A Corte do Bobo
5 O Bobo da Corte
Notas iniciais
Voltando um pouco na linha do tempo, enquanto Zíria partia para o Reino do Rei Espantalho através da passagem pelo espaço-tempo, Jester assistia tudo de uma posição privilegiada a partir da janela da ala médica do palácio de Zívia. Pensativo, ele se deitou novamente em sua cama e continuou refletindo sobre os recentes eventos descobertos até o momento atual de sua jornada.
— A rainha pode ser um problema que terei de lidar no futuro. Mas, apesar da aparência selvagem e sangue derramado na última batalha, ela não parecia ser uma pessoa ruim, parecia ser bem tranquila na realidade. — Pensava ele trajado com a vestimenta típica de hospital. — Espero que possamos nos encontrar novamente em circunstâncias diferentes... — Em seguida, a face do Rei Espantalho voltou a dominar sua mente, o deixando devidamente intrigado. — Então aquele é o tal Rei Espantalho... — Ele não podia negar, olhar para aquele ser com os próprios olhos e não apenas imaginar com base nos relatos que recebia em Vorosan, era de fato um tanto perturbador. Jester sentia que havia muito mais coisa sobre aquela criatura que permanecia um mistério, mas levou em consideração que não era a hora certa para pensar nesses detalhes. — Merda. — Se levantando da cama e estralando as costas. — Onde será que deixaram as minhas roupas? — Procurando pelo quarto, mas sabia que muito provavelmente foram levadas para lavagem para tirar todo aquele sangue e sujeira da estrada. Depois, ele procurou pelos bolsos da roupa atual e encontrou o dinheiro que havia trazido consigo de Vorosan na outra roupa. — Rapaziada de Zívia é gente boa mesmo. — Balançando a cabeça para frente com expressão de admiração, honestidade não muito comum em outros lugares dos reinos, onde teriam roubado até seus fios de cabelo se pudessem. — Bom! Já que o pai tá forrado de grana... — Ficando de pé ao lado da cama. — Hora de fazer o que a mulherada ama... Partiu comprar roupa! Vou arrumar alguma coisa mais do meu estilo para substituir essa roupa de hospital!
Sem se importar com mais nada, Jester caminhou para fora do quarto sem que ninguém percebesse que um paciente estava indo embora sem terminar os procedimentos médicos. Era a primeira vez dele em Zívia, então não sabia onde poderia encontrar alguma loja de roupas para dar uma boa olhada.
Na saída do palácio, ele observava ao redor com atenção em busca de alguma resposta para sua procura e as pessoas de Zívia o observavam com estranheza com aquela roupa, fora que eles tinham também conhecimento da família real de Vorosan e dos boatos da morte do próprio Jester. Sendo assim, se ele quisesse manter a discrição e evitar ser reconhecido pelos povos e isso chegar nos ouvidos errados, deveria buscar alguma solução para tal.
— Merda! — Manipulando seus fios que se envolveram ao redor de seu rosto como um capacete, deixando aberturas apenas para que pudesse enxergar, escutar e farejar sem problemas. — Isso vai ser complicado. Acho que vou precisar de uma máscara também para evitar rumores estranhos sobre o meu paradeiro.
Jester apressou o passo para longe daquele lugar aproveitando que a maioria dos cidadãos de Zívia estavam focados no portal por onde a rainha partiu que aos poucos começava a se fechar.
Ele transitava pelas calçadas do reino apreciando a arquitetura que o cercava. Os edifícios eram adornados com entalhes mágicos, onde runas brilhantes desenhavam padrões místicos nas paredes. As ruas eram pavimentadas com pedras de cores vibrantes, cada uma delas exibindo propriedades mágicas que emitiam uma luminosidade suave, iluminando o caminho de Jester.
Ao passo em que ele continuava sua busca, as plantas exuberantes e coloridas decoravam as ruas e criavam uma atmosfera mística. Flores encantadas desabrochavam em uma profusão de cores e emitiam fragrâncias cativantes. Jester se sentia literalmente em um conto de fadas, onde cada detalhe era uma manifestação da magia.
As praças de Zívia eram verdadeiros oásis de natureza em meio à arquitetura rústica medieval do reino. Magos transitavam de um lado para o outro, suas vestes exibindo cores e padrões mágicos, enquanto se dedicavam a seus afazeres místicos. Vendedores e varejistas alinhavam as ruas, organizando recursos adquiridos com o Rei Espantalho e exibindo suas mercadorias em barracas decoradas com tecidos vibrantes e tapeçarias chamativas.
Apesar de ter usado os fios para ocultar sua identidade, Jester se sentia incomodado com aquela coisa em sua cabeça e seus sentidos mal conseguiam trabalhar com tantos fios o impedindo e pessoas curiosas que o observavam com estranheza estampada em seus rostos, coisa que o fez correr ainda mais para sumir de vista mesmo com pouca visão do caminho. Sem perceber, Jester se esgueirou pelos becos úmidos da cidade e tropeçou numa elevação no terreno logo à sua frente e tropeçou, com a pressa em que corria, resultou num impulso que o derrubou para mais longe e o fez atravessar uma porta lateral que se abriu rapidamente.
Inconformado, ele desfez o casulo de fios em sua cabeça para poder ver com clareza onde havia ido parar. Seus olhos focalizados perceberam que estava dentro de uma loja, em seguida ele procurou alguma informação sobre o que aquele comércio tratava e viu uma quantidade enorme de coisas e objetos antigos desde: armas enferrujadas, roupas em péssimo estado e itens diversos. Não era bem o que procurava, mas ao observar mais atentamente nos produtos em exposição, ele foi abordado por uma recepcionista que saiu dos aposentos no final do corredor após escutar a barulheira feita pelo visitante desastrado.
— Você está bem? — A mulher se aproximou e o ajudou a se levantar, Jester não se machucou na queda e ela notou que ele usava um traje típico do hospital, mas resolveu não opinar sobre isso. — Por que foi chegando dessa maneira? Entrando que nem louco do nada? — Ela tinha cabelos castanhos e estava usando a vestimenta típica dos comerciantes locais.
— Perdão por isso, é que eu estava meio perdido e acabei tropeçando... — Depois que sua visão parou de oscilar com a queda, ele finalmente recuperou o foco. — Mudando de assunto, essa loja aqui vende o quê?
— É uma loja de antiguidades... — Respondeu ela resumindo rapidamente alguns dos produtos que poderiam ser encontrados à venda ali.
