falsa acusação de atentado; ao menos, os emissários desse tormento já foram enviados para o colo do diabo. Ele se aproximou da cama, observando o rosto inexpressivo de Urgan.
— Você deve estar orgulhoso dessa façanha. Pensando bem, você foi foda nesse desafio, general... — Desabafou ele, enaltecendo a bravura de seu único irmão vivo.
Porém, sem aviso prévio, a porta do quarto se abre rapidamente, dando um susto enorme em Jester que caiu no chão com o salto que deu, no final, era apenas Muralha voltando para ter certeza que Jester não estava planejando abusar de Urgan no meio do coma.
— CORNO DESGRAÇADO, VAI ASSUSTAR OUTRO! — Berrou Jester emputecido com o susto e arremessou um travesseiro no mesmo, que nada disse, apenas fechou a porta novamente e se retirou de verdade desta vez. — Viado, veio só para fazer nada! — Jester arregalou os olhos ao lembrar de alguns detalhes. — Caralho, será que ele ouviu? — Indo até a porta e constatando que ele já havia ido embora. — Maluco daquele tamanho me acertando um soco na cara... vou acabar visitando meu pai mais cedo! — Trancando a porta.
Após a partida de Muralha, Jester, estava um tanto preocupado com o estado atual de Urgan, havia insistido muito além de seus limites para superar um desafio, e não poderia levá-lo ao hospital, certamente os médicos se recusariam a tratá-lo por conta de sua má fama e Jester acabaria quebrando o braço de alguém por causa da raiva que sentiria. Sendo assim, ele só poderia contar consigo mesmo para ajudar seu irmão, e seus anos estudando as propriedades da magia em Zívia serão muito úteis agora. Tendo isso em mente, empenhou-se em usar suas habilidades mágicas para transferir mana, tentando amenizar os danos causados pelas Amplificações de Classe desativadas abruptamente e pelo abuso do Anjo decapitado.
A transferência de mana era um processo delicado, exigindo concentração e habilidade. Jester fechou os olhos, suas mãos emitiam um brilho dourado suave enquanto canalizava a energia mágica. Cada toque parecia carregado de intenção de aliviar a dor e eliminar os riscos de vida que atormentavam Urgan neste momento. O quarto de hotel, normalmente silencioso, estava impregnado com a magia suave e serena que emanava do bobo da corte.
Esse processo era extremamente instável, especialmente em casos como o de Urgan, cujos circuitos mágicos estavam rígidos devido ao uso exagerado das amplificações. Esses circuitos, essenciais para a circulação de mana pelo corpo, tornavam-se como fios tensionados, dificultando a restauração rápida.
Quando os circuitos mágicos se endureciam, a circulação de mana pelo corpo era prejudicada, causando um desgaste considerável e prolongando o tempo necessário para a recuperação. A rigidez nos circuitos muitas vezes levava a uma demora ainda maior na recuperação dos músculos, exigindo repouso e adaptação prolongados.
Em situações extremas, a falta de mana podia resultar em consequências fatais, tornando a intervenção de alguém com habilidades mágicas essenciais para a sobrevivência do usuário. A transferência de mana era uma solução, uma prática onde um usuário habilidoso canalizava sua própria energia mágica para revitalizar o corpo debilitado.
No entanto, o sucesso dessa transferência dependia de muitos fatores, incluindo a resistência da pessoa e a habilidade do doador. Uma execução inadequada poderia levar a disfunções momentâneas, onde o corpo rejeitava a mana invasora, provocando uma reação negativa e complicando ainda mais o estado do receptor. Era um ato delicado que exigia tanto habilidade quanto cuidado.
Jester, ciente da complexidade da situação, concentrou-se em equilibrar o processo. Seu próprio conhecimento mágico avançado e a experiência adquirida nos quatro anos de estudo em Zívia tornaram-no apto para realizar tal procedimento. Ele canalizou cuidadosamente sua mana para Urgan, buscando contornar os circuitos rígidos e restaurar a circulação de energia vital.
O processo era um verdadeiro desafio, como se Jester estivesse tentando persuadir os fios mágicos de Urgan a relaxarem e aceitarem a mana doada. Em meio à sutil dança de energia, Jester também monitorava atentamente as reações do corpo de Urgan, ajustando a quantidade de mana transferida para evitar qualquer rejeição.
