A Corte do Bobo
2 Preparação
Notas iniciais
Se você passou do Prólogo e chegou até aqui, você é demais. Sejam todos bem-vindo à nossa obra de arte, desfrutem bastante e deixem seus comentários sobre as melhores partes dessa delícia de capítulo novo.
Semanas se passaram desde que o Rei Legório e seu exército partiram para a investida contra as forças do imperador demoníaco Razallath. A ausência prolongada do Rei Legório e do mago Alaric alimentou boatos e especulações por todo o reino de Vorosan. As pessoas começaram a temer o pior, pois a incerteza pairava sobre o destino de seu líder e sua armada.
Então, um dia sombrio marcou o início do caos no império. Espiões exaustos e gravemente feridos retornaram ao reino, suas histórias sombrias lançando uma sombra sobre as ruas. Eles relataram a terrível verdade: o Rei Legório e o grande mago Alaric caíram perante o imperador Razallath. A notícia se espalhou como um rastro de pólvora, e os lamentos ecoaram pelas ruas de Vorosan, desde choros de crianças até a angústia dos adultos.A nobreza imperial, como Dalibor, tentava confortar o povo, mas eles próprios eram afetados profundamente pela perda de seu rei. O reino estava mergulhado em tristeza e incerteza, enquanto tentava lidar com o vazio deixado pela ausência do valoroso líder e seus bravos guerreiros que sacrificaram suas vidas para deter o inimigo.Então, um raio de esperança surgiu em meio à escuridão. As trombetas do castelo de Vorosan soaram, anunciando algo inesperado: o despertar de Jester de seu coma. Este evento misterioso trouxe uma reviravolta na dura realidade dos cidadãos do império, lançando uma nova luz sobre o destino incerto do reino e sua luta contra a possível invasão dos carrascos do monarca de Vorosan e seus valentes súditos combatentes.Dalibor, com pesar e compaixão, foi pessoalmente receber o príncipe Jester de volta ao lar. Ele deu as boas-vindas a Jester com um abraço caloroso, expressando seu alívio pelo retorno do príncipe. Então, após algumas palavras de gratidão, o jovem questionou com cuidado sobre o paradeiro do pai, irmão e o general Urgan.Jester, ainda se recuperando do choque e do coma, olhou nos olhos de Dalibor com esperança. No entanto, sua expressão se tornou cada vez mais sombria à medida que o rei compartilhava as notícias devastadoras. Ele contou sobre a morte de Meirin, a destituição de Urgan sob acusação do suposto atentado contra os príncipes, e a trágica falha na investida que resultou na queda do Rei Legório, do mago Alaric e na crescente ameaça representada pelo imperador demônio.As palavras de Dalibor pesavam como chumbo sobre o coração de Jester. A perda de seu irmão, a acusação injusta contra Urgan e a terrível notícia da derrota de seu pai e do mago eram golpes dolorosos. A ameaça iminente de Razallath agora pairava ainda mais sombriamente sobre instável Vorosan sem o pulso firme de seu guia, Jester enfrentava um futuro incerto como o único herdeiro sobrevivente.Enxugando as lágrimas de seus olhos e ignorando o desespero, Jester absorveu a magnitude dessa tragédia que bagunçou o equilíbrio de seu reino. A jornada para reverter o curso dos eventos e enfrentar o imperador se tornava uma tarefa ainda mais desafiadora, porém, o próprio príncipe também tinha algo importante para contar ao velho amigo que apenas ele deveria saber.— Dalibor, eu... hã? — O rei Dalibor se curvou em frente à cama em sinal de reverência, deixando o jovem príncipe confuso.— Perdão, mas, como súdito do falecido Legório. Eu, Dalibor de Adrias, devo reafirmar meu juramento de fidelidade ao império, honrando o legado de seu pai e do senhor... — Jester arregalou os olhos em surpresa ao entender bem em que ponto ele queria chegar. — Como único herdeiro sobrevivente da família real, o senhor, como exige a tradição da realeza, deve assumir seu lugar de direito no trono e ascender como o novo líder desse grande império. Toda a província de Adrias se sujeitará ao seu comando maior, Rei Jester! — Terminou ele, deixando o jovem rei um tanto perdido com essa informação.— Calma, meu bom. Não precisa de tudo isso, já estou ciente de minhas novas atribuições, mas, tem algo que devo contar a você também. — Dalibor permaneceu em silêncio para captar atentamente as palavras do novo rei.Após a revelação de Jester sobre os verdadeiros traidores, um silêncio pesado se abateu sobre a sala. O olhar de fúria suprimida de Dalibor cortou o ar, e sua respiração se tornava cada vez mais pesada e acelerada enquanto a verdade cruel afundava sua mente. Embora ele já tivesse suspeitas sobre os acusadores do julgamento, o rei de Adrias não tinha provas consigo que pudessem levar suas indagações à cabo, bem, até agora. Ele estava ferozmente determinado a fazer justiça, e sua expressão refletia a intensidade do sangue em seus olhos estimulados por um desejo de vingança por essa traição que resultou na expulsão de Urgan e o foco reduzido do Rei Legório que pode tê-lo levado a morte naquela batalha.Jester, por sua vez, sentia emoções tão conturbadas quanto as do rei súdito, mas suas intenções iam muito além de uma simples ação das forças do império sob seu comando; não, ele queria tomar as rédeas dos traidores por conta própria futuramente. Porém, as emoções "controladas" de Dalibor poderiam colocar tudo a perder.
