A Corte do Bobo
1 Prólogo
Notas iniciais
Urgan, um soldado de elite da guarda real do reino, estava de pé diante das imponentes portas de carvalho do Palácio de Vorosan, a residência real. Seu uniforme imaculado de cor escarlate destacava-se contra a fachada de pedra cinzenta, enquanto o sol da manhã lançava uma luz dourada sobre o cenário majestoso.
Ele segurava uma lança ornada com detalhes dourados, sua ferramenta de escolha como Mestre de Ferramentas, especializado na proteção da realeza. A lança brilhava com um polimento impecável, uma extensão de seu próprio orgulho e devoção à sua missão de garantir a segurança dos príncipes Meirin e Jester, bem como servir ao Rei Legório com lealdade inabalável.
O Chefe da Guarda observou os jardins bem cuidados à sua frente, onde as flores desabrochavam em cores vibrantes. Os pássaros cantavam melodias alegres enquanto ele aguardava, imerso na serenidade do momento. A brisa suave sussurrava entre as folhas das árvores antigas que cercavam o palácio.
Aos poucos, as portas maciças se abriram, revelando o majestoso saguão interno, com colunas esculpidas e tapeçarias elaboradas. O som de passos leves ecoou pelo salão, anunciando a chegada dos príncipes, Meirin e Jester. Ambos trajavam roupas dignas de nobreza, com cores que contemplavam a decoração do palácio.
Urgan se ajoelhou com respeito, baixando a lança como sinal de deferência. Os príncipes acenaram com um gesto amigável antes de continuarem em direção ao grande trono do reino humano, onde o Rei Legório aguardava, uma figura imponente em seu manto real.
Diante dos príncipes, Urgan se ergueu de sua posição de joelhos com graça e reverência, erguendo a lança em uma saudação formal perante os mesmos, que retribuíram com sorrisos calorosos e cumprimentos amigáveis.
— Não precisa dessa cordialidade toda, Urgan. — Disse o príncipe Jester contente se aproximando do companheiro de longa data para que ambos se cumprimentassem de maneira descontraída. — É bom revê-lo! — Concluiu com um sorriso satisfeito.
— Igualmente, príncipe. — Devolvendo o sorriso para o amigo.
No entanto, quando Urgan se voltou para o Rei Legório e o príncipe Meirin, seu semblante endureceu em uma expressão séria e solene. Ele baixou a lança e fez uma inclinação profunda, mantendo o respeito devido ao monarca e ao herdeiro do trono. O Rei Legório, em seu trono majestoso, observou-o com olhos penetrantes, e tanto sua resposta quanto do príncipe mais velho foi um aceno solene de reconhecimento.
— General Urgan, algum progresso com a convocação das tropas reais? — Questionou o monarca de maneira firme.
— Sim, meu senhor. Inclusive... — Sons de passos coordenados invadem o saguão imperial.
O solene saguão do palácio foi abruptamente interrompido pelo som firme e disciplinado das tropas imperiais adentrando em marcha coordenada. As botas pesadas batiam em uníssono no chão de pedra, ecoando pela grande câmara, enquanto as lanças de prata dos soldados captavam a luz, criando um espetáculo deslumbrante.
À frente das tropas, destacava-se o imponente Capitão Mohawk, o segundo em comando do exército imperial, com sua armadura reluzente e uma expressão determinada. Ele liderava sua formação com precisão militar, parando a alguns metros do general Urgan, os soldados permanecendo imóveis em um sinal de respeito ao Rei Legório e aos príncipes.
Em um gesto que denotava protocolo e respeito, o capitão Mohawk e as tropas prestaram suas saudações às quatro maiores autoridades do império. Começando pelo Rei, o capitão inclinou a cabeça e fez uma saudação militar perfeitamente executada, mostrando sua reverência ao líder do reino.
Em seguida, ele dirigiu seu olhar para os príncipes Meirin e Jester, que receberam saudações igualmente respeitosas e corteses, indicando a posição de destaque da realeza do império.
Por fim, o capitão Mohawk voltou-se para o general Urgan, um gesto que destacava a importância da autoridade militar dentro do reino. Ele fez uma saudação rigorosamente executada ao General, reconhecendo a presença do responsável pela segurança do reino e dos príncipes.
— Meus nobres senhores, as tropas imperiais de Vorosan se fazem presentes como requisitado! — Os soldados emitem o brado de guerra em uníssono que percorreu até os confins do palácio, resultando na completa satisfação do Rei Legório.
— Grato, Capitão. — Respondeu o general em respeito ao subcomandante de suas tropas, desviando seu olhar para focar no rei, Urgan finalizou as apresentações, e o monarca se preparou para discursar aos seus súditos.
Com uma voz cheia de esperança e expectativa, o líder imperial dirigiu-se aos soldados de Vorosan reunidos no grande salão do palácio. Seu discurso ecoava pelas paredes ornamentadas enquanto ele proclamava com convicção:
— Soldados de Vorosan, guardiões da nossa história e... — Suas palavras são interrompidas pela intromissão de uma voz enigmática, porém, descontraída e levemente sonolenta.
— Opa, não comecem sem mim... — Todo o saguão foi repentinamente preenchido com uma aura mística da súbita aparição de um poderoso ser.
Um silêncio caiu sobre o local enquanto todos os olhares se voltavam para o ser mais poderoso do reino, cuja presença transcendia qualquer descrição.
— Perdão, meu rei. Parece que cheguei um pouco depois do planejado. — Surgindo a partir do vazio logo atrás do trono de Jester, sua presença apesar de aparentar de alguém sem a menor noção do mundo, causava terror nos corações dos soldados do império que começaram a suar e a temer a aparição daquele homem.
— Atrasado como sempre, Alaric... — Acusou o monarca com certo desgosto com a costumeira atitude inconsequente do seu braço mais forte.
Vestido em um manto místico que brilhava com a energia da magia, Alaric segurava um cajado regido por mana que emanava um poder indescritível. Cada passo que ele dava parecia reverberar com a própria essência da magia. Seus olhos profundos e sábios, apesar da atitude inconsequente, examinaram a todos com calma.
— Meu rei, magos nunca se atrasam. — Seu ser deixou a atmosfera do ambiente mais pesada, como se a gravidade fosse triplicada. — É o destino que dita o momento correto deles aparecerem! — Respondeu de maneira não convencional e surpreendendo, Alaric parecia ser, na verdade, um amigo íntimo do rei, ignorando completamente as formalidades esperadas.
Apesar da sua atitude descontraída e sarcástica, a presença de Alaric era opressiva; o Mago supremamente poderoso pairava sobre o ambiente como uma nuvem sombria. Seu poder era tão imenso que uma sensação de peso sufocante envolveu o saguão. Os soldados, embora treinados e corajosos, ficaram paralisados de medo diante desse ser cujo poder transcendia a compreensão.
Enquanto todos os presentes sentiam uma aura de temor, era notório que aqueles que mais temiam a presença de Alaric eram os soldados e o próprio capitão Mohawk. Seus rostos demonstravam apreensão, e eles mantinham um silêncio temeroso, com os olhares fixos no chão, relutantes em encontrar o olhar do Mago apesar da clara sonolência do mesmo e falta de cordialidade diante do Rei Legório.
No entanto, as quatro autoridades presentes, o Rei Legório, os príncipes Meirin e Jester e o general Urgan, pareciam ser os únicos que não eram dominados pelo medo. Embora respeitassem profundamente a autoridade e o poder de Alaric, eles compartilhavam uma conexão única com ele, que transcendia o temor.
— Fala aí, Vô! — Jester, quebrando a tensão, chamou o mago no auge dos 42 anos com os primeiros cabelos grisalhos já presentes.
— Me respeita, moleque. — Respondeu o homem retirando o capuz de seu manto enquanto uma chama púrpura rodopiava em espiral no topo de seu cajado mágico.
— Digo o mesmo, “idoso atrasado”. — Zombou ainda mais do velho amigo, que riu de volta e se retirou.
Alaric assumiu seu lugar ao lado de Urgan, e suas feições descontraídas se desfizeram momentaneamente, assumindo uma postura firme também para escutar o soberano terminar seu discurso.
— Enfim, como eu dizia anteriormente... — Observando novamente seus súditos a partir de uma posição elevada logo à frente de seu imenso trono dourado. — Soldados de Vorosan, guardiões da nossa história e defensores da nossa pátria, hoje nos reunimos em nome de um legado que transcende gerações. O primeiro rei, aquele que deu seu próprio nome ao nosso reino, nos deixou um legado de coragem, honra e união. — O rei respira profundamente ao relembrar um outro ponto de vista que deveria deixar claro aos seus fiéis subordinados. — Porém, este legado milenar está sob uma ameaça terrível que pode ruir tudo o que os pais fundadores sonharam para o futuro deste império. O maldito imperador continua dominando os reinos e os subjugando a sua vontade através de uma onda de caos e morte por onde passa! É uma lástima que tenhamos deixado esse problema perdurar até agora, no entanto, não podemos mais deixar que esse monstro continue espalhando seu terror e ameaçando a autonomia dos reinos. O imperador Razallath demonstrou ser um inimigo muito mais perigoso do que prevíamos, os deuses de fato nos amaldiçoaram ao presenteá-lo com esse poder demoníaco! — Um sentimento de preocupação tomou conta de seu coração ao lembrar de eventos recentes que despertaram o temor de uma possível nova guerra, onde Vorosan não seria capaz de prevalecer sozinha. O clima pareceu pesar no ambiente; todos sabiam do fato a respeito dos reinos que já caíram, eram histórias que aterrorizavam os corações daqueles que decidiram não se ajoelhar diante do anjo caído que se tornou um demônio. — Não podemos mais esperar, é de extrema urgência que ataquemos primeiro! Os anões rejeitaram a submissão e declararam guerra ao inimigo, porém, de nada seus planos de defesa e preparação militar serviram... — Seus olhos se estremeciam ao vislumbrar em sua mente a trágica lembrança do que resultou essa declaração de guerra ao imperador Razallath. — Com um único disparo do canhão mágico construído no topo da torre mais alta de seu castelo, ele reduziu o reino dos anões a uma pilha de escombros e cadáveres. Eles sequer puderam prever ou se defender do poder máximo do imperador... — Os soldados pareciam ainda mais nervosos do que antes. — Rugnar, apresente-se! — As portas de entrada do grande salão se abrem e um refugiado do extinto reino dos anões se faz presente, trajando vestimentas características da Classe Ferreiro, barba e de baixa estatura.
O pequeno homem se curvou ao rei em reverência.
— Rugnar é um sobrevivente daquele extermínio, um bibliotecário remanescente que sobreviveu ao ataque do canhão graças a assuntos comerciais com os reinos vizinhos que o guiaram para fora de seu lar instantes antes do terrível desfecho. — Rugnar assentiu com a cabeça em completo silêncio. — Com esperança de um dia fazer justiça ao seu povo, Rugnar foi acolhido em Vorosan e dedicou seus conhecimentos para seguir o ofício de sua verdadeira classe, a ferraria, e tem contribuído com seus conhecimentos e habilidades na arte da forja. Foi através de suas mãos que pudemos alcançar os mais sofisticados equipamentos de batalha para enfrentarmos as crises. — O anão se virou para os homens e se preparou para discursar brevemente.
