Notas iniciais
Demorei, mas voltei. Aqui lhes trago o capítulo mais satisfatório desse magnífico Prólogo, a grande oportunidade para que nosso protagonista alcance sua tão aguardada retribuição contra os monstros que arruinaram sua vida.

Num momento crucial, o conflito tem seu início com Martius realizando a invocação da Amplificação de Classe, uma manifestação de energia que percorre o seu corpo, impulsionando suas capacidades físicas ao auge, enquanto Darlan se mantinha focado na batalha que estava por vir, confiante inicialmente de sua força padrão contra aquele príncipe medíocre aos seus olhos.

Perante os antagonistas, cientes de que a hora de derrubar o último membro da realeza de Vorosan chegou, a tensão atinge seu ápice. A energia da Amplificação de Classe é invocada, envolvendo um dos contendores em um espectro azulado que ressoa com um aumento desenfreado de suas capacidades físicas. Nesse momento crítico, a obscura intenção de vingança fervilha no coração de Jester, alimentando sua determinação sombria. O objetivo é claro: não descansar até que os responsáveis por sua tragédia estejam despedaçados sob seus pés até o final do dia.

Martius recuperou a faca e moveu-se velozmente na direção de Jester. Seus alvos eram as artérias do ombro. Um simples corte naquele lugar e o jovem iria sangrar até morrer, como aconteceu com Mohawk. Tão veloz quanto o vento, Martius desferiu seu golpe, que rasgou o ar com um movimento sobre-humano. No entanto, seus olhos se arregalaram quando sentiu o som de sua lâmina se chocar com algo muito duro.

Os fios individuais de Jester tinham resistência muito inferior ao metal; no entanto, isso não impedia que uma junção de muitos deles em um único ponto criasse uma resistência imensa até mesmo contra armas de metal de grande força. A faca se chocou contra milhares de fios colocados sobre os ombros como proteção. O que realmente surpreendeu Martius foi a velocidade de reação que Jester demonstrou, reagindo bem depois do próprio já ter iniciado a investida contra ele.

— O quê?! — Jester puxou a mão esquerda, e vários fios se enrolaram nas pernas de Martius, que foi movido violentamente e arremessado contra as árvores e as rochas. Ele também se chocou com os cavalos, que caíram, e, consequentemente, as amarras da carruagem se romperam, fazendo os cavalos fugirem no processo.

— Hahaha! Aaaah! — Darlan atingiu-o com um chute de duas pernas direto nas costas e o agarrou com seus braços para retomar o estrangulamento.

— Seu desgraçado! Vou te despedaçar! — Jester apertava, mas fez os fios de Martius recuarem e se prenderem também nas pernas de Darlan, desequilibrando-o.

No entanto, Darlan puxou uma espada de suas costas e cortou os fios antes de sofrer danos. Jester os juntou novamente, criando a consistência de um chicote que foi arremessado e puxou a espada de Darlan para longe. No mesmo movimento, Jester, que corria até ele, saltou de costas atingindo seu cotovelo direito no peito do general traidor. Ele estremeceu, mas não se conteve. Mesmo sem uma arma para usar, ele conseguiu segurar Jester pela cintura e cravou os dentes direto em seu ombro.

— Aaaah! — Jester berrava de dor. A intenção de Darlan era justamente romper a circulação de sangue com os próprios dentes, mas a carne enrijecida do corpo de Jester, moldada por quase meia década de treinamentos e exercícios intensivos, impediu o sucesso prematuro desse plano.

— Aaah! Maldito! — Fios se enroscaram em volta do braço direito de Darlan; Jester rugiu e puxou.

— Aaaaaaaaaahhhh! — Os fios deceparam o braço dele, libertando Jester, que quase perdeu um pedaço de seu ombro com a mordida de Darlan.

— Príncipe de merda! — Darlan desferiu um soco direto com seu único punho disponível, mas Jester se esquivou e lhe agarrou as pernas, erguendo-o no ar e o jogando com força contra o chão.

— QUEM ESTÁ RINDO AGORA?! — Jester pisou no rosto dele com fúria.

De repente, Jester sentiu algo estourando em suas costas e se viu dentro de uma cúpula de fumaça que se formou instantaneamente, impedindo-o de enxergar corretamente. Ele começou a tossir pela nuvem densa ao seu redor e perdeu seus adversários de vista, podendo apenas escutar os passos desregulados propositalmente deles, na intenção de fazê-lo ficar desorientado, incapaz de saber onde estavam.

— O príncipe mimado querendo vingança, uma bela piada! — A voz de Martius ecoava, parecendo vir de todas as direções. Jester manteve os braços em frente ao rosto para conseguir focar a visão, mas não obteve sucesso e recebeu uma forte pisada na parte de trás do joelho direito, o fazendo perder o equilíbrio. Isso não o impediu de reagir imediatamente, o problema era que seu alvo se movia rápido demais naquela fumaça e trocou de posição antes que Jester pudesse golpeá-lo diretamente.

— Foi um show e tanto, Jester. Mas chegou a hora de terminar com isso e encontrar sua família no plano espiritual. — Martius continuava falando, sua voz ainda irregular, tornando difícil determinar sua localização exata. Jester conseguia captar os gemidos de dor de Darlan com o braço decepado.

— Então vocês gostam de brincar com fumaça, não é? — A mesma fumaça que Dalibor havia experimentado quase meia década atrás começou a emergir de Jester, representando a extensão de seu poder com a primeira Amplificação. Como presságio de um grande desfecho, a fumaça do bobo da corte se misturou com a bomba de fumaça dos assassinos, tornando-os praticamente invisíveis.

— Também sei jogar esse jogo! — Jester tentou captar a movimentação da mana dos adversários, que ficou mais exposta com o contato com a fumaça do futuro rei. — Quer uma mãozinha aí, general Darlan? — Segurando o pedaço amputado de seu inimigo enquanto ria, zombando da situação patética em que o deixara.

— Boa brincadeira, príncipe Jester. Mas é aquele velho ditado: “Quem ri primeiro, não ri por último”. — O general maneta falou em meio à névoa densa.

— Não consigo evitar de rir bastante. Afinal, estou diante de duas ótimas piadas aqui! — Jester riu histericamente, deixando-os furiosos. — Porém, devo concordar com suas palavras. Que bom que não fui eu quem riu primeiro... — Ele estava de olhos fechados, concentrando-se em sua audição e calculando as posições inimigas com base nos pontos gerais de natureza dos sons de suas vozes e mana. Jester podia ser extremamente brincalhão e não levar as coisas muito a sério, mas até ele entendia que, às vezes, manter o foco e a atenção em um único objetivo poderia levar as pessoas além de suas expectativas.

De repente, Jester sentiu uma leve alteração no ar atrás de sua nuca, como se algo estivesse o cortando em alta velocidade, acompanhado do terrível odor da intenção assassina. Ele abriu os olhos, e seus fios se moveram novamente em espiral como um redemoinho crescente, prendendo-se nos braços, pernas e tronco de Martius, que tentava matá-lo com um golpe certeiro no pescoço. O assassino arregalou os olhos em surpresa. Jester o observou diretamente nos olhos, divertindo-se com aquela reviravolta repentina, do êxtase da execução de um alvo ao espanto recheado com o sentimento mais arcaico existente nos corações dos covardes: o medo.

— Peguei... — Movendo os fios que seguravam o braço que continha a posse da faca, fazendo Martius perfurar o próprio peito com crueldade na direção do coração e automaticamente perdendo o efeito de invisibilidade.

— Aaah! — Lutando para impedir que a faca atingisse um ponto ainda mais crítico, a mana regente ao seu redor mantinha a circulação intensiva de seu sangue por todo o corpo, tentando criar uma resistência maior aos danos recebidos, apesar da aparente ineficácia disso no momento atual.

— E aí, já dá para sentir o gosto do aço? — Forçando os fios com maior intensidade, fazendo o sangue escorrer de todos os poros do capitão esfaqueado. — Não é tão engraçado agora, né? Só dá vontade de rir quando o alvo é outro. — Os fios por todo o corpo do assassino começaram a se apertar, perfurando a armadura e cortando a carne do alvo encurralado. — Era isso mesmo o que eu queria ver... vocês dois se rastejando para manter um único fio de vida. Isso é um prazer enorme para mim! — Torcendo os ossos de Martius, que mal conseguia se manter consciente. — Mas, uma morte rápida não seria uma vingança adequada. — Aliviando um pouco a pressão dos fios, embora os efeitos anteriores tenham causado sequelas extremamente dolorosas no corpo do capitão usurpador que caiu no chão imóvel, ainda vivo, mas afundado em uma poça de seu próprio sangue, resultado de hemorragias internas e externas causadas pelos cortes dos fios e perfurações dos ossos. — A Amplificação de Classe dos Assassinos proporciona um aumento anormal no desempenho físico; suas capacidades de combate triplicam seus atributos base, embora isso varie de acordo com as características padrões de cada usuário. No entanto, vocês dois relaxaram bastante nos últimos anos, aproveitando os benefícios de seus cargos e adiando os treinamentos do exército da Guarda Real. Sinceramente, essa é a primeira vez que fico contente com a incompetência dos súditos da corte real...