A atmosfera na sala estava eletricamente carregada, com uma tensão palpável, enquanto todos processavam as revelações chocantes.Com sangue nos olhos, Dalibor se afastou da cama de Jester, seus olhos flamejando de fúria e sede de justiça. A decisão estava tomada: ele iria caçar implacavelmente os dois assassinos responsáveis pelo atentado contra os príncipes e pela difamação de Urgan. Ele caminhava em direção à porta quando algo chamou sua atenção e o fez congelar no lugar.— Amplificação de Classe! — Disse o jovem Rei com intensidade na voz. Essas palavras ressoaram como um raio petrificante que travou as pernas do súdito enraivecido, que prontamente se virou para observar Jester exalando fumaça de seu corpo, como presságio de um evento ainda mais intenso. — Rei Dalibor de Adrias, esses traidores são assunto real do reino soberano de Vorosan, e eu irei lidar com eles depois. É minha ordem final, estamos entendidos? — A fumaça se intensificava a cada segundo passado.Dalibor estremeceu por dentro. Ele podia sentir e observar com seus próprios olhos a mana de Jester fluir livremente por todo o seu corpo como uma carapaça dourada brilhante. Todavia, não era apenas essa característica que o deixava imerso em uma mistura de surpresa e medo. A intensidade de sua atmosfera pessoal e a firmeza em suas palavras eram praticamente o retrato vivo da magnitude que o antigo rei demonstrava em situações de seriedade. Ele sentia que o próprio Rei Legório estava diante de seus olhos.Além disso, seus olhos se focaram naquela fumaça expelida do corpo nobre, um atributo que representava uma forma de manifestação mágica muito mais complexa do que a amplificação normal. Na realidade, era um tipo específico e muito raro. Histórias sugeriam que apenas seres nascidos com grande potencial tinham acesso a isso, mas não era bem isso. A presença opressora que o monarca menor jamais havia experimentado com aquele garoto que desde muito pequeno era brincalhão e espontâneo, e agora demonstrava ao vivo sua Amplificação de Classe da atípica categoria Expansiva. Aquela fumaça funcionava como uma espécie de preparação do ambiente, criando um campo mágico onde iriam se instaurar reações relacionadas ao tipo de classe do usuário. No momento atual, Dalibor paralisou amedrontado com o fato de não poder prever os possíveis resultados dessa reação do jovem companheiro.— Sim, prín... digo, Rei Jester! — Respondeu, aos poucos recuperando a compostura e percebeu as alterações na sala se acalmarem aos poucos.Trombetas soaram no topo do palácio, convocando todos os residentes de Vorosan para comparecerem ao enterro do Grande Rei Legório e de seus valentes soldados. Dalibor informou a Jester que ele se ofereceu para comparecer e discursar diante do túmulo de seu pai. Apesar do pouco tempo desde seu retorno do coma, Jester estava completamente apto para assumir suas responsabilidades dali em diante.Dalibor acompanhou-o durante todo o trajeto pelo palácio. Nobres e súditos leais a seu pai se curvaram em respeito ao herdeiro real. Jester gostaria de primeiro tomar um banho, pois passou muito tempo acamado e seu corpo estava suado, causando desconforto.No entanto, os dois não deixaram de notar a presença dos infames soldados que arruinaram a vida de Urgan. Esses soldados, agora elevados à nobreza, estavam no caminho para assumirem cargos de comando no exército imperial, graças às suas supostas "ações heroicas" para proteger a vida do agora Rei Jester. Jester se esforçou para não demonstrar nenhuma reação explosiva, como ele tanto desejava. Não era o momento apropriado para isso, absolutamente. Dalibor e a Guarda Real poderiam lidar facilmente com essa situação, mas isso não satisfaria as intenções do jovem rei.— O que aconteceu com eles na minha ausência? — Perguntou o jovem monarca enquanto caminhava lentamente pelos corredores em direção aos seus novos aposentos, onde seu pai costumava repousar.— Com a destituição de Urgan e as notícias da morte de seu pai e dos guerreiros, os conselheiros da corte trabalharam incansavelmente em alternativas para lidar com as crises. Isso, claro, levando em conta as chances de o senhor acabar não retornando do seu sono. — Lembrando das diversas reuniões em que a participação do rei temporário foi firmemente requisitada, pois seu posto era o mais próximo da realeza principal de Vorosan.— Ah, tá. E esses nobres decidiram promover aqueles dois trapaceiros para ocupar os antigos postos de Urgan e Mohawk, não é? — Perguntou com raiva, rangendo os dentes enquanto uma veia pulsava em sua testa.— Não havia ninguém mais qualificado após o nível hierárquico deles, e menos ainda militares com o grau de competência necessário para ocupar os cargos que exerciam. Por isso, eles foram escolhidos, já que supostamente demonstraram "um gigantesco sacrifício" para protegê-lo a você e ao seu falecido irmão.— Um bando de idiotas! — Vociferou com escárnio em sua voz.— Mudando de assunto, tem umas coisas que devo falar com você... — Começou a caminhar com as mãos cruzadas na retaguarda de maneira reflexiva.— E o que são? — O observando com curiosidade.— Andei conversando com alguns dos soldados sobreviventes da investida, e eles trouxeram revelações preocupantes sobre o inimigo que nos ameaça. — Jester permanecia em silêncio, seu olhar altivo não esboçava temores, pelo menos não ainda. — Razallath é um ser com grandes mistérios; a batalha que Vorosan falhou anteriormente mostrou que não temos o conhecimento completo do inimigo.— Onde pretende chegar com isso, Dalibor. — Parece que a arma de batalha do demônio rei é uma lança capaz de absorver mana a cada golpe atingido no alvo, por mais superficiais que sejam, resultando na capacidade de redirecionar a mana absorvida pela arma para o próprio usuário. Uma luta prolongada contra ele é basicamente uma sentença de morte, pois ele continuará se restaurando e permanecerá com seus poderes em capacidade total!— É, isso parece complicado de lidar... — Comentou, ainda pensando nessas informações e traçando uma linha do tempo do que seus aliados vivenciaram naquela batalha.— Além disso, parece que combater com ele tem alguns detalhes a mais. A cada golpe semelhante sofrido, a partir do terceiro, seu corpo se adapta, tornando-se completamente imune aos danos. Razallath tem basicamente a arma e o escudo perfeitos! Sinceramente, Jester, agora com as forças reduzidas, nosso trabalho será ainda maior para reconstruir a verdadeira força deste reino a fim de combater essa ameaça.— Complicado... — Ele entendia bem os receios do amigo, mas, por ora, ainda não tinha ideias de como lidar com a situação.— No que pensa, jovem príncipe?— Eu admirei Urgan por muito tempo, guiado pelo nosso pai, e ele se tornou muito forte. Meu pai também, ele era de um nível muito além em autoridade, inteligência, força e habilidade de combate. — Lembrando do atentado. — Meus esforços quase não fizeram nada contra aqueles dois. Meirin e Mohawk acabaram mortos por eles. Talvez eu deva aproveitar essa nova oportunidade e me preparar para garantir que a fraqueza não me impeça mais...— Seu pai passou muitos anos sendo instruído pelos melhores guerreiros da corte do rei anterior. Ele treinou em todas as áreas possíveis para se refinar por completo. Pretende começar a seguir o mesmo caminho? — O observando.— As circunstâncias exigem uma imposição de minha parte, ainda mais nesse corpo frágil que tenho. Aqueles dois estão por aí aproveitando as regalias que conseguiram, vou garantir que aproveitem bastante de suas "conquistas", e quando chegar a hora, farei com que todos os inimigos sofram por terem bagunçado minha vida. Quanto a Razallath, vou pensar bem nas informações que me passou, embora algumas delas não me pareçam tão corretas... — Refletindo.— É provável que ainda faltem muitos detalhes; eu o manterei informado do que descobrir.— Agradeço. — Forçando um sorriso de satisfação. — Dalibor... — Chamou com seriedade. — Foram eles que causaram a destituição de Urgan, não é verdade? — Questionou, seu olhar exalava uma aura de raiva reprimida.— Eles o acusaram de estar envolvido nos planos de Razallath. Trataram-no como o mandante do assassinato de seu irmão e também o seu. — Revelou, também revoltado com o desfecho do julgamento do ex-general.— E o que você acha dessas acusações?— Imagino que você já tenha uma noção da verdadeira realidade. É óbvio que na verdade, eles são os envolvidos com o maldito rei demônio! — Jester concordou com um sinal de cabeça.