— Entendi. Vocês têm alguma roupa decente disponível? — Ela observou as exposições por alguns instantes e lembrou de alguns detalhes.
— Bom, a maior parte das roupas em estado razoável foram vendidas. Graças ao espantalho, as pessoas já estão ganhando muito e movimentando o comércio local. — Jester pareceu desaprovar essa situação, mas não acreditava que de fato tudo foi comprado e deveria haver algo que ele pudesse usar ali.
— Merda, mas não tem nada mesmo por aí que eu possa experimentar? — A mulher pensou por alguns instantes, refletindo sobre todas as vendas e materiais vendidos naquele dia. — Bom, tem algo sobrando, mas não sei se você vai se interessar tanto...
— Me mostra! — Insistiu, e a mulher pediu para que ele a acompanhasse até uma sala nos fundos onde ficavam alguns produtos que precisavam ser colocados para exposição no próximo horário de maior pavimentação.
Em uma sala um pouco desarrumada e iluminada por apenas uma chama púrpura em um invólucro de metal, Jester se desviou de teia de aranha no caminho enquanto a mulher explicava alguns detalhes que ele não prestou muita atenção. Em instantes, embutida dentro de um receptáculo de vidro plastificado e com um pequeno ukulele de madeira repousado ao lado, havia uma roupa de bobo da corte; o tronco era decorado com detalhes azuis e dourados, que reluziam sob a luz mágica da chama púrpura do pequeno farol. Mesmo que aparentemente antigo, o tecido era leve e confortável, que o permitiria mover-se com facilidade enquanto carregava um toque de elegância.
A calça preta, apesar de remendada em alguns lugares, era surpreendentemente confortável e resistente. Os remendos e as luvas eram feitos de tecidos de cores frias, criando um contraste interessante com o azul e dourado do tronco da roupa.
— Lhe interessa? — Perguntou ela, sem notar o olhar estagnado do homem que não desviava em nenhum momento da roupa.
— Eeeeh destino... — Disse ele observando o invólucro e pedindo para experimentar, ela consentiu e logo Jester caminhou em direção ao provador. — Parece que chegou o dia de abraçar esse destino de uma vez! — Comentou ele com empolgação e determinação no olhar, vislumbrando um futuro de conquistas. Entretanto, essa empolgação refletia uma emoção mista, uma alegria revestida de nervosismo que o fazia quase explodir por dentro.
Em poucos instantes, Jester estava diante do espelho observando seu reflexo com a roupa de bobo da corte. Seu sorriso extremamente forçado parecia que iria paralisar seu rosto com tanta intensidade, era uma alegria que ele não conseguia explicar e menos descrever.
— Você já terminou? — Perguntou a mulher do lado de fora. — Toma, usa isso aqui também... — Entregando um chapéu azul com detalhes que lembravam um estilo de cabelo de mechas grossas. — E aí? — Ele saiu lentamente do provador e sorria intensamente, deixando a mulher ciente da aprovação do mesmo. — É, ficou ótimo! — Jester não disse nada, apenas ficou analisando detalhadamente a vestimenta.
— Você tem alguma coisa para ocultar meu rosto? — Perguntou ele tremendo de nervosismo.
— Acho que tenho uma coisa perfeita para você, o único problema é que ela é bem cara...
— Isso não vai ser um problema. Pode ir buscar por gentileza! — Ela se retirou por alguns instantes e depois reapareceu com uma pequena caixa em suas mãos, e quando Jester a abriu, seus olhos se iluminaram com uma admiração quase psicótica.
Lá dentro estava uma máscara branca com desenhos de boca e olhos que se moviam aleatoriamente, alternando entre diferentes emoções. Era uma peça de artesanato verdadeiramente mística que tinha a capacidade de se moldar de acordo com as emoções de seu portador.
Quando Jester colocou a máscara em seu rosto, sentiu uma eletricidade estática correr por todo o seu corpo, deixando seus pelos arrepiados. As expressões da máscara, que antes mudavam aleatoriamente, se estabilizaram em uma única expressão que transbordava do fundo de sua alma naquele momento: Alegria. Ele se sentia invadido por um sentimento de felicidade genuína, como se a máscara estivesse conectada diretamente à sua essência.
Naquele momento, ele havia encontrado sua verdadeira personalidade, seus objetivos e interesses nunca foram tão claros como agora. Era como se ele tivesse nascido novamente, reencarnado por completo como Jester, o bobo da corte.
— Moça, muito obrigado por isso. — Após observar seu reflexo no espelho por alguns instantes, ele virou-se para a mulher que o assistia com grande curiosidade.
— Ah, de nada. Mas se me permite perguntar: onde você pretende ir com uma roupa de bobo da corte? — Apesar de satisfeita com uma boa venda, não imaginava para quais fins aquele homem usaria aquela fantasia.
— Por enquanto, vou dar uma passada na biblioteca da cidade. — Ela reagiu com uma expressão de ainda mais dúvida, pois esperava qualquer fim para isso, exceto para frequentar a biblioteca.
— Por que um “bobo da corte” iria numa biblioteca? — Seu olhar estava meio torto e cheio de expectativa a respeito da razão desse caminho do jovem andarilho.
— Como a galera da igreja costuma falar sobre o Criador: “Apenas deixe o destino fluir”. — Disse Jester, o filosofo.
— Aah, não é bem assim que falam não, mas consegui entender seu raciocínio. — Os dois riram por alguns momentos com o rumo dessa conversa.
— Mas enfim, você saberia me dizer onde fica a biblioteca mais próxima daqui?
— Saindo do beco e virando à esquerda, e depois é só seguir reto! — Ele compreende e agradeceu novamente, porém, ainda tinham assuntos para discutir. — Que tal falarmos sobre o pagamento agora?
— A conversa estava indo num rumo tão bom... — Rindo de constrangimento, já havia esquecido que ainda não havia pagado pelos produtos. Ainda bem que havia trazido recursos o suficiente consigo para se manter por alguns tempos, e conseguiu pagar o conjunto, embora tenha sido mais caro do que imaginava.
— Foi um prazer fazer negócios com você! — Agradeceu, sorrindo com um belo maço de dinheiro em suas mãos.