Martius conseguia mover apenas os olhos; toda a sua energia e mana restante se dispersaram pelo corpo para resistir aos terríveis ferimentos sofridos, ganhando alguns segundos antes que a vida escorresse completamente de seus dedos.

— Por outro lado... — Percebendo movimentação na névoa novamente, aparentemente, Darlan conseguiu minimamente conter o sangramento de seu braço e buscava uma oportunidade para atacar Jester enquanto zombava do semimorto Martius. Logo, a fumaça se dispersou, revelando um Darlan completamente enfurecido; suas veias faciais pulsavam violentamente como se estivessem prestes a explodir. — Valha-me Deus. — Ele respirava de maneira descontrolada; seu rosto estava avermelhado e parecia estar sentindo muita dor. — Hahahaha! Calma, meu amiguinho. Não lembra que os médicos de Vorosan disseram para aprender a controlar a raiva, porque faz mal para a saúde? Vai acabar tendo um derrame facial assim. — Zombando da expressão do adversário enfurecido. — E aí, filho. Vai ficar parado admirando minha beleza ou vai vir acertar uma cabeçada no meu punho, o estômago no meu soco e assim por diante? — Ele começou a caminhar lentamente na direção de Jester, sem cogitar o uso de alguma arma para uma execução rápida. Na realidade, Darlan desejava esmagar o crânio do príncipe com socos. — Se algum dia inventarem uma canção sobre você, aposto que no refrão vai ter: "Falta um pedaço de mim". — Este era o herdeiro de Vorosan, tirando sarro até mesmo em situações de vida ou morte. Agora, ele estava até cantando canções irônicas para provocar a sanidade de seus inimigos. — Vem, vamos dançar... — Chutando o rosto de Martius e, em seguida, correndo na direção de Darlan, que fez o mesmo.

Jester movimentou seus dedos, criando uma rede de fios afiados que cortaram pelo ar para capturar o soldado furioso. Este utilizou o terreno arenoso para deslizar por baixo da armadilha, alcançando uma árvore com extrema velocidade e a partindo em vários pedaços como se fosse feita de algum material maleável. Ele atingiu as pernas de Jester com um chute no joelho direito, seguido de outro soco direto no nariz. Apesar de ter sentido uma dor intensa, Jester não se abalou e agarrou a perna esquerda do adversário, retribuindo o favor ao esmagar o nariz de Darlan com um chute.

O assassino rugiu de raiva. Normalmente, era "olho por olho", mas ali estava sendo "nariz por nariz". A mana começou a se espalhar pelo corpo do mais velho, que se ergueu rapidamente do chão, saltando sobre Jester como um tigre predando uma presa.

O herdeiro foi levado ao chão, com Darlan desferindo socos implacáveis, usando sua única mão, enquanto Jester se defendia, usando os braços como escudo em frente ao rosto. Jester percebeu que a cada soco, Darlan parecia se inclinar ainda mais, deixando uma área específica desprotegida. O príncipe sorriu maliciosamente e:

— Aaaaahhhh! — A região baixa do general sofreu um impacto brutal com o joelho direito de Jester, que não teve piedade em golpear com todas as suas forças. — Aah! Ahaai! — Darlan caiu para o lado direito do príncipe, que ria sem parar no chão.

— Caramba... — Jester se levantou, ainda rindo, apesar do sangue escorrendo de sua boca e nariz. — Lembrei que saí de Vorosan sem almoçar. Que vacilo! Uma omelete cairia bem agora... — Darlan se contorcia de um lado para o outro, pressionando a região que restou após um golpe dessa magnitude.

— Filho da... pu-ta! — Apertando os dentes, tentando reunir forças para continuar.

— Espero que o patrão de vocês saiba o que aconteceu aqui. Imagina a vergonha alheia que vai sentir! Dois soldados "altamente" preparados para executar qualquer missão para o Imperador Demônio... que piada! — Tentando conter a risada, mas era uma tarefa complicada. — Muito bem, acho que já deu de "coringa" por hoje. Vamos terminar logo com isso, que eu tenho muitos "nadas" para fazer mais tarde. — Os fios enrijecidos se moveram novamente na direção de Martius, capturando-o pelas pernas e o pendurando de cabeça para baixo em uma árvore próxima, como se fosse carne após o abate. — Eu geralmente não sou, digamos, sádico. Mas acho que vocês dois merecem experimentar um pouco desse privilégio, o que acham? — Seus fios se dispersaram em grupos pelas florestas, estendendo-se como se estivessem buscando algo que o príncipe desejava obter. Em seguida, eles retornaram alguns instantes mais tarde com alguns peixes retirados de um lago próximo, ainda vivos e se debatendo apesar de terem sido arrastados pela floresta até a estrada. — Vamos preparar o banquete para os convidados que logo chegarão. — Os fios fatiaram os peixes, lambuzando Martius com seu sangue fétido. Banhado até o pescoço, corvos começaram a rodear a área da batalha. Jester sorriu, já imaginando o merecido desfecho que esses dois insetos teriam.

Os corvos se reuniram sobre o corpo imóvel de Martius e começaram a degustar a refeição oferecida pelo renomado chef Jester de Vorosan.

Em poucos instantes, Martius foi consumido pelos animais voadores, mas ainda permanecia com vida, apesar de agora não ter mais olhos, língua e alguns órgãos fraturados pelos golpes de Jester e outras circunstâncias. A única razão para ainda estar vivo era o efeito da mana correndo por seu corpo devido à Amplificação, que aos poucos chegava ao seu derradeiro fim.

— Menos um, agora falta o outro. — Jester observou de relance, percebendo que Darlan não se contorcia no chão como antes. Na verdade, ele estava sentado sobre suas pernas na areia ensanguentada, como se estivesse meditando em meio ao conflito. — E dizem que eu sou audacioso... — Jester virou-se completamente e começou a caminhar lentamente em sua direção, recolhendo os fios de volta para o seu controle e deixando o corpo agora sem vida de Martius cair no chão, onde centenas de corvos ainda se banqueteariam. — Oi! — Estalou os dedos para chamar a atenção do assassino imerso em sua estranha concentração. — Terra chamando general bundão... — Fios brotaram de suas mãos e se acumularam para formar um chicote. — Acorda! — Deu uma chicotada com força no ombro esquerdo de Darlan, mas, para sua surpresa, ele não demonstrou reação significativa, apesar da marca vermelha que se formou com o impacto. — Pronto! Além de assassino, esse sujeito também é um monge! — Jester estava inconformado, mas ainda tranquilo com a situação. — Acorda! — Preparou-se para chicotear novamente, mas com ainda mais potência. — Ouvi dizer que o Razallath transformou muitos escravos das províncias dominadas em guerreiros para compor as fileiras do seu exército pessoal. É por isso que você está acostumado com chicotadas? — Deu três golpes seguidos, e Darlan finalmente demonstrou alguma reação de dor, mas não o suficiente. — Ah! Chega dessa porcaria! — Os fios se desfizeram e assumiram a forma de uma grande espada, tão afiada que poderia perfurar aço com facilidade antes de se desfazer. — Um golpe como esse na espinha e você vira estatística. Alguma última palavra? — Ele começou a sussurrar algo em um tom quase inaudível, deixando Jester sem entender nada. Instintivamente, abaixou a espada e aproximou o ouvido.

Realizando selos de mão, Darlan disse:

— Seja feita a vossa vontade. Amplificação de Classe! — Jester arregalou os olhos e saltou para trás, reconhecendo o significado daquela repentina ação realizada por seu adversário. No entanto, ele não imaginava que algum deles fosse realmente capaz de executar tal artimanha no meio de uma luta pela própria vida.

Jester sentiu um arrepio percorrer seu corpo, e o peso do ambiente pareceu aumentar significativamente. Aquele era o Cântico, o estágio seguinte da Amplificação Verbal, representando uma potência ainda maior dos efeitos comuns já alcançados anteriormente. O corpo de Darlan estava aprimorado por uma carga maior de mana que ele próprio acumulara com a meditação anterior, resultando em instabilidade na mana que contornava seu corpo para suportar a carga extrema de poder mágico. Isso começou a preencher todo o seu ser com grande robustez. Darlan estava passando por uma transformação assustadora, e Jester estava prestes a enfrentar algo inimaginável.

Todo ser vivo possui uma capacidade máxima de potência, seja para ataque, defesa ou reservas mágicas disponibilizadas pela classe herdada. Em uma escala comum, o 100% de cada ser é determinado pela ambição individual, cuja limitação base depende exclusivamente do preparo intensivo para elevar ainda mais a diferença; dependendo do potencial evolutivo de cada usuário, podendo obter maiores ou menores resultados em comparação com outros seres. Exemplificando: após algum tempo de treinamento, o 100% antigo pode equivaler a 40% do nível atual.

A Amplificação Natural é uma das formas de aumento e a mais fácil de acessar, não necessitando de ações claras do invocador. Na realidade, sua conjuração exige apenas um mero pensamento, que automaticamente dobra a força e habilidades do receptáculo. Entretanto, Darlan abusou dos meios para tal e, em vez de uma forma, ele utilizou quatro em sequência: Natural, Cântico, Verbal e Manual. Com a primeira, Darlan ficou duas vezes mais forte, e com a soma de 50% proporcionada separadamente pelas três seguintes, ele agora encontrava-se 350% mais poderoso do que em sua forma padrão. Com esse aumento exagerado de poder, sua mana continuou alterando sua fisionomia e forma para conter essa soma exorbitante.