— E onde está Urgan agora? Sei que ele não foi condenado à morte por enforcamento, senão haveria uma maior presença de guardas para contê-lo na cela.— Não, ele não foi. Sugeri ao seu pai que, em vez de condená-lo à morte, ele fosse jogado nas ruas de Vorosan, completamente desonrado. Sei que pode ser um desfecho difícil para ele, mas era uma alternativa mais viável até que encontrássemos uma forma de provar sua inocência depois.— Entendo. — Pensando um pouco sobre essas informações. — Bem, de certa forma, foi uma decisão sensata. Com o cargo de rei, eu teria poderes para indultá-lo de todas as sentenças e acusações. No entanto, devido às inúmeras incriminações, um perdão desse nível poderia gerar uma revolta do povo e alimentar os desejos dos anarquistas por uma guerra civil contra o comando da realeza.— Alguns membros do conselho real não aprovam sua nomeação ao trono, e muitos deles são altamente admirados por uma boa parcela da população de Vorosan. Esses mesmos membros concordaram com a destituição de Urgan sem muitos questionamentos.— Que dor de cabeça. — Reclamou dessas afirmações. Agir com cautela seria um requisito extremamente necessário para lidar com os tempos atuais. Com a perda do pulso firme do Rei Legório e os poderes divididos do alto escalão de Vorosan, muitos outros conflitos além de Razallath pareciam se formar bem debaixo de seus narizes. — Só para saber. Quantos comandantes do demônio estiveram presentes no combate contra o meu pai?— Não temos um número exato, mas relatos sugerem que pelo menos três nações submissas a Razallath perderam seus líderes territoriais na batalha. — Lembrando das cartas recebidas. — Nossos informantes infiltrados nesses reinos afirmaram que três reis súditos do imperador foram mortos em combate aberto contra apenas dois adversários. — Jester sorriu de canto, seu raciocínio já havia premeditado a continuidade das palavras de Dalibor.— Meu pai e aquele velhote do Alaric... — Rindo baixo com regozijo, aqueles dois eram realmente lendas absurdas na arte da guerra.— Exatamente. — Dentre os caídos em batalha do lado inimigo, os comandantes reais eram: os Reis Leviatã e o Bárbaro de Sangue, e a própria Rainha Kitsune. Nomes que criaram suas histórias ao longo do tempo, corroídas pelo terror e dominação por causa de seus desejos tirânicos.— Acho que já ouvi falar deles, especialmente do Rei Bárbaro Sanguinário. Axvash liderou um império milenar nos arredores do reino de Razallath, que coexistiu com ele muito antes da dominação do próprio demônio. O Rei Bárbaro era um homem selvagem, sempre extasiado pelo calor do combate e pelas carnificinas das guerras em que seu reino se envolveu em todo o mundo. Quando o anjo rejeitado se reergueu das profundezas do submundo, o Rei Axvash usou sua ambição militar e habilidades para unir as tribos de sua raça com um único propósito: encarar em batalha aberta aquele cujo poder estava mais próximo do divino criador. Axvash demonstrou uma forte resistência contra a dominação, mas suas investidas brutais surtiram efeito apenas momentaneamente no início do conflito, e o bruto se viu acuado por Razallath. De todas as guerras e combates travados, o bárbaro jamais havia sido derrotado. Sua força e selvageria em batalha afugentavam os inimigos, pelo menos até aquele momento. — Até o mais brutal dos reis se tornou um cachorrinho nas mãos daquele demônio. Inacreditável...— Sim, e agora ele tem duas derrotas no currículo. Deve estar se remoendo de raiva nas profundezas do inferno. — As histórias contam que a batalha entre Axvash e Alaric abalou o campo de batalha, um confronto entre selvageria e magia, táticas completamente opostas que se enfrentaram.— Eu imagino como deve ter sido para quem pôde assistir aquilo de perto. A representação viva da brutalidade do mundo contra a fúria da natureza. Imagina a decepção do Bárbaro se soubesse como terminaria naquele dia, torrado como pão que ficou tempo demais no forno... — Rindo ao lembrar dos relatos do desfecho. O violento rei bárbaro foi convertido em carvão pelo fogo elementar do bêbado, mas implacável mago Alaric. — Não consigo acreditar que aquele velho tenha ido de comes e bebes; sem ele, os estoques de poções de mana se tornarão escassos com o tempo. Precisaremos racionar até que os magos remanescentes obtenham o domínio completo da magia para terem a capacidade de continuar as criações de poções com grau de eficiência parecidas com as de Alaric.Após o banho, Dalibor acompanhou Jester durante a cerimônia de sepultamento do Rei Legório e de seus guerreiros. Uma atmosfera de tristeza pairava sobre todo o reino, com súditos e aliados em luto pela perda de seu lendário líder. A chuva caía sobre suas cabeças, mas nenhum deles se moveu de suas posições diante do túmulo, que aos poucos desaparecia sob a terra jogada pelos soldados.Quando a tempestade se intensificou, todos os presentes se retiraram do local. Dalibor foi convocado pela realeza para discutir alguns assuntos de extrema importância para o futuro do império. Quanto a Jester, foi sugerido que esperasse no quarto por novas informações, sob a supervisão dos novos comandantes da Guarda Real. Ele não estava com muita paciência para lidar com as múmias de toga do conselho naquele momento, então aceitou a sugestão sem dar muita importância, afinal, tinha seus próprios assuntos a tratar.Folheando um livro dentro do quarto trancado, Jester podia ouvir as respirações dos dois guardas do lado de fora da porta. Seus instintos clamavam para que ele agisse e silenciasse aqueles dois da mesma forma que fizeram com seu irmão e o verdadeiro herói daquele dia. No entanto, não era o momento para isso; ele ainda não estava preparado para enfrentar esses dois assassinos altamente treinados por conta própria, e não permitiria que outra pessoa se encarregasse disso.— Sabemos que você está ciente da verdade sobre o que aconteceu naquele dia. Mas está tudo bem, pois sabemos que você não dirá nada a respeito. — Comentou o novo general, Darlan.— Se não quiser encontrar o mesmo destino que seu irmão, continue com suas tarefas e esqueça o que aconteceu! — Acrescentou o novo subcomandante, Capitão Martius.— Sério? Qual é a informação que eu deveria ter? A única coisa que me lembro é estar caminhando com Meirin e o antigo capitão da guarda, e depois acordei na cama do hospital. Aliás, é um prazer conhecê-los, Junin e Cleitin! Serão de grande ajuda, especialmente nestes tempos sombrios que enfrentamos, uma vez que praticamente todos os soldados foram convocados para a investida fracassada do meu pai.— Também é um prazer para nós, Rei Jester... — Responderam eles.Enquanto isso, o Rei de Adrias chegou à sala de comando de Vorosan, onde os membros mais proeminentes da realeza, que compunham o conselho, estavam reunidos para debater assuntos gerais e administrativos em prol do avanço do reino.Na grande mesa, nobres das províncias com maior influência se reuniram com os nobres locais de Vorosan para discutir a prematura ascensão de Jester ao trono de seu pai. Afinal, ele ainda era muito jovem para assumir tamanha responsabilidade. Dalibor se sentou na ponta da grande mesa, cercado pelos outros nobres. Ele compreendia as preocupações, mas já havia declarado seu total apoio ao herdeiro do trono, enaltecendo-o com o título de Rei de Vorosan.— Meirin era mais adequado para assumir o trono de Legório. Jester nunca demonstrou seriedade em relação a essa função. — Acusou um dos nobres das províncias vizinhas.