— O prazer foi meu! — Respondeu dando as costas para a mulher no balcão de atendimento, mas em seus pensamentos ele queria dizer outra coisa. — Que porra é essa?! Ela não estava de brincadeira quando falou que o preço era salgado. — Pensou ele, observando a carteira de maneira disfarçada para a atendente não perceber. — É, melhor tomar mais cuidado. Metade do dinheiro do pai já foi de base. — Ele caminhava em direção à saída da loja quando deu uma ligeira olhada para trás e viu a atendente sorrindo de orelha a orelha. — Olhe só esse sorriso... uma verdadeira cobra disfarçada. Devo aprender a sorrir pilantramente que nem ela para o ódio dos súditos do Razallath! — A mulher levou a maior parte de suas economias, tornando possível o fato de ele precisar arrumar algum serviço para ganhar dinheiro em um futuro próximo. — Adeus, mestre! — Finalizou, baixando o chapéu em sua cabeça em sinal de respeito à cobra e se retirando para sempre daquele estabelecimento, deixando a mulher sem entender nada sobre essas palavras aleatórias do bobo da corte.
Caminhando pelas ruas tranquilamente, Jester seguia pelo caminho indicado pela atendente para achar a biblioteca de Zíria. No entanto, ainda havia uma pequena questão martelando sua cabeça sobre um outro assunto:
— Vejamos: roupa de hospital com casulo, ou bobo da corte. O que chama mais atenção? — Ele seguia pelas vias arborizadas de uma das principais praças daquela área do reino, e as pessoas ainda o observavam com indiscrição, mas nada como antes. Jester ria histericamente sob o chapéu em praça pública. — Antes eu parecia um maníaco perturbado que acabou de fugir do hospital, e os fios estavam acabando com meus sentidos, mas agora o pai... continua estranho igual! Hahahaha! Mas os sentidos estão em dia. — Aos poucos, Jester foi percebendo que essa máscara também ajudava a melhorar seus sentidos, principalmente a visão. — Oh coisinha que rouba rins, você é mais mágica do que eu pensava! — Rindo alto e chamando a atenção das pessoas ao redor, mas ele pouco ligava e apenas se divertia com tudo isso.
Jester, vestido como um bobo da corte, chegou à majestosa biblioteca principal do Reino da Magia, conhecida por sua grandiosidade e riqueza arquitetônica. A entrada era adornada com colunas escupidas e entalhes mágicos que reluziam com cores vibrantes e símbolos místicos. O ambiente exalava uma atmosfera de sabedoria e mistério, e as enormes portas de madeira maciça se abriram para revelar o interior impressionante.
Ao adentrar a biblioteca, jester se viu cercado por uma visão deslumbrante. A sala principal era dominada por uma imensa cúpula de vitrais mágicos, que permitiam a entrada de uma luz suave e etérea, criando um ambiente iluminado e acolhedor. Os vitrais retratavam cenas da história da magia, desde antigos feiticeiros até os mais recentes avanços nas artes arcanas.
As prateleiras de livros se estendiam até onde os olhos podiam alcançar, abrigando inúmeras obras sobre magia, história, ciência e filosofia. Os livros eram antigos com capas de couro trabalhado e páginas de pergaminho amarelado. Os corredores eram ladeados por esculturas de mestres mágicos lendários, que pareciam observar silenciosamente os visitantes em busca de conhecimento.
O chão era revestido de mármore polido, com padrões intricados que brilhavam com runas mágicas entalhadas. Mesas de leitura estavam espalhadas pela biblioteca, onde estudiosos mergulhavam em suas pesquisas, absorvidos por seus livros e grimórios. A atmosfera era de silêncio respeitoso, interrompido apenas pelo sussurro das páginas viradas e pelos murmúrios ocasionalmente trocados entre os estudiosos.
Na entrada da biblioteca, Jester foi avistado pelo recepcionista que de cara já expressou desprezo pela apresentação do mesmo.
— Puta que pariu, chegou mais um retardado! — Pensou ele, e em seguida, Jester se aproximou dele para fazer algumas perguntas importantes.
— Meu patrão, tem algum livro sobre a Classe dos Bobos da Corte por aqui? — De fato aquele atendente o encarava de maneira desrespeitosa, julgando-o pela vestimenta e linguajar incomum naquele lar do conhecimento mágico de Zívia.
— Temos sim, senhor. Mas, receio que aqui não seja um lugar adequado para sua pessoa...
— Tanto faz, chefia. Vou começar a frequentar muito aqui, várias vezes ao dia e pela semana. Mas me diz aí, aqui a leitura é gratuita ou tem que pagar mensalidade? — Apoiando os braços na mesa de recepção, e o velho homem suspirou profundamente antes de continuar com a conversa.
— De certa forma. Os livros mais simples são de graça, no entanto, os mais avançados e complexos exigem uma taxa mensal dos leitores! — Jester sentiu uma facada no coração ao ouvir palavras tão profanas.
— Retiro o que disse sobre Zívia só ter gente boa, aqui na verdade é um ninho infestado de cobras mercenárias! — Pensou ele inconformado e desiludido. Seu dinheiro atual poderia render alguns meses de leitura, isso sem contar com as demais necessidades do mesmo para poder sobreviver em sociedade que encurtariam ainda mais esse tempo. — Vida difícil! — Sua intenção era deixar alguns meses pagos e não desviar o foco, e depois procurar algum serviço pelo reino nem que fosse como ajudante de pedreiro para conseguir se manter, mas era uma necessidade imposta pelas circunstâncias. — Beleza, cidadão! — Colocando o dinheiro na mesa, surpreendendo o atendente que acreditava que o jovem bobo não passava de um zé ninguém.
— Huuum, interessante. — Pegando as bufunfas, e de repente, um pequeno holograma de magia se fez presente diante do atendente e começou a movimentar as informações recebidas por Jester para criar uma conta para o mesmo naquela biblioteca e um perfil premium para que ele possa usar os livros avançados sem precisar avisar que tem o passe. — Muito bem... — O holograma desapareceu quando ele terminou as anotações, seguidamente um novo holograma surgiu em forma de documento cuja base exigia assinatura de mana para concluir o cadastro do mais novo estudioso do ambiente. — Encoste aqui... — Jester encostou o dedo indicador direito e uma pequena fagulha de mana consumiu a linha de assinatura, formando o nome do próprio, e depois um crachá se materializou em seu pescoço, resultando na conclusão do cadastro com vencimento de seis meses.
— Vou ter que renovar essa merda em breve, vou ter que bater uma laje por aí ou sei lá. — Observando o crachá e recebendo autorização do recepcionista para adentrar na biblioteca e desfrutar do vasto conhecimento armazenado ali.