Diferente da forma bruta que Mohawk atingiu no dia de sua morte por pertencer à Classe dos Bárbaros, Darlan, por sua vez, sendo um Assassino, sua alteração era muito mais focada no desempenho físico, foco e potência concentrada. Com uma elevação voltada para os atributos de velocidade, reflexos e um maior entendimento da anatomia para aprimorar sua eficiência como assassino, Darlan estava pronto para destruir completamente o herdeiro de Vorosan e não mediria os meios para alcançar tal objetivo.

Jester assistia à cena com enojo, mas ele entendia bem o que estava acontecendo. Os músculos de Darlan estavam contraídos até o limite máximo, continham cargas extremamente altas de energia estimuladas pela mana abundante correndo por cada micropartícula de seu corpo. No entanto, uma potência deste nível exige um sacrifício drástico de seu usuário; a mana seria consumida em velocidades alarmantes, superaquecendo todos os circuitos até que o corpo fosse completamente reduzido para além do pó.

Com uma silhueta imensa como uma árvore, Darlan moveu-se a uma velocidade absurda, alcançando Jester em menos de um segundo. Jester esbugalhou os olhos em susto ao perceber aquele homem enorme vindo para matá-lo. Instintivamente, os fios de Jester se ajustaram em seu braço direito como um escudo. No entanto, a velocidade de montagem era menor que a de movimento de Darlan, cujo punho tensionado o atingiu um pouco antes da montagem completa.

O herdeiro de Vorosan sentiu o impacto, apesar de reduzido pelo escudo e a própria amplificação; seu braço torceu, e ele foi arremessado a vários metros de distância, quebrando uma pequena árvore com as costas.

— Aaaah! — O impacto quebrou duas costelas, e a árvore em questão caiu no chão, enquanto Jester foi atingido por várias rochas e outras plantas no caminho que reduziram sua velocidade, terminando seu trajeto no chão. — Aaaaah! — Um galho mediano atravessou a parte inferior de sua cintura direita. — Porra! Merda, sou um imbecil! Por que tentei bloquear em vez de esquivar?! — Movimentando os fios que quebraram as pontas frágeis, em seguida, Jester arrancou o resto que, por milagre, não causou um ferimento grave nem atingiu algum órgão. — Merda, e o pior é que ele fez isso com apenas um único golpe! — Ficando completamente de pé novamente e percebendo que o general de meia tigela estava se aproximando para a segunda investida.

— Eu quero a sua cabeça! — Ele se aproximava, caminhando decidido em direção a Jester.

— Boa ideia. Já sei onde quero enfiar a sua depois! — Alterando a massa de seus fios, tornando-os mais flexíveis e, em seguida, os dispersou pelas árvores para prendê-los. — Bora! — Ele recuou, aplicando a máxima pressão que seus fios poderiam suportar. Darlan flexionou os joelhos e disparou pela floresta em direção a Jester, sua investida lembrava a pegada pesada de um urso pardo. — Isso, venha para o papai! — Jester estava no limite de esticar os fios; não poderia mais aumentar a pressão. — HORA DO SHOW, PORRA! — Usando-os como estilingue para se arremessar contra o adversário com extrema velocidade, cobrindo de fumaça todo o espaço florestal que atravessou.

Darlan tentou desviar rapidamente, mas Jester foi mais rápido e o atingiu com as duas pernas diretamente no abdômen. O golpe foi tão poderoso que, se não fosse pela Amplificação de Classe que o general havia usado, teria quebrado seus ossos internamente. Ele gritou enquanto cuspia litros de sangue e foi arrastado vários metros para trás. Jester riu da façanha, mas sua risada foi calada quando Darlan agarrou sua perna direita e o lançou contra o chão com força.

O príncipe reagiu disparando seus fios flexíveis para os troncos de árvores, evitando sofrer danos com o impacto. Em seguida, ele se lançou para cima, atingindo o joelho no queixo de Darlan. Depois, Jester teve sua perna largada com o impulso, conseguindo retrair os fios novamente e os prendeu no pescoço do assassino, forçando ao máximo para estrangulá-lo.

— Aaaaah! — Puxando com toda a força, Darlan estava ficando sem ar e se jogou para trás, empurrando Jester contra uma árvore, mas não conseguindo fazê-lo soltar. — Isso é pelo Meirin! — Mesmo ferido, ele não cedeu e continuou puxando.

No entanto, Darlan, furioso, percebeu que os fios que estavam em seu pescoço não eram flexíveis. Ele forçou os músculos do pescoço ao máximo, impondo uma tensão oposta ainda mais intensa, assustando Jester, que estava prestes a quebrar os dentes por conta da força que fazia para conseguir estrangulá-lo.

Inevitavelmente, os fios começaram a arrebentar um por um. No fim, Jester cedeu, mas Darlan o pegou pela cabeça e pressionou contra a árvore.

— Aaaah! — Recebe uma joelhada na barriga, seguida por uma cabeçada, ficando preso na árvore com sua cabeça ensanguentada, esmagada pela mão revestida de mana do assassino. — Merda! — Ele então foi arremessado contra o chão, batendo a cabeça e terminando de cara numa poça de lama resultante da chuva de dois atrás.

Jester tentou se levantar, mas foi colocado de volta ao chão com um soco curvo no rosto e, depois, Darlan pisou em sua nuca para o afogar na poça.

Lutando pela própria vida, Jester esticou as mãos até o limite, e os fios se dispersaram a partir de cada dedo das mãos; eles alcançaram a árvore que o próprio quebrou com as costas outrora. Os fios resistentes o puxaram com veemência. Darlan notou isso e se protegeu com seu único braço; todavia, isso o retirou da posição inicial e libertou o príncipe do afogamento. Ele só não percebeu que havia uma segunda árvore vindo a partir de um ponto cego em sua retaguarda, o atingindo nas costas.

— Aaahg! — Recuperando o oxigênio com respiradas profundas, aos poucos sentindo que deveria parar de brincar com seu inimigo e começar a lutar de verdade. — Já peguei leve demais! — Se levantando do chão, Darlan recebeu uma joelhada no peito, seguida por dois socos sequenciais.

— Aaah! HAHAHAHA! — Rindo alto, como se estivesse dizendo que os golpes recebidos fossem completamente inúteis.

— Tá engraçado né? Mas vai já perder a graça! — Jester desferia golpes incessantes com seus punhos, joelhos e pernas. — Hã?! — O general agarrou-lhe a perna e finalizou com outra cabeçada tão forte que Jester por muito pouco não perdeu a consciência.

— Espero que tenha se divertido quando arrancou meu braço! — O colocando de volta contra o chão de costas, mantendo o pé esquerdo sobre um dos ombros e começou a puxar o braço do príncipe.

— AAAAAHHH! GRRRRRR! — Os fios novamente reagiram para salvar Jester de sofrer um dano irreparável. Eles se enrolaram ao redor de Darlan; o problema era que o mesmo não estava sendo nem um pouco contido para continuar sua ação. Na realidade, seu corpo ganhou tanta força com as Amplificações que, nestas alturas, os fios se tornaram frágeis diante dele e foram novamente cedendo um por um conforme tensionados por uma força superior.

— Todos esses anos de preparação foram completamente inúteis! — Se levantou sobre Jester, aplicando ainda mais peso sobre o príncipe, fazendo-o sentir os ligamentos internos de seu braço esticando até começarem a rasgar. — Seus fios são fracos demais! Em instantes vou mandar você direto para o colo do seu pai. Vorosan lamentará sua morte, mas não por muito tempo... pois em breve estarão ocupados demais mergulhados num mar de sangue por cortesia do imperador Razallath! — Jester começou a rugir e forçar o braço na direção reversa, se opondo à força de seu carrasco. — Você ainda é fraco demais para resistir! É por isso que não foi capaz de salvar seus amigos naquele dia. — Darlan ria sadicamente, e achava-se tão imersivo na provocação da sanidade de Jester que não percebeu um grande detalhe.

Apesar de ter ficado várias vezes mais forte, o príncipe ainda conseguia manter com ele um combate direto usando as habilidades básicas com os fios aprimorados com a primeira amplificação. No entanto, desde o momento em que o arremessou com o primeiro soco, uma cortina de fumaça se expandia entre as árvores como se as nuvens do céu tivessem caído na terra.

— Morra sabendo que nunca deixou de ser fraco! Mesmo aqui, você foi derrotado pelas minhas mãos. — Puxando com Darlan ainda mais força, mas sua expressão de malícia se desfez quando seus ouvidos foram alcançados por uma risada baixa.