— Respeite o Rei Jester. Ele é o único herdeiro disponível e devemos honrar a tradição real. — Respondeu outro nobre, mantendo neutralidade nas divergências políticas.— Eu tenho plena consciência disso, Dariush. Estou apenas destacando fatos que todos aqui conhecem. É evidente que, em comparação com seu irmão mais velho, Jester sempre foi menos afeito às formalidades e demonstrava uma abordagem mais "liberal", tanto em seu comportamento quanto em suas palavras.— Então concordamos com isso. — Disse o Conselheiro Claudius, demonstrando impaciência e desejando resolver rapidamente esses assuntos para lidar com o problema de Razallath. Dariush bateu o punho na mesa com raiva, atraindo a atenção dos demais.— Além disso, não podemos ignorar o fato de que seu destino parece ser o de assumir a Classe de Bobo da Corte. Um "Rei Bobo da Corte"! É inacreditável! — Observando os presentes, Dalibor permanecia em silêncio, observando e ouvindo atentamente cada detalhe do debate.— De fato, é inaceitável. — Concordou Claudius, mantendo os braços cruzados e os olhos fechados. — Talvez haja uma solução para isso... — Sugeriu, abrindo os olhos e focando em Dalibor, o que fez com que todos os olhares se voltassem para ele.— O que vocês estão planejando? — Perguntou o Soberano de Adrias.— Você é o mais próximo da realeza. Com a morte de Meirin, a falta de preparo e a pouca idade de Jester, bem como a traição de Urgan e a queda do Grande Rei Legório... você é a única opção! A menos que tenha uma ideia melhor.Dalibor ponderou por um momento, refletindo sobre a situação atual. Ele reconhecia a capacidade de Jester para governar o império, mas também entendia que o herdeiro tinha outros objetivos em mente. Esses desvios de atenção poderiam agravar ainda mais as tensões entre aqueles que eram contra Jester assumir o trono, enfraquecendo ainda mais o reino, que já estava em uma situação precária diante dos inimigos estrangeiros.— Dalibor, embora seja líder da maior província sob o comando de Vorosan, isso não significa que ele deva assumir o trono principal. Jester pode não parecer pronto, mas com o auxílio correto durante o exercício do cargo, logo estará. — Disse Nemetes, Condessa de Malta, uma cidade portuária ao norte de Vorosan, muito requisitada pelo comércio de seus produtos derivados da pesca local. O Soberano de Adrias já estava impaciente com essa discussão desnecessária. Ele se levantou e disse:— Já que as opiniões estão tão divergentes aqui, sugiro que chamemos o próprio Jester para opinar também. Ele é o herdeiro mais próximo do falecido Legório, e tenho certeza de que encontrará uma solução mais rapidamente. Caso contrário, vocês ficarão ainda mais velhos de tanto discutir! — Concluiu, demonstrando sua falta de tolerância para com tais debates.— Concordo. — Disse Dariush, com os braços cruzados e as pernas esticadas sob a mesa. — A menos que Claudius queira perder mais tempo com essas questões insignificantes dele... — Ele provocou.— Tenha respeito, seu... — Dalibor bateu com força na mesa, silenciando o homem mais velho.A caminho da sala de reuniões do mais alto escalão do império, Jester, acompanhado por seus dois novos "seguranças", seguia tranquilamente até o local onde sua presença fora requisitada. Ele não parecia muito feliz; havia retornado do coma há pouco tempo e já tinha que lidar com divergências políticas. Nem mesmo seu pai tinha tanta impassibilidade para lidar com esses assuntos.— Bem, Darlan e Martius, por favor, permaneçam sempre alerta. Nunca se sabe quando outro "atentado" contra nossas vidas pode acontecer. — Disse ele com um sorriso sarcástico, deixando os dois soldados incrédulos com a atitude descontraída do herdeiro.— O senhor é brincalhão, Rei Jester! — Comentou o general Darlan.— Assim é a vida, comandante. — Finalizou quando já estava de frente para a porta da sala de reuniões. Adentrou em seguida e deixou os militares de guarda do lado de fora. — E aí, cambada. O que querem comigo? — De frente para os líderes e nobres do reino.— Esse garoto é uma desonra para a realeza! — Pensou o velho Claudius. Dalibor enviou-lhe um olhar sério, como se tivesse sido capaz de ler os pensamentos do conselheiro sobre o herdeiro de Legório.— Jester, estamos debatendo sua sucessão ao trono. No entanto, alguns membros desta corte o consideram inapto para assumir o comando supremo, assim como seu pai fazia... — Explicou Dalibor com calma.— Entendi. E quais são as justificativas dos que são contra? — Perguntou Jester, demonstrando curiosidade.— A questão é que você é muito jovem e supostamente incapaz de ocupar o cargo. — Falou Claudius com desdém.— Entendi. Mas, espera, você não era o sujeito que usava seu cargo de "Conselheiro" para atrair atenção das jovens por aí? — Acusou Jester com sarcasmo. — Não era, velho safado?! E diz que eu sou incapaz. — O velho homem ficou com raiva, mas não pôde contrariar. Ele tinha sido condenado por suas ações na ocasião e por pouco não perdeu seu cargo. — Enfim, o que os "conselheiros de verdade" sugerem que eu faça?— Por mais sem noção que o velho Claudius seja, de certa forma, ele tem razão. Mas, queira ele ou não, a sucessão do trono pertence a você... — Complementou o neutro Dariush. Ele tinha a concepção de que Jester poderia optar por não assumir o trono por enquanto, a fim de se preparar melhor, como seu pai havia feito durante a juventude. — Dalibor acredita que a decisão final deve ser tomada por você.
— Entendi. Alguém mais? — Jester insistiu para ouvir as opiniões dos demais presentes.— Embora eu seja a favor de sua ascensão ao trono, não posso deixar de perceber que seria um tanto imprudente, dado que você é muito jovem e não está familiarizado com os costumes necessários para esse cargo. Além disso, sua classe nos preocupa um pouco, meu príncipe. — Comentou a Condessa Nemetes com calma.— O que tem a minha classe? — Perguntou Jester.— Você está destinado a ser um bobo da corte, o que seria desastroso para o futuro de Vorosan! — Exclamou o conselheiro Claudius com exaltação.— Ops! — Jester levantou o dedo indicador, sinalizando para que ele se calasse. — Alguém pediu sua opinião, meu caro?— Jester, por favor, tenha mais respeito com o velho. — Pediu o Rei Dalibor.— Sim, perdão, Claudius. — Dalibor permaneceu neutro, mas estava se divertindo por dentro. — Acham que não tenho conhecimento das consequências de minha classe? Passei a vida ouvindo: "Lá vai o príncipe com sua classe de bobo da corte". Não é algo que eu possa simplesmente me livrar. É o meu destino, assim como cada um de vocês possui seus próprios destinos com suas respectivas classes. — Todos, exceto o conselheiro Claudius, assentiram com a cabeça em concordância com as palavras do jovem herdeiro. — Afinal de contas, que opções vocês me sugerem, então? — Perguntou, cruzando os braços com seriedade.— Bem, temos algumas opções... — Respondeu Dariush, endireitando-se na cadeira e apoiando os braços na mesa. — Imagino que entenda a situação complicada que enfrentamos. Sem o Rei Legório, o príncipe Meirin e o nobre mais próximo, o ex-general Urgan, e a falta dos requisitos necessários para o senhor assumir o trono... temo que nossa opção mais viável seja o próprio Dalibor. — Jester o encarou com certa dúvida, mas, ao analisar a situação, de fato era uma opção viável. — Dalibor é um monarca experiente; seus anos no comando de Adrias renderam progressos e receberam a aprovação do Rei Legório. — Os outros membros do conselho pareciam satisfeitos com essa sugestão.