— O livro que você procura está no penúltimo corredor à esquerda! — Informou sem olhar para o rosto do jovem.
— Valeu, babacão... — Indo em direção ao corredor informado.
— Como é, amigo?
— Eu disse: “Valeu, irmão”. — A idade não foi muito gentil com a audição do velho homem “ainda bem”.
— Ah, sim... — Voltando a folhear um livro aleatório.
Através das instruções do velho bibliotecário, Jester seguiu pelos corredores em busca do exemplar específico que poderia saciar sua sede por novas descobertas sobre sua classe. E após alguns minutos de procura, na segunda prateleira à direita do corredor e separado do saguão das classes mais comuns, estava ele, o livro que era tão requisitado e deu sérios problemas financeiros ao Bobo.
Jester imergiu em uma semana intensa de estudos, dedicando-se à absorção de conhecimento com um nível de concentração extraordinário. Sua jornada de aprendizado começou com o livro que detalhava a Classe Bobo da Corte. Cada palavra impressa nas páginas amareladas era lida e relida, cada conceito e técnica eram minuciosamente analisados. O bobo da corte estudou as origens e histórias de outros membros da mesma classe, buscando entender suas experiências e trajetórias.
Além do livro principal, Jester consultou uma série de outros tomos. Ele estudou obras sobre infiltração, aprendendo a se mover nas sombras sem ser detectado, como um verdadeiro mestre da dissimulação. Os tratados sobre estratégia militar forneceram o discernimento sobre como planejar e executar operações táticas de sucesso, permitindo que ele desenvolvesse um plano para superar e desmantelar as defesas do imperador Razallath.
Os volumes sobre artes marciais e combate corpo a corpo foram parte essencial de seu estudo. Jester praticava os movimentos descritos nas páginas, aprimorando sua agilidade e força. Ele se imaginava em situações de combate, visualizando como aplicaria essas técnicas contra inimigos de alta periculosidade.
Jester estava adormecido em seu modesto quarto de hotel, imerso em um sono profundo após uma semana intensa de estudos. As velas que iluminavam o cômodo projetavam uma luz fraca, criando sombras que dançavam nas paredes desgastadas. Ele estava envolto em seus lençóis, com livros empilhados ao seu lado, testemunhas silenciosas de sua busca por conhecimento.
No entanto, o sono de Jester foi abruptamente interrompido por uma barulhenta junção de sinos ressoando pelas ruas de Zívia. A princípio, ele estava desorientado, tentando compreender a origem daquela agitação. Os berros e gritos da multidão que acompanhavam os sinos logo lhe revelaram a resposta.
Desnorteado, ele saltou da cama e se aproximou da janela empoeirada do quarto. Com um olhar apressado, ele viu a cidade se transformar diante de seus olhos. A multidão se aglomerava nas ruas, vestindo roupas coloridas e enfeitadas, como se estivessem em uma festa de carnaval. Bandeiras e estandartes tremulavam ao vento, e balões coloridos enchiam o céu. Os sinos das igrejas repicavam em uma sinfonia caótica.
E então, Jester avistou a causa de toda essa comoção. Um portal mágico monumental havia se materializado no centro da praça principal de Zívia. Uma multidão estava se reunindo ao seu redor, ansiosa para testemunhar o que estava por vir. E foi nesse momento que Jester a viu.
A Rainha Zíria, em todo seu esplendor, emergiu do portal. Ela era uma visão de beleza e majestade, usando um vestido esvoaçante adornado com detalhes dourados e joias reluzentes. Seu cabelo ruivo caía em ondas perfeitas, e ela mantinha um olhar sério e determinado em seu rosto. Em uma mão, ela segurava um cajado de mago, e na outra pequeno orbe mágico que emitia uma luz suave.
Enquanto Zíria surgia do portal, a multidão a aclamava com entusiasmo, aplausos e vivas. As pessoas se curvavam e estendiam as mãos para tocá-la, como estivessem diante de uma figura divina.
Com um olhar surpreso, Jester observou a Rainha Zíria emergir do portal. Sua beleza era deslumbrante, apesar da cicatriz que atravessava seu rosto e do olho que permanecia coberto por seu cabelo. Ela estava irreconhecível em relação à última vez que Jester a vira, toda suja de sangue após a batalha. Agora, com roupas deslumbrantes, cabelo ruivo impecável e uma aura majestosa, ela era uma visão de pura elegância. Certamente, os Reis Zarlek e Astares forneceram alguns tratamentos para deixá-la perfeita para seu retorno para casa após a conclusão de sua parte do acordo com o Espantalho. E depois que ela atravessou o portal, surgiu também o nobre que acompanhou toda essa transação, mas ninguém prestou muita atenção nele.
Após uma noite de descanso merecido, Zíria foi notificada pelos vigias de que monstros se acumularam ao redor das fronteiras de Zívia durante sua ausência na última semana. Sem hesitação, a Rainha prontamente vestiu sua imponente armadura de batalha e, corajosa, decidiu enfrentar a ameaça sozinha.
A armadura era uma verdadeira obra de arte, decorada com intricados desenhos mágicos e equipada com placas de metal polido que brilhavam sob a luz. Ela usou seu capacete metálico e empenhou seu cajado de mago, preparada para confrontar os monstros e proteger seu reino. Numa manhã ensolarada, Zíria, vestida em sua imponente armadura, estava prestes a sair pela porta principal da cidade. No entanto, ela foi abordada por Jester, vestido de bobo da corte, que a chamou pedindo que esperasse.
A Rainha reconheceu imediatamente a presença de Jester, não pelo visual, mas pelo distintivo cheiro que captou no dia em que se conheceram.
— Você. O que. Quer? — Disse ela com sua costumeira pausa, não esperava reencontrá-lo aqui, pois acreditava que ele havia deixado o reino nos dias que passaram e não teve notícias.
— Vou com você nas caçadas aos monstros! — Sugeriu ele com convicção, deixando a mulher com a sobrancelha erguida em desaprovação por essa oferta mal pensada. — Não precisa fazer isso sozinha.
— Não! — Respondeu sem rodeios ou explicações, simplesmente negou.