— Você realmente me considera fraco? — Questionava, ainda sendo mantido de cara no chão pelo soldado traidor. — Até onde sei, quem precisou ativar três variações da amplificação para poder superar uma única minha... Foi você! — Darlan notou uma cortina de fumaça ainda mais densa cobrir toda a área em que estavam. — Mesmo sem as variações, ainda sou quase capaz de acabar com você! Então, o que poderia acontecer se eu também começasse a apelar... — O general maneta arregalou os olhos e direcionou seu outro pé para lhe esmagar a cabeça, mas não foi rápido o suficiente e escutou com clareza as seguintes palavras proclamadas pelo herdeiro de Vorosan. — “Amplificação de Classe!”. — Em instantes, toda a fumaça ao redor começou a rodopiar num vórtice em ventos de centenas de quilômetros, e Jester parecia atrair esses ventos fumacentos para si como um ponto de captura em perfeita intensidade.

— Merda! — Darlan recuou o máximo possível para longe, mas seu braço foi preso novamente por vários fios que o impediram de se afastar. — Já falei que isso é inútil! — Forçando os fios mais uma vez em meio ao vento implacável, mas desta vez, eles não pareciam fáceis de romper. — O quê?! — Em meio à nuvem violenta carregada de fumaça, Darlan notou a silhueta de Jester se reerguer do chão ardente pelo calor do sol, como um fantasma renascido das chamas do tormento. Ele puxou os fios para si, atraindo Darlan para perto e o agarrou pelo pescoço. — Aaaahgg! — Desferindo um golpe com a perna que foi bloqueado pelo antebraço de Jester e depois recebeu uma pisada na outra perna, o fazendo cair de joelho. — Seu tempo de aprimoramento está quase no fim, então vamos começar a investida final! — Falou Jester supondo que as reservas de mana de Darlan estavam sendo drenadas quase por completo, e ele sabia também que não poderia se manter por muito tempo com duas amplificações ativas ao mesmo tempo; suas próprias reservas começaram a secar desde o momento em que ceifou a vida de Martius, e agora seu tempo se tornou extremamente escasso. — A brincadeira vai começar! — O atingindo com uma cabeçada, joelhada, e os fios se estenderam, fazendo-o ser balançado como um brinquedo.

Jester se divertia com os gritos de dor de Darlan ao ser jogado contra árvores, rochas e esfolado pelo terreno arenoso do campo de batalha. Contudo, utilizando algumas adaptações dos assassinos, Darlan conseguiu visualizar um ponto pelo chão que, ao tocá-lo, conseguiu se estabilizar momentaneamente e deu um puxão forte que trouxe Jester para perto, já desferindo um golpe com o que restou do outro braço amputado. Mas o príncipe, embora tenha sentido o golpe, não era mais tão doloroso como antes. Ele reagiu automaticamente devolvendo com um gancho, enfurecendo ainda mais Darlan, mas de nada isso adiantou, pois Jester esquivou de seu contra-ataque por baixo no punho ao mesmo tempo em que criava uma pequena espada com o acúmulo de fios; Darlan recebeu uma perfuração no peito e gemeu de dor, mas não se deu por vencido e esmagou o estômago de Jester com sua perna, complementando com um golpe vertical nas costas com seu punho. O herdeiro foi ao chão, e antes de ser pisado novamente, escorregou para a direita, e os fios se prenderam em volta do pescoço do gigante de pé, e o enfiaram de cabeça no chão à sua frente.

Ambos caídos, Jester manipulou novamente seus fios que se enroscaram em volta do corpo do assassino e o apertaram.

Com o acréscimo da Amplificação Verbal, os fios tiveram a resistência aumentada várias vezes, e Jester aplicou um tipo de material com efeitos ainda mais cortantes que antes, fazendo Darlan ser fatiado como carne na mesa de cozinheiros.

— Os Assassinos se baseiam em ataques em pontos cegos, ou seja, onde o alvo não possa se defender. Dependem de ataques covardes para execução! Por isso conseguiram vencer Mohawk, e agora você não tem muitos meios para reagir a um embate direto se não conseguir se garantir numa troca de golpes ferrenha. — Os fios se introduziram na carne do assassino que se esperneava em dor.

— Aaah! Uaaaah! — Dominando táticas evasivas, Darlan de uma maneira inexplicável conseguiu se desvencilhar dos fios afiados como se seu corpo obtivesse uma massa escorregadia como sabão.

— É o quê?! — Enviando os fios novamente para o capturar, Darlan habilmente consegue se esquivar e alcançou a espada de Martius jogada no chão. Ele correu executando esquivas e golpes com a espada para partir os fios intransigentes de Jester.

O general em meio às esquivas habilidosas, soltou outra daquelas bombas de fumaça que conseguia resistir aos ventos do vórtice e o tornaram invisível aos olhos.

— De novo essa merda! — De pé, Jester dispersou centenas de milhares de fios por todo o território da batalha, alcançando toda a superfície ao seu redor. Qualquer coisa em contato com o chão, Jester conseguiria sentir e localizar a presença mesmo oculta na névoa do assassino.

Mas para sua surpresa, Darlan não foi detectado, e os fios se fecharam com intensidade e força de pressão, conseguindo partir rochas e árvores como se fossem feitas de papel.

— Se ele não está no chão... — No alto de uma árvore ruindo, Darlan saltou mirando a espada diretamente no coração de

Jester, que se apavorou com surpresa. — PORRA!!! — Os fios desesperadamente se reuniram em seu braço, formando uma grande espada que se chocou com a lâmina impiedosa de Darlan.

O impacto foi tão violento que gerou uma pequena onda de choque. Os dois adversários se encararam fixamente rugindo como animais sanguinolentos disputando por território; Jester via o estado crítico do corpo do general, que já tinha sido cortado diversas vezes, perdendo litros de sangue e mana nessa batalha. Porém, ele continuava de pé e disposto a continuar lutando até ver o jovem príncipe completamente morto abaixo de seus pés.

Os dois começaram uma disputa de golpes de armas, chocando as lâminas como um verdadeiro duelo de esgrima. Faíscas fluíam pelo ar com seus golpes poderosos. Darlan gritou em fúria ao desferir um golpe diagonal com todas as forças que partiria o tronco de Jester, começando pelo ombro esquerdo e finalizando na cintura direita. Mas o príncipe não se deu por vencido e movimentou a espada improvisada para bloquear o ataque.

— Aaah! Mas que... — A espada de fios foi desfeita ao receber tamanha potência estimulada pela massa mesclada com a aceleração do golpe do assassino, e o atingiu de raspão, cortando seu peito até abaixo do umbigo. — Aaaah! — Não atingiu seus órgãos vitais, mas abriu seu peito e muito sangue escorreu para fora no instante do corte. — Aaaaaaahhh! — Em seguida, Darlan o atingiu diretamente no rosto com o braço amputado, jogando o rapaz para alguns metros atrás.

— Acabou! — Realizando novamente uma investida direta para empalar o príncipe e finalizar esse confronto de uma vez por todas.

— Nem pensar! — Em cólera, os fios se enrolaram ao redor da mão direita de Jester, formando uma espécie de luva que segurou a espada centímetros antes de ser atravessar seu peito.

Jester o encarou com ferocidade, e Darlan tentou forçar a espada para dentro de seu peito, mas ela sequer moveu-se apesar de suas tentativas.

— Já falei... Você vai morrer pelo que fez! — Sua outra mão também foi coberta por fios em forma de luva e atingiram Darlan no rosto com tanta força que o fez parar muito longe. Jester manipulou a consistência dos fios que perfuraram sua carne rasgada e costuraram ambas as partes, parando o sangramento por completo. Ele fechou sua face, cancelando qualquer feição sarcástica e focando em finalizar seu inimigo de uma vez. — Vou cortar você em pedacinhos! — As luvas foram alteradas, ganhando lâminas laterais e um final pontudo que podia perfurar até rocha.

O general havia ficado preso entre os grossos galhos das árvores após ser arremessado pelo soco direto que recebeu. Ele rugiu em fúria e se libertou de suas amarras, destroçando os galhos trepadeiras como se não fossem nada. Darlan recapturou a espada, observando Jester se aproximar caminhando com convicção para uma luta corpo-a-corpo direta, sem joguinhos ou piadas dessa vez, apenas o mais puro combate até a morte.

Absorvendo para si as intenções ferozes do garoto vingador, Darlan focalizou suas habilidades de infiltração básicas de sua classe, para uma definitiva investida final com as últimas forças que restavam. Os dois inimigos, além dos próprios limites, caminhavam um em direção ao outro para um choque que decidiria quem iria viver e quem iria morrer nessa batalha. O céu repentinamente se escureceu, ameaçando uma tempestade de raios violenta que tornava aquele embate ainda mais glorioso.

Os ventos de vários quilômetros da tempestade espalhavam ainda mais a fumaça de Jester, apesar do próprio as atrair para si em seu vórtice.

Fixado em seu objetivo de eliminação, Darlan soltou um grito de guerra estridente, elevando absurdamente sua pulsação e circulação sanguínea, consequentemente aumentando seu desempenho físico com essa técnica natural.

Em meio aos relâmpagos, eles dois dispararam um contra o outro sem piedade alguma. Jester desferiu uma perfuração direta na cabeça de Darlan, que esquivou o rosto para a direita e revidou com uma cabeçada certeira, derrubando o príncipe por um pequeno momento.

— Aaaah! — Tentando o empalar no chão com a espada num ataque vertical.