— Entendi. Então, todos concordam com essa ideia? — Jester perguntou, e todos concordaram, exceto o próprio Dalibor.— Jester, isso não tem precedentes. — Comentou ele. — Seu pai não aprovaria tal decisão. O trono deve ser sucedido por um herdeiro legítimo... — Jester estendeu a mão, como se estivesse pedindo para Dalibor aguardar um momento.— Meu pai tinha você em alta estima, e eu o honrarei muito, mas na hora certa. Vocês estão certos; ainda não me sinto preparado para tamanha responsabilidade e não quero transformar o legado do meu pai em um circo. Não que eu faria isso... — Esclareceu ele. — Enfim, não vejo pessoa melhor para cuidar dos assuntos imperiais até que eu esteja completamente apto para assumir o comando real. — Jester se aproximou de seu velho amigo e lhe estendeu a mão. — Sei que você e meu pai eram grandes amigos, e se você quiser honrá-lo... cuide do legado dele, como ele mesmo faria. — Dalibor se levantou de sua cadeira e observou os demais presentes.— E quanto às crescentes ameaças do continente estrangeiro? — Perguntou o monarca com seriedade.— Sim, as forças de Razallath continuam se movendo pelo império, devastando tudo em seu caminho como uma praga implacável. Agora que o Rei Legório e o lendário mago Alaric foram derrotados, não há mais nada que aquele demônio tema! — Disse o conselheiro Dariush.— Sem um comandante devidamente preparado e experiente na arte da guerra, Vorosan não será capaz de suportar um conflito direto contra o império de Razallath. Todas as províncias serão devastadas, e o mundo estará mergulhado na escuridão. — Concluiu a condessa.— Muito bem... — Dalibor se pôs de pé diante de Jester. — Até que você alcance a maioridade, eu, Dalibor de Adrias, assumirei o comando como Rei temporário de Vorosan! — O herdeiro soltou um sorriso satisfeito com as palavras do audacioso monarca.— Sendo assim, está decidido. — Jester começou com seu veredito final. — Eu, Jester, príncipe herdeiro de Vorosan, lhe concedo minha benção para herdar o trono de meu pai até que chegue o momento em que eu mesmo esteja completamente apto para assumir essa responsabilidade. — Concedeu ele, com grande orgulho e esperança no sucesso do agora Novo Soberano de Vorosan, o Rei Dalibor.Realizado naquela mesma noite, a coroação do novo rei temporário de Vorosan foi um evento de grande magnificência e celebração que reuniu todos os nobres, súditos e cidadãos do reino. O grande pátio do castelo estava decorado com faixas de seda e estandartes coloridos que balançavam suavemente ao vento, criando um cenário festivo.As ruas da cidade estavam alinhadas com cidadãos que aguardavam ansiosamente o desfile real. A multidão exultante reunida para celebrar o novo rei irradiava alegria e esperança. Crianças corriam de um lado para o outro, segurando flores que atiravam aos pés dos guardas que marchavam.A fanfarra real anunciou a chegada do Rei Dalibor de Adrias, enquanto ele se aproximava do palco montado especialmente para a cerimônia. Seus olhos ardiam com determinação e sua expressão era de responsabilidade e compromisso com o legado deixado pelo antigo Rei Legório.Os nobres de Vorosan, vestidos em seus trajes mais suntuosos, estavam presentes em peso para prestar homenagem ao novo rei. Eles permaneciam alinhados ao lado do palco, prontos para fazer um juramento de lealdade e apoio ao novo líder.O rei temporário se ajoelhou diante do altar, onde Jester permanecia de pé, segurando a coroa real sobre uma almofada de veludo vermelho.— Em honra ao legado de meu pai, Vorosan não ficará de braços cruzados diante dos inimigos à nossa porta. Pelos próximos anos, eu, príncipe Jester, concederei temporariamente o comando imperial ao Grande Rei Dalibor de Adrias, que guiará nossa nação em direção a um futuro promissor, até que eu alcance a maioridade e o preparo necessário para continuar essa importante missão, como deveria ser feito desde o princípio. — Os novos comandantes da Guarda Real se aproximaram do príncipe e recolheram a almofada de maneira sincronizada. Jester pegou a coroa e se aproximou de Dalibor com calma. — Você jura honrar a paz e agir sempre com proficiência e justiça com seus súditos? — Sua voz era firme e ressoava como ópera, como se pudesse alcançar os confins do império.— Eu juro! — Respondeu o velho homem com determinação e ímpeto.— Sendo assim... — Ele depositou a coroa sobre a cabeça de Dalibor, que mantinha os olhos fechados. — Até que o tempo de seu comando chegue ao fim, nós o honraremos com dignidade e fidelidade. — Todos os presentes colocaram seus punhos direitos cerrados com força no peito. — Todos nós o saudamos, Rei Dalibor de Vorosan! — Ao sentir o peso da coroa em sua cabeça, Dalibor abriu os olhos e os aplausos e aclamações da multidão encheram o ar. O novo rei temporário ergueu-se, seu olhar varrendo a multidão com gratidão e determinação. Seu juramento de compromisso gerou esperança, prometendo liderar Vorosan com sabedoria, coragem e justiça. A multidão respondeu com aclamações ainda mais vigorosas, celebrando o início de um novo capítulo que estremecerá o império do próprio Razallath, e ele saberá que o legado do Rei Legório, persistirá mesmo após sua morte, e vão lutar até que a ameaça demoníaca seja extirpada desse mundo.A festa continuou durante toda a noite, com banquetes, músicas e danças que uniram os povos de todas as províncias de Vorosan em uma demonstração de união e força. Era um momento de renovação e esperança; e Jester assistia a tudo com satisfação e confiança no velho amigo. No entanto, sua alegria também se mostrava acompanhada de uma motivação inabalável. Ele se tornará mais forte, expandirá suas capacidades para poder varrer o chão com a cara dos inimigos que ousaram prejudicar sua família.Nos dois dias que se seguiram sob o novo comando do reino, Dalibor iniciou o treinamento de Jester nos costumes formais e nas responsabilidades administrativas. O jovem príncipe, no entanto, não demonstrou grande apreço pelas questões burocráticas que um rei deve compreender.Dalibor foi sobrecarregado com centenas de novas tarefas como comandante geral da nação, lidando com crises e escassez de recursos, mas contando com conselheiros capacitados para ajudá-lo nessa empreitada. Isso permitiu que ele dedicasse tempo para treinar Jester na arte do combate, visando fortalecê-lo fisicamente e mentalmente para cumprir seus próximos objetivos. Embora o príncipe já tivesse algum conhecimento de táticas de guerra e autodefesa, não estava à altura dos métodos intensivos de treinamento do veterano rei. Jester teve inúmeras quedas e rostos encontrando o chão ao tentar duelar com o habilidoso Dalibor.Os treinamentos continuaram, e Jester manteve seus olhos atentos nos comandantes da guarda, agora populares e requisitados pela população. No entanto, ele nunca conseguiu rastrear o paradeiro de Urgan, apesar de seus esforços para encontrá-lo nas ruas de Vorosan. Sabia que seu meio-irmão não queria ser encontrado, embora permanecesse no reino, pois os guardas monitoravam quem entrava e saía pelos portões, e Urgan nunca mais foi visto.O ódio de Jester pelos assassinos de Meirin só crescia, pois havia perdido praticamente tudo devido às ambições deles. Ansiava vê-los sofrer por seus crimes, mas esperava pela oportunidade certa para fazer justiça com suas próprias mãos.Um pouco mais de um ano se passou, e Jester continuava