— Por que não? — Ele não conhecia direito a rainha para saber que quando se trata de fazer seu trabalho, não quer nem imaginar que algo possa lhe atrapalhar. Era bastante orgulhosa quando se tratava de receber ajuda e não queria que mais ninguém tivesse de lidar com monstros, e que vivessem suas vidas sem que precisassem se preocupar com esses males do mundo. — Você não precisa carregar o reino inteiro sozinha nas costas, e pode ficar tranquila que não sou de morrer tão fácil! — A expressão da máscara se alterou para um sorriso de orelha a orelha.
— Não! — E novamente pouco deu importância para as palavras dele, e o mesmo suspirou profundamente.
— Sabe o que é, rainha. Infelizmente, eu sou uma pessoa muito teimosa, e mesmo que se negue, vou assim mesmo! — Batendo o punho cerrado no peito enquanto ria.
— Por quê. Quer tanto. Fazer isso? — Ele parou de rir e cruzou os braços em reflexão.
— É como eu já lhe disse antes, porém, é porque desejo avançar ainda mais em tudo e me tornar uma pessoa capaz de lidar com aqueles otários que fizeram aquilo comigo com ainda mais facilidade! — Agora foi ela que permaneceu pensativa momentaneamente no assunto abordado pelo rapaz.
— Não precisa. Ir comigo. Treine em Zívia. Irei garantir. Sua Segurança! — Ele escutou tudo calmamente, mas logo, seu jeito debochado se fez presente novamente.
— Perdão, minha rainha. Mas é que eu prefiro combate real, a prática me atrai mais que a teoria. — Zíria percebeu estar perdendo muito tempo naquela conversa aleatória com o bobo da corte, e sem explicação ou prévia, ela saiu correndo adentrando a floresta em direção aos pontos de ataque onde foi alertada que os monstros estavam agindo, e Jester correu atrás dela, mas parecia estar andando ao perceber estar metros e mais metros atrás mesmo correndo o máximo que podia. — Como consegue ser tão veloz assim, puta que pariu? E por que ela não está usando os portais? — Ela estava desaparecendo entre as árvores, e Jester parecia uma criança apostando corrida com um adulto. — AÍ, POR QUE VOCÊ NÃO USA PORTAIS?!! — Gritou ele com toda força de vontade e quase estourando os pulmões. Em seguida, Zíria faz o que ele diz e conjurou um portal dimensional logo a frente de Jester e o mesmo atravessou sem conseguir impedir, caindo de cara novamente nas ruas de Zívia. — MERDAAA! — Foi sacaneado pela rainha e ficou extremamente emputecido por isso. — Não era assim que eu estava falando para usar os portais! — Esmurrando o chão com raiva, que logo foi convertido numa risada fora de hora. — Mas admito, foi legal e engraçado. Essa foi a primeira vez que viajo em um portal, mó sensação estranha... — Levantou o rosto para o portão de saída de Zívia há vários metros de distância. — Espera, do que eu estou falando, tenho que ir logo atrás dela! — Voltou a correr o máximo que pôde para conseguir ao menos alcançá-la na zona de batalha.
Depois de longos minutos de corrida ininterrupta pela floresta ensolarada, Jester estava perto de um pequeno campo aberto onde gritos desesperados de criaturas não-humanas eram ouvidos por ele. A cada passo que se aproximava, ele continuava ouvindo barulhos ensurdecedores e tremores de terra contínuos. Ao passar pelo último obstáculo em seu caminho, ele a encontra:
— Cheguei, Rainha Zíria. Agora vai ter que me deixar entrar na batalha com... mas que porra! — Seus olhos visualizaram uma cena que já imaginava antes de chegar. Zíria estava igual a como esteve quando se conheceram, banhada em sangue de monstros e agora muitos outros caídos e mortos ao seu redor, além de que ela própria jazia de pé de mais um que era absurdamente gigante, segurando a cabeça de outro desgraçado que rapidamente foi esmagado com força gravitacional de sua palma, jorrando ainda mais sangue sobre a mesma e depois ela desceu do cadáver e caminhou para o lado de Jester.
— Por favor. Não se machuque. Volte. Zívia. Seguro! — Pediu, e Jester permaneceu estupefato com tamanha força de batalha e frieza com inimigos mostrada por ela.
— Você já sabe qual é minha resposta, rainha. — Insistiu.
—Hunf! — Bufou em resposta, já não tinha mais argumentos e nem paciência para insistir que ele voltasse para casa. — Tudo bem! — Ela se aproximou dele e percebeu que suas mãos estavam tremendo levemente. — Medo? — Questionou ao segurá-las para que parassem.
— Não, é só ansiedade e falta de fôlego. — Até porque ele atravessou alguns quilômetros de mata fechada sem parar um instante para respirar um pouco, o que resultou em seu coração bombeando sangue intensamente, beirando um ataque cardíaco.
Ele queria praticar velocidade, resistência e reflexos, treinando com ela durante essas aventuras sanguinárias, aprender a escapar de portais, e caso aprenda a superar esses obstáculos, eventualmente poderá se tornar capaz de lutar junto dela em uma batalha cara a cara e também conhecer mais sobre suas habilidades em comum e aprimorar as próprias.
— Mas enfim, vamos focar no que interessa. — Ignorando os detalhes ao redor e pensando em alguns de seus planos orquestrados para essa missão. — Um dos motivos de eu querer tanto ir com ela, é para pegar as peles dos monstros e itens de valor caídos deles, para depois eu vender e ganhar uma grana. — Jester, o saqueador, sorria malignamente abaixo da máscara ao perceber que não ficaria pobre afinal de contas.
— Oh. Acordado? — Estalando os dedos em frente ao rosto do mesmo para trazê-lo de volta de seus devaneios.
— Ah, sim. Seguinte, Zíria, você pode ir na frente, já vi que consegue chegar mais rápido do que eu em Zívia. Não se preocupe, eu te alcanço depois...
— Hã? Por quê? — Como Zíria acabou com a caçada sozinha praticamente, Jester só fez dar uma passeada pela floresta para esquentar o sangue. — Portal! — Ela materializou um novo portal diante deles de volta para Zívia, diretamente para a porta de entrada do palácio. — Juntos. Mais rápido.
— Não, eu quero ficar mais um pouco para dar uma olhada a mais para saber se não sobrou nenhum monstro retardatário nessas zonas, e evitar que causem problemas para a cidade mais tarde. — Tentando desviar a atenção da rainha, e evitar que ela soubesse de seus planos pessoais para adquirir um dinheiro extra. — Não precisa se preocupar comigo, já estou muito melhor do que quando você cuidou de mim no hospital.