— Nidavellir era um reino como qualquer outro, uma economia sólida; era um centro de comércio e artesanato, com mercados movimentados que negociavam uma variedade de bens, desde minérios e joias até obras-primas de artesanato. A economia do reino era impulsionada pela produção de metais preciosos, armas e ferramentas de alta qualidade forjadas pelos hábeis ferreiros anões. Por isso, suas armas são de tão boa qualidade, seus soldados de papel! — Recuperando o fôlego para relatar um pouco mais sobre seu antigo lar. — Nós, os anões de Nidavellir, éramos conhecidos pelos trabalhos árduos e habilidades em mineração e metalurgia. Éramos tantos mineiros talentosos quanto artesãos habilidosos, produzindo objetos de beleza duradoura que eram requisitados e comercializados por todo o continente. — Ao alcançar este estágio de sua narrativa, Rugnar sentia uma leve repulsa tomar conta de si ao lembrar do cruel desfecho resultante do retorno do imperador Razallath das profundezas do exílio. — Graças aos esforços e investimentos feitos durante séculos nas forças de defesa de Nidavellir, nosso reino permaneceu neutro e livre de muitos dos conflitos que assolaram a história do mundo. O Rei Azdak era um guerreiro bruto e formidável mesmo em idade avançada. Com astúcia e coragem, ele manteve a harmonia dos povos mesmo em tempos de crise, o que resultou no progresso econômico e tecnológico com as vendas de nossas novas armas para os reinos justos poderem se defender dos corruptos e sedentos por guerra! Entretanto... — Muito revoltado com essa parte de sua história. — Com a ameaça de guerra cada vez mais crescente do recém-nascido Império de Razallath, o Rei de Nidavellir não se intimidou pelos ultimatos daquele "demoniozinho" de merda que exigiam sua submissão, controle comercial de armas e do próprio exército pessoal da monarquia! Sendo assim, a guerra foi decretada e nós não íamos baixar a cabeça para aquele bosta. — Batendo no peito com orgulho. — Só cães abaixam a cabeça, e não éramos covardes para fugirmos de uma batalha. Mas, aquele imperador desgraçado não jogava de acordo com as leis de guerra... e usou uma arma experimental embutida no topo do próprio palácio, um canhão de mana regido por magia poderosa que, com um único disparo à longa distância, devastou nosso reino de uma só vez. — Ele ainda podia lembrar da sensação de terror que o dominou naquele dia. Aquele que havia sido seu lar desde o nascimento, onde trilhou seu caminho e escreveu sua história ao longo de vários anos, agora, uma pilha de cinzas de sua antiga grandeza e atormentado pelas almas que um dia viveram ali. — Foi por pouco que não me juntei aos meus iguais. Eu estava a vários quilômetros de distância dos portões de Nidavellir quando o disparo do canhão alcançou a matriz central do palácio do Rei Azdak; a onda de choque me alcançou e arremessou minha carroça em direção às árvores! — Rangendo os dentes em raiva, mas se conteve e recuperou sua feição comum de tranquilidade sarcástica e autoritária. — E foi isso mesmo, cambada. Aquele "imperador corno" ferrou completamente com a minha vida e o meu antigo lar! — Continuou com seu típico tom brincalhão e debochado, mas, direto ao ponto. — Escutem bem! Seus soldados frouxos de armaduras metálicas, se eu não vir a cabeça daquele chifrudo hasteada em uma das lanças de vocês, suas armaduras virão com defeitos "misteriosos" nas horas críticas. — Alguns soldados perderam a expressão de seriedade, certamente pensavam coisas absurdas a respeito do pequeno ferreiro. — Pelo visto, algumas das princesas possuem objeções sobre minhas exigências... — Se aproximando da primeira fileira de militares imóveis. — Pois bem, vamos ouvir. Alguém?! — Todos sentiam os olhares fixos do general Urgan sobre eles, sabiam que deveriam manter o silêncio absoluto. — É, então estamos entendidos! — Se virando para o rei. — Esses frouxos estão cientes do objetivo, Vossa Majestade! — O Rei Legório assentiu com a cabeça, Rugnar se retirou do lugar e caminhou até o seu lugar ao lado de Alaric e Urgan, que o cumprimentaram. — Ah, e mais um detalhe! E para aqueles que morrerem sem ao menos ceifar a vida de cinco "moças" do exército do demônio puto, eu os visitarei no inferno e encherei suas bundas magras de tapas. — Agora ele se calou, deixando Jester e Alaric numa saia justa ao tentarem conter o riso.
— Após esse "reconfortante" diálogo... — O Rei pausou por um momento, olhando profundamente nos olhos de cada soldado diante dele, antes de continuar. — Hoje, deposito minha confiança em cada um de vocês. Devemos dedicar nossas vidas e forças para garantir que jamais falhemos com esse legado sagrado. Assim como aqueles que vieram antes de nós, somos guardiões deste reino e da sua história.
O Rei Legório ergueu a mão, apontando para uma tapeçaria que retratava a figura imponente do primeiro rei, e continuou com determinação crescente:
— Que o espírito do nosso fundador nos guie. Que a coragem e a determinação que ele demonstrou ao forjar este reino nos inspirem a enfrentar cada desafio que surgir. Juntos, como soldados de Vorosan, protegeremos o que é nosso, e honraremos o legado do passado, construindo um futuro brilhante para as gerações que virão.
Após este firme e inspirador discurso, o rei retornou para o seu trono e deu suas últimas ordens naquela manhã ensolarada. Com uma voz autoritária e determinada, ele continuou:
— Todos os soldados de Vorosan, exceto os guardas reais, o general Urgan e o capitão Mohawk, devem se preparar imediatamente para a investida que ocorrerá amanhã. Estabeleçam suas posições e deveres, reúnam suprimentos e equipamentos necessários para o conflito que virá. — Seus olhos expressam leves sinais de frustração ao recordar de decisões passadas, uma feição notada apenas por seus súditos mais próximos, um erro antigo que o incomodava severamente.
Para explicar melhor suas motivações para esse plano, o Rei Legório ordenou a entrada de Hamilcar, membro da Classe Historiador e professor particular dos príncipes, um homem de meia-idade com cabelos grisalhos que emanava uma aura de sabedoria. Hamilcar se posicionou diante da tropa e abriu seu grande livro, desencadeando um holograma mágico que projetava imagens das ações do imperador demoníaco.
Com uma voz banhada de experiência, Hamilcar explicou detalhadamente sobre esse ser, um anjo rejeitado que herdou a classe demônio. Contou a história da ascensão desse ser a um estado de absoluto poder, após eras conservando seu ódio e desejos vingativos. Depois de se reerguer das profundezas do abismo que deveria representar seu eterno exílio, ele começou a devastar os reinos da terra, usurpando os tronos dos monarcas caídos e elevando seu poderio militar a cada vitória, uma ameaça que agora pairava sobre Vorosan.
Hamilcar traçou um cenário sombrio, descrevendo como a investida planejada seria um confronto direto com as forças do imperador demoníaco, uma batalha que poderia determinar o destino de Vorosan. O holograma mágico revelava cenas de destruição e caos causados pelo imperador, enquanto Hamilcar alertava os soldados sobre a gravidade da situação e a importância de sua missão.
O salão estava repleto de tensão novamente enquanto Hamilcar concluía sua explicação. Todos os olhares estavam fixos no historiador, e a determinação crescia nos corações dos soldados e autoridades presentes. Até mesmo Alaric compreendia a magnitude e astúcia sagaz daquela ameaça que enfrentariam e a necessidade de pará-la para proteger o futuro do império.
Após esses eventos, com uma sincronia impressionante, os soldados começaram a se mover em direção à saída do salão, cada um indo cumprir seu dever de proteger o reino.
Enquanto isso, Urgan, acompanhado de seu fiel assistente Mohawk, adentrou os corredores do castelo em direção aos aposentos dos príncipes Meirin e Jester.
No salão, apenas o Rei Legório e o mago Alaric permaneciam. O Rei, com uma expressão pensativa, olhava para o Mago, que parecia sonolento e imerso em pensamentos profundos. A aura mágica que o envolvia parecia se agitar suavemente, como se estivesse conectada à sua própria energia interior. Alaric bocejou pesadamente enquanto esticava seu corpo em sinal de uma clara preguiça.
— Já que todo mundo foi embora, acho que vou dar um pulo na taverna e encher a cara um pouco. E quem sabe, estudar depois na biblioteca. — Afirmou, preparando-se para se retirar da audiência com o soberano.
— Você já não bebe demais? Ainda é de manhã. — Questionou com incredulidade, afinal, Alaric estava fora de suas ocupações ultimamente e passou a maior parte de seu tempo enriquecendo os donos de tavernas pelo reino.
— Majestade... Álcool para mim é como o energético para começar bem o dia! — Falou rindo. O Rei Legório, de certa forma, apreciava esse comportamento nada modesto do mago Alaric e não conseguia evitar achar graça da situação.
— Você não existe mesmo, não vá se matar por lá. — Retirou-se para seus aposentos enquanto o Mago desaparecia num punhado de magia elementar que o levou até a porta do bar.
— Relaxa, chefia. Até outra ocasião! — Encostou seu cajado no piso dourado do palácio, e o mesmo desapareceu completamente do lugar.
— Esse Alaric é uma figura... — Balançou a cabeça negativamente enquanto sorria, divertindo-se com esse jeito aleatório do representante de sua força. Além disso, o Rei sentiu haver outra presença no lugar depois que o Mago se retirou. — Novamente atrasado, não é, rei Dalibor? — Líder de uma das províncias atreladas à Vorosan após diversas firmas de tratados estimulados em consequência das crescentes ameaças dos reinos vizinhos dominados pelo imperador Razallath. — Isso que dá conviver com o velho Alaric, daqui a pouco vou achá-los jogados pelas ruas após outra bebedeira. — Um homem de idade avançada, trajando uma armadura de guerra negra e uma longa capa vermelha, atravessou o portão acompanhado de seus vassalos fortemente armados.
— Peço perdão pelo inconveniente, meu senhor. — Disse ele, e sua voz ecoou pelo salão, assim como os passos sincronizados de seus soldados. — Alguns renegados dos bosques insistiram em nos atacar e abateram alguns de nossos cavalos. Todavia, cuidamos deles rapidamente com uma força de reação mais forte e numerosa. — Revelou com tranquilidade, já que nenhum de seus guardas foi derrotado ou minimamente ferido durante esse assalto falido.
— O que houve com os ladrões? — Questionou o monarca maior.
— Foram imobilizados e levados para interrogatório em um de nossos pontos estratégicos pelas florestas. Claro que fizemos uma varredura na área em busca de retardatários, mas não tivemos nenhum sucesso, e todos os capturados após o devido julgamento serão condenados por suas ações!
— Compreendo. A província de Adrias tem servido muito bem a Vorosan! — O rei Dalibor e seus subordinados curvaram a cabeça em respeito ao líder maior. — Como andam os preparativos para a investida contra aquele demônio maldito?
— As forças militares de todas as províncias de Vorosan se reúnem em pontos estratégicos ao norte do Império de Razallath, como ordenado. Nossas forças militares de todas as áreas subordinadas ao seu senhor se mobilizam dia e noite para cumprir com suas expectativas, meu senhor. — Respondeu o rei subordinado com orgulho.
— Excelente. Todos vocês sabem muito bem da importância dessa missão, correto? — Os soldados responderam em uníssono com um “sim, senhor”. — Ótimo! Todos, os serviçais lhes trarão água, e depois se juntem às tropas locais para a preparação da batalha que virá. Dalibor, reúna-se com Jester nos aposentos dos príncipes, tenho certeza de que ele ficará feliz em revê-lo. — O rei súdito se retirou ao mesmo tempo em que os servos do palácio cediam água aos soldados. — Guardas! — Chamou dois soldados de armadura que permaneceram em silêncio durante toda a reunião. — Achem o general Urgan e o convoquem para os meus aposentos! — Eles assentiram com a cabeça e foram encontrar o general.