incapaz de vencer Dalibor em combate direto, sendo constantemente superado. Nesse período, seu corpo e conhecimentos gerais evoluíram significativamente. Ele desenvolveu táticas de luta com seus fios e aprimorou suas habilidades com a classe expansiva, graças ao auxílio de Dalibor e informações encontradas em livros antigos.Três anos de preparação se passaram, e Jester finalmente começou a se sentir mais próximo de alcançar Dalibor, embora ainda perdesse para o rei veterano. As ameaças de Razallath encontraram resistência, graças ao recrutamento bem-sucedido de novos soldados, incluindo parentes dos falecidos na investida inicial.Com notícias do progresso contínuo de Vorosan, Razallath expressava insatisfação com seus generais, incapazes de enfraquecer o exército de um império que deveria estar enfraquecido pela ausência de seus maiores defensores. O plano inicial de Razallath era enfraquecer o reino de Vorosan até que seus habitantes suplicassem por submissão. Ele poderia facilmente subjugar o mundo inteiro com seu poder, mas buscava o desafio e a satisfação de lutar contra seus inimigos. Assistir Legório e Alaric se definhando no chão sob o poder de sua lança era um entretenimento para o imperador.Após quatro anos de treinamento intenso, Jester encontrou-se no chão, com Dalibor aplicando uma chave de braço que o prendeu e o fez urrar de dor. O rei comentou que talvez Jester precisasse de mais motivação e, repentinamente, feridas se abriram nas costas de Dalibor, de onde surgiram quatro tentáculos de sangue que perfuraram a pele do príncipe. Jester gritou de dor enquanto tentava se levantar, mas Dalibor o mantinha pressionado contra o chão, perfurando sua carne com os tentáculos.Então, algo estranho começou a acontecer. Jester sentiu uma manifestação diferente em seu ser, acompanhada da mesma sensação que ocorre quando sua Amplificação de Classe é ativada. Suas mãos esquentaram, e ele se forçou como se estivesse rastejando no chão. Dalibor aumentou a pressão na chave de braço, mas cometeu o erro de se aproximar do príncipe. Em uma explosão de força resultante dessa mudança, Jester moveu-se para trás e atingiu o rosto do rei com uma cabeçada.Dalibor ficou momentaneamente atordoado, e Jester aproveitou a oportunidade para se desvencilhar dos tentáculos do hemomancer. Num berro raivoso, acertou o rei com um cruzado de esquerda no rosto, arremessando-o alguns passos para trás. Pela primeira vez em quatro anos, Dalibor também experimentou o gosto da areia banhada com o sangue e o suor de ambos.Seus tentáculos de sangue recuaram, e a marca do punho de Jester ficou visível em seu rosto ferido. Por um breve momento, Dalibor se preparava para parabenizar seu pupilo pelo grande avanço, mas de repente, notou que uma escuridão tomou conta da área em que estavam, num raio de 50 metros. Era a mesma fumaça que Jester emanava quando ativava sua Amplificação de Classe, como se estivesse preparando o terreno para um evento importante.Dalibor focou sua visão em Jester e viu que o príncipe estava de pé, olhando-o fixamente com olhos estranhamente brancos, como se estivesse fora de si. Contudo, sua atenção foi desviada por um vulto dourado que se formou no ambiente, transformando-se em um grande trono de coliseu da mesma cor, logo atrás de Jester. Em questão de instantes, o vulto ergueu a mão em direção a Dalibor, causando um corte em sua bochecha, e em seguida tudo voltou ao normal.Jester recuperou sua consciência e caiu de joelhos, respirando pesadamente e sentindo seu punho sangrar devido à explosão de força que usou no golpe final. A experiência misteriosa que ocorreu nesse momento deixou ambos, Jester e Dalibor, perplexos e intrigados.Passaram o mês inteiro tentando replicar aquela mesma situação, estimularam a frustração de Jester ao máximo e repetiram os mesmos passos daquele dia em prol do alcance daquela alteração na química do universo ao redor. Ambos sabiam que se tratava de uma característica da amplificação expansiva de Jester, mas o problema real era conseguir alcançá-la novamente.Poucos dias depois, alguns espiões chegaram a cavalo pelos portões principais da cidade, trazendo notícias de grande interesse para o Rei Dalibor.Jester acompanhou todo o processo da reunião com os espiões. De acordo com eles, as notícias do avanço de Vorosan chegaram aos ouvidos de Razallath, frustrando seus planos de enfraquecimento para dominação. Dalibor ficou extremamente satisfeito, embora Jester não tenha demonstrado tanta empolgação. Na verdade, ele parecia bem pensativo sobre algumas hipóteses.Nos últimos anos, eles estiveram repelindo as investidas dos batedores de Razallath constantemente, concentrando forças na ação defensiva ao mesmo tempo em que investimentos eram realizados em todas as áreas mais produtivas do império para seu enriquecimento e, consequentemente, para melhorar o exército imperial sob o comando do rei temporário.Ao final da reunião, Jester e Dalibor se reuniram na sala do conselho para debater um ponto de vista que estava martelando na cabeça do herdeiro original.— O que te incomoda? — Perguntou o Rei, estranhado com a feição de dúvida distante do príncipe.— Só algumas indagações. Tipo, o motivo do Razallath ainda não ter tirado a bunda do trono e vindo aqui nos destruir como sempre fez com outros reinos no passado?— É uma boa pergunta. Seu pai e o mago supremo foram derrotados há quase meia década, qualquer governante com um mínimo de malícia julgaria a fragilidade que este reino adquiriu...— Realmente. Aqueles dois, os assassinos, tive muitas conversas contraditórias com eles sobre alguns assuntos referentes aos planos iniciais ordenados pelo chefe deles. Muitas informações pareciam incompletas, ou até mesmo contraditórias ao que imaginávamos.— Eles te contaram alguma coisa?— Não exatamente, só assimilei as informações que captei ao longo do tempo. Passei muito tempo durante esses quatro anos de investigação, mataram meu irmão e conseguiram destituir o Urgan do comando da guarda, mas e depois? Substituir os comandantes, eliminar a realeza... e ficou por isso mesmo.— O que pensa sobre isso? — Sentado à mesa, e mantendo os braços cruzados.— Razallath tem planos. Se ele queria matar toda a realeza e enfraquecer Vorosan, já deveria ter enviado todas as suas forças contra nós ao invés de só uns contingentes de gatos pingados.— Calma aí, você está querendo que ele venha até nós? Porque, fora a parte da perda dos comandantes, e o seu irmão, só ouvi notícias boas sobre o aumento do poderio militar de Vorosan contra as ameaças estrangeiras. O que você pensa em fazer sobre isso?— Nossos avanços são sim motivo de alegria, mas isso vai despertar naquele idiota novas maneiras de nos prejudicar. — Puxando um mapa do continente para o centro da mesa, atraindo a atenção do rei. — As forças inimigas estão sendo repelidas aos montes em todas as frentes de batalha. — Movendo alguns peões de mármore para os pontos estratégicos onde o exército de Vorosan combatia os soldados de Razallath. — As notícias dos espiões, combinadas com as informações que peguei daqueles dois imbecis, sugerem que um cerco ainda maior seja formado por todo o império central para derrubar nossas forças militares e controlar as movimentações do comércio, impedindo a entrada de recursos essenciais para o avanço do reino.— Isso é só uma hipótese, não temos confirmação nenhuma dessas suspeitas. — Respondeu o Rei, bem ciente das assimilações feitas pelo rapaz.