Enquanto o processo se desenrolava, Urgan começou a apresentar sinais de alívio. A rigidez em seus circuitos diminuía gradualmente, a pressão da carne sobre os ossos se reduzia aos poucos, e a febre avassaladora que o afligia começava a ceder. A transferência estava sendo bem-sucedida, e Jester continuou sua prática com habilidade e paciência, consciente de que cada movimento delicado era crucial para a recuperação de Urgan. O processo, porém, era lento e gradual, e o destino do ex-general ainda permanecia incerto.
Com o fim do processo de transferência, Jester deixou que Urgan repousasse para que seu corpo pudesse se adaptar à mana extra presenteada e recuperasse a força. Havia sido um dia de fortes emoções, e um descanso merecido lhe seria muito bem-vindo por agora.
Parando para refletir, muitas coisas aconteceram nesse dia: o fim de sua viagem de Zívia e chegada em Vorosan, descobrindo o trágico destino do legado de seu pai, um infame desfecho, mas necessário para um dia contornar essas atribulações com menos ameaças externas. Jester buscou uma segunda cama pelas lojas da zona comercial antes que o horário de funcionamento diário chegasse ao fim, e rapidamente a levou para dentro do quarto na parede à esquerda da porta de entrada, do outro lado da posição onde Urgan jazia acamado. A noite seguia bastante fria, e o bobo da corte resolveu sair para tomar um banho antes de se deitar para dormir também. Certamente, naquele horário, teria pouca movimentação humana e ele teria um certo tempo de privacidade para se limpar rapidamente.
Para sua surpresa, as câmaras presentes no subsolo do hotel não estavam tão sujas assim. Jester tirou a roupa e tomou um rápido banho. Em seguida, retornou para o quarto mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz fraca de uma lâmpada a óleo. Urgan continuava imóvel, da mesma forma que esteve desde que foi largado ali delicadamente por aquele gigante parrudo.
— Não vai morrer ainda! — Cutucando a testa do desmaiado sobre a cama que não emitia reação alguma às provocações. — Nunca na vida tinha te visto beber, e menos ainda que nem um louco. Se aquele bosta do Darlan conseguiu aguentar os efeitos colaterais das amplificações... então você também vai! Não é? — Acertando um tapa no rosto do ex-general, que, subitamente, soltou um ronco estridente, fazendo o bobo da corte quase cair no chão com o susto repentino. — Ao menos você está vivo! — Resolveu deixar Urgan envolto no retiro de seu sono de beleza, já imaginando o tamanho da ressaca que vai sentir se por algum milagre acabar conseguindo despertar no dia seguinte.
Com isso, Jester resolveu se retirar também para adiantar as horas. Ele relaxou os músculos tensionados, observando a roupa de bobo da corte que usara durante todo o dia. Estava suja, impregnada pelo suor da jornada e pelas memórias de seu tempo no Reino da Magia.
Em vista disso, ele a dobrou e a colocou dentro de um recipiente especial, revestido do mesmo tecido resistente de seus fios. A bolsa, que estava guardada estrategicamente abaixo da cama onde Urgan permanecia inconsciente, era um verdadeiro cofre para os pertences de Jester.
Ao abrir o invólucro feito por suas próprias mãos habilmente treinadas na arte do artesanato, Jester retirou uma nova, para substituir sua intrínseca vestimenta. Seus olhos brilharam ao testemunhar tamanha graciosidade, uma outra roupa de bobo da corte, idêntica à anterior, ele sentiu a textura macia do tecido que ele mesmo havia confeccionado. As costuras perfeitas, os detalhes minuciosos de remendos de outros tecidos e a combinação de cores vibrantes eram a expressão habilidade no artesanato. Exceto por um detalhe, a camisa estava totalmente rasgada por batalhas anteriores ao lado de Zíria. Vestindo-se rapidamente apenas com a calça, ignorando a máscara por falta de necessidade naquele momento. Seguidamente, Jester guardou a bolsa abaixo de sua própria cama e adormeceu.
Fale com o autor