Jester executou uma rolagem para trás, escapando de ser morto ali mesmo. Em seguida, se arremessou contra ele em um salto proporcionando uma joelhada no nariz que lhe arrancou ainda mais sangue e o fez largar a espada no chão. O príncipe não se limitou apenas a isso, e golpeou as costas de seu inimigo repetidas vezes com a lâmina de fios, conseguindo atravessar a rigidez dos fragmentos finais da armadura e perfurando a retaguarda, causando ferimentos profundos e fazendo muito sangue vazar enquanto ele se esperneava desesperado. Darlan o abraçou e se arremessou contra uma árvore, fazendo as costas de Jester ficarem em carne viva ao serem friccionadas contra a carapaça amadeirada da planta.

— Aaaaah! — Recebendo socos e mais socos do soldado de Razallath que parecia não ter mais uma alma humana, agindo mais como um animal endemoniado faminto por caos e destruição.

Os relâmpagos rasgavam os céus ao mesmo tempo em que Jester tentava se proteger dos golpes impiedosos de seu adversário, que esmagavam a árvore de carvalho logo atrás. Até que ele começou a impor uma pressão inimaginável contra o peito de Jester, aos poucos conseguindo esmagar o peitoral maior do herdeiro, desse modo, o deixando sem respirar corretamente e reduzindo sua força de reação.

— AAAAAHHHHHH! — Pressionando com todas as forças, deixando Jester entre a vida e a morte.

Entretanto, os instintos de sobrevivência do futuro rei começaram a reagir depressa diante dessa situação, e ele esticou os fios que compunham a lâmina de sua mão direita, cravando-os na caixa toráxica de Darlan, que arregalou os olhos, soltando Jester e cambaleando alguns passos para trás, tentando resistir ao sangramento. A fonte de energia vital era o que mantinha os efeitos das amplificações ativas, e o fizeram resistir aos diversos sangramentos de seus ferimentos, assim como aconteceu com Mohawk.

Mesmo aturdido e resistindo com uma força sobre-humana, Darlan ergueu novamente o rosto e percebeu que Jester, embora apoiado com apenas um dos joelhos no chão, sua expressão irada não se desfez, erguendo-se para continuar lutando num estado tão crítico, que se alguém de fora estivesse assistindo, não conseguiria acreditar em como esses dois ainda estavam vivos e com forças para guerrear. Darlan recuperou a espada do chão e, depois, utilizou a visão aprimorada dos assassinos para conseguir prever o percurso dos seguintes movimentos de ataque do príncipe.

O filho do Rei Legório retraiu os fios que perfuraram Darlan, e a partir deles criou kunais de fios semelhantes aos projéteis dos ninjas do oriente. Correndo até o assassino de seu irmão, Jester arremessou três das facas que o general com maestria rebateu com a espada. Mas isso era apenas uma distração, e na terceira rebatida, Jester o alcançou e ainda mantendo a lâmina de fios na mão esquerda, desferiu uma perfuração direta no cérebro.

— Aaaaahh! — Sem tempo para conseguir mover a espada para interceptar esse movimento, Darlan não viu outra alternativa e colocou o que restou de seu braço decepado rígido ao máximo no caminho. — Aaaahhhh! — Embora fortalecido, o braço não iria resistir e a lâmina de fios o perfurou gradativamente, até que Jester em absoluta cólera, usou seu outro braço para forçar até que o material atravessou a carne e encontrou o peito do soldado, conseguindo invadir o corpo dele. — Morra! — Outro relâmpago rasgou os céus, e a espada atravessou o músculo oblíquo externo de Jester.

— BLUUUURG! — Cuspindo sangue na cara do general maneta, este que ainda conseguia sentir Jester forçando a lâmina para dentro de seu tórax.

Em uma guerra pessoal que parecia não ter fim, os adversários ensanguentados ainda assim continuavam forçando suas armas para ceifar a vida um do outro. Darlan, um soldado corrupto do reino de Razallath que conspirou contra Vorosan e se tornou um usurpador do comando geral dos exércitos, estava em luta com o último príncipe sobrevivente do império sob ameaça do demônio. Quem daria fim a essa batalha que parecia eterna?

Foi quando a tempestade finalmente se acalmou, trazendo consigo também o fim desse conflito sangrento.

Naquele momento, os olhos de Jester visualizaram um cansaço agudo consumir Darlan. As amplificações estavam causando um estresse inimaginável em seu corpo e consumiram todas as reservas de mana que tinha acumulado com a meditação no começo; assim, para se manter de pé e continuar combatendo, as 3 variações de amplificação estabeleceram uma drenagem agora centralizada na energia vital do hospedeiro. Darlan perdeu as forças, e a gravidade fez o trabalho de puxá-lo. Ele cambaleou alguns passos para trás, sentindo dores musculares como nunca — juntamente de febres intensas que o fizeram cair de joelhos.

Ele cuspiu uma imensa quantidade de sangue no chão, não conseguia respirar direito, e sua visão escurecia repetidas vezes como consequência do desequilíbrio de energia em seu corpo. Sentia que havia acabado para ele, mas para sua surpresa, a fumaça da classe de Jester desapareceu, e ele também começou a sentir efeitos parecidos, indo ao chão, apertando o peito, sofrendo de uma dor sem precedentes.

— Parece... que nós dois chegamos no limite! — Começou o debilitado assassino, sorrindo malignamente apesar do sofrimento de seu corpo por conta do abuso com as Amplificações.

— Como você... — Jester percebeu que Darlan ainda podia se mover ao pegar uma adaga que ficou oculta em sua bota metálica durante todo esse tempo, já se rastejando em sua direção para o finalizar. — Caralho! Ficou tão puto que mesmo na beira do precipício, ainda consegue ter alguma força para me atacar! — Seus braços falharam, e ele caiu de cara no chão banhado com seu próprio sangue e suor.

Os ossos de seu corpo estremeciam como se estivessem sendo esmigalhados pela intensidade do estresse muscular. Ele não conseguia se mover; toda a força que restou foi desviada para resistir às debilitações que as Amplificações conjuntas exerceram sobre si. Jester se rendeu à dor e foi de vez ao chão, incapaz de ter alguma reação contra o inimigo que de maneira anormal conseguia ainda se mover para aplicar o golpe final.

— Esse desgraçado vai me matar se eu não conseguir fazer alguma coisa! — Pensava o príncipe, rangendo os dentes, tentando forçar seu corpo a ter alguma reação. Darlan continuava indo em sua direção, rastejando como uma serpente faminta em busca de sua presa.

Ele parecia sedento, seus olhos expressavam o mais puro sentimento de ódio impregnado em cada célula de seu corpo e na escuridão de sua alma fria como gelo. Darlan, o general traidor, segurava a faca em sua única mão, observando o olhar temeroso de Jester que demonstrava não possuir mais meio algum de reação; a cada segundo passado, ele se aproximava mais e mais do garoto, percebendo que não teria mais escapatória para ele. Era o desfecho crítico para ambos, cujo resultado seria decidido por quem pudesse resistir por mais tempo aos efeitos colaterais massivos do uso das Amplificações de Classe.
A situação crítica desse cenário fez com que Jester visse além, alcançando o plano espiritual onde os mortos habitam. Sua esperança começou a se dissipar, e sua resistência desapareceu por completo. Teria sido em vão toda a preparação até ali? Lutar sozinho talvez não tenha sido a decisão mais sábia, mas Jester estava orgulhoso de seu desempenho. Se os efeitos colaterais não matassem Darlan, ele viveria sabendo do sufoco causado por um jovem príncipe. Um assassino, uma classe de alta periculosidade, estava sofrendo para sobreviver em combate direto; esse fardo o faria viver em vergonha entre os seus. Com certeza, Jester riria muito junto de Meirin, Mohawk e Legório do outro lado.

— Uuuuugr! — Darlan estava diante de Jester, faca em punho, pronto para finalizar a vida do jovem herdeiro. — Não foi de todo ruim... — Ele usou o ódio em seu coração para, ao menos, conseguir se colocar de joelhos diante do caído à sua frente. — Isso foi o suficiente para, no mínimo, colocar um sorriso no meu rosto! — Respirando pesadamente, parecia prestes a sofrer um ataque cardíaco. — Eu disse que você não riria por último. Agora, morra sabendo que foi incapaz de alcançar seu objetivo tão desejado! — Darlan ergueu a faca para encerrar tudo.

— Eu... só de-desejo... que você vá à merda! — As palavras quase não saíam da boca ensanguentada de Jester, que mesmo assim ainda conseguia sorrir apesar de estar diante de uma morte inevitável.

Darlan ignorou completamente a audácia de Jester e desferiu seu golpe final. Sem ninguém para ajudá-lo, Jester apenas fechou os olhos, aguardando ansiosamente para reencontrar sua família no além. No entanto, os deuses tinham outros planos para o seu destino. O general Darlan, de olhos fechados, sorriu em êxtase ao sentir a faca rasgar a carne das costas do príncipe e alcançar o coração. Mas, ao abrir os olhos para contemplar sua vitória, tudo o que viu foi o mais pleno e absoluto breu.