— Só tem uma solução para isso... — Ele sorriu, e Dalibor fez uma expressão de dúvida.— O que você está propondo? — Ficou intrigado. — Vamos dar o que ele quer. — Dalibor se levantou da mesa e o atingiu no rosto com um soco que o jogou contra a parede, quebrando algumas decorações que foram presenteadas aos antigos líderes da nação.— Você só pode ter perdido o juízo! — O pegando pelo colarinho de sua vestimenta.— Pensa bem, velho homem. — Agarrando os pulsos dele. — Podemos simular um enfraquecimento extremo, para enganar aquele verme e conseguir tempo para que juntemos uma força especial. Temos que criar a vantagem, e enfraquecer o reino inimigo por dentro! — Se soltando do velho rei e pegou um outro mapa, com uma geografia detalhada do território estrangeiro. — O poder do reino principal vem dessas províncias dominadas por ele. Recursos gerais como comida, equipamento e contingente militar. Axvash, o Rei Bárbaro, era o principal coordenador da preparação dos militares para o combate físico, mas como ele foi morto por Alaric, certamente Razallath deve tê-lo substituído por alguém.— Nossas fontes sugerem que o Rei Lobisomem e o Espantalho tiveram um aumento na influência com Razallath depois que aqueles três foram derrotados na investida do seu pai.— Não me surpreenderia se me dissessem que os lobisomens substituíram os bárbaros no treinamento das tropas, ambos pareciam competir na selvageria em batalha. Bando de animais! — Movendo mais alguns peões no mapa, demarcando a localização dos dois respectivos reinos.— O Espantalho foi o mais recente a integrar as fileiras de reis súditos, operando no fornecimento de alimentos gerais de origem pecuária e agrônoma para abastecer os militares e os povos. Eles adquiriram recursos para se manterem estáveis durante longas campanhas dessa guerra, se quisessem fazer o cerco que você mencionou, já teriam feito. — Jester reagiu fazendo uma expressão de pura ironia.— Você tá de brincadeira né, Dalibor? — O príncipe não sabia se ria ou enchia a cara do rei de tapas. — Porra, cara, os fatos estão bem na sua frente, um cerco direto vai devastar nosso povo e eles vão implorar por qualquer migalha que Razallath oferecer em troca da submissão. Agora, um enfraquecimento controlado pode até despertar a ira do povo contra nós, mas será mais vantajoso, e o próprio imperador demônio continuará com a bunda no trono apenas esperando o declínio de Vorosan. Enquanto isso, eu pessoalmente irei destruir cada um dos pontos estratégicos de Razallath bem debaixo do nariz dele.— Fogo com fogo... — O Rei observou de maneira reflexiva.— Exatamente. Ele enviou os dois assassinos para nos destruir por dentro, mas claramente falharam com isso. Então, eu farei o mesmo com ele.— Você só esqueceu de um detalhe... — Jester limpava o sangue do rosto após o soco gratuito que levou anteriormente. — Seu rosto é facilmente reconhecível, seja dentro ou fora de Vorosan. Qualquer batedor ou mesmo cidadão comum dos reinos submissos que o vir, o reconhecerá, e seu plano vai por água abaixo.— Eu tenho algumas ideias para lidar com isso.— E quais seriam? — Braços cruzados, o lustre acima de suas cabeças refletia a luz do sol que entrava pelas janelas de vidro.— Simples, eu vou morrer! — Dalibor balançou a cabeça positivamente, mas ainda não havia assimilado corretamente o que aquele jovem estava propondo.— Parece bom. Não espera... É o quê?! — Ficou de boca aberta com o raciocínio sem noção do príncipe. — VOCÊ FICOU MALUCO DE VEZ AGORA?! — O pegou pelo pescoço e o sacudiu enquanto berrava. — Você fala isso com tanta tranquilidade, parece mais que se trata só de um passeio no parque para você!— Cara, fala, mas não cospe! — Se soltando e limpando o rosto com um lenço. — Porra, vou já tomar outro banho. — Largando o lenço na mesa. — Calma, deixa eu explicar primeiro. Eu não vou morrer de verdade, vou forjar um acidente ou sei lá, outro atentado fora dos limites do palácio. Vou deixar a notícia se espalhar pelos quatro cantos do mundo e esperar a poeira baixar um pouco para agir sem tanta dor de cabeça.— Falar é fácil, espertão. Levar a execução do plano à cabo que é outra história...— Calma, meu patrão. Deixa que o pai aqui resolve. — Estralando os dedos. — Meus 18 anos finalmente chegaram, o que abre espaço para a excursão real ao Reino de Zívia, uma tradição realizada por todos os membros da casa real que atingem a maioridade. É uma prática de tempos antigos que visa permitir que os futuros monarcas aprimorem seus estudos de magia e se reconectem com as raízes dos reinos, quando Vorosan e Zívia eram aliados.— Entendo. Pretende que seus "protetores" o acompanhem?— Certamente, nunca se sabe quando uma "emboscada" pode acontecer. Seria trágico se eles acabassem morrendo num cenário hipotético assim... — Dalibor se segurou para não rir, já estava acostumado com a malícia sarcástica que o príncipe desenvolveu nos últimos tempos.— Então chegou a hora? — Fechando os olhos, sua mente foi tomada por algumas reflexões sobre os futuros desdobramentos das decisões do príncipe. — Já prevejo que terei que trocar os comandantes da guarda de novo. Tudo bem, eles eram incompetentes mesmo!— Pode crer que chegou sim... — O tempo dos comandantes e assassinos da realeza finalmente havia acabado, e Jester já estava mais do que pronto para vingar seu irmão e o bravo capitão Mohawk. — No entanto, aposto que você ficaria feliz se esse fosse seu único problema...— É, eu também. Com a sua morte e uma inflação crescente... os povos irão criticar a liderança de Vorosan, e eu serei considerado um rei inepto por isso.— É um grande fardo, mas você não precisa carregá-lo se não quiser.— Todos têm suas próprias cruzes para carregar. Minha filha morreu devido à peste há dois anos em Adrias. Então, ser considerado um usurpador, não será nada comparado ao que já enfrentei. — Você sabe que o ódio do povo será avassalador. Tem certeza de que conseguirá lidar com tudo isso?— Filho, você ouviu o que acabei de dizer? — Expressão de tédio, como se Jester não tivesse prestado atenção ao seu desabafo anterior.— Você me honra. Tenho certeza de que conseguirá cuidar de tudo...— Preocupe-se com você. Lidar com o povo aqui será brincadeira de criança em comparação com o inferno que você enfrentará após partir!— Que situação de merda, não é? — Os dois riram.— É, uma situação bem merda. — Ambos se cumprimentam, agarrando seus pulsos em sinal de irmandade. — Os próximos dias podem ser seus últimos. Resolva suas pendências e prepare-se para as batalhas vindouras. Você evoluiu muito em quatro anos, tornou-se mais forte do que jamais imaginei. E como o anão Rugnar diria: se eu descobrir que você morreu de verdade, vou enfiar sua cara no chão quando te encontrar no inferno!— Você é bonzinho demais para ir parar no inferno! — Rindo da expressão surpresa do velho.— Sempre fazendo piadas. Vou sentir falta de rir da sua cara! — Também rindo de maneira descontraída.— Tem o velho chifrudo do Claudius ainda, então você não vai ficar entediado.Nos dias que se seguiram, notícias da viagem de Jester correram por todos os cantos do reino. Comerciantes e camponeses se reuniram para se despedir do jovem herdeiro e o presentearam com alguns suprimentos para a jornada. Ficaram surpresos quando ele rejeitou um contingente especial para acompanhá-lo, mas permaneceram satisfeitos ao perceber que os comandantes da Guarda Real iriam com ele, soldados altamente capazes em batalha para proteger o herdeiro do trono.Na saída de Vorosan, Jester se despedia de Dalibor, que lhe desejava boa sorte, e ordenou que seus protetores mantivessem atenção redobrada, pois batedores infiltrados de Razallath poderiam estar escondidos nas florestas. Os Comandantes Darlan e Martius assentiram com a cabeça, embora estivessem completamente céticos quanto a algum desfecho negativo nessa simples missão.