— Hum. Certo. Cuidado. Fique seguro. Se houver inimigo. Não luta. Volte. Zívia! — Atravessando o portal. — Nos vemos. Noite. Jantar! — O portal se fecha, deixando ambos separados em pontos diferentes no universo.
— Sem dúvida... — A floresta estava silenciosa, sem ruídos de inimigos ou animais pulando de um lado para o outro, apenas os ventos fortes gerando atrito entre as folhas das árvores que criavam uma melodia aconchegante. — Muito bem, vejamos o que sobrou por aqui. — Depois de alguns minutos mexendo nos cadáveres que apodreciam ao sol, tudo o que encontrou para pegar e vender foram couros de monstros, sem contar alguns poucos recursos de batalha que levavam consigo. — Espero que gostem de couro de bípede! — Os fios brotaram das aberturas de suas luvas, se acumulando em forma de uma grande bolsa para caber tudo aquilo e levar nas costas até a cidade.
Minutos depois, os vários monstros espalhados pelo campo foram completamente esfolados, e deixados em carne viva ao vento para os urubus se banquetearem. Jester fechou a bolsa de fios, deveria estar pensando uns 200kg para carregar nas costas através da floresta calma; dizem por aí que as carnes de alguns tipos de monstros são uma iguaria muito boa, e se algum dos que se suicidaram ali quando tentaram encarar Zíria, provavelmente o cheiro atrairia a maioria dos animais predadores da área e não dor de cabeça para a travessia de Jester de volta para a cidade com todo aquele material nas costas.
— Eu sabia que teria de fazer treino de levantamento de peso, mas isso aqui vai ser tenso, meu patrão! — Essa era a hora que os treinos físicos com a ajuda do Dalibor terão que mostrar resultado, pois vai ser uma viagem complicada.
Durante horas à fio, Jester se matou caminhando pela floresta com aquela bolsa extremamente pesada. Imaginava o que seria dele se não tivesse treinado com Dalibor nos últimos quatro anos que passaram, certamente nem conseguiria tirar essa bolsa do chão e ficaria por ali mesmo. Era uma distância de pelo menos dez quilômetros que ele atravessou anteriormente correndo em poucos minutos, mas agora, se conseguisse em duas horas seria milagre; essa seria a pior maratona de toda sua vida, e ouvia boatos de que os praticantes de artes marciais do oriente faziam coisas desse tipo quase todos os dias antes do amanhecer para fortalecer o corpo e a mente enquanto escalavam montanhas, então Jester estava reclamando de barriga cheia.
Após quatro horas de viagem, Jester enfim conseguiu avistar os portões de Zívia, ele já não aguentava mais e suas pernas muito menos, o sangue de sua cabeça despencava pela força que exercia para se manter de pé e ele parecia ficar tonto, quase perdendo a consciência de tanto cansaço. Mesmo com as pernas bandas, ele resistiu, e caminhou na pura força do ódio em direção ao centro comercial mais próximo para vender todo esse material que trouxe consigo e causaram as horas mais torturantes de toda sua vida até o momento.
Chegando numa loja que vendia todo tipo de acessórios com base em couro animal, Jester já foi largando a bolsa e colocando alguns quilos de couro amarrado no balcão principal para tentar fazer algum acordo e conseguir alguma grana boa.
— Você, você foi junto da rainha para pegar tudo isso né? — Questionou a comerciante gaguejando um pouco por conta da repentina aparição daquele jovem completamente suado e ofegante, permanecendo com um olhar muito atento na mercadoria trazida por ele.
— Fui sim... por quê? — Respondeu ele respirando pesadamente.
— É, foi o que eu imaginei. — Analisando o material com um olhar de julgamento, deixando o jovem Jester um tanto ansioso. — Te falar que fazem isso direto por aqui... Foi mal cara, mas infelizmente mesmo isso valendo bastante, só irei lhe dar metade por se aproveitar de nossa rainha! As pessoas devem parar de fazer isso.
— Mas que filha de uma rapariga safada rapaz! — Pensou ele em fúria com tamanha frescura. — Olha, mas esse pedaço gigante aqui... — Apontando o dedo para o pedaço maior de couro amarrado com os fios. — Foi eu mesmo que matei o monstro, e esfolei para trazer aqui! — Insistindo com a maior cara de inocência, nem sequer tremia com tamanha mentira proferida de sua boca.
— Tem provas disso? — Ela jazia de braços cruzados e expressão de que não se importava nem um pouco com as palavras do bobo da corte, e não parecia estar cogitando aceitar o negócio por um preço acessível para o mesmo.
— Não... — Forçando um sorriso e coçando a nuca enquanto tentava pensar numa história melhor para ao mesmo tentar elevar sua moral na negociação.
— Olha, cara. Por não ter provas e ter tentado me persuadir mesmo eu advertindo para não se aproveitar da minha rainha, não vai mais ser a metade, agora será apenas um terço do valor! — Jester rangia os dentes com tanta força, que por pouco não deixou os fios fatiarem ela em milhões de pedaços bem pequeninos.
— ACABA LOGO ESSA PORRA, SE NÃO ALGUÉM AQUI VAI MORRER! — Pensava ele, já querendo sair correndo dali antes que alguém acabasse morto só para extravasar essa fúria maníaca que essa mulher despertou em seu coração.
No fim das contas e por livre e espontânea pressão, Jester acabou por aceitar a oferta da mulher e saiu de lá chutando o balde de tanto ódio acumulado no coração depois de conhecer a ganância dos cidadãos de Zívia. Fora dos limites da cidade, em meios as árvores da floresta, Jester dizia:
— ESSA PORRA DE LUGAR SÓ TEM COBRA, PUTA QUE PARIU!!! — Esmurrando uma árvore com força, imaginando ser a cara daquela comerciante sanguessuga que ele com certeza quis queimar a alma dela com as chamas de sua revolta. — Vou voltar para aquele lugar e enfiar a cara nos livros da biblioteca, vou estudar até meu cérebro pedir arrego!
Durante todo o tempo que passou em Zívia, Jester mergulhou profundamente nos estudos mágicos. Ele frequentava as bibliotecas da cidade todos os dias, devorando volumes e manuscritos sobre magia. Os livros eram seus companheiros constantes, e ele passava horas a fio lendo, pesquisando e experimentando feitiços e encantamentos, explorando os segredos das artes arcanas para aprimorar suas habilidades. Ele buscava incansavelmente informações que o ajudassem a dominar o uso de seus fios e amplificações, aperfeiçoando seu controle sobre essas ferramentas extremamente necessárias para seus propósitos.