Em paralelo, Urgan e os dois herdeiros do rei caminhavam descontraidamente pelos corredores luxuosos e brilhantes do castelo. O príncipe mais velho olhou para Urgan com um olhar sério e questionou:
— Comandante Urgan, você já considerou o quão perigosa será essa missão? — Indagou de maneira séria e direta a respeito das probabilidades nada vantajosas para o jovem general. — Existem chances consideráveis de você não retornar com vida. Como pretende lidar com isso?
Abandonando as formalidades tradicionais da corte, Urgan caminhava lentamente com a cabeça erguida, observando de maneira reflexiva os lustres do imenso corredor. O jovem guarda entendia bem os riscos mencionados pelo príncipe e, mais ainda, sobre o contexto da ameaça que o imperador rejeitado representava. Essa seria uma batalha de extrema importância. Urgan confiava na capacidade de seus subordinados e no sucesso dessa investida tão crucial. Além disso, tinham o auxílio do bêbado, porém implacável, mago Alaric. Suas habilidades de magia elementar eram temidas em todos os confins do mundo, e relatos de seus feitos em batalha se espalhavam como lendas de guerra.
Urgan, com uma expressão calma e confiante, respondeu ao príncipe Meirin:
— Eu não nego esse fato, mas meu dever é proteger esta família real e o reino de Vorosan. A morte é uma sombra que sempre paira sobre os guerreiros, mas é um fardo que carrego com grande honra. — Encostou o punho cerrado no peito em sinal de determinação inabalável.
— Oh, Urgan. Você se tornou general do exército imperial, porém, continua sendo nosso irmão mais velho. — Afirmou Jester, desviando o assunto depressivo que pairou entre os três. Logo, eles escutaram passos metálicos se aproximando, e dois soldados de armadura surgiram por uma das portas rústicas nas laterais do corredor.
Urgan se virou rapidamente para os dois soldados que haviam adentrado o corredor para avisar que o Rei Legório o aguardava nos aposentos reais. Seu olhar, antes descontraído, agora estava impregnado de alerta, refletindo sua prontidão para atender ao chamado do Rei. Com uma expressão séria, ele acenou com a cabeça em reconhecimento às palavras dos soldados.
— Entendi! — Respondeu Urgan, sua voz grave carregada de firmeza. — Mohawk, acompanhe os príncipes na minha ausência; eu os encontrarei depois ao finalizar os assuntos pendentes com o Rei. — Concluiu e se retirou para encontrar a maior autoridade do reino.
Dito isso, Urgan partiu em direção aos aposentos do Rei Legório, seus passos firmes ecoando pelos corredores do castelo. Os príncipes Meirin e Jester continuaram parados, observando Urgan desaparecer pelas várias galerias do palácio imperial.
Apesar do temor com o possível desfecho trágico que essa história poderia ter, Meirin era completamente ciente das capacidades e astúcia do general Urgan, o verdadeiro filho mais velho do Rei Legório, que foi acolhido pelo próprio há duas décadas. Um homem formidável que inspirava e cativava multidões com sua força, sagacidade e fidelidade ao reino de Vorosan.
Jester abriu um sorriso sarcástico e deu um tapa no ombro de Meirin, que não entendeu a ação do irmão mais novo momentaneamente.
— Porra, o que foi? — Respondeu confundido.
— Tá com tanto medo por que, mano? — Questionou o irmão mais novo de braços cruzados e com expressão de dúvida. — Urgan já enfrentou situações complicadas várias vezes; é claro que ele vai voltar dessa missão. Não lembra daquela vez com o renegado do reino do Rei Lobisomem que se instalou nas florestas ao redor de Vorosan.
— Ah, sério que você tá querendo comparar a porcaria de um Lobisomem “ladrão de galinha” com o maldito exército do Imperador Demônio? — Retrucou com tédio ao escutar as indagações de Jester.
— Cara, vários de nossos soldados levaram porrada daquele bicho até pedir chega! — Contou a história de forma graciosa e se divertindo ao lembrar da ocasião.
— Jester, eram só uns recrutas bundões que mal saíram do campo de treinamento e tiveram o azar de dar de cara com aquela praga durante a marcha na estrada de volta para Vorosan. Só não morreram porque o capitão Mohawk também estava presente na ocasião e segurou o Lobisomem até o Urgan aparecer... — O Subcomandante desviou o olhar envergonhado ao lembrar que foi incapaz de resolver o problema por conta própria naquele dia. — Sem querer ofender, Capitão, não quis incluir você na definição de “bundões” e menos ainda nos “recrutas”. — Esclareceu Meirin enquanto Jester segurava a risada com a expressão de vergonha alheia estampada na cara do guarda real.
— Achei que você não sabia dessa presepada que rolou! — Surpreso.
— “Presepada”? Nem os anciãos usam mais essa palavra... Pelo menos acho que não. Enfim, como não saberia? Esse assunto literalmente ficou na boca do povo durante o mês inteiro. — Meirin estava inconformado com a má impressão que os supostamente “imbatíveis” soldados tinham deixado.
— “Esquadrão Bunda Mole”, o velho Alaric passou a semana toda rindo desse apelido que o povo deu aos soldados daquele dia. Quem foi mesmo que os treinou? — Questionou Jester não conseguindo conter os risos desinibidos.
— Cara, foi o Mohawk aí! — Jester o encarou com uma feição banhada em sarcasmo.
— Arrego em, Mohawk. — Ele baixou a cabeça diante dos herdeiros, envergonhado por esses infelizes acontecimentos. — Mas enfim, voltando ao Urgan. Os lacaios do Rei Lobisomem, mesmo sem os devidos treinamentos e amplificações de classe, continuam sendo tão fortes individualmente quanto ao menos um grupo de humanos comuns. Não lembro ao certo, mas acho que aquele lobisomem em particular tinha uma classe que causava um aumento considerável de força e poder de ataque equivalente à potência de cada dano recebido no corpo! Isso aconteceu há quase um ano e meio, pouco depois do Urgan ter sido promovido à General do Exército Imperial. — Lembrando de quando o recém-formado General chegou no campo de batalha montado em seu cavalo vermelho e acompanhado por uma tropa de combatentes de elite, no entanto, ao notar a ameaça crescente da fera estrangeira, resolveu lidar com o problema por conta própria. — Mesmo após vários aumentos de força das várias lutas anteriores, o Lobisomem foi partido ao meio com um único golpe, graças à especialização de Urgan como Mestre de Ferramentas. A arma escolhida da vez era uma foice revestida de mana de grande poder de corte. — Os relatos diziam que tudo ocorreu muito depressa, que de um instante para o outro, o Lobisomem já estava caído, partido ao meio, afundando numa poça de seu próprio sangue.
— Tá, já entendi que ele é brabo, mas o que essa história tem a ver com a missão de amanhã? — Perguntou Meirin impaciente com essa história de Jester enaltecendo a força do verdadeiro irmão mais velho.
— Não tem nada que ele não possa enfrentar. Ele ama este reino com todas as forças e não vai se permitir cair em combate!
— O saco dele deve ser todo caído do tanto que você puxa, não é, Jester? — Mohawk, a sombra de Urgan, se mantinha quieto apenas assistindo a resenha dos dois irmãos.
— Se lascar, Meirin! — Os dois irmãos caminharam em direção aos seus aposentos, sendo acompanhados pelo capitão do exército, quando escutaram passos metálicos vindos do caminho por onde vieram. Jester desviou a atenção para lá e percebeu a presença de um velho amigo da família, que surgiu caminhando lentamente, segurando seu elmo chifrado e armadura negra. — Dalibor? — Perguntou ele ao ver o grande homem surgir, exalando uma aura séria, mas ao mesmo tempo tranquila.
Os três interromperam a caminhada e foram saudar o monarca, que curvou a cabeça em respeito aos herdeiros. Fazia muito tempo que não os via, e ficou surpreso ao constatar que os jovens filhos do Rei Legório haviam crescido bastante nos últimos tempos.
— Rei Dalibor, qual o significado de sua visita? — Perguntou Meirin com tranquilidade.
— O vosso pai está convocando os exércitos do continente para a batalha de amanhã! — Respondeu ele calmamente. — Deixou sob o controle de Adrias o trabalho de solicitação das tropas auxiliares. Com a força militar que estamos reunindo, poderemos acabar com a ameaça de Razallath. — Concluiu ele.
— Estamos contando com isso, meu amigo. — Jester com um grande sorriso de satisfação no rosto. — Como sua filha está? — Continuou.
— Resistindo. — Mara, a princesa de Adrias, estava sofrendo de intensas febres, inchaços pelo corpo, e sua pele começou a escurecer num tom azul-negro como uma maldição. — Solicitei os sacerdotes mais capazes da corte para que achem alguma forma de ajudá-la. — Continuou com um ar de preocupação, mas ainda mantendo sua postura firme. — Agora está em quarentena na torre mais alta do meu palácio, só podendo ser visitada pelos médicos para receber doses diárias dos medicamentos e poções feitas pelos magos.
— Tem alguma ideia do que possa ser essa doença? — Perguntou Jester, curioso.
— Não, jovem príncipe. Mas, por via das dúvidas, manteremos ela distante das pessoas desprotegidas em caso de contágio. — Concluiu o assunto. O Rei Dalibor esteve bastante tempo ocupado com assuntos imperiais fora de seu reino, fortalecendo as relações com as vilas e estabelecendo acordos comerciais para adquirir apoio da nobreza regional para atrair mais e mais força política e militar para a campanha do Rei Legório contra o imperador Razallath. — Enfim, o que estão fazendo? — Questionou na intenção de puxar conversa por um momento.
— O pai chamou Urgan para discutir assuntos que estão além do nosso conhecimento, e agora estamos indo para o quarto para aguardar novas ordens do rei sobre os eventos de amanhã. — Respondeu o irmão mais novo.
— Entendo. Enfim, foi um prazer revê-los. Altezas, capitão Mohawk... — Se despediu e foi procurar suas tropas para ajudá-los na preparação da missão do dia seguinte, que de fato será um momento histórico que reverberará por gerações e incontáveis séculos. O dia em que nações se ergueram das cinzas para desafiar a dominação de um tirano, onde os exércitos do mundo lutaram como um só e gritaram um “Não” à submissão e escravidão.
Do outro lado do palácio, Urgan, em frente à ornamentada porta dos aposentos do rei, removeu seu elmo de batalha e desfez sua lança em pequenos fragmentos de mana que foram recolhidos em seguida. Os guardas se despediram do comandante e voltaram para seus postos de vigia. Urgan bateu algumas vezes na porta e escutou a voz do soberano ecoar, permitindo sua entrada.
— Meu rei, o senhor me chamou? — Ele perguntou imediatamente, curvando-se em sinal de reverência e respeito.
— Meu filho, não precisa de tanta formalidade. — Respondeu o Rei, de pé ao lado de uma grande estante de livros e folheando alguns com a ajuda de um monóculo para enxergar com mais clareza. — Você se mostrou além de nossas expectativas, meu filho. Graças aos seus esforços, este reino caminha em segurança, longe de conflitos com malfeitores! — Comentou, realmente estava satisfeito com o general Urgan, que se mostrou altamente capaz de gerir o comando das forças imperiais.
— Eu fui bem instruído... — Respondeu, ainda de cabeça baixa e curvado diante do Rei Legório.