— Zívia, o Reino da Magia, fica a uma distância considerável de Vorosan e ainda mais distante das linhas de frente, onde nossas forças enfrentam os invasores. Mantenham o venerável herdeiro em segurança, e tenho certeza de que serão recompensados por seus esforços! — Anunciou Dalibor com convicção, deixando os dois militares satisfeitos com tais palavras. Jester, que estava posicionado um pouco à frente, apenas sorriu maliciosamente para o velho rei.Em uma ensolarada manhã, a carruagem deslizava suavemente pelas estradas fora da cidade, puxada por cavalos imponentes. Os cidadãos acenavam e aplaudiam a partida de Jester. A atmosfera estava repleta de esperança e expectativa. No entanto, o príncipe via aquilo de uma maneira diferente. Ele observava atentamente seus dois guardas dentro da cabine da carruagem, notando as intenções obscuras e a determinação oculta que carregavam. Jester observou de relance uma bolsa que trouxera consigo; Dalibor havia preparado uma bomba com magia que soltaria fumaça caso algo acontecesse com a carruagem, sinalizando que era necessário um socorro urgente por parte dos guardas de Vorosan.A paisagem da estrada se desenrolava diante deles, revelando campos verdejantes e paisagens pitorescas. Enquanto o sol iluminava a jornada, Jester mantinha um olhar pensativo, seu rosto revelando poucas emoções.— Pelo visto, os "bundões" estão aproveitando bastante as regalias de seus cargos. — Comentou, o sarcasmo era óbvio em sua voz.— Dá para o gasto. — Respondeu o general Darlan com desinteresse. — Você, por outro lado, ainda não foi capaz de ascender ao trono. Deve ser bem chato ter de lidar com essas burocracias e tradições diariamente.— Circunstâncias me levaram a isso, guerreiro. Tecnicamente, era o meu irmão que estava sendo preparado para dirigir todos esses costumes...— Olha pelo lado bom... — O capitão Martius resolveu se manifestar na conversa. — Tenho certeza de que ele está descansando em paz em um lugar melhor agora. Que nem aquele antigo subcomandante lá, como se chamava mesmo? Manhunt? — Pensativo.— Mohawk, Capitão... Mohawk. — Ele estava suando, suas mãos tremiam como se estivesse sob um frio intenso, mas não, era a ansiedade consumindo suas forças e implorando para que ele agisse.— É, Mohawk. Foi uma pena o que aconteceu com ele, mas era inevitável que aquilo acontecesse. Afinal, um capitão incompetente não merece viver, não é? — Concluiu o general traidor, os dois começaram a rir de maneira descontrolada um para o outro, ao mesmo tempo em que o mundo para Jester parecia ter perdido completamente o som inteiro, ele apenas escutava pequenos ruídos das risadas desenfreadas, que desmereciam o legado do antigo capitão e de seu irmão Meirin.Em sua mente conturbada pelo desejo de vingança, Jester lembrava de uma situação antiga, onde ele e seu irmão mais velho assistiam ao pôr do sol no topo do castelo. Meirin comentava sobre as expectativas de seu pai quanto ao futuro do mesmo como futuro Rei, ele parecia tão empolgado falando sobre isso, mas Jester sabia que havia um desejo dele em assumir o trono. Meirin apenas não sabia bem como demonstrar emoções de maneiras claras ou tão empolgadas como muitos imaginam.— Minha hora vai chegar, o pai está ansioso para que guiemos o reino da melhor maneira como ele espera.— Rapaz, aí vai ser com você, irmão. Vou ficar bem de boa atuando como conselheiro do "Rei Meirin." — Zombando no final, deixando o mais velho com uma feição de vergonha alheia.— Vai ser bom mesmo, esse teu humor quebrado para enraivecer as baratas do conselho. — Satisfeito.— Relaxa, irmão. Vou cuidar disso, eles vão ter que me engolir muito ainda! — Rindo.— É bom ter esse teu lado para quebrar o gelo, me divirto bastante na tua companhia. Oh, bundão! — Os dois riram sem parar, como duas crianças pequenas escutando uma piada ruim. — Não tenho pressa para assumir o trono, mas tudo bem, se alguma coisa acontecer comigo, vou poder contar com você para cuidar de tudo. Não é, Jester?— Pode crer. Mas você não vai morrer tão cedo! E se morrer, vou cuidar de tudo como você cuidaria...— Valeu, Jester. Estaremos sempre juntos!"Estaremos sempre juntos", essa frase ressoava em sua mente como uma música impossível de se esquecer. No entanto, a voz de seu irmão foi aos poucos substituída pelas gargalhadas malignas de seus assassinos, um som tortuoso que alimentava seus instintos e seu desejo mais profundo: uma ação para castigar os homicidas, não em nome da justiça, mas sim, da vingança.Jester ergueu a cabeça e centenas de fios brotaram de seu corpo, rodopiando em espiral mirando nos pescoços dos dois assassinos. Martius percebeu essa ação a tempo e desviou para evitar ser estrangulado, ou até mesmo decapitado pelos fios afiados. Porém, Darlan, que ria de olhos fechados, não percebeu isso, e centenas de fios se envolveram em volta de seu pescoço e o prenderam com força; ele estremeceu de dor, mas sua armadura conseguiu amortecer levemente a força dos fios, embora isso parecesse que não iria durar muito tempo.Martius puxou sua faca, a mesma que foi usada para perfurar os pontos vitais de Mohawk naquele dia. Ele avançou velozmente sobre o príncipe, que já esperava esse movimento instintivo de seu alvo. De seu pulso esquerdo, formou-se um escudo de fios que bloqueou o ataque mirado em sua cabeça. A lâmina da faca conseguiu levemente perfurar o escudo e acabou presa. Ambos se encararam face a face, e Jester o atingiu com uma cabeçada com toda força, fazendo a cabeça do mesmo chacoalhar dentro do elmo de metal, como uma bola de borracha arremessada em um espaço curto.Jester não deu atenção para a dor em sua cabeça, que não era nada comparada ao que ele pretendia fazer com seus inimigos. Ele se levantou e, num salto, agarrou Martius pela cintura, e ambos atravessaram as paredes de madeira da cabine da carruagem. Os fios que prendiam Darlan estavam presos nas mãos de Jester, e o mesmo foi arrancado para fora também no ato.O príncipe retirou o elmo de Martius e desferiu socos poderosos, carregados com os sentimentos mais obscuros de sua alma. Em seguida, Jester fez surgir mais fios de suas mãos e os enrolou em volta do pescoço de seu inimigo, se colocando atrás dele no ato e forçando para estrangular.— Continua rindo! Vamos, eu quero ouvir você rindo de novo! — Apertando com todas as forças, e o enforcado tentava escapar, seus olhos se enchiam de sangue com a pressão nas artérias do pescoço e falta de oxigênio.Ele reage forçando o corpo para frente e retornando com uma cabeçada direta no nariz do príncipe. Jester torceu para o lado e sangrou, Martius se reergueu e puxou outra faca, a arremessando próxima do pescoço de Darlan, conseguindo cortar os fios que o estrangulavam. Os dois recuperaram a compostura e perceberam Jester também se colocar de pé; ele respirava com fúria, seu rosto estava vermelho como pimenta.— Pelo visto, o príncipe revoltado quer seguir o pai até o inferno! — Disse Martius, ainda meio tonto pelos golpes sofridos. — O último da realeza de Vorosan vai cair aqui.— Eu esperei muito por isso, temos assuntos pendentes que não podem mais esperar! — Os olhos de Martius se focalizaram em Jester, enxergando seus pontos vitais mais desprotegidos pelas vestimentas do mesmo. — Hum! Vai pagar por quase me matar. Amplificação de Classe! — A mana azulada se propagou por seu corpo como uma carapaça, se conectando com sua força vital e estimulando um acréscimo desenfreado de desempenho em todas as suas capacidades físicas.Era exatamente para isso que Jester havia se preparado arduamente, algo que ele tanto ansiou ao longo de quatro anos de treinamento. Toda dor e sangue derramado em seus combates com Dalibor serviram como um lembrete do que o aguardava no futuro, e aqui está ele; diante dos dois causadores da desgraça de sua família. Jester preparou os fios em suas mãos, prontos para agir conforme sua vontade.Darlan e Martius sabiam que a hora de derrubar o último membro da realeza de Vorosan havia chegado, e usarão todo o poder de suas Amplificações de Classe para alcançar tal objetivo. No entanto, o sentimento de vingança borbulhava intensamente no coração e alma do príncipe, dando-lhe forças para lutar e impondo uma obscura intenção em seu coração: não parar até ver os cadáveres despedaçados desses dois imbecis abaixo de seus pés até o final do dia.
Notas finais
Até a próxima.
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