Jester explorou diversas disciplinas mágicas, desde a magia elemental até a necromancia, buscando entender cada aspecto do mundo mágico. Ele estudou teoria mágica avançada, aprendendo sobre a manipulação da mana e os princípios por trás de feitiços complexos. Seus estudos o levaram a descobrir segredos antigos e rituais esquecidos, ampliando seu conhecimento ainda mais e o tornando uma entidade ainda mais formidável.
Ele buscou orientação com mestres mágicos da cidade e da própria Zíria, aprendendo com os mais experientes. Jester praticava sem parar, refinando suas habilidades a cada novo dia. Seus progressos eram notáveis, e ele se tornou um estudioso da magia respeitado na comunidade mágica de Zívia.
Além disso, Jester não negligenciou sua formação física, seguindo à risca os ensinamentos de Dalibor e usando os conhecimentos de batalha durante as caçadas que fazia junto de Zíria durante várias ocasiões particulares. Treinava diariamente pelos bosques e florestas de Zívia, fortalecendo seu corpo e sua mente nos mais desafiantes cenários, preparando-se para desafios ainda mais difíceis que o aguardavam em sua jornada. A busca por evolução era constante mostrava resultados absurdos, e aos poucos ele conseguia chegar mais e mais nas lutas antes da Rainha Zíria finalizar os monstros e ajudá-la, apesar de ela mesma não precisar de ajuda e durante as lutas, sempre tentava enviar Jester de volta para a cidade através de portais que ela abria repentinamente próximos a ele, exigindo reflexos extremos de Jester para conseguir se desvencilhar tanto dos inimigos quanto das investidas da Maga tentando tirá-lo de cena. Ele estava determinado a se tornar um guerreiro formidável com poderes místicos para poder salvar seu reino das garras nojentas de Razallath, e não se permitiria errar assim como seu pai errou no passado.
Apesar de sua rotina insana, Jester também manteve um olhar atento às movimentações do Império de Razallath. Ele estava ciente de que a derrota do imperador demônio seria um desafio épico e perigoso, e, portanto, estava sempre em busca de informações sobre possíveis fraquezas e estratégias que pudessem ser úteis em sua missão. Em Zívia, aparentemente, apenas a rainha fazia parte da grade de apoio do imperador, diferente de seus cidadãos que apenas buscavam viver suas vidas sem dores de cabeça. E também, Jester percebeu que a rainha durante uma vez ao ano, costumava sair do reino sem dar satisfação ou noticiar a ninguém sobre onde pretendia ir; sua hipótese mais óbvia, era que se tratava de uma reunião anual dos reinos súditos com o próprio Razallath, discutindo termos, progressos e planos. E também, durante um período trimestral, o Rei Espantalho visitava Zívia trazendo as provisões suficientes para suprir as necessidades do reino durante um bom tempo como discutido naquela negociação.
Com isso, ele cultivou uma rede de informantes e espiões, fazendo uso de suas habilidades mágicas e de sua astúcia para obter informações sobre as ações do imperador e seu exército de reinos subordinados. A cada relatório e rumor que chegava em seus ouvidos, ele analisava minuciosamente, buscando padrões e oportunidades. Sua dedicação à causa era inabalável, mas ele sabia que nunca poderia vencer sozinho a batalha que se aproximava; precisaria de muita ajuda para alcançar esse ambicioso propósito.
Durante o decorrer de quatro longos anos, Jester se transformava em uma versão aprimorada de si mesmo, combinando seus conhecimentos adquiridos com destreza física. Sua jornada de autodescoberta o levou a explorar os limites de suas próprias capacidades, ele estava ansioso para colocar seu treinamento em prática quando retornasse para Vorosan.
O que não demorou muito para acontecer após quase meia década ausente de sua terra natal, onde ele literalmente usou todo o tempo disponível para focar apenas em sua auto evolução em todos os aspectos necessários e possíveis. Jester agora era um novo homem, muito mais forte e amadurecido do que quando começou sua preparação ainda nos limites dos portões de sua cidade há oito anos com Dalibor; com seus vinte e dois anos de idade, o homem seguia pela estrada úmida pelas chuvas recentes, caminhando calmamente trajado com seu costumeiro traje de bobo da corte, sua assinatura e marca pessoal. E também, Jester não esqueceu de se despedir da rainha e agradecer por todos esses anos de instrução e treinamento exaustivo, apesar de ela sempre ter rejeitado fazer isso por ele. Ele caminhava lembrando da cena, fez o maior discurso de gratidão e tudo o que recebeu de resposta foi um “cuidado”.
Em meio aos seus devaneios aleatórios, Jester já avistava o grande palácio central no horizonte, ainda muito longe, mas visível naquela tarde de verão.
Jester não deixou de perceber que o caminho para Vorosan parecia diferente de quando partiu junto daqueles dois vermes putrefatos, muitas marcas de pegadas e carruagens no sentido contrário da cidade que sobreviveram às mudanças climáticas. Era como se estivessem partindo, deixando tudo para trás em rumo de um novo destino. O rapaz já imaginava do que poderia significar realmente, e se Dalibor começou os preparativos que planejaram anos antes, então era provável que a economia da cidade não andava muito bem e os cidadãos aos poucos escapavam para evitar a miséria, mas, ao menos ele e o Rei sabiam que isso era de certa forma um bom sinal.
Minutos e mais minutos se passaram, e logo o bobo da corte avistou os portões de entrada de seu velho lar, as guaritas ainda pareciam bem estruturadas e os soldados com a costumeira cara de paisagem por conta da falta de ação para aflorar os sentidos. Chegando na entrada, como já imaginado, os guardas de serviço o alertaram para aguardar um pouco para que fizessem uma vistoria adequada e constatar que ele não era uma possível ameaça para a “tranquilidade” do reino.
— O que busca em Vorosan, hããã, bobo da corte? — Questionou o soldado de armadura dourada de frente para ele, enquanto um segundo revistava o viajante de fantasia incomum nos tempos atuais.
— Ouvi dizer que o vosso rei não tem tido muita alegria em vida, e fui contratado para corrigir essa falha.
— Entendi, então não vai se importar se nós contactarmos...