Ele estranhou e se assustou ao perceber que Jester havia desaparecido, e agora estava no chão com a faca atravessada, mas não no corpo de Jester. Era o corpo morto de seu parceiro, Martius. Darlan não conseguia entender o que aconteceu e caiu para trás, tentando encontrar alguma saída daquela escuridão absoluta. Seus olhos, desgastados pela falta de mana e energia vital, já não tinham mais as mesmas capacidades de antes, fazendo-o sentir que estava prestes a perder a consciência. Contudo, esses eventos anormais representavam um epílogo que não permitiria de forma alguma que Darlan ficasse de fora.

Foi quando Jester ressurgiu de pé logo atrás do general, que não havia notado a presença dele antes. O que o assustou realmente foi que aquele garoto agora possuía olhos esbranquiçados como o limbo. Darlan tentava buscar alguma maneira de reação, mas o ódio que o fortaleceu, mesmo após seu corpo quase ser destruído pelas amplificações, agora foi convertido em terror.

Era aquela mesma manifestação sinistra que abalou o Rei Dalibor antes, um estado psicológico de Jester que gerava efeitos num pequeno espaço ao redor, como se estivesse alterando as estruturas da realidade. A fumaça de antes continuou rodopiando em espiral ao redor de ambos dentro daquela escuridão fantasmagórica. O assassino não conseguia entender o que acontecia; sua noção de realidade parecia deturpada agora, com esses eventos acontecendo repentinamente diante de seus olhos. Há pouco tempo, ele tinha a vida de Jester sob seu controle, e em seguida, viu-se enviado forçadamente para alguma espécie de dimensão paralela, na qual não tinha meios de entender e muito menos escapar.

No momento seguinte, Darlan percebeu um vulto dourado movendo-se velozmente pela escuridão fumacenta daquele lugar. O temor pela ausência de noção do desconhecido rendeu alguns pequenos lapsos de resistência, permitindo-lhe rastejar para longe de Jester, que mais uma vez desapareceu como se nunca tivesse existido ali.

— O QUE É VOCÊ?! — Gritou para o vazio negro, que logo foi tomado pela presença do vulto dourado, assumindo uma forma humanoide diante dele. — POR QUE VOCÊ NÃO MORRE?! — Berrou novamente com todas as forças, quase explodindo suas cordas vocais.

Um segundo depois, Darlan se calou; algo grande havia atravessado seu peito. Sua boca se encheu de sangue, e ele viu o vulto com a mão direita estendida em sua direção, apontada diretamente para seu coração.

— Co-como... — De maneira abrupta, a realidade se alterou novamente, e ele se viu de volta ao campo de batalha. No entanto, seus olhos contemplaram algo que lhe causou grande confusão. — Como... fez... isso? — Ao invés da silhueta dourada de antes, era Jester quem estava de pé diante dele, mantendo a cabeça baixa com uma sombra cobrindo seu rosto, e seus fios acumulados e firmes como aço atravessando o coração do assassino.

Em meio à floresta agitada pela tempestade, que aos poucos se acalmava, Jester recuperou a consciência e percebeu que seus fios cuidaram do serviço e finalizaram a vida de seu inimigo. Darlan permanecia de joelhos, sofrendo hemorragias internas por conta das centenas de feridas e cortes sofridos nessa batalha sangrenta.

O general, em seus últimos momentos de vida, forçou-se ao máximo para conseguir ver a face de seu executor. Apesar de tudo, ele ainda era incapaz de acreditar que Jester foi realmente capaz de tudo isso. Darlan sabia que foi um tremendo erro não o ter finalizado naquele fatídico dia, no momento em que o mesmo esteve inconsciente diante de seus olhos durante o atentado contra a realeza; um erro infeliz que custou muito caro.

Sem poder reagir, ele apenas assistiu enquanto o príncipe friamente colocava os fios em seu pescoço. Não havia mais palavras ou emoções conturbadas estimuladas pela vingança, agora era apenas ele em seu mais puro deleite; esse era Jester, finalizando seu tão aguardado objetivo.

— Por Meirin, e Mohawk... — Seus fios moveram-se livremente, impondo uma força de pressão inimaginável na carne de seu alvo, rasgando a pele e os ossos até arrancar a cabeça de Darlan fora de seu corpo.

Ele não pôde sequer cogitar reagir; não havia nada que pudesse fazer. No entanto, ele estava de certa forma satisfeito com Jester; foi uma batalha excepcional como nunca travou antes. Quanto ao príncipe, seus únicos pensamentos eram seus familiares e amigos que se perderam com a intromissão desses dois crápulas traidores.

Os ventos violentos pararam, e as nuvens se abriram para o sol que de imediato alcançou a terra próxima, iluminando o mundo e revelando o fim do túnel para essa escuridão que tanto instigou essa vingança nociva em seu coração nos quatro anos que se passaram. Demorou muito, mas o fim estava feito. Jester sorriu de satisfação, sentindo a luz calorosa do sol alcançar suas costas como a mão aconchegante de seu pai quando ele ficava apreensivo durante a infância.

As memórias de tempos antigos fluíam em sua mente, lembranças que durante cada maldito dia traziam sentimentos explosivos, perturbando sua paz com o efeito venenoso da ansiedade em ter a vida de Darlan e Martius em suas mãos. Porém, no momento atual, essas mesmas lembranças agora lhe traziam grande conforto e esperança, fazendo-o se sentir completamente contente e com a sensação de dever cumprido. Graças às suas mãos, Mohawk e Meirin finalmente poderão descansar em paz.

Seus fios retornaram para dentro de seu corpo, cientes da conclusão do objetivo. Quanto ao príncipe, seu corpo não escapou de também receber os efeitos colaterais do abuso dos efeitos de suas Amplificações. Como lembrança desse abuso desenfreado, Jester teve uma mecha do seu cabelo tomada pelo branco grisalho, em consequência por ter ido muito além dos seus limites predeterminados; como se uma parte do seu tempo de vida tivesse sido arrancada de si como pagamento pela força extra adquirida.

Cada músculo de seu corpo estremeceu, esmagando os ossos internamente, e uma febre elevada o consumiu por completo. Apesar disso, as dores físicas eram os menores dos problemas. Sem forças, ele sucumbiu ao chão, totalmente destruído e à beira do colapso, resultando em uma vitória extremamente complicada que ele jamais esqueceria em sua vida.

Ele assistia às nuvens do céu moverem-se livremente, fora do alcance da escuridão de uma tempestade raivosa. Logo, tudo começou a escurecer para o jovem rapaz, e sua mente se dispersou para além do plano natural.

Após passar horas desacordado no meio da estrada, Jester abriu os olhos e deparou-se com a cabeça decapitada de Darlan lhe dando um excelente "bom dia". Ele a jogou para longe e ficou sentado no chão para poder ver com clareza o desfecho dessa batalha. Os corvos aproveitavam o banquete com os dois cadáveres deixados ao ar, e se ele próprio tivesse ficado um pouco mais de tempo em seu sono de beleza, ele seria a sobremesa depois.

Enfraquecido, Jester se esforçou ao máximo para conseguir se levantar, mas seu corpo parecia centenas de vezes mais pesado devido à dor inacreditável que sentia.

Com muito esforço, Jester trabalhou para esconder as pistas de suas ações naquele campo de batalha que poderiam levar à descoberta de que ele próprio matou os comandantes. Ao final de tudo, sua intenção era deixar aparente que foram atacados por mercenários durante a travessia e que foram capazes de matar os três.

No final de tudo, Jester ateou fogo na carruagem com os corpos de Martius e Darlan no seu interior, assim como algumas peças de suas roupas. No entanto, antes de fazer isso, ele encontrou em um dos corpos um recipiente capaz de capturar assinaturas de mana. Inicialmente, ele não conseguiu entender para que aquele objeto servia, até que começou a reagir ao entrar em contato próximo com ele, absorvendo sua mana em seu interior. Para sua grande surpresa, inesperadamente, um mercenário de fato apareceu para tentar saquear alguma coisa das ruínas daquela luta e tentou lutar contra Jester, que, mesmo ferido, quebrou o pescoço do facínora fraco e o usou como fantoche para o sucesso de seus planos. Ele o vestiu com algumas de suas roupas e despejou o líquido azulado sobre ele, assumindo o papel de sua própria "morte".

— Ehh, destino. Super conveniente esse cara ter aparecido aqui justamente agora... — Disse Jester, assistindo as chamas consumirem a carruagem com os três cadáveres virando churrasco lá dentro. — Porra, tenho que resolver isso logo... — Seus ferimentos eram críticos; ele estava muito perto de perder os sentidos novamente. Um de seus olhos estava inapto, e quase todo o seu corpo estava cortado, ferido e internamente quebrado com os golpes que recebeu. Era um verdadeiro milagre ele ainda ser capaz de permanecer de pé.

Prontamente, Jester deu continuidade ao detalhe final de seu plano, ativando a bomba preparada por Dalibor, que liberou um pilar de fumaça, podendo ser visto desde Vorosan, sinalizando que algo deu errado com a jornada do príncipe.

Os guardas soaram o alarme e reuniram tropas que cruzaram a estrada rapidamente até o local de onde a fumaça vinha. Mas tudo o que encontraram por lá foi a carruagem em chamas e a paisagem destruída, sinalizando que uma batalha violenta aconteceu ali. E pior, os cadáveres dentro do objeto foram resgatados e constatados como os comandantes e o próprio príncipe Jester, embora estivessem completamente carbonizados, as vestimentas e objetos pessoais revelaram isso.