— Sempre modesto. — Guardou o livro de volta na estante e se aproximou calmamente do jovem militar, tocando suavemente em suas costas, pedindo para que se erguesse do chão. Urgan, por sua vez, obedeceu e ficou cara a cara com o mesmo. — Veja só você, o quanto cresceu e o quão forte o tempo e a experiência lhe tornaram. — Segurando nos ombros dele.
— Mas ainda não fui capaz de superá-lo, meu pai. — Respondeu calmamente, mantendo sua feição séria, mas sua aura era de tranquilidade.
— Isso é apenas uma questão de tempo. Afinal, já se passaram muitos anos desde que você começou a se preparar para trilhar este caminho. No entanto, sim, ainda não foi capaz. Embora, eu acredite que consiga me alcançar antes do Jester começar a levar as coisas mais a sério, ou o Meirin soltar a formalidade e o Alaric parar de enriquecer os donos das tavernas do reino! — Sorriu levemente e deixou o jovem general um tanto envergonhado, mas achou cômica a forma como o pai concluiu o comentário com puro sarcasmo.
— Sim, muitos anos... — O rei notou a aura de Urgan que pareceu se escurecer com a manifestação de memórias antigas, trazidas à tona com o último comentário.
— As cicatrizes ainda perduram na sua carne, meu filho? — Observando o filho que baixou levemente a cabeça em sinal de repúdio àquelas lembranças. — Nós dois perdemos muito naqueles tempos sombrios. Você, sobretudo, foi quem carregou pesos ainda maiores sobre os ombros. — Urgan ergueu novamente seu rosto para encarar o velho homem. — Perdeu seus pais ainda cedo, sobreviveu à escravidão nas mãos do império élfico e os horrores da guerra que quase arruinaram os dois reinos combatentes. Poucos teriam ânimo e vontade de se erguer após tudo isso, sabe disso, não é?
— Posso ter perdido muita coisa naquela época turbulenta. Posso ter perdido até a mim mesmo, mas, apesar de tudo isso, os deuses olharam por mim e colocaram o senhor na minha história. — Encarando o velho com grande orgulho e gratidão. — Me resgatou da sarjeta e me acolheu como seu filho adotivo. Nada do que eu diga ou faça será o suficiente para demonstrar o quão grato e honrado me sinto por ser seu filho...
— O laço que nos une vai muito além dos laços sanguíneos. Criar você trouxe grande conforto para minha vida após os desfechos daquela guerra maldita, onde meu pai precisou perder a vida para que nós pudéssemos finalmente viver em uma relativa paz com aquele reino xenofóbico. — Ainda nos tempos atuais, ambos os reinos vivem em constante atrito por conta de relações e ideias divergentes, entretanto, mantêm um “respeito” mútuo graças ao tratado firmado pelo próprio recém-ascendido ao trono, Rei Legório, juntamente do também novo Rei Elfo. — Meu pai não costumava levar as coisas tão a sério, apesar do cargo que assumia, sempre administrava os assuntos imperiais de maneira sossegada, mas sempre foi sábio e firme nas suas decisões! Apesar de eu e minha mãe termos que resolver algumas burradas dele de vez em quando na época. — Desviando o olhar para o canto do quarto, constrangido. — Sinceramente, o Jester é a cara dele, tanto na personalidade quanto na aparência! — Sorrindo levemente em nostalgia, ademais, também se recordou de outra figura importante em sua vida que infelizmente partiu muito cedo. — Falando em Jester, é uma pena o que houve com a mãe dele e do Meirin. Minha esposa sempre foi uma mulher incrível, e me senti muito abençoado graças a ela após aquela guerra onde perdi tudo; você e ela me fizeram um homem melhor. É uma tristeza ela ter morrido durante o parto dele, isso causou algumas controvérsias e inimizades por parte de outros idiotas que julgaram Jester culpado mesmo não tendo culpa de porra nenhuma! — Uma veia pulsante surgiu na testa do velho monarca, emitindo um claro sinal de raiva através dessas lembranças revoltantes. — Enfim, apesar de eu sempre ter percebido o seu desconforto sempre que ela estava por perto, também entendi o seu lado, acredite. Eu entendo perfeitamente, mas também te agradeço por entender o propósito nobre que a simples existência dela inspirava, apenas estando em nosso reino.
Nos recessos da mente de Urgan, a lembrança da rainha falecida permanecia como um quadro de indiferença tingido de tons sombrios da escravidão. Ele lembrava-se da época em que os grilhões da servidão pesavam sobre seus ombros, e ela, prezando pelo fim do regime, traçava silenciosos gestos de resistência nas decadências do reino élfico.
Apesar de Urgan nutrir um apreço por ela, esse sentimento jamais transbordou para uma proximidade verdadeira. A relação entre eles permaneceu envolta numa neutralidade por parte dele, marcada pelas sombras da servidão. Na penumbra dos cativeiros da gestão élfica, ela se tornou um baluarte silencioso contra a crueldade imposta aos escravos.
A ascensão de Vorosan trouxe uma nova era, mas as sombras persistiam. Legório, agora rei, encantou-se com a mulher que lutou para amenizar os horrores dos anos de escravidão. Uma união floresceu, e nasceram dois filhos. Urgan, contudo, manteve-se afastado dela, amarrado pelos traumas de infância.
A tentativa constante da rainha de compensar o sofrimento de Urgan gerou uma amizade estável, porém limitada pelas cicatrizes do passado. No dia do nascimento de Jester, o parto difícil culminou na tragédia da morte da rainha. Urgan nunca conseguiu dissipar completamente a indiferença, mas, no fundo, nutria um agradecimento tácito pelos esforços dela em resgatá-lo das sombras de um passado doloroso.
— Ela sempre foi muito amigável e me tratou muito bem durante todos os anos que convivi com ela e com o senhor, meu rei. Apesar de eu não ter conseguido retribuir toda essa gentileza... — Cada momento perfeitamente guardado na memória, e seu arrependimento por ter sido tão distante às vezes pesavam em sua mente. — Sinto que eu poderia ter feito mais por essa relação, assim como foi com o senhor. Mas, ela era uma mulher de se admirar, muito doce, bondosa e gentil, o senhor e os príncipes tiveram sorte de ter alguém assim ao lado de vocês. — Finalizando esse assunto breve, e recordou dos feitos realizados pelo audaz pai do Rei Legório durante o escasso tempo em que conviveu pessoalmente com ele. — Eu lembro de algumas coisas que ele fez, inclusive, foi ele próprio que se jogou na linha de frente de uma das últimas batalhas da guerra para distrair os exércitos inimigos e toda força especial sob comando do Rei Elfo anterior. Em contrapartida, o senhor libertava a mim e os demais escravos! — Lembrando do ato heroico que serviu de inspiração para que Urgan, ao longo do tempo, se dedicasse a evoluir e dar sua vida em combate se fosse necessário para ajudar outros.
— Sim, ele era um mago excepcional e um homem extraordinariamente corajoso, inclusive, foi o mentor do próprio Alaric. — Urgan ficou impressionado com essa informação, pois, se o mago Alaric era um ser tão absurdo de poder elementar, então seu mentor deveria ser inacreditável. — E é claro que o Jester tinha que herdar essa personalidade do avô. Quero nem imaginar as confusões que poderá causar a este reino mais tarde!
— Ainda bem que o Meirin equilibra as coisas então, meu pai.
— Sim, glória aos deuses por isso. — Ambos riram relaxadamente com essa conversa tão agradável que não tinham há um bom tempo. — Enfim, como andam os preparativos para sua cerimônia de casamento no próximo mês? — De pé ao lado da cama real.
— Ainda em preparação, pai. Até o dia em questão, acho que já estará tudo resolvido! Só espero terminar logo com essas conturbações dos reinos estrangeiros para poder me preparar melhor para essa nova jornada de "homem casado". — Claramente estranhando esse termo. — Por toda vida, eu só foquei em treinar e estudar para atingir as suas e minhas próprias expectativas. Agora, pensar em me casar, e um casamento arranjado ainda... tem sido bem complicado até agora de assimilar isso. — Coçando a nuca enquanto forçava um sorriso para disfarçar seu nervosismo.
— É um tanto repentino mesmo, mas é uma tarefa crucial que tenho certeza de que somente você terá a responsabilidade necessária para cuidar. — Apontando o dedo com seriedade para o filho mais velho.
— Sim, meu rei. Eu compreendo...
— Urgan, levante essa moral. Não é um fardo que foi imposto a você, mas um presente que você precisava. — Segurando novamente nos ombros do filho. — Você sempre se dedicou a cuidar desse reino, chegou a hora de alguém cuidar de você também. A Aristocrata Ravena concordou com os termos do casamento discutidos com ela e o pai; a província sob gestão deles passará a fazer parte de Vorosan após o fim da cerimônia, elevarão nossas forças militares e recursos para que nos tornemos uma potência ainda mais próspera.
— Então será feito, cumprirei bem o meu papel. — Afirmou, reverenciando o pai.
— Todavia, minha maior preocupação não é com o futuro do reino... — Os dois se encaram fixamente.
— O que seria então, meu pai? — Completamente imerso nos ideais do seu progenitor.
— É o fato de eu não poder prever se ela será realmente boa para você. — Respondeu com ternura e preocupação com o futuro do filho com a esposa.
— Ravena é uma mulher honrada, e eu a honrarei tanto quanto honrarei o senhor! — O Rei Legório abraça seu filho repentinamente, causando uma surpresa do próprio. — Pai?
— Eu tenho muito orgulho dos meus filhos. São grandes homens que cresceram rápido demais. Um dia eu não estarei mais aqui, mas partirei em paz sabendo que meus honrados filhos cuidarão do povo de Vorosan com justiça e dignidade.
— O senhor ainda viverá muitos e muitos anos, pai. Este reino é o reflexo da graça do soberano que o governa! Sua sabedoria o guiará ainda mais longe do que já o guiou. — O Rei Legório ficou extremamente satisfeito com a maturidade e fidelidade que seu filho adquiriu ao longo do tempo. Sem sombra de dúvidas, ele seria um grande governante, embora ele aparentemente não tenha vontade de assumir este importante papel. — Vá encontrar seus irmãos, amanhã sairemos bem cedo! — Ordenou.
— Sim, senhor. — Se retirando e deixando o pai refletindo em seus aposentos com seus vários e vários livros.
Com o orgulho estampado em seu ser, o Rei Legório repousou em sua cama e deixou seus pensamentos fluírem em completa harmonia até alcançar o estado de sono profundo. Urgan, por outro lado, se retirou dos aposentos do pai, ele sorria contente com o rumo que sua vida tomou apesar das circunstâncias do passado complicado nas mãos dos elfos preconceituosos que lhe arrancaram sua família durante a guerra. Porém, essas coisas eram apenas memórias de uma vida antiga que já foi capaz de superar há muito tempo; agora, tinha um lar, família e um dever a cumprir pelo seu próprio bem e de todos de seu amado lar.
Em paralelo, os jovens príncipes seguiam em caminho aos próprios aposentos, Mohawk os acompanhava mantendo sua mão esquerda segurando firmemente no cabo da espada de batalha. A seguir, desde uma porta longínqua à retaguarda de onde os três se encontravam, aqueles mesmos dois soldados retornaram para também convocar os herdeiros por ordens do rei.
— Mas vocês acabaram de levar o Urgan até ele! — Comentou o príncipe Meirin um tanto confuso, não sabia o que seu pai queria saber com eles agora, pois acharam que estaria bem ocupado tratando de assuntos importantes com o general.