— Hop! Podem liberar a passagem, eu estava o aguardando mesmo! — O Rei Dalibor repentinamente surgiu na entrada do reino juntamente de sua armada pessoal como costume diário.
A máscara de Jester materializou um sorriso de satisfação, era bom rever seu velho amigo de guerra após longos anos. No entanto, ele se questionava da necessidade de tantos guardas armados para um simples passeio até a guarda do portão principal, mas logo a ficha caiu para o mesmo, se as coisas andavam ruins mesmo no império, Dalibor já era considerado um rei falho e não muito bem-visto pelo povo.
— Descansar, Soldado. — Ordenou o monarca, e os soldados em posição de sentido recuaram para suas posições fixas na guarda do portão. — Jovem, bobo da corte! Veio em excelente hora...
— O profissionalismo tem sempre que estar em prontidão, chefia. — Os dois riram, disfarçando a realidade desse reencontro para os demais que acompanhavam esse evento. — Enfim, antes de tudo, tenho que discutir acordos com o senhor... — Os guardas o encaravam de relance, não confiando muito na apresentação descontraída do jovem diante de uma grande autoridade. — Em particular! — Alertou, deixando-os ainda mais nervosos, mas Dalibor concordou e pediu para que o acompanhasse até o palácio onde discutiriam melhor os termos de pagamento. — Excelente. — Prendendo melhor a alça do ukulele em suas costas para que não caísse, ou algum suicida o tentasse sacanear.
Escoltado pelos vários guardas mais capazes do reino, Jester não podia deixar de notar uma certa precariedade nas ruas e becos da cidade que já foi tão rica e próspera no passado, além de pichações com mensagens nada pacíficas sendo limpas pelos serviçais do palácio, e grupos estranhos ocultos nas sombras observando a caminhada do rei com olhares nada amigáveis.
— Se me permite comentar Rei Dalibor. Parece que seu lar anda bem conturbado... — Insinuou Jester, tentando puxar algum assunto enquanto via essas cenas nada aconchegantes para os visitantes.
— É, as coisas não andam muito bem. Nossa situação tem piorado bastante com a guerra que estourou anos antes com o imperador Razallath, e perdemos grande força monetária e militar com as crises. — E pelas coisas que Jester via pela cidade, a guerra com o imperador demônio não parecia ser o único conflito que Vorosan estava enfrentando. — Depois da morte do último herdeiro legítimo deste vasto império, muitos cidadãos se voltaram contra mim e começaram a causar problemas.
— E onde eles estão agora? — Caminhando ao lado do monarca substituto.
— Bom, geralmente não impeço o livre pensamento dos povos. No entanto, muitos se tornaram realmente uma dor de cabeça recorrente para a paz e o progresso de Vorosan, e muitos deles foram exterminados pelo bem de todos. E quanto aos que ainda persistem, alguns contingentes permanecem ocultos na cidade, apenas esperando a hora para começar alguma baderna por aí; já a maior parte, se exilaram e trabalham por aí com nossos inimigos com intenções de nos aniquilar e assumir o poder do império.
— Não imaginei que as coisas estariam tão feias assim. — Comentava o bobo de maneira reflexiva.
— Sim, inclusive, muitos cidadãos fugiram de Vorosan em busca de uma vida melhor, se refugiando em outros reinos aliados. Alguns ligados à igreja condenaram minhas ações por ter exterminado nossos inimigos, e me julgaram estar corrompido por... sei lá, alguma espécie de demônio e fugiram para Ardalan.
— Conheço, é o tal Reino da Religião, lar dos fanáticos e lunáticos do mundo.
— Exato. Meus espiões os mantêm sob constante vigilância, podem vier como quiserem, contato que não compactuem com aqueles que querem nos destruir.
— Se não eles irão virar saudade também.
— De fato. — Eles finalmente chegaram na entrada do palácio, Jester sorriu ainda mais por debaixo da máscara ao ver seu antigo lar ainda inteiro e bem cuidado apesar da anarquia que se instaurou durante sua ausência.
Ao adentrar no palácio, os guardas de prontidão na porta saúdam o rei que lhes responde com uma “boa tarde”, e os soldados da guarda pessoal receberam uma hora de folga para que Dalibor pudesse ter uma conversa em particular com o bobo da corte contratado. Caminhando pelos corredores do palácio em direção aos aposentos reais, Jester se deparou com o mesmo lugar onde há oito anos seu irmão e o capitão Mohawk foram brutalmente assassinados, agora completamente reformado e bem estruturado, além de que, desta vez, a reação do príncipe não foi de tristeza, mas de orgulho, eles foram devidamente vingados, ou melhor, os assassinos que os tiraram deste mundo já foram arremessados no fogo do inferno; Jester sabia que estava tudo corrigido, na verdade, nem tanto, ainda falta o mandante conhecer a sua vingança.
Diante da porta do quarto que alguma vez já pertenceu ao Rei Legório, Dalibor dispensou os dois guardas de prontidão mais próximos e foi acompanhado pelo bobo para dentro dos aposentos. Era hora de uma reunião há muito esperada e necessária.
— Eu fui até o portão todos os dias, no mesmo horário como foi combinado há quatro anos. Porém, não tinha nem a mínima fé de que o veria de novo tão cedo... Príncipe Jester! — Alguns metros à frente, encarando um quadro imenso do Rei Legório com seus três filhos, o bobo da corte retirou seu chapéu e deixou a cabeleira loira descer até abaixo dos ombros, e em seguida, calmamente retirou sua máscara e a deixou na cabeceira ao lado direito.
— Vi que você manteve a antiga decoração do meu pai...
— Era o mínimo que eu podia fazer.
— Obrigado por cuidar de tudo, Dalibor. — Ficando cara a cara com o velho homem de cabelos grisalhos e alta estatura. — É muito bom vê-lo novamente... — Os dois estenderam a mão um para o outro e se cumprimentaram com um grande aperto, foram quatro anos de ausência e muita luta para ambos os lados, e ver uma figura do passado ainda com vida, era de fato muito gratificante.
— Digo o mesmo, meu príncipe. — Ambos sorriram. — O tempo te deixou velho em...
— Olha quem tá falando, Vovô!
O retorno de Jester trazia grande conforto para o Rei Dalibor, já era hora de começar os preparativos para a verdadeira missão planejada anos atrás, e muitas descobertas de eventos ocorridos durante sua ausência o aguardam daqui para frente.
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