Logo, notícias da morte de Jester se espalharam por toda Vorosan como o vento, pessoas tumultuaram pelo império e cobravam uma posição do Rei Dalibor sobre o assunto e dar alguma explicação. Porém, os guardas retiraram as pessoas com avisos de que o líder temporário iria discursar após concluir seu período de luto pela perda de um grande amigo.

Mas nem todos pareciam dispostos a esperar até mais tarde, e Dalibor surgiu na entrada do palácio ao ouvir uma gritaria na porta com os pedidos dos guardas por reforços.

— Chame ele aqui agora! — Quando Dalibor abriu a porta do palácio, viu Urgan segurando um dos guardas pelo pescoço enquanto exigia uma audiência com o próprio.

Em seguida, um esquadrão de militares surgiu do interior do castelo e cercou o ex-general com suas lanças douradas apontadas para ele, que se mantinha parado com uma expressão nada contente e ainda segurando o guarda pelo pescoço. Todavia, o Rei Dalibor com pura autoridade, ordenou que baixassem as armas e deixassem o homem dizer o que buscava naquela ocasião.

— Sabe, estou me perguntando aqui o motivo de você ter enviado Jester junto daqueles dois imbecis. — Começou o agora mendigo, completamente revoltado e suspeitando de algumas coisas que não faziam sentido em sua cabeça. — Por que você mandou Jester para Zívia sob "proteção" daqueles dois? Você lembra do que eles me fizeram! Aqueles traidores.

— Mas o único traidor aqui é você... — Disse o guarda que estava sendo segurado por ele, mas Urgan fez o possível para ignorar tais palavras e o soltou no chão, mantendo sua atenção fixa em Dalibor.

— Tem razão, foi uma tremenda imprudência permitir que Jester saísse pelos portões com tão pouca segurança, mas se você estivesse por perto como ele tanto quis, saberia que foi ele próprio que insistiu para que somente os dois comandantes o acompanhassem. — Falou Dalibor, e Urgan começou a caminhar lentamente em sua direção, deixando os demais guardas em estado de alerta e novamente apontando suas lanças douradas para a cabeça do mesmo.

— É, estive ausente por um tempo. Muitos problemas para lidar, e pouca paciência para reagir. No entanto, andei pensando um pouco sobre o assunto... Não tenho dúvidas de que foram aqueles dois que fizeram tudo aquilo para me incriminar, e foi você juntamente do conselho que colocaram aqueles dois no alto comando da Guarda Real. — Se aproximando lentamente, seus olhos expressavam um sentimento explosivo de fúria contida com muito esforço. — Se minhas hipóteses estiverem corretas e eles forem de fato os traidores, isso me faz duvidar de suas verdadeiras intenções, Dalibor... — O Rei mantinha seu olhar firme, não se deixando intimidar pelas palavras difamatórias proferidas pelo ex-general.

— Está duvidando da minha honra, Urgan? — A atmosfera parecia ter triplicado de peso, e eles continuavam se encarando com extrema intensidade. Em paralelo, muitos civis que também escutaram os berros nos portões se reuniram para presenciar o desenrolar daquela cena, se questionando sobre as propostas apresentadas por ambos os lados.

— Bem conveniente, Jester ter morrido pouco antes de estar apto para assumir o trono, não é? Ouvi dizer que você tem apreciado muito estar no comando principal da nação, com um poder em mãos que vai muito além do que tinha quando administrava apenas a província de Adrias.

— Está insinuando que eu provoquei isso para tomar o trono definitivamente? — Ambos param um à frente do outro. — Meça suas palavras, Urgan... — Todos os presentes começaram a cochichar entre si sobre o assunto. De fato, muitos não aprovavam a corte de Dalibor, o considerando um usurpador do trono da família real, embora tenha sido aprovado pelo próprio Jester há quatro anos.

Os cochichos não paravam, muitos apoiadores de ambos os lados estavam discutindo, incluindo os próprios soldados de prontidão para interceder pela integridade do rei. Verdade seja dita, muitos ainda acreditavam ferrenhamente na inocência de Urgan e desaprovavam o comando do usurpador. Essas tensões eram recorrentes por toda Vorosan, se desenrolando em grandes brigas e discussões por conta de ideias divergentes que contradizem a visão do outro. E também, havia aqueles que discordavam de ambos os lados e julgavam os dois lados como errados, mantendo uma posição sobre o muro e prontos para fazê-lo desmoronar sobre os dois pilares dessas crenças.

Comentários continuavam de todos os lados, com a participação incluída dos militares mantidos na contenção da possível ameaça do ex-general contra o atual governante do império. Urgan escutou de tudo naquele momento, mas não parecia dar muita importância para isso, afinal, reconhecia a própria inocência acima de tudo, e sua consciência permaneceu limpa sobre isso durante todo esse tempo passado, apesar da precária situação em que sua vida ficou após aquele infame julgamento.

— “Meça suas palavras...” — Repetiu, em oposição ao Rei Dalibor, ignorando completamente as presenças de seus algozes que o ameaçavam de morte sob a ponta de suas lanças. — Você manda Jester sozinho para um destino longínquo, acompanhado apenas de dois míseros soldados, os mesmos que armaram contra mim no passado. — Alguns soldados soltaram sorrisos sarcásticos diante das palavras do jovem ex-militar.

— Preocupado com a realeza? Sendo que você mesmo atentou contra eles no passado. — Afirmou um dos soldados, mas rapidamente se calou quando percebeu a desaprovação no olhar do rei sobre ele, subjugando sua presença e repudiando sua intromissão em assuntos imperiais. — Desculpe, meu rei. — Se calou, recuperando a postura séria que um membro da Guarda Real deve manter.

— Não fale de coisas que não entende. — Referindo-se ao soldado, mas manteve seu olhar fixo no súdito traidor. — O que aconteceu com Jester foi uma terrível fatalidade, eu estou tão devastado com isso quanto qualquer ser humano presente nos reinos. Agora, não admito que pisem na minha honra, insinuando teorias sem sentido nascidas nas cabeças de pessoas desocupadas sem a porra de um boleto para pagar! — Seus olhares intensos se cruzam, como ameaça de uma terrível tempestade caótica que sacudiria os pilares de sustentação do reino.

— Falar, até papagaio fala. Não venha querer bancar a vítima por duvidarem da sua índole perante essas circunstâncias! Sem Jester, o trono de Vorosan permanecerá com você até o fim do seu tempo, e ninguém além da morte poderá tirá-lo. Esses eventos acontecendo simultaneamente não tiram da minha cabeça a ideia de que você causou isso de maneira proposital! — Todos os presentes continuaram calados, apenas assistindo o desenrolar daquela situação com grande inquietação. — Jamais permitirei que um monarca invasor tome conta do que restou do legado do Grande Rei Legório. — Como membro da Classe Guerreiro, e com Especialidade de Mestre de Ferramentas, Urgan revestiu suas mãos com luvas de aço e avançou num soco direto no rosto do rei temporário.

No entanto, três soldados se mobilizaram rapidamente para defender o Rei Dalibor da fúria do ex-general, com dois o segurando e o terceiro se colocando diante dele na intenção de bloquear o ataque feroz com sua lança. Os materiais metálicos se chocaram, e a lança dourada do militar se partiu em dois devido à força do impacto, e ele recebeu o soco direto no peito que o arremessou na direção do monarca, deixando-o inconsciente e em estado crítico.

Urgan era mais forte que os militares da guarda e rapidamente se forçou contra eles, conseguindo se libertar, fazendo com que caíssem no chão com movimentos táticos aprendidos ao longo dos anos de preparação para exercer o comando da Guarda Real. Em busca de seu verdadeiro alvo, Urgan desfez a luva esquerda e criou uma faca no lugar, arremessando-a na direção de Dalibor. Este, por sua vez, já havia largado o soldado anterior no chão e esquivou-se da faca movendo a cabeça para os lados e, em seguida, segurou o soco esquerdo de Urgan com uma das mãos livres. Todos arregalaram os olhos, e a onda de choque se espalhou pelo ambiente como um vento forte, quase derrubando os espectadores do local.

Novamente, os guardas insistiram em intervir, mas desta vez, Dalibor os impediu, sinalizando negativamente com a cabeça. Sua intenção era resolver o problema por conta própria.

Por outro lado, Urgan direcionou seu outro punho com agora outra faca invocada a partir de sua mana. Dalibor usou o antebraço esquerdo para impedir esse ato vil de seu velho amigo e, em seguida, chutou-o no joelho. Urgan perdeu a estabilização e foi arremessado para trás através de um simples empurrão executado por Dalibor com uma única mão em seu rosto, caindo no meio das pessoas que assistiam estáticos àquela cena alarmante.

— Foi através da vontade do Conselho e aprovação do próprio príncipe Jester que eu pude ascender ao trono. Nunca foi uma vontade minha! — Descendo as escadas ao mesmo tempo em que Urgan se erguia do chão, agora com suas luvas transformadas em socos ingleses. — E você não pode esquecer de uma coisa: você só está aqui falando um monte de merda porque eu me intrometi na decisão do nosso rei naquele julgamento.