— Sim, senhor. No entanto, o Rei Legório necessita da presença dos senhores no salão real para tratar das questões da investida ao império do demônio. — Concluiu um dos soldados de armadura com a costumeira seriedade.
— Vamos logo ver o que velho precisa, depois a gente vê o que faz, irmão. — Sugeriu Jester sempre com sua feição enérgica e espontânea.
— De acordo então. Mohawk, nos acompanhe! — O homem assentiu com a cabeça e seguiu os dois príncipes novamente pelos corredores do palácio agora rumando a um novo objetivo. — Estou particularmente curioso sobre o que pai quer tratar conosco que já não tenha tratado, além do mais, ele havia deixado aparente sua intenção de descansar pelo resto do dia após. — Comentava Meirin analisando as situações atuais, mas tinha certeza de que se tratando do rei, realmente deveria ser algo de grande importância.
A atmosfera no palácio, que antes estava repleta de promessas e vida, subitamente se transformou em um cenário de traição e terror. Os príncipes Meirin e Jester, acompanhados pelo subcomandante do exército, avançavam pelos corredores do castelo em direção aos aposentos do Rei, alheios ao perigo que se aproximava.
Distraídos enquanto caminhavam pelos corredores imperiais, os dois soldados de armadura coagidos por desejos gananciosos de elevação, deram início a um plano diabólico.
— Amplificação de Classe! — Ambos os soldados disseram em uníssono.
Suas mãos revestidas de mana azulada se conectaram à fonte de vida de seus corpos, a magia natural cooperando com a força vital dos hospedeiros, resultando em uma reação em cadeia que elevou os atributos físicos e habilidades de suas classes pré-concebidas pelos criadores.
A mana, a base de toda magia deste mundo, possui um elo com a força vital de cada ser vivo. Essa conexão é despertada por meio de chamados ou "Conjurações Manuais e Verbais", fortalecendo ambas as mãos e permitindo uma conexão estável com o cérebro, proporcionando foco elevado e precisão nos movimentos para alcançar qualquer objetivo estabelecido. Além dessas formas, os usuários de mana também têm a opção de recitar um cântico místico ensinado pelos antigos deuses. Embora cheio de falhas e com o risco de demorar muito para ser recitado em batalha, o despertar por meio do cântico resulta em ampliações ainda mais intensas das capacidades, com elevações notáveis nas habilidades e atributos, multiplicadas várias vezes. Em situações críticas, essas amplificações podem fazer uma diferença avassaladora, dependendo da quantidade de mana restante no corpo do usuário.
Apesar das grandes vantagens adquiridas com o despertar normal e o cântico, seu uso abusivo e sem um corpo altamente preparado para aquela carga de potência pode resultar em desvantagens significativas. Além do risco de exaurir completamente a reserva de mana do usuário, o que o deixaria indefeso, há diversos efeitos colaterais físicos prejudiciais. Esses efeitos incluem febre, fraqueza extrema, dores musculares intensas a ponto de ser impossível permanecer de pé e, em casos ainda mais extremos, a morte do usuário devido à sobrecarga do corpo. Portanto, o uso responsável e equilibrado das amplificações de classe é essencial para evitar essas desvantagens potencialmente letais.
Mohawk, mesmo focado nos dois príncipes, sentiu o odor pútrido da intenção assassina e ficou ainda mais claro ao escutar as palavras dos soldados logo atrás, palavras que eram proferidas apenas durante combates intensos. Ele reagiu o mais depressa possível para defender os herdeiros da ação planejada dos traidores, virou seu corpo num ângulo de 360° na intenção de lutar, mas seu corpo não teve tempo para erguer completamente sua espada e um dos soldados, com uma velocidade alarmante adquirida com a amplificação, o atingiu com a ponta de uma faca em diversos pontos vitais que romperam algumas artérias do capitão, causando sangramentos internos e dores intensas que o deixaram de joelhos. O segundo traidor avançou correndo velozmente na direção de Meirin, que não era tão treinado quanto Mohawk, e nem viu o que lhe atingiu; suas artérias foram cortadas e ele sangrou no chão até a morte sem saber quem ou o quê atentou contra sua vida.
Quanto ao príncipe mais novo, ele voltou-se para a cena deplorável que se desenrolou. Sua feição tornou-se de puro horror, que logo se converteu em choque instintivo, impulsionando-o a utilizar os fios de mana, afiados como navalhas provenientes de sua classe anteriormente não tão utilizada, graças à sua ausência nos conflitos e aos treinamentos recorrentes. Com ambas as mãos divididas para diferentes funções, a esquerda revestida com milhares de fios em formato circular como um escudo, e a direita movimentou os fios em conjunto, elevando a massa do objeto e atingindo a cabeça do homem como um chicote poderoso que o deixou levemente aturdido. No entanto, o soldado traidor se recuperou rapidamente e correu para a retaguarda de Jester, atingindo-o na cabeça e o deixando inconsciente. Quando Mohawk viu a silhueta daquele traidor de armadura derrubar o príncipe mais novo com um golpe, apesar da resistência do mesmo, ele utilizou suas forças restantes e disse:
— Amplificação de Classe! — Assim como os facínoras, o subcomandante também explorou as capacidades mágicas que tinha, e seu corpo se expandiu como uma explosão de músculos que quase romperam sua armadura e uma carga selvagem de força física e resistência aos ferimentos.
— Então essa é a amplificação da Classe dos Bárbaros? — Disse um dos assassinos vendo o brutal capitão se movendo em alta velocidade, desferindo um golpe horizontal com a espada.
Com o potencial latente de seu corpo sendo explorado por completo através de Amplificação Verbal, Mohawk alcançou um estágio de força nunca antes experimentado por si, uma força selvagem que rendeu alguns segundos a mais de resistência aos ferimentos recebidos instantes antes. Com o sangramento interno devastando as reservas de energia e vitalidade de seu corpo, o Bárbaro Capitão tinha menos de trinta segundos para destruir seus inimigos e salvar a vida do príncipe Jester antes de cair morto diante de seus inimigos.
Dedicando toda força que restava de seu corpo, Mohawk desferiu um golpe selvagem com a espada de batalha para partir os traidores ao meio. Porém, aquele que o feriu foi capaz de perceber esta ação e se abaixou para evitar ser dividido em dois com aquele ataque furioso.
Embora tenha evitado sua destruição, o assassino sentiu o palácio estremecer com o choque da arma de combate daquele militar com as paredes ao redor. Um choque intenso que sacudiu as estruturas do império e despertou o Rei Legório de seu sono e chamou a atenção de Dalibor, que não estava muito distante do local daquela batalha mortal.
Sentindo um mau pressentimento após despertar subitamente de seu sono, o Rei Legório acionou a guarda real que prontamente soou o alarme de todo o Reino de Vorosan. Dalibor largou os materiais para usar na batalha do dia seguinte e sacou sua espada, já retornando para dentro do castelo, correndo desesperadamente em direção aos aposentos dos príncipes. Além disso, Alaric, mesmo sob efeito de álcool, despertou de suas alucinações e se esforçou para conjurar um teletransporte para o mais próximo possível de onde esse problema poderia estar acontecendo. As trombetas de alarme soavam numa frequência pavorosa, Urgan, pressentindo o perigo e o caos, apressou o passo para investigar o problema.
Quanto à traição dos soldados e a batalha contra o valente capitão Mohawk, o segundo inimigo percebeu que a espada se prendeu na parede e avançou, cravando sua faca no peito do guerreiro bárbaro, que gemeu de dor e forçou a rigidez dos músculos peitorais para evitar uma agravação pior do contato daquela arma regida por magia maligna.
— Aaaah! — Soltando a espada e atingindo seus dois punhos com força nas costas do inimigo, tamanho impacto que o jogou no chão com extrema violência.
No entanto, ao tentar finalizá-lo com uma pisada, o primeiro soldado traidor arremessou uma pequena bomba de fumaça que detonou ao entrar em contato com o rosto de Mohawk, o deixando aturdido e sem visão do ambiente ao redor.
— Aaah! Desgraçados! — Tentando se recobrar da tontura para conseguir enxergar no fumaceiro.
— Não é à toa que você foi requisitado pelo general Urgan para assumir o segundo comando da guarda real... — Diziam os mesmos enquanto caminhavam através da fumaça em pontos separados para confundir ainda mais os sentidos do militar.
— O imperador Razallath irá nos presentear com o alto comando da guarda dos impérios quando todos forem dominados. — Cortando as coxas do mesmo e desaparecendo novamente na nuvem de fumaça.
— É só uma questão de tempo até você cair morto pelo sangramento! — Correndo até ele para desferir o golpe final com a faca direto no cérebro.
Porém, os olhos de Mohawk se adaptam ao choque e ele observa o mundo se mover lentamente em seu leito de morte. O capitão agarra o adversário pelo pescoço em pleno ar com sua mão esquerda e sente o som dos passos silenciosos do outro se aproximando mansamente. Num salto voraz, alcança o segundo, que arregala os olhos e também é surpreendentemente capturado pela cabeça.
— Peguei! — Apertando ambos com muita força, os fazendo gritar de dor e golpear o capitão Mohawk com tudo o que tinham. — Aaaahg! — Sangue escorrendo em cascata significando seus últimos segundos de vida. — Aaaaaah! — Um dos malfeitores alcançou a faca presa em seu peito com um chute, resultando na perfuração do coração do bravo subcomandante da guarda imperial.
Mesmo com as probabilidades pendendo para sua morte, Mohawk enfrentou os traidores com honra e valentia, desviando de golpes certeiros e contra-atacando com destreza. Em sua jornada até o momento presente, Mohawk lutou com garra; seus movimentos eram como uma dança mortal que afugentava e exterminava os inimigos de seu amado império.
No entanto, devido à traição de dois dos guardas do palácio movidos por ganância, causaram diversas hemorragias internas que, a cada segundo e movimento executado pelo leal capitão, o aproximava da morte certa. Ele sucumbiu em combate, afogado em seu próprio sangue e ciente dos momentos finais de sua vida.
Os traidores permaneceram de pé no piso molhado com o sangue dos caídos, sentindo o esgotamento dominá-los depois de abusarem de suas amplificações para vencerem o audaz guarda real que batalhou até seus últimos instantes. Enquanto Mohawk jazia tombado no chão, um de seus carrascos se aproximou lentamente para dar o golpe de misericórdia.
— Pouquíssimos foram capazes de resistir tanto tempo aos pontos de pressão atingidos por um membro da Classe dos Assassinos! A sua força bárbara realmente era impressionante, mas agora ela será apenas uma história que também morrerá ao longo do tempo. — Puxando a faca mágica novamente para o golpe final. — Morra contente, sabendo que cuidaremos bem do seu posto atual e do Urgan. Logo ele o acompanhará até o inferno! — Ele tentava responder, mas sua voz falhava por conta do sangue que transbordava da boca.
— Glória... a... Vorosan! — Concluiu com muito esforço, apenas, para ter seu rosto atravessado com uma faca carregada de uma maldade aprimorada pelo desejo ganancioso por grandeza e elevação.
Com esse cruel desfecho, a primeira parte do plano dos traidores foi concluída com perfeição. Movidos por um desejo maligno, os dois partiram para a segunda fase, apagaram os próprios rastros daquela batalha e se livraram das armas do crime que continham suas assinaturas de magia e estavam impregnadas com o cheiro podre de suas intenções assassinas.
— Está com você? — Perguntou, enquanto acabara de arrastar o corpo sem vida de Mohawk para alguns metros à frente e colocar uma adaga em uma das mãos dele.
— Claro... — Puxando de um espaço da armadura um pequeno recipiente de vidro com um “líquido” azul contido nele. — Razallath contou que esse material absorve as assinaturas de mana de hospedeiros próximos, porém, com o encantamento correto, conseguimos programar para absorver a assinatura de um alvo em específico. — Despejando o líquido que se desfez como fumaça, sendo absorvido pela adaga e recebendo pequenas doses do sangue de Meirin, Jester e dos próprios traidores, forjando uma cena de crime tendo o finado capitão como autor.
Passos apressados são ouvidos, e os dois assassinos caem no chão à beira da inconsciência devido aos ferimentos adquiridos durante a luta. Dalibor se aproxima correndo em alta velocidade e, ao ver aquela cena grotesca, seus olhos são tomados pelo sentimento de desespero que o faz largar sua espada no chão, saindo em disparada até os príncipes caídos. Em seguida, o general Urgan também apareceu e correu até o corpo morto de Meirin, tentando não acreditar no que via.
— O que aconteceu aqui?! — Perguntou o comandante completamente exaltado e desesperado.
— Eu não sei, acabei de chegar! — Respondeu o segundo rei, segurando o corpo de Jester em seu colo, tentando trazê-lo de volta para a consciência.
— Mohawk... — Sussurrou Urgan, ao ver o corpo do seu velho amigo caído e sem nenhum sinal de vida.
Logo, os dois soldados de armadura que permaneceram jogados no canto do corredor finalmente "despertaram". Estavam sangrando e quase sem nenhum resquício de mana vital para se manterem firmes. Dalibor os percebeu e questionou sobre o que havia acontecido ali, e os dois, entre um grunhido de dor e outro, revelaram:
— Foi ele... — Apontando o dedo para o general Urgan. — Foi tudo culpa dele!
Dalibor observou a feição incrédula que se fez no rosto do jovem general, apesar das lágrimas de luto escorrendo como chuva de seus olhos. Ele conhecia a grande irmandade que tinha com a família real desde tenra idade e jamais demonstrou interesses ou desejos de elevação através de instintos corruptos. Tais acusações feitas pelos soldados que testemunharam o fato não faziam o menor sentido aos olhos do monarca menor.
— Era meu dever protegê-los! Vocês não sabem o que estão falando. — Segurando o corpo ensanguentado de Meirin sobre seu colo.
— Não pode negar que o capitão Mohawk agiu por ordens suas. Foi muita sorte termos detectado as intenções dele antes que pudesse fazer um estrago maior. — Disse o outro soldado ferido. — Ele estava afundado até o pescoço com uma mana corrupta que infestou o ambiente, mas infelizmente os príncipes não puderam perceber antes da tragédia acontecer. Estávamos retornando dos aposentos do rei após termos o conduzido até lá...
— Já chega! — Gritou o general em cólera com essa acusação.
— Isso não tem cabimento algum. Digam de uma vez o que aconteceu aqui! Caso fatos sejam omitidos, vocês serão penalizados por isso. — Alertou o Rei Dalibor, cansado de escutar tanta baboseira ao seu ver.
— A arma que está com ele foi a mesma utilizada para matar o jovem príncipe Meirin! — Dalibor se aproximou do corpo de Mohawk para investigar o que os soldados diziam, e percebeu que era de fato isso, estava banhada com o sangue de Meirin e um pouco de Jester, inclusive, dos próprios soldados que mostraram feridas em seus corpos, provando assim que o moribundo capitão era o autor dessas mortes e só não conseguiu seus objetivos completamente, graças à intromissão dos soldados.
— É, esse é o sangue dos príncipes de fato. Embora, eu não consiga detectar com muita clareza, não tenho dúvidas disso. — Respondeu ele, ainda analisando a arma do crime.
— Como você consegue saber de uma coisa dessas? — Questionou Urgan, sem conseguir entender esse conhecimento adquirido do velho amigo. — Pensei que você fosse da Classe dos Guerreiros...
— Não, na realidade, eu sou um "Hemomancer". — Mostrando um brasão da classe composta por um sinal de cruz avermelhada, muito parecida com a que os médicos carregam. — Fui treinado para ser um Mago do Sangue, apesar de não levar muito jeito para isso e troquei minha especialidade para a arte do combate. — Dalibor nunca foi muito apegado à sua classe original; no entanto, os treinamentos em sua juventude para dominar as técnicas e conhecimentos dos hemomancers realmente se tornaram úteis com o tempo.
Pouco tempo depois, o velho mago Alaric surgiu através de um punhado de chamas vermelhas após descobrir a localização dos mesmos, apesar da embriaguez. Contudo, ao observar os corpos dos príncipes caídos no chão, seu estado desestruturado por conta do álcool começou a se desfazer através de uma fúria crescente, que resultou nas quantidades abusivas de bebida se definhando em seu ser como fumaça surgindo de seu corpo, semelhante a uma chaleira extremamente aquecida por uma fogueira. Em seguida, surgiu o apressado Rei Legório atravessando a fumaça do corpo do irritado Alaric; todos se calaram diante daquilo, e a expressão de dor era visível na face do monarca.
O mais puro terror decaiu sobre as almas dos presentes. Dalibor e Urgan conheciam bem as capacidades destrutivas dos dois seres mais poderosos do continente, e eles não se dignavam a dizer uma palavra sequer diante da magnitude daqueles homens.
Utilizando de sua subclasse como Soberano de Vorosan, o Rei Legório abriu os olhos com fúria no mesmo momento em que uma coroa feita de mana azul-fantasma se materializou em sua cabeça, cobrindo completamente a coroa usual de líder imperial. Essa realização simbolizava seu status como Rei, necessário para a conquista e utilização de sua subclasse. De modo subsequente, todos os presentes, exceto o mago Alaric, foram automaticamente colocados de joelhos diante de sua magnificência absoluta.
— Q-quem? — Mesmo tentando se controlar, era notória a sensação pesada no ambiente que ele causava com sua presença.
Todos sob o poder do Rei Legório eram colocados de joelhos de acordo com a vontade do líder, uma característica mágica presenteada pelos criadores no princípio das eras que consistia em despertar um poder oculto em cada ser vivo de acordo com suas conquistas e méritos. Chamava-se "Subclasses" a essas conquistas individuais de todo ser vivo, equivalentes aos seus postos atuais após uma rigorosa série de provações para testar o merecimento de tal capacidade. Tornava a adição da Subclasse ao usuário um fator de grande importância, demonstrando sua voracidade e ímpeto na busca de objetivos na vida.
Por ser herdeiro da realeza, Legório foi provado desde o início pelos deuses para testar a capacidade necessária que tal cargo exige. Sua bondade e força de vontade nos tempos turbulentos o levaram além das expectativas. Sua habilidade de combate em sua classe individual pôs fim a muitos conflitos que assolaram o reino em diferentes épocas. Isso serviu como base para sua ascensão ao trono quando seu falecido pai caiu em batalha durante um duelo proposto por ele mesmo contra o Rei Elfo, na tentativa de encerrar a guerra. Ambos morreram nesse embate, e os respectivos herdeiros puseram fim ao conflito de uma vez por todas. Agora, ao se tornar Rei de Vorosan, Legório foi agraciado pelos criadores com a Subclasse do Rei, onde sua autoridade sobre os súditos era absoluta dentro e fora dos limites de seu império.
— Não sabemos, meu rei. — Respondeu Urgan com voz trêmula após essas demonstrações de força que iam além de seu alcance. — O Rei Dalibor e eu acabamos de chegar e encontramos essa situação calamitosa! — Ainda de joelhos sob ordem do soberano, que os ignorou e se dirigiu aos seus dois filhos caídos.
Seus olhos inchados pelo choro incontrolável se fizeram presentes. Alaric permaneceu parado em seu lugar anterior, ainda contendo sua magia elemental para que ela não se manifestasse através de seu cajado. Suas emoções estavam conturbadas pela cena dos garotos ensanguentados no chão.
— O capitão Mohawk atentou contra a vida dos príncipes, aproveitando-se da missão particular de escolta deles para cometer o atentado. — Disse um dos soldados ainda ajoelhados e incapaz de se mover corretamente devido à ordem do líder superior.
— Que absurdo! Mohawk jamais teria motivos para realizar tamanha atrocidade contra a realeza, cuja família sua própria linhagem de militares jurou proteger por gerações. Por que ele quebraria esse juramento agora? — Respondeu Urgan, enraivecido com essa desonra ao legado do subcomandante e grande amigo.
— Você sabe muito bem o porquê disso! — Insinuou de maneira exaltada o segundo soldado também ajoelhado. — Ele agiu por ordens suas, e por pouco não matou o príncipe Jester também. Mohawk agia de acordo com suas diretrizes e confessou antes de morrer que estava cumprindo suas vontades! — Neste momento, o rei rangeu os dentes e sinalizou para o mago, que golpeou o chão com o cajado, criando uma nuvem de fogo que silenciou a discussão e os libertou da influência da subclasse do monarca. — Eu quero ouvir a verdade, e quero isso agora! — Ordenou ele, completamente enraivecido com o que acabara de presenciar, enquanto segurava seus dois filhos nos braços.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— A faca, senhor... — Sussurrou o soldado, completamente amedrontado com a presença imponente dos dois homens de pé.
— Alaric! — Ordenou, e a adaga de Mohawk flutuou até as mãos do mago, que começou a analisar os rastros de mana contidos nela. — E então? — Questionou.
— Não há dúvidas, além de Mohawk, também há uma assinatura dominante que impregnou todo esse material. — Além de reconhecer as amostras genéticas dos príncipes por meio de magia, Alaric também identificou a assinatura de mana do próprio general Urgan.
— Isso não pode estar certo! — Disse Urgan, percebendo que todas as evidências apontavam para ele, embora ele fosse completamente inocente. — Meu rei, eu nunca faria isso! O senhor me conhece. — A decepção era visível em seu olhar.
O Rei se manteve em silêncio, ainda segurando os corpos de seus filhos. Lágrimas de dor e decepção escorriam de seus olhos, que evitavam encarar o comandante. Ele se recusava a acreditar que seu filho mais velho, a quem ele criara com tanta ternura e integridade, fosse capaz de realizar tamanha traição e ainda atentar contra a vida de seus dois irmãos. Mas por que ele faria isso? Seria possível que a recusa de Urgan ao trono durante toda a vida fosse apenas uma atuação para evitar suspeitas de suas verdadeiras intenções? Não, seu coração negava veementemente esses detalhes revelados.
— Eu de maneira nenhuma faria algo de mal contra a família que jurei proteger quando escolhi essa vida! — Caminhando lentamente em direção ao rei, enquanto tentava se explicar. — Pai, por favor! — O Rei abriu seus olhos ferozes para o filho adotivo, que estremeceu no lugar e, de repente, foi agarrado por mãos rochosas que brotaram do solo encerado. Urgan gritou de dor e percebeu que foi Alaric quem fez isso por ordens do soberano, que estava em luto.
— Você me desonra, Urgan! — O Rei Legório, com o coração destroçado por essa traição, atingiu o general no rosto, fazendo-o sangrar e prejudicando sua visão. — Sempre fiz tudo por você, acolhi você da sarjeta da escravidão e te dei um lar! Uma família! E você me traiu dessa maneira... — Segurando o rosto do general ferido. — Sempre acreditei que você seria um grande rei, uma versão de mim ainda mais perspicaz que poderia guiar Vorosan para um futuro grandioso. E agora, você cuspiu na minha cara e desonrou seu juramento!
— Meu juramento não foi quebrado, meu rei. Eu juro pelo senhor! Eu não fiz isso, não ordenei que matassem meus próprios irmãos... — Os soldados permaneceram em silêncio, observando o desenrolar daquele episódio.
— E, apesar disso, sua mana presente na arma do crime torna suas palavras e juras irrelevantes. — Afirmou o mago Alaric, segurando a adaga ensanguentada. — A magia não mente, e todos os fatos apontam diretamente para você. Meu Rei? — Pediu ele, observando o líder diante do jovem de joelhos no chão, preso por braços rochosos de magia elemental.
— Faça como quiser... — O Rei se retirou para verificar seus filhos e, em seguida, Urgan sentiu uma pancada na parte de trás da cabeça, e tudo começou a escurecer.
Com Urgan desacordado, o Rei Legório carregou Meirin e ordenou que Dalibor levasse Jester com urgência para a enfermaria. A pancada que ele recebeu na cabeça não parecia ter causado grandes danos, mas ele não reagia aos chamados e precisava de ajuda médica urgente para um tratamento especial. Quanto ao agora ex-general, Alaric o teleportou para o ponto mais profundo e tortuoso do calabouço imperial, onde ele aguardaria o devido julgamento por suas ações e receberia sua sentença definitiva. Agora, apesar dos infames acontecimentos, o rei precisava se concentrar na missão do dia seguinte, e o luto por seu filho teria que esperar um pouco mais.
Algumas horas mais tarde, os soldados feridos foram tratados e Meirin estava sendo preparado para ser sepultado após a finalização do julgamento do traidor Urgan, que prontamente foi recolhido do calabouço por uma armada de guardas altamente treinados. Embora ele não tivesse intenção de reagir, a revolta do rei entristecido não conseguia mais o olhar da mesma maneira e preferiu se precaver; e depois de uma longa caminhada, o ex-general foi jogado no saguão real, completamente humilhado diante de suas tropas e todos os membros da realeza, juntamente do mago Alaric que permaneceu ao lado do Rei Legório durante todo o passar do tempo. Todos, sem exceção, se juntaram para presenciar e participar do julgamento final do antigo comandante da guarda real.
Jester, o único membro da realeza sobrevivente do massacre pelas mãos de Mohawk, estava sob constante tratamento com os melhores médicos do império, o golpe sofrido foi executado numa região sensível do crânio e poderia mudar o futuro do jovem príncipe para sempre se não fosse corretamente cuidado. Quanto ao corpo do capitão traidor, seu corpo foi recolhido pela corte do Rei Dalibor para investigações com as autópsias após o julgamento do mandante do crime.
Totalmente subjugado, Urgan se mantinha de joelhos e seus braços jaziam presos por correntes de aço especial feitas pelo próprio Rugnar. Ele ergueu o rosto ferido para fitar seu pai no alto do trono real, no entanto, sua aura e feição eram muito distintas das que ele cresceu acompanhando.
— General Urgan! Você está sendo acusado de crimes contra Vorosan, sua participação como mandante do assassinato dos príncipes Meirin e Jester são indiscutíveis graças às provas apresentadas até o momento. Contudo, este tribunal reconhece suas contribuições e histórico com o reino... e viemos aqui neste dia para decidir seu destino. Caso não haja provas que comprovem sua inocência, sua sentença será a morte por enforcamento! — Concluiu o Rei Legório friamente.
— Meu rei, por favor. Isso é uma conspiração, eu nunca faria nada de mal contra a família real! — Suplicou ele tentando se explicar de todas as maneiras possíveis.
— Sua assinatura mágica foi encontrada na arma do crime. Ousa negar esse fato, jovem Urgan? — Questionou seriamente o mago Alaric, sua voz carregada de um poder mágico massivo fazia o ponto onde o condenado se encontrava pesar ainda mais como se estivesse alterando a gravidade.
— Uuurhg! — Resistindo ao peso que se fez sobre si. — Eu... não sei como; mas, eu não tive nada a ver com isso! — Sua revolta com tamanho ultraje contra sua honra lhe presenteava com uma resistência física e mágica, ainda mais por saber que não teve culpa no que aconteceu, porém, esse conhecimento era inexistente na cabeça do juiz e júri presentes.
— Silêncio! — Ordenou o rei, fazendo Urgan se calar completamente apesar das provocações. — Não temos tempo para discussões que não levarão a lugar algum! Juiz Alaric, você assume o caso. — O Mago se colocou à frente do rei para começar a falar.
— Sim, senhor. Embora eu não tenha muito o que dizer além do que já falei. No entanto, os dois soldados que estavam presentes durante o fato, revelaram algumas coisas que receio que terão grande importância para o conhecimento de Vossa Alteza.
— E o que seria? — Perguntou ele com seriedade.
— Podem entrar! — Os dois soldados que “batalharam” contra o executor do crime, capitão Mohawk, se fizeram presentes, seus corpos enfaixados e livres dos perigos de uma morte prematura.
Os dois soldados se sentaram em cadeiras próximas ao trono do rei, observando o comandante com desprezo, seus ferimentos cicatrizavam rapidamente por conta do efeito de alguns elixires que receberam para que pudessem testemunhar no julgamento do traidor Urgan.
— Estive interrogando esses homens o dia inteiro, suas descobertas revelam planos ainda mais obscuros do que imaginávamos. — Os observando de relance.
— Como pode ter certeza da veracidade das falas desses homens? — Questionou o réu acorrentado e, em seguida, focinheiras de pedregulho brotaram do cajado do mago e calaram a boca de Urgan.
— Estive analisando a intensidade mágica fluindo em suas almas. Cada palavra, pensamento, gesto e intenções ocultas alteram a consistência do fluxo de mana de cada ser vivo! E infelizmente, não senti nenhuma incongruência em suas palavras e alterações corruptas nas almas deles. — Continuou o mago encapuzado. — Sendo assim. Acusação, especifiquem quais são seus pontos? — O juiz direcionou a palavra para os soldados reabilitados que acabaram de chegar para depor contra o agora ex-general.
— Meritíssimo, de acordo com as palavras do próprio Mohawk durante seu atentado, Urgan foi coagido por promessas de elevação para uma posição superior no suposto “Novo Império” que surgiria com a sua queda, a queda do Rei Legório e a própria submissão de Vorosan. — Revelou um dos soldados com ferocidade nas palavras enquanto se deleitava com a expressão nefasta de ira estampada nos olhos de Urgan.
— Você se refere ao maldito imperador Razallath? — Questionou o pequeno Rugnar na bancada do júri, que assistia à cena em silêncio absoluto.
— Sim, Mohawk revelou que Urgan esteve conspirando com forças sombrias para submeter nosso reino às vontades do imperador, e todo o comando do exército do mesmo seria presenteado a Mohawk e ao próprio Urgan ao final do trabalho! Mas, seus planos foram frustrados, e o príncipe Jester, juntamente do próprio Rei Legório, ainda estão vivos para se opor ao imperador. — Alaric enviou uma olhada séria para o anão, que rapidamente retornou para o seu lugar e permaneceu em silêncio.
Em seguida, o Juiz Alaric desfez a mordaça que silenciava o ex-general e disse:
— E então, a defesa tem alguma objeção? — Prontamente, o Mago observou alguém do comitê erguer a mão para manifestar uma pergunta. — O que quer, Dalibor? — Direcionou a palavra para o rei menor, que apenas assistiu a tudo sem se manifestar.
— Se me permitirem, eu me ofereço para compor a defesa do acusado. — Sugeriu ele calmamente.
— Muito bem! — Dalibor abandonou a tribuna e ficou ao lado do acorrentado Urgan. — E então, o que tem a dizer em defesa do acusado?
— Meu rei, eu conheço o trágico passado de Urgan e todo o contexto real dele com os príncipes, e não tenho a menor dúvida de que ele não fez nada do que está sendo acusado. — Recuperando a compostura para tentar ser o mais coerente possível. — Urgan chegou praticamente junto comigo na cena do crime; a dor em seus olhos era tamanha que ele mal conseguia respirar. Não sei como a assinatura de mana dele foi parar naquela faca, porém, meu instinto diz que isso é um completo engano.
— Está nos chamando de mentirosos?! — Questionou um dos soldados completamente exaltado. — Não foi você que quase morreu lutando para proteger o príncipe Jester, eu... aaahrg! — Duas estacas de gelo surgiram do nada e perfuraram suas pernas.
— Eu não lembro de ter passado a palavra para você; se o interromper de novo, você vira churrasco! — Informou o Juiz Alaric com uma ira suprimida. Mesmo não demonstrando, a situação causou um estresse insano em si por conta da relação amistosa que tinha com os príncipes desde muito cedo, e o fato de os acontecimentos atuais estarem o deixando maluco internamente.
— Perdão, meu senhor! — Clamou o outro soldado em desespero e ajudou o companheiro.
— Médico! — O Mago convocou um membro da Classe Curandeira para tratar os ferimentos que causou nos acusadores. — Dalibor, continue. — O homem assentiu com a cabeça.
— Todos aqui conhecem o general Urgan, ele sempre lutou com força para manter a paz e exterminar o crime que assolava esse grande império. Quantas vezes ele teve que se sacrificar em situações terríveis apenas para que todos aqui pudessem ter uma noite de sono tranquila? — As pessoas na tribuna lembravam-se de várias ocasiões em que criminosos, grupos invasores e saqueadores tentaram sugar os recursos das cidades sob o poder de Vorosan, e sempre, Urgan e suas legiões estavam lá para combater as ameaças e salvar todos os cidadãos. — Um verdadeiro traidor jamais colocaria a própria vida em risco. Por mais sádico e manipulador que ele fosse, jamais arriscaria tanto a própria integridade para proteger o reino que "pretende" destruir. — Urgan, de joelhos, observou de relance o velho homem contradizer os acusadores e honrar a trajetória do jovem guarda real.
— Obrigado por me ajudar... — Sussurrou Urgan, demonstrando gratidão. Em paralelo, todo o júri começou a debater internamente sobre os pontos apresentados por ambos os lados.
— Não se preocupe, vamos resolver isso. — Respondeu o velho rei de Adrias, convicto da inocência do companheiro.
— Enfim, o júri já chegou a uma conclusão? — As vozes dos diversos debates entre os presentes ecoaram como uma música desregulada por todo o saguão. O Rei Legório permanecia em silêncio e dedicado apenas a escutar e analisar cada detalhe dos assuntos em discussão, embora sua mente estivesse distante e focada na recuperação de Jester e em saber exatamente o que aconteceu naquele evento maligno. — E então? — Perguntou novamente o Juiz Alaric com impaciência.
— Sim, meritíssimo! — Alguns dos nobres presentes no comitê imperial se levantaram, e um deles se adiantou para anunciar o resultado deste infame julgamento. — Embora as contribuições do jovem Urgan sejam louváveis, os fatos estão completamente contra ele. Como o mestre Alaric anunciou, a magia não mente. E a corrupção em sua aura é clara, e ele deve ser punido por conspirar com o imperador Razallath contra a soberania de Vorosan! Sendo assim, nós, do júri, consideramos o réu... — Subitamente, as portas do saguão se abriram, e um dos soldados de Adrias entrou com pressa para fazer um anúncio de interesse ao Rei Legório.
— Meus senhores, perdão por interromper o processo de justiça. Porém,devo anunciar ao Rei Legório que todos os preparativos para a investida contra Razallath estão concluídos e aguardando o devido comando para iniciar a ação! — Disse ele em posição de sentido e com grande intensidade na voz para que suas palavras fossem bem entendidas pelos milhares de ouvintes do saguão. — Além disso, nossos espiões detectaram movimentações massivas das forças militares do Império de Razallath; estão vindo com um contingente mais que suficiente para reduzir este continente à completa ruína! Receio que tenhamos que agir depressa enquanto ainda há tempo! — Alertou ele com preocupação, afinal, já era um fato o poder avassalador do imperador, e se não intercedessem, Vorosan sofreria o mesmo destino do Reino dos Anões no passado.
Com a suspeita da traição de Urgan prevalecendo, era fato que o Rei Legório não poderia continuar com a intenção inicial de deixá-lo no comando do exército. Toda a corte repudiaria essa ação por conta das suspeitas e provas apresentadas; o ex-general não era mais admirado, e com todos esses eventos recentes, o próprio rei deveria tomar as rédeas da situação e liderar a ação contra os invasores de Razallath. Legório se levantou, e logo todos fizeram o mesmo para testemunhar sua decisão final quanto ao caso.
— Tem certeza quanto às movimentações do inimigo? — Perguntou o rei, finalmente se manifestando após permanecer em observação durante toda a progressão desta sessão que parecia interminável.
— Sim, meu senhor. Estamos ficando sem tempo! — Confirmou o soldado em posição de sentido.
— Muito bem... — Pensando momentaneamente. — Com todos os fatos apresentados até o presente momento. Urgan, está mais do que comprovada a sua participação no atentado contra a realeza deste reino, embora haja uma grande história entre você e Vorosan, temos que ser imparciais e julgar o presente independentemente do passado. Sendo assim, eu o condeno à morte por enforcamento! — Urgan arregalou os olhos, e os guardas presentes receberam a missão de escoltá-lo para o devido destino.
— MEU REI! EU NÃO FIZ ISSO! O SENHOR TEM QUE ACREDITAR EM MIM! — Suplicou ele em desespero enquanto as movimentações militares se desenrolavam para levá-lo.
No entanto, Dalibor se colocou à frente de todos para intervir na execução da ordem.
— Rei Dalibor, que afronta é essa? — Questionou o Rei Legório com seriedade.
— Perdão, senhor. Porém, deve haver outra solução para isso... — Sugeriu calmamente, forçando uma neutralidade perante as adversidades. — Executá-lo não trará o príncipe Meirin de volta, meu rei. Por outro lado, existem destinos piores que a morte. O senhor pode condená-lo a viver nas ruas sob vigilância e impedido de deixar o reino; ele viverá em completa vergonha por suas ações e será visto como um traidor aos olhos daqueles que um dia tanto o admiraram. — Mandou um sinal disfarçado para o condenado, que captou e se manteve em silêncio.
O rei maior permaneceu em reflexão ao escutar tais conselhos. Condenar um traidor a viver para assistir toda glória e honra ser dizimada por suas próprias ações seria mais cruel do que simplesmente bani-lo deste mundo. Ciente dessa nova opção, Legório ordenou que as tropas se afastassem de Urgan.
— Urgan... — Chamou diretamente. — Como Soberano de Vorosan, eu o destituo definitivamente de suas funções na Guarda Real. Será jogado na sarjeta, condenado a viver para sempre carregando a vergonha por suas ações! — Os guardas agarraram os braços de Urgan e o escoltaram para o ponto mais sórdido do reino, onde viveria afundado em sua desonra, demonstrando ousadia ao trair seu lar.
Após esses eventos, o Rei Legório permaneceu alguns minutos ao lado do caixão de Meirin; a dor era visível em seu olhar. No entanto, este não era o momento para deixar a emoção subjugar sua vontade de sobreviver aos inimigos que se movimentavam para trazer a ruína ao seu lar. Acompanhado de Alaric e do Rei Dalibor, Legório o questionou:
— Dalibor, diga o que pensa. — Chamando a atenção do segundo monarca.
— Se o senhor não se importar, eu gostaria de ficar aqui no palácio e acompanhar a recuperação do príncipe Jester. — Insinuou.
— Está com medo de Razallath? — Questionou o mago Alaric.
— Deixe-o, Alaric. — Disse o Rei Legório. — Eu vi que você quis seguir o julgamento conforme as regras, Dalibor. Minha ordem prematura de execução não foi sensata de fato, agradeço por sugerir outra forma de postergar a sentença. Embora, agora não tenha muito o que fazer perante as ordens feitas nos momentos de exaltação...
— Não se preocupe com isso. Mesmo que eu esteja surpreso com sua decisão de executá-lo tão depressa. Ele não era seu filho adotivo?
— Meirin também era meu filho, e onde ele está agora?! — Questionou firmemente, apesar de forçar um controle emocional para que ela não comandasse suas decisões. — Meu coração está em pedaços por ter tomado esse veredito tão repentinamente, não consigo crer que Urgan, um garoto que eu criei com tanta consideração e cuidado, tenha sido capaz dessa afronta. Tudo o que tenho agora é esperança de que Jester possa explicar direito o que aconteceu, e ainda bem que você, Dalibor, me impediu de realizar aquilo... Os fatos apontam Urgan como mandante, mas meu espírito insiste em dizer que tem coisa a mais nesse assunto que não temos conhecimento. — Dalibor assentiu com a cabeça, reconhecendo a dor do soberano e demonstrando empatia com seu luto. — Faça como achar melhor, velho amigo — concedeu o pedido do companheiro em gratidão, Legório sabia que podia contar com os cuidados de Dalibor para o reino durante sua ausência. Com a destituição de Urgan, a morte de Meirin e Jester hospitalizado, ele seria a escolha mais sensata para manter tudo nos eixos.
No início da manhã, o portão principal de Vorosan era iluminado pelos primeiros raios de sol que começavam a banhar o reino em uma luz dourada e reconfortante. A atmosfera ainda estava carregada de tensão e antecipação enquanto os soldados se reuniam para os preparativos finais da investida contra as forças invasoras do imperador Razallath.
O céu da manhã estava claro e límpido, com poucas nuvens à perder de vista, criando um cenário de beleza natural que contrastava com a iminente batalha. O ar fresco da manhã trazia um toque de renovação e esperança, mesmo diante dos desafios que se aproximavam.
A armada pessoal de batalha do Rei Legório estava alinhada com precisão militar, suas armaduras brilhando sob os primeiros raios de sol. Cada soldado emanava uma sensação de determinação e coragem, pronto para proteger suas famílias e lares do inimigo mortal.
Montado em seu cavalo, o Rei Legório, um líder respeitado que permaneceu firme apesar das centenas de tribulações recentes, estava à frente de seus soldados, com uma expressão séria e focada, pronto para liderar sua nação na batalha que se aproximava.
O portão principal, que antes era um símbolo de segurança e proteção, agora se transformava em um ponto de partida para uma jornada repleta de incertezas e perigos. Os soldados estavam prontos para enfrentar o desconhecido sob a luz da manhã, guiados pela liderança destemida de seu Rei e pelo segundo em comando, o poderoso Mago Alaric, desta vez completamente sóbrio e ciente do objetivo.
— O medo persiste em seus corações, meus companheiros. E isso acontece por um bom motivo! Temos uma batalha pela frente contra um inimigo com um poder avassalador que pretende nos dominar como peões em seu tabuleiro. A história sempre mostrou que os tiranos só dominam aqueles que se acovardam perante sua força, somente aqueles sem desejos e vontades de se impor ao sistema. — Retirando o elmo de batalha. — Mas nós somos diferentes, somos a espada e o escudo que nunca caem diante da ameaça inimiga. Razallath acredita que pode subjugar o mundo inteiro, mostraremos a ele que está redondamente enganado. Se tivermos que cair... então cairemos com nossas espadas em punho, e cientes de que nossa resistência impedirá que aquele maldito alcance seu objetivo! — Puxando sua ‘Espada Rapieira’ da bainha e a erguendo para o céu, que se fechou subitamente, relampeando como sinal de uma tempestade poderosa. — As demais forças de Vorosan nos encontrarão no caminho da batalha, enviaremos toda nossa legião imperial para a última guerra. Honraremos o legado de nosso fundador, e que todos os nossos inimigos estremeçam de pavor, diante do poder de nossa liberdade! — Berrou ele com convicção, e todos os soldados e cidadãos presentes estremeceram os céus e a terra com um brado estrondoso de coragem indômita.
Escondido nas esquinas, Urgan assistia aquela cena inspiradora protagonizada por seu pai; sem sombra de dúvidas, ele era um exemplo a se inspirar.
Logo, Dalibor se aproximou pela estrada principal de terra até a saída de Vorosan, acompanhado pelo anão ferreiro, Rugnar, e alguns membros do esquadrão de forças especiais que cuidariam da defesa do reino na ausência da maioria das legiões guerreiras. Urgan se escondeu num beco ao lado de algumas pilhas de lixo, observando o desenrolar desse momento que ele próprio deveria fazer parte, mas que graças a uma conspiração, perdeu tudo o que tinha.
Ao inspirar seus audazes guerreiros, a mente do rei permanecia centralizada apenas em uma única e mais importante coisa em sua vida: Jester, seu herdeiro. Legório dedicava seus últimos pensamentos antes da batalha para se despedir de seu filho. Ele próprio sabia que havia uma chance alarmante de não sair vivo desse conflito. Observou ao longe a ala leste do palácio onde o garoto jazia desacordado, mantendo a fé de que logo estaria de pé e o próprio rei retornaria vitorioso desse conflito, continuando sua vida e superando esses tempos obscuros que causaram feridas terríveis em seu coração.
Em meio à chuva e aos relâmpagos, os reis se encontraram cara a cara e juntaram suas mãos em cumprimento como verdadeiros irmãos.
— Estou confiando o futuro deste reino a você, Dalibor. — Desabafou o monarca maior com confiança e fé.
— Retorne logo, meu senhor. Estaremos ansiosos por notícias de sua grandiosa vitória! — Respondeu ele com grande alegria, e Legório sorriu, pronto para colocar à prova a fé de seu companheiro e vencer essa ameaça.
— Hum! — Tossiu o anão, chamando a atenção dos dois. — Grande Rei Legório, mostre àquele "anjinho de bordel" o que é um soberano de verdade! — Os dois riram com o comentário; era mesmo a cara do Rugnar dizer algo assim mesmo num momento crítico. — E como eu dizia! — O anão deu as costas para se focar nas tropas de batalha. — Repito novamente! Se morrerem sem levar pelo menos mais da metade do exército de putas do Razallath, vou encher suas bundas magras de tapas quando me juntar a vocês na morte! — Anunciou ele novamente, soltando ar fortemente pelo nariz em sinal de ordem. — Entenderam bem, mocinhas?! — Gritou, mas não recebeu resposta alguma.
— Vocês entenderam bem, mocinhas?! — Repetiu o Comandante Legório, quebrando o decoro cordial com o exército. — SENHOR, SIM SENHOR! — Responderam em uníssono, suas vozes ressoaram ferozmente, acompanhadas do som dos trovões da chuva.
Ao longe, os verdadeiros traidores observavam a cena com um pequeno telescópio, completamente satisfeitos com os resultados de seus planos. Apesar das ações já tomadas, sabiam que muitas coisas ainda iriam acontecer com esse “império decadente”, segundo eles, e estavam ansiosos pelos desfechos futuros.
E assim os dias seguiram, com a nebulosa opressão do imperador Razallath com os dias contados diante da iminente ruína pelas mãos do bravo Rei Legório.
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