— Eu perdi tudo o que tinha naquele dia! Não fique achando que sua intromissão foi um ato de bondade, pois para mim resultou em um destino ainda pior que a morte! — Por quase meia década, Urgan vagou pelas sarjetas de Vorosan em busca de alguma forma de provar sua inocência perante a realeza, lutou e observou durante anos os desfechos do império sem poder intervir. Perdeu a conta de quantas vezes foi caçado pela população por conta de sua "traição", os golpes e injúrias recebidos não eram mais dolorosos do que as feridas em seu coração após literalmente perder tudo o que mais amava nesse mundo. — Juro pela minha vida que farei quem fez isso comigo pagar muito caro! — Apontando o dedo indicador para Dalibor, em sinal de acusação. — Sua incompetência permitiu que Jester fosse morto! Jamais o perdoarei por isso, Dalibor. — Seus socos ingleses foram manipulados pela mana de Urgan, se estendendo para o próximo estágio adquirindo lâminas como facas, mesclando duas armas diferentes em uma só. — Derramar seu sangue vai corrigir isso! — Investiu ele contra o Soberano, sem piedade ou malícia. Era apenas um irmão completamente revoltado por ter perdido a única família que ainda lhe restara nesse mundo, e essa perda o estava devastando internamente muito mais do que qualquer outra tribulação que enfrentou durante toda sua vida. Era como retornar ao tempo em que sua família biológica foi vítima da escravidão sob a xenofobia dos Elfos, e ele quase se entregou à morte, sendo impedido apenas quando foi libertado por seu futuro pai adotivo, o bravo Legório.

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Mesmo com pensamentos em desequilíbrio, Urgan atacou. Incentivado pela frustração inigualável em seu coração, seus ataques, embora desprovidos agora de técnica e estratégia, estavam carregados com toda a sua força e vontade de colocar essas emoções depressivas alimentadas pela realidade cruel em que viveu e viverá. O Rei Dalibor reconhecia esses sentimentos inquietantes no coração de seu amigo de longa data. Ele sabia que era uma sensação tão insuportável que nenhum ferimento ou dor física poderia sequer sonhar em se igualar à tamanha magnitude degenerativa que Urgan alcançou nos últimos anos.

Usando das feridas não completamente cicatrizadas que Urgan adquiriu durante os constantes linchamentos com a população, Dalibor manipulou o sangue do próprio amigo para fazê-lo parar de lutar. E ele realmente conseguiu. Urgan parou há centímetros da ponta de sua faca perfurar o rosto do rei, assustando os soldados e toda a população expectante. Ele não conseguia se mover mais, era como se seu corpo tivesse congelado por dentro e paralisado seus movimentos completamente.

— Existem muitas perguntas, cujas respostas virão apenas mais tarde. — Encostando sua palma direita no peito do ex-general. — Mas por hora... — Exercendo uma pressão mágica auxiliada pelas habilidades dos Hemomancers, Dalibor anteriormente havia endurecido o sangue de Urgan para contê-lo no lugar, mas agora, fez o contrário. Além de devolver a circulação natural do sangue, ele também alterou o fluxo sanguíneo, reduzindo as quantidades enviadas para manter o cérebro consciente, fazendo Urgan sucumbir e desmaiar. — Apenas confie no bobo da corte. — Finalizou o Rei Dalibor, antes do general destituído perder completamente a consciência e tudo ser dominado pela absoluta escuridão. — Levem-no daqui... — Ordenou o Rei, retirando-se para seus aposentos, e os soldados se mobilizaram para conduzir Urgan para algum lugar longínquo do império.

Ainda que curta, essa discussão deixou Vorosan mergulhada em tumulto, com discussões acaloradas entre o povo, enquanto o destino de Jester permanecia um mistério ainda não explorado por completo, permitindo uma atmosfera de mistério e incerteza que logo se converteu em hipóteses e teorias espelhadas na possível realidade que enfrentavam.

Durante vários dias, a controvérsia em torno do confronto entre Urgan e Dalibor dividiu o povo em facções cada vez mais inflamadas, e as opiniões divergentes transformaram o reino em um barril de pólvora prestes a explodir. As acusações e teorias conspiratórias se espalharam rapidamente, e as tensões estavam no limite.

Aqueles que ainda apoiavam Urgan acusavam Dalibor de ser um usurpador do trono real, alegando que ele havia arquitetado a viagem de Jester para causar um "acidente" e assim tirar o príncipe da linha de sucessão. A suspeita era alimentada por sua ausência de explicação plausível sobre a situação dos guardas traidores, acusados por Urgan de terem armado contra ele e agora também mortos por uma força avassaladora juntamente do príncipe Jester.

Além disso, havia os partidários de Dalibor, que argumentavam que ele havia trazido prosperidade e estabilidade para Vorosan nos quatro anos de seu governo, e acreditavam que Urgan era um traidor que merecia seu destino nas ruas sem honra, como decretado pelo Rei Legório anos antes.

No meio desse turbilhão de opiniões, havia também aqueles que acreditavam que ambos, Urgan e Dalibor, eram indignos de permanecerem respirando e exercendo suas funções, apesar de apenas um ainda ter relevância. Eles ignoravam os argumentos de ambos os lados, enxergando os dois como traidores que estavam colocando em risco a estabilidade de Vorosan.

Essas divisões e tensões crescentes ameaçavam empurrar o reino para uma guerra civil. A situação se tornava cada vez mais volátil, com facções rivais debatendo acaloradamente em praças públicas e nos salões das casas nobres. O futuro de Vorosan parecia incerto e tumultuado, enquanto o povo buscava uma solução para as disputas que ameaçavam despedaçar o reino. Entretanto, havia apenas uma pessoa completamente satisfeita com o desfecho caótico que esse império começou a seguir. Sim, pássaros estranhos eram vistos por toda Vorosan, assistindo os conflitos internos com grande atenção e foco. Semelhantes a corvos, esses pássaros de tonalidade negra como a noite jaziam espalhados em pontos mais ocultos com seus olhares estáticos e fixos, como se estivessem desprovidos de instintos, ignorando todos os fatores do ambiente e focados apenas nas tensões e desequilíbrios formados no reino. Esses eram os olhos do imperador Razallath, que mantinham sua visão periférica sobre cada canto e cada parte do planeta, sempre atentos e cientes de tudo que despertasse seu interesse.

Ao mesmo tempo em que essas divergências tiravam a paz de Vorosan, por outro lado, a jornada de Jester em direção a Zívia foi uma experiência extenuante e sombria. A estrada que se estendia diante dele era longa e traiçoeira, e a atmosfera era carregada de melancolia. Jester cambaleou pela estrada, seu corpo exausto e ferido, e sua mente pesada com a carga de vingar seu irmão Meirin e o leal subcomandante Mohawk, A chuva que havia caído antes deixou o solo arenoso molhado e encharcado, refletindo o clima deprimente que envolvia sua caminhada solitária.

À medida que avançava pela estrada, as lembranças da batalha contra os dois assassinos pairavam em sua mente, como sombras que o perseguiriam para sempre. Jester sabia que havia conseguido sua vingança, mas a um alto custo pessoal. Os ferimentos que sofrera na luta eram graves, e a sensação de quase perder a vida e falhar consigo mesmo, deixou cicatrizes profundas em sua alma. Precisava urgentemente de um médico, e se tornar ainda mais forte para as futuras batalhas que virão.

Finalmente, ele chegou aos portões de entrada em Zívia, e um sorriso de satisfação iluminou seu rosto. Ele havia alcançado seu destino, mas a alegria da realização era ofuscada pela dor e pelos fantasmas do passado. Desabando no chão arenoso e molhado, Jester caiu inconsciente, seu corpo marcado pelos rigores de sua jornada.

Foi uma aventureira que chegou ao local, molhada com a chuva de sangue dos inimigos de sua batalha recente e com os espólios desse conflito. Ela encontrou Jester desacordado, ferido e ensanguentado, começando a cheirá-lo.

— Humano, não monstro! Ajudar... — Disse ela pausadamente. Com compaixão, ela o resgatou, carregando-o nos braços para dentro de Zívia, o Reino da Magia.

A aventureira cruzou a cidade de Zívia carregando o príncipe Jester, atraindo olhares de pessoas em choque, mas surpreendentemente, esses olhares eram repletos de admiração e respeito. À medida que ela avançava pelas ruas, as pessoas paravam para observar a cena, e uma onda de positividade e empatia parecia envolvê-la.

Muitos habitantes da cidade se ajoelharam em sinal de respeito e solidariedade enquanto ela passava, reconhecendo o nobre ato de resgatar o jovem nobre machucado. A atmosfera da cidade era carregada de compaixão, bem diferente dos lunáticos de Vorosan.

Ela continuou a sua jornada em direção à ala médica do palácio de Zívia, mantendo sua determinação e compostura, e se sentia surpresa do fato das pessoas ao redor simplesmente ignorarem o fato dela estar completamente banhada em sangue de terceiros. Sem dúvidas, Jester teria muitas perguntas ao acordar mais tarde.

Notas finais
Nos veremos na próxima semana se